Universo da obra
Universo da obra
Grave e profunda modificação começou a operar-se desde dessa época no espírito e no coração de Adelaide. Com o cruel desencanto que sofreu, tendo a certeza de que seu berço, longe de ter sido embalado entre as galas da aristocracia, se escondia na mais humilde obscuridade, ela, acostumada a ser sempre idolatrada, recebendo cotidianamente as lisonjeiras homenagens de gentis e ilustres cavalheiros, não fez pequeno sacrifício para acomodar-se com o novo gênero de vida de recolhimento e solidão, que a se própria tinha imposto, contrariando as vistas paternas. Mas não durou muito tempo esse estado de angústia e prostração; seu espírito vivaz e sua feliz e vigorosa organização não eram feitos para sucumbir ao peso de qualquer desgosto,
Tinha ela inteligência bastante clara, e sabia filosofar maravilhosamente, e bem depressa compreendeu que lhe não era mais possível contrariar a sorte boa ou má, a que nascera destinada.
A consciência humana é como um tanque cujo fundo não se pode ver, quando a água está turvada e revolta, mas sim quando em estado de perfeita quietação se mostra em toda a sua serenidade e limpidez. É assim que Adelaide, depois que recolheu-se à vida do silêncio e do repouso, livre das distrações que lhe arrebatavam o tempo, e das inquietações que lhe alvoroçavam o espírito, pôde ler distintamente no fundo do seu coração, o que realmente ai se achava gravado em caracteres indeléveis. Reconheceu que amava muito a seu companheiro de infância; que fora esse amor, que a tinha preservado de ligar-se por laços mais íntimos a algum dos amantes, que até ali a tinham galanteado, e que somente a consideração da pretendida desigualdade de posição social fizera com que até ali ela procurando iludir-se a se mesma tentasse em vão esquivar-se à influência desse sentimento, que desde a infância havia germinado, e pelo decurso do tempo lançado raízes profundas em seu coração. Agora que as revelações de Conrado acabavam de nivelar as condições de ambos, não tinha mais de que corar consagrando os afetos de sua alma a um homem que era seu igual. A esperança de um amor feliz a bafejava, e parecia-lhe possível conseguir que seu pai, desistindo de suas loucas pretensões aristocráticas, firmasse enfim a felicidade de ambos, consentindo em seu casamento. Em consequência, suas relações com o jovem camarada foram se tornando menos tímidas, e mais assíduas e afetuosas. Adelaide tinha o coração propenso ao amor e à ternura, e um temperamento vigoroso e ardente, sobre o qual a sensualidade exercia naturalmente grande domínio. No isolamento a que se viu condenada, parte por força das circunstâncias, parte por sua própria deliberação, estas qualidades ou defeitos, em vez de se refrearem, desenvolveram-se em toda a sua plenitude, porque acharam por isso já predispostas condições e os mais favoráveis elementos.
As frequentes reuniões, que se davam em casa do major, de uma sociedade espirituosa e alegre, faziam profícua diversão às tendências do organismo de Adelaide; mas logo que elas faltaram, sua natureza ardente, sanguínea e exuberante de seiva juvenil, entregue a se mesma, teve de ir cedendo à imperiosa influência das seduções do sensualismo e dos sonhos inebriantes de coração.
Tinha um coração sequioso de amor; o objeto desse amor já há muito estava escolhido, vivia junto dela, e fora embalado em sua imaginação desde os sonhos inocentes da puerícia.
— Há males que vem para bem, — disse ela um dia ingenuamente a Conrado.
— É verdade; mas a que vem isso agora? — perguntou este.
— Pois não compreende?...
— Não.
— No tempo em que eu me julgava fidalga, lhe queria bem, é verdade; mas tinha não sei que receio ou vergonha de lhe falar nisso. Isto pode acreditar que era muito contra a minha vontade; eu vivia constrangida, e era bem infeliz, porque julgava que estava condenada a casar-me com quem meu pai quisesse, estudante, doutor ou fidalgo. Isso para mim era um suplício, se bem que não deixasse de divertir-me à custa dessa gente, que se reunia aqui em casa. Hoje não; sou outra; já sei quem sou. O senhor me entende, creio eu.
— Oh! sim, sim! creio que sim, — exclamou o mancebo, em uma efusão de júbilo que mal podia comprimir. Se não estou enganado no modo de entender suas palavras, minha querida patroa, sou a criatura mais feliz deste mundo.
— Não se engana; é isso mesmo que o senhor pensa, — respondeu corando Adelaide e ia retirar-se; mas Conrado a deteve, e travando-lhe da mão, beijou-a com ardor.
— Oh! mil graças! — dizia o mancebo, apertando com indizível emoção entre as suas a mão que Adelaide lhe abandonava. — Mil graças!... não faz ideia do quando me torna feliz.
Depois desta singela e ingênua declaração de amor, feita por meias palavras, os dois jovens se entregaram sem constrangimento à expansão de um sentimento que de dia em dia se tornava mais intimo e extremoso, conquanto procurassem cuidadosamente ocultá-lo aos olhos do major, que entretanto não era muito perspicaz para surpreender os segredos do coração.
Adelaide era, como o leitor já sabe, de uma beleza plástica a mais provocadora. O seio túrgido, sempre arfando em mórbida ondulação, parecia o ninho da ternura e dos prazeres; o olhar a um tempo cheio de meiguice e de fogo como que derramava fulgores divinos sobre toda a sua figura; as faces róseas e os lábios purpurinos eram como esses pomos vedados, que no paraíso seduziram os progenitores da humanidade e ocasionaram sua primeira culpa; o porte dotado de elegância natural com suas voluptuosas ondulações e maneios graciosos, pareciam estar cantando eternamente um hino de amor e de volúpia; as feições não muito corretas eram animadas por uma fisionomia de tão encantadora expressão, que impunha a adoração sem dar tempo à observação.
