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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 16 · Rosaura, a Enjeitada

Parte I — Capítulo XVI: O hóspede

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Passaram-se uns meses de cruel angustia para Adelaide, e de fragueira e incansável atividade para Conrado. A desditosa moça sentia agitar-se em seu seio o fruto da fraqueza, em que caía, fatal circunstância que vinha agravar muito mais sua precária e melindrosa situação.

Desde que a casa do major fechou-se à sociedade, Adelaide se foi habituando a certo gênero de vida de reclusão e isolamento, que a triste circunstância, que acabamos de declarar, veio tornar não só cômoda e agradável, como mesmo necessária. Seu traje já não lhe merecia os mesmos cuidados e preocupações de outrora. Seus enfeites, rendas, flores e fitas, há muito jaziam esquecidos no fundo do guarda-roupa. O piano, esse alegre e gárrulo intérprete das alegrias e emoções de outros tempos, tinha emudecido para sempre. Somente o jardim lhe merecia ainda alguns cuidados e atenções. Ali descia ela às vezes pela manhã ou pela tarde, envolvida em uma longa mantilha, o rosto e toda a parte anterior do corpo cobertos com um véu, traje pitoresco, de que mesmo algumas paulistas de distinção usavam ainda naquele tempo, e ali passava algumas horas de saudade e melancolia entre suas flores queridas, únicas companheiras de sua solidão.

O major, homem que só tinha a suscetibilidade da fidalguia, e que desconhecia completamente a delicadeza dos outros sentimentos e paixões do coração humano, nem de leve suspeitava o verdadeiro motivo desse melancólico recolhimento, a que a filha se condenava, e julgando ser ainda despeito e ressentimento em razão dos apodos e pasquins dos estudantes, esperava que o tempo viesse por termo a esse triste estado de misantropia e displicência.

Vendo, porém, que com o decurso do tempo longe de minorar agravava-se de mais em mais esse estado de tristeza e retraimento, começou a inquietar-se com justa razão, e com o fim de dar-lhe alguma diversão, propôs passeios e distrações, a que Adelaide obstinadamente se recusou.

Desanimado por fim e desgostoso com tanta relutância, o major, cedendo às sugestões de seu gênio bronco e atrabiliário, que nada compreendia das fraquezas e suscetibilidades do coração feminino, intimou um dia a sua filha em tom brusco e terminante que escolhesse de duas uma, ou casar-se com um bom marido, que ele não teria muito trabalho em encontrar, ou recolher-se a um convento. A este novo golpe Adelaide ainda resistiu, e a muito custo pôde obter de seu pai que lhe desse tempo para refletir e dar-lhe uma resposta definitiva.

Passado um mês pouco mais ou menos depois desta solene intimativa, em uma bela tarde de setembro, apeava-se à porta do major Damásio um garboso mancebo, que pelos trajos e pela comitiva, que o acompanhava, parecia um rico viajante, que vinha visitá-lo ou pedir-lhe hospedagem. Vinha montado em um lindo cavalo pampa, ricamente arreado à moda curitibana com um socadinho e todos os mais jaezes cobertos de prataria. O jovem viandante trazia também, à moda dos guascas, um pala listrado atirado ao ombro, botas de mateiro e chilenas de prata, chapéu preto de feltro, e pendente ao punho um desses bonitos chicotes com o cabo coberto de um lindo e delicado tecido de prata, admirável industria dos habitantes de Sorocaba, Curitiba e Rio Grande do Sul; um cinturão de marroquim apertava-lhe o talhe esbelto. O mancebo era de gentil figura, e envergava com natural elegância e desembaraço todo esse traje pitoresco e original. Acompanhavam-no um pajem preto, trajando vistosa libré, e dois camaradas rebarbativos, com suas garruchas pendentes ao arção, laço à garupa e comprida faca presa ao cinturão. Logo se via que era um rico muladeiro.

