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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 19 · Rosaura, a Enjeitada

Parte I — Capítulo XIX: Desfecho inesperado

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Mês e meio, pouco mais ou menos, depois destes acontecimentos, uma jovem e linda senhora, recolhida em seu aposento fazia esforços supremos para abafar gemidos e gritos de dor. Era o fruto de um amor furtivo, não consagrado pelos laços do matrimônio, que estava prestes a vir respirar o ar da vida; era um pobre anjo que se via obrigado a nascer na sombra do mistério para ocultar aos olhos do mundo a falta de seus progenitores.

Eram onze horas para meia-noite de um dia de novembro de 1847. Além da moça achava-se no aposento somente uma escrava idosa para desempenhar todos os delicados misteres que exige essa crítica situação; ela porém solícita, diligente e corajosa a tudo provia, tudo desempenhava com celeridade e inteligência, já animando com palavras a jovem parturiente, já multiplicando-se para acudir a tudo com a maior rapidez e desembaraço.

Um luar esplêndido se derramava pelos vargedos do Tietê, e lá fora enchia de serenidade e de encantos essa noite, que dentro daquelas paredes tão angustiosa e cheia de ansiedade corria para o pobre moça.

Entretanto, a doce claridade, que através dos vidros entrava pela janela, que dava para o jardim e o pomar, mesclando-se à frouxa luz de uma lâmpada única, que alumiava o quarto, expandia nele certa calma suave, própria para inspirar conforto e esperança àquelas duas aflitas mulheres.

Enfim o silêncio, que ali reinava, apenas interrompido pelos gemidos surdos e abafados da paciente, foi quebrado pelos vagidos de uma criança. Era uma linda menina, que no mistério de uma noite plácida e silenciosa vinha respirar a aura da vida debaixo de tão tristes auspícios. Lucinda pensou a criança com toda a perícia e delicadeza, como se fora uma parteira profissional, enfaixou-a com todo o cuidado, e a depôs no regaço de Adelaide, que a beijou, não com esse sorriso de inefável beatitude, que banha os lábios da jovem mãe que vê entre seus braços o fruto de seu amor; mas por entre um véu de lágrimas. Ah! por certo não podia beijar com alegria aquela que o destino arrancava do seio materno para passar a braços estranhos e desconhecidos.

O calor abafava dentro do estreito quarto; Adelaide pediu a Lucinda que entreabrisse um pouco a vidraça para renovar a atmosfera e respirar um ar mais livre. O ar estava tépido e parado; nem brisa nem vapor algum girava no ambiente, de modo que pudesse comprometer a saúde da mãe ou da criança. Lucinda abriu com precaução a vidraça. Um hálito embalsamado, não de aromas acres e ativos, mas de suaves e pouco sensíveis emanações de flores e folhas agrestes entrou pela janela, refrescando a atmosfera do aposento. Ao mesmo tempo ouviram-se os ecos melodiosos de um descante ao longe pelas ribas do Tietê.

Era provavelmente alguma serenata de pescadores ou estudantes, que aproveitando a serenidade da noite e a beleza do luar sulcava as águas preguiçosas do rio paulistano ao som de barcarolas e instrumentos.

— Que bonito! — exclamou a preta, deitando olhos curiosos para fora da janela; — se sinhazinha pudesse ver como está bonita a noite!... está tudo tão sossegado!... o céu tão limpo!... meu Deus! que noite tão clara, tão serena e tão cheirosa!... e esta cantiga... não está ouvindo, sinhazinha?... é um céu aberto!... tudo isto quer dizer fortuna para a menina, que nasceu.

— Quem sabe, Lucinda!?... pode ser feliz, quem nasce nestas circunstâncias, e nunca talvez terá de conhecer pai nem mãe? pobrezinha! suspirou a moça apertando ao seio a criancinha e banhando-a de lágrimas.

— Ah! sinhazinha! para que há de estar a chorar assim? Deus é de misericórdia; sua filhinha há de ser feliz, muito feliz; é sua preta que lhe afiança.