Conrado também, dotado pela natureza de um porte esbelto e vigoroso, de uma fisionomia simpática e expressiva, de maneiras lhanas e atrativas, com sua tez de um moreno delicado, seus olhos negros e cheios de fulgor, havia-se tornado um dos mais belos e amáveis mancebos, um tipo acabado desses ágeis e garbosos gaúchos, que vagueiam pelos descampados pampas das regiões argentinas. Era enfim, como bem o havia dito um estudante, um verdadeiro Adônis americano.
O major, ora trancado em seu gabinete, ora na quinta dirigindo o trabalho dos escravos, parecia esquecido de que tinha em casa uma filha de dezesseis anos em companhia de um bem apessoado rapaz de dezenove a vinte, e ou porque tivesse nela absoluta e cega confiança, ou porque não compreendesse quão melindroso e frágil vaso é a honestidade de uma donzela, não nutria a menor apreensão. A tia Eulália, irmã do major, essa era de todo incapaz de compreender o que se passava em torno dela, e só cuidava em dar milho às galinhas e em rezar. A velha escrava Lucinda, a única que talvez já maliciava alguma coisa a respeito das relações entre os dois jovens, nenhum interesse nem obrigação tinha de embaraça-las... Debaixo de tão felizes auspícios e com tantas facilidades, os amores de Adelaide e Conrado deram em resultado o que deixo ao leitor adivinhar.
Conrado, moço dotado pela natureza dos mais nobres sentimentos, cheio de honra e pundonor, tinha até então adiado o pedido que pretendia fazer ao major, da mão de sua filha, e isto de acordo com ela. Pretendiam, antes de dar esse passo, preparar o terreno, procurando desvanecer as bazófias e prejuízos aristocráticos do velho, e por meios brandos e suasivos reduzi-lo a sentimentos mais cordatos e razoáveis. Coitados! quanto se enganavam!... mal pensavam que era isso uma empresa absurda e quase impossível. Mas nutriam essa esperança, e isso os desculpa. Depois de sua falta porém, Conrado compreendeu e fez sentir à sua amante que não convinha haver mais dilação, e que era forçoso resolver quanto antes de um modo franco e expedito as dificuldades de sua situação. O que mais afligia ao mancebo era seu estado de pobreza; pouco possuía para abalançar-se a pedir a mão da filha de tão opulento negociante. Era isto só que o humilhava, porque só nisto consistia sua inferioridade; quanto ao mais, estava pronto a apresentar-se ao major como igual a igual, embora com isso tivesse de ofender as estólidas veleidades aristocráticas do patrão. Refletindo nisto, tomou uma resolução inspirada por seus nobres sentimentos.
Muitos negociantes e muladeiros, simpatizando com o seu modo de proceder, sua honradez e atividade, tinham-lhe por diversas vezes oferecido a bolsa, para que negociasse por sua própria conta. O rapaz porém tudo havia rejeitado até ali, pretextando diversos motivos, mas realmente pelo simples motivo que ele não declarava, de não querer abandonar a casa do pai de sua querida patroa. As circunstancias agora eram outras; tinha chegado a ocasião de aproveitar-se dos generosos oferecimentos de seus amigos.
Depois de ter comunicado todos os seus planos a Adelaide, que os aprovou, apresentou-se ao major Damásio.
— Patrão, — disse ele, — eu já estou homem feito; preciso tratar do meu futuro; o patrão quase que não trata mais de negócios; a minha estada aqui não lhe é mais de utilidade alguma; e bem vejo que é só por pura afeição e generosidade que me conserva em sua companhia. O patrão tem sido para mim um verdadeiro pai, e portanto é meu dever pedir sua licença para me deixar sair em negócio por minha própria conta.
— Sim!?... não acho mau isso, — replicou o major, com ar verdadeiramente paternal; mas o que vais fazer? onde pretendes ir? ...
— A Sorocaba ou Curitiba comprar uma boa mulada.
— Deveras!... mas com que dinheiro?
— O patrão não se embarace com isso; tenho quem me abone.
— E porque não me vieste pedir?... ou em dinheiro ou em abono, bem sabes que eu não era capaz de negar-te.
— Sei disso, patrão, e beijo-lhe as mãos, mas já lhe tenho sido bastante pesado, e não tive ânimo de importunai-o.
— Vá feito; porém se precisares de mim em qualquer ocasião, conta comigo, Conrado. Bastante falta me vais fazer; mas não quero atrapalhar a tua carreira. És rapaz esperto, e tenho esperança de que bem depressa hás de fazer fortuna.
— Deus o ouça, patrão; mas não pense, que me despeço por uma vez de sua casa; apenas der conta de meus negócios, bem ou mal sucedido, é aqui mesmo que hei de vir apear-me.
— Serás sempre bem recebido. Quando te vais?...
— Hoje; agora mesmo.
— Que pressa!... pois bem!... Deus te ajude. Adeus!...
— Até à volta, patrão.
Um momento depois, Conrado e Adelaide se abraçavam despedindo-se às escondidas, e vertiam no seio um do outro lágrimas amargas entre vagas esperanças e pungentes receios no futuro. Amavam-se como sempre, mas já não eram felizes como dantes. A verdadeira felicidade consiste na serenidade d'alma, que resulta da inocência; só quem não vê nas sendas do passado nem um só ponto escuro, pode encarar com tranquilidade e confiança os horizontes do futuro. Todavia a esperança ainda os não havia abandonado e bafejava-lhes a mente com lisonjeiros sonhos de felicidade.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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