Apenas anunciou-se a chegada do rico hóspede, o major, segundo seu costume afável e hospitaleiro, fê-lo entrar para o seu gabinete, onde então se achava. Foi grande a sua surpresa, quando no belo e elegante mancebo, que com tanto aparato apeava-se à sua porta, reconheceu o seu jovem capataz, o bom e fiel Conrado. Deu-lhe mil parabéns, fê-lo sentar com toda a delicadeza e cortesia felicitando-o do fundo da alma pelo rápido e prospero sucesso de suas especulações.

— Ao que parece, disse-lhe o major em tom de benévola zombaria, medindo-o com os olhos de alto a baixo, fizeste dentro em seis meses o que muitos não conseguem fazer em seis anos.

— É verdade, meu caro patrão; comprei uma bonita mulada de mil cabeças que andei vendendo pelas províncias de Minas e do Rio de Janeiro. A monção era excelente; havia muita falta de animais; vendi quase tudo à vista e a bom dinheiro, de modo que realizei de lucro líquido uns vinte tantos contos de réis.

— Bravo! em tão pouco tempo! bonito negócio! — exclamou o major entusiasmado.

— Daqui em diante quero ser teu sócio... Se continuas nesse andar em pouco tempo estás milionário.

— Foi Deus e o meu bom anjo, que me favoreceram.

— E não pretendes continuar com o negócio?

— Por certo; mas antes de tudo tenho de fazer um pedido muito sério e muito importante ao patrão. Se nesse pedido eu não for atendido, não sei o que hei de fazer, porque nesse caso também pouco me importa ser rico ou pobre.

— Pois fala, rapaz; não te acanhes; bem sabes que no meu possível estou sempre pronto a te servir, — disse o major, repoltreando-se em seu assento com ar protetor, sem nem de leve desconfiar em que delicada tecla o mancebo ia tocar.

Conrado no auge do embaraço não ousava fazer de chofre uma declaração da qual dependia todo o sossego e felicidade de sua vida, e procurava em vão proferir algumas frases preliminares, que prevenissem e preparassem o ânimo do major, o qual nenhum motivo tinha para julgar favorável à sua pretensão. Mas a emoção e o receio naquela melindrosa conjuntura por tal forma lhe perturbavam o espírito, que, nada podendo dizer, resolveu-se a prescindir de preâmbulos e rodeios, articulando seu pedido nua e simplesmente.

— O pedido que desejo fazer-lhe, senhor major, é a mão de sua filha, — disse com voz trêmula de emoção; — bem sei, que por minha humilde posição a não mereço; mas desde pequenos eu e ela nos queremos, e eu da minha parte farei por alcançar posição honrosa na sociedade e tornar-me digno...

— Basta!... interrompeu o major com um brado horrível, pondo-se em pé de um salto, hirto, ofegante e de viseira carregada, mudando subitamente de tom e de maneiras. — Basta! é escusado dizer-me mais nada. Não quero passar pelo desgosto de dar a resposta, que merece esse seu pedido. Faça-se de conta que o senhor nada me disse a esse respeito, e mudemos de conversa.

— Não é possível, senhor major, — replicou o mancebo, levantando-se também e tomando um tom e atitude resoluta. Não é possível; eu preciso absolutamente de uma resposta qualquer. Não lhe fiz há mais tempo esse pedido por muitas razoes, e principalmente porque ainda muito moço não podia ter posição nem fortuna, que compensasse a humildade do meu nascimento; mas hoje, que pouco mais ou menos dou provas do que valho, julgo-me com algum direito a pedir a mão de sua filha, e desejo saber, se m’a concede ou não.

— Não! não! mil vezes não! — bradou o major, em um violento acesso de cólera. — Que outra resposta poderia esperar de mim o senhor Conrado?