— Deus te ouça, — murmurou a moça, e alquebrada pelos sofrimentos e trabalhos do parto daí a instantes adormeceu profundamente.

Já o dia não estava muito longe de alvorecer. Chegava a hora propícia de Lucinda pôr em prática o plano, que já tinha concebido, e comunicado à sua senhora; era chegado o momento em que a boa e delicada escrava com as lágrimas nos olhos tinha de cumprir um triste e dolorosíssimo dever. Lucinda com um instinto da delicadeza que nem sempre se encontra mesmo entre pessoas de fina educação, não quis despertar Adelaide; pelo contrário aproveitou-se daquela hora de sono profundo e reparador, que de ordinário costuma durar longo tempo, para levar a criança ao triste destino, a que nascera condenada, sem que a mãe passasse pela dor de tão acerba separação. Não tinha tempo a perder; envolveu cuidadosamente a recém-nascida embaixo de sua mantilha de baeta, tomou em uma das mãos um embrulho, que continha algum enxoval para a criança, e saiu misteriosamente com seu melindroso fardo. A chegar à estrada, que conduzia à cidade, em vez de encaminhar-se para ali, tomou a direita para o lado do caminho que se dirige a Jundiaí.

Depois de ter andado cerca de um quilômetro naquela direção, via-se naquele tempo à beira da estrada uma pequena casa térrea de modesta aparência, mas cômoda e asseada, situada a pouco mais de meia légua do centro da cidade. Junto dela havia um pequeno curral, e no fundo um belo jardim de flores e hortaliças; em torno viam-se algumas nédias vacas ruminando tranquilamente, porcos, galinhas e outras criações domésticas. Tudo isto indicava que o dono ou dona da casa era pessoa industriosa e diligente, e gozava de uma tal ou qual abastança, o que não era muito comum naquela época nos arredores da formosa Pauliceia.

A proprietária, — pois era uma mulher, — vulgarmente conhecida pelo apelido de Nhá-Tuca, diminutivo familiar de Gertrudes na província de S. Paulo, era uma mulher de seus cinquenta e muitos anos, seca e alta, que fora sempre celibatária, as maneiras um pouco ásperas e desabridas; gozava porém de respeito e consideração entre a vizinhança, e era tida em conta de uma boa e honesta senhora, reputação que devia talvez mais aos seus haveres do que a qualidades reais. Devia a pequena fortuna que possuía, à herança de um irmão, que tendo morrido intestado, sem outros herdeiros ascendentes, descendentes nem colaterais, a deixou senhora de uma boa dúzia de escravos de um e outro sexo, moços e robustos todos.

Os escravos homens vendeu-os ela logo, alegando que na qualidade de mulher não podia governar homens. Ficando com sete raparigas, crioulas e mulatas, todas no viço da idade, bem feitas e vistosas, comprou a quinta em que a encontramos, onde também vendia aguardente, fumo, quitanda, e dava pousada aos passageiros,

O amor ao dinheiro, o desejo de engrossar cada vez mais o seu já sofrível mealheiro, era o móvel principal de todas as suas ações. Por isso andava em contínuo e incansável movimento desde primeiro albor do dia até horas avançadas da noite. As escravas também, posto que bem tratadas e garridamente vestidas, trabalhavam incessantemente, sempre debaixo de suas vistas, e não lhes ficava tempo de sobra para se entregarem à gandaia. Um lucro porém mais avultado lhe provinha das sete escravas; há doze ou quatorze anos, que lhe pertenciam, estas escravas tinham-lhe dado já umas vinte e tantas crias lindas e vistosas, as quais logo que chegavam à idade de dez anos, a boa mulher tratava de vender pelo melhor preço que podia. Seu estabelecimento bem se podia chamar um viveiro de escravos. Na época em que nos achamos, já ela havia melhorado consideravelmente o estado da burra, e tinha a casa cheia de uma chusma de crianças da mesma procedência e condenadas ao mesmo destino. Parece que ela conhecia um anexim egoístico e desumano de nossos antepassados, que diz: crioulos cria-los e vende-los, — e sabia executa-lo à risca.