O mancebo estremeceu, como se ouvisse o estalar de um raio. Ninguém melhor do que ele conhecia a balda de fidalguia do patrão, essa singular monomania, que lhe obcecava o espírito e neutralizava completamente alguns bons instintos de seu coração; mas ignorava ainda a que extremos ela podia chegar. Bem sabia ele que o major Damásio, por efeito de uma cegueira quase voluntária, julgava-se descendente das mais ilustres e antigas famílias paulistanas; mas notando também o extremoso amor que consagrava à sua filha única, tinha esperanças de que não quereria contrariando suas afeições, sacrificar a um vão capricho a sua felicidade.

Depois de alguns instantes de silencio, Conrado, procurando dominar seu despeito e agitação, perguntou ainda com tom civil e respeitoso:

— O patrão não me poderá dizer qual o motivo por que de maneira alguma quer consentir em meu casamento com a senhora sua filha?...

— Ainda pergunta?... disse o major, fitando no mancebo um olhar arrogante e furibundo.

— Pergunto, sim senhor, porque desejo saber, — respondeu Conrado com toda a calma.

— Pois deveras não sabe?

— Não, senhor.

— Pois fique sabendo de hoje em diante que um pobre peão, a quem por misericórdia estendi a mão em Curitiba, só porque hoje possui algumas patacas, não pode, nunca poderá ser pretendente à mão da filha do major Damásio Augusto Bueno de Aguiar e Andrada!...

— Mas senhor major, atenda que não sou eu só que quero e desejo esse casamento; ela também o quer, e disso depende a sua felicidade.

— Ela o quer!... quem lhe disse isso? Duvido que a filha do major Damásio queira se casar com o ex-capataz de seu pai.

— Se duvida, pode perguntar a ela mesma.

— Bem; é o que vou fazer, e se ela dizer que sim, não é mais minha filha.

O major com movimento frenético tocou uma campainha; apareceu uma escrava, que por sua ordem foi chamar Adelaide, a qual daí a instantes compareceu. Vinha ela embuçada em sua longa mantilha com o competente véu pela frente, traje que constantemente trazia, não só para encobrir o seu estado de gravidez, como também para não devassar a olhos estranhos a tristeza e abatimento de sua fisionomia. Já sabia da chegada de Conrado; seu coração batia com violência; em tão críticas conjunturas, era extrema a sua emoção; ia-se jogar uma cartada, em que se tinha de decidir de todo o seu destino, e o fruto de seus furtivos amores se lhe agitava extraordinariamente no seio, como se pressentisse também toda a angústia da terrível catástrofe, que se preparava. Cumprimentou a Conrado com um triste mas gracioso sorriso; quando porém fitou seu pai, e notou a torva e ameaçadora expressão de sua fisionomia, todo o seu sangue refluiu ao coração, seus olhos se turvaram, empalideceu de um modo assustador, e para não cair viu-se obrigada a sentar-se na primeira cadeira, que encontrou. Estes sintomas de aflição e angústia não puderam ser notados em toda a sua intensidade por Conrado e muito menos pelo major, não só porque era escassa a luz que reinava no gabinete, como também porque o véu de Adelaide não deixava bem perceber as alterações de sua fisionomia. Em razão também destas circunstâncias e da ansiosa agitação em que se achava o espírito de Conrado, este nem suspeitou o estado melindroso em que se achava sua adorada patroa.

— Adelaide, — disse o major sem dar atenção ao estado de perturbação, em que se achava a filha, — o senhor Conrado, neste momento diz que pretende a tua mão, e vem pedi-la; consentes nisso!

— Se não é do desagrado de meu pai, — respondeu a moça, com voz trêmula e alquebrada, — com muito gosto...

O major não permitiu que a filha continuasse, e interrompeu-a com o seu terrível e fulminante — basta! —

— Não é e nunca será do meu agrado, — continuou, ele com voz sacudida. — Nunca esperei que minha filha desprezasse as homenagens de tantas pessoas de alta hierarquia para abaixar suas vistas sobre um criado da casa! Oh! isto é uma vergonha! pensa bem no que dizes e no que pretendes fazer, minha filha!... queres encher de desgosto e de vergonha os últimos dias de teu velho pai!?...

Adelaide nada ousou responder; escondeu o rosto na mantilha soluçando e chorando amargamente.

Conrado a custo podia conter sua indignação, mas querendo tentar ainda meios prudentes e conciliadores: — Senhor major, — disse ele em tom ainda um tanto submisso e respeitoso, — não vejo motivo algum poderoso para que V. S. se oponha por esse modo ao nosso casamento. Sou de humilde nascimento, é verdade; infelizmente não conheci nem pai nem mãe; só sei que eram pobres, mas não me consta que tivessem nódoa alguma em sua vida. Mas o homem faz-se a se mesmo, e eu, pelo que o senhor major tem visto, posso ainda e tenho boas esperanças de alcançar na sociedade uma posição tão vantajosa como a sua, senhor major.

— Deixemo-nos de vãos palavrórios, senhor Conrado, — replicou o major em tom áspero e seco. — Acho até indigno de mim e de minha filha estar discutindo semelhante assunto. Minha filha nunca se há de casar com um capataz. O que eu disse, disse.

A indignação de Conrado tocava ao seu auge, sua paciência estava quase exausta; todavia ainda uma vez conseguiu sopear a sua cólera, e procurou tocar as fibras daquele coração selvagem, endurecido pela mania do fidalguismo, e acordar nele sentimentos de amor paterno, falando na mútua afeição, que desde a infância os ligara, e fazendo ver que com sua recusa ia condenar ao mais cruel infortúnio dois corações, que a natureza e as circunstâncias tinham unido estreitamente com laços, que jamais se poderiam quebrar. O major porém impacientado e colérico mal prestava ouvidos às palavras do mancebo, interrompendo-o a cada passo com expressões ásperas e grosseiras.

— Que vergonha, meu Deus! — exclamava ele a espaços, passeando frenético e agitado de um para outro lado do gabinete. — Lamúrias de namorados!... que infâmia!... só esta me faltava!... guardei a víbora no seio!... procure noiva de sua ralé.

A este último doesto, Conrado não pode mais conter-se.

— É o que estou fazendo, senhor major, pedindo a mão de sua filha, — bradou ele com resolução e altivez. — Não vejo entre nós desigualdade alguma, senão talvez em meu favor.

— O que está a dizer?!... repita, se é capaz, — gritou por seu turno o major chegando-se a Conrado com gesto ameaçador.

— Estou dizendo a verdade, — replicou o mancebo sem mexer-se nem pestanejar, — e estou pronto a repeti-la uma e mil vezes, se o senhor quiser. Meus pais eram pobres, porém livres e honrados, e não consta, que nenhum deles fosse escravo, nem cigano.

Em má hora teve Conrado a ideia de proferir tão imprudentes palavras. O major, que até ali conservara sempre rubra de indignação a sua tez morena, tornou-se subitamente fulo de cólera concentrada. Quando a cainana assanhada recebe um golpe que a mortifica, não se arroja logo sobre o agressor, mas enrosca-se de súbito, alça o colo, e brandindo a língua bipartida o encara com os olhos em brasa como querendo devora-lo. Assim o major ferido dolorosamente na mais melindrosa corda de seu coração, sem nada responder, deixou-se cair sobre uma cadeira, e ali ficou por alguns instantes encarando seu interlocutor com olhos sombrios e como petrificado pelo efeito dessa alusão feroz, com a qual estava longe de contar. Bem conhecia ele a baixa linhagem de que procedia sua filha, mas sua estólida vaidade havia produzido em seu espírito um certo estado de alucinação, que o cegava completamente a esse respeito, e acreditava o pobre homem que para o povo também a sua verdadeira genealogia andava escondida nas trevas do passado. As palavras esmagadoras de Conrado, cujo alcance logo compreendeu, o fulminaram; o suor lhe corria em bagas pela testa, o peito lhe arquejava convulso, e os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas. Durou apenas alguns instantes aquele acesso de cólera abafada; reagiu logo contra ele o orgulho ofendido.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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