Foi para essa casa que Lucinda ao ganhar a estrada se dirigiu com seu débil e precioso fardo. A preta conhecia há muito a velha Nhá-Tuca, e posto que não conhecesse íntima e particularmente seus costumes e viver doméstico, sabia pela voz pública que era uma senhora de bem, e mesmo de sentimentos caridosos. Demais, estando ali na vizinhança e em lugar retirado, sua sinhazinha podia lá ir de quando em quando em ar de passeio, e gozar o prazer de ver e afagar sua filhinha, sem que ninguém pudesse desconfiar coisa alguma. Nenhuma casa portanto lhe pareceu e com razão mais apropriada do que a de Nhá-Tuca para lhe ser confiado tão sagrado depósito.

À porta dessa casa Lucinda parou e escutou; a primeira alva do dia começava a despontar; tendo percebido rumor dentro, e vendo que a gente da casa começava a despertar, depositou a criança e o embrulho no limiar da porta, e afastou-se; mas apenas achou-se a uns cem passos de distância, parou e escondendo-se entre uns arbustos à beira do caminho, ficou à espreita do que sucederia. Passados poucos minutos a porta abriu-se, e ela viu ser recolhida a criança com grandes mostras de surpresa e causando, como era natural, grande alvoroço em toda a casa; mas, segundo lhe pareceu, com ares de carinho e compaixão, e voltou para casa tranquila e satisfeita.

Já o sol ia bem alto, quando Adelaide despertou de seu longo e profundo sono; posto que prevenida e cúmplice na sorte que se ia dar à sua malfadada filhinha, seu coração constrangeu-se amarga e dolorosamente, quando ao acordar não a viu a seu lado e se viu mãe sem filha.

À tarde Lucinda saiu, e foi em ar de passeio e até a casa de Nhá-Tuca com o fim de saber novas da pequena exposta; para lá se dirigiu para entrar na bodega como quem quer fazer alguma compra, mas com o fim principal de puxar conversa, e ouvir novas da criança, que nessa madrugada lá tinha depositado. Mas antes que o fizesse, olhando pela porta aberta de uma saleta da frente, diante da qual tinha de passar para chegar à venda, deu com os olhos em um pequeno féretro posto sobre uma mesa no meio da sala, no qual se achava amortalhada uma criancinha com simplicidade e pobreza, mas com os enfeites e flores do costume. A este espetáculo Lucinda sofreu tão violento abalo no coração, que esteve a ponto

de desfalecer; todavia esforçou-se por dominar sua comoção, e chegou-se à porta para examinar o cadáver. Era evidentemente uma criança recém-nascida, de cor mimosa e branca, como a sua enjeitadinha; não podia ser senão a filha de sua sinhá. Para melhor verificar o caso entrou na venda, e aí ouviu a triste confirmação do que já tinha como quase certo.

— Enjeitaram aqui hoje pela manhã, — dizia Nhá-Tuca à Lucinda e a outros curiosos que se achavam na venda, — uma pobre criancinha muito bonitinha; coitada! tive uma pena dela!... não sei como há gente neste mundo, que tem ânimo de enjeitar seus filhos!... e eu também tomara poder cuidar na minha vida; não tenho tempo para andar criando os filhos dos outros, não. Mas assim mesmo pobre, como sou, não quis desamparar a pobre criança, e estava pronta para criá-la, porque até esta mesma noite me pariu aqui em casa uma mulata que bem podia dar de mamar a duas crianças... Mas, mecês que querem?...... o maldito ou maldita, que trouxe a criança, parece que a carregou aos trambolhões, como quem carrega um porco, de maneira que a coitadinha de criança chegou toda machucada, e com o umbigo esvaindo em sangue!... está! e não houve remédio! ali está mortinha, coitada!...

Neste ponto da narração Lucinda arrepiou-se, e esteve a ponto de protestar contra as palavras de Nhá-Tuca. Tinha a consciência de que havia carregado a menina com todo o cuidado e mimo possível, e que a largara sem a mínima lesão à porta da casa de Nhá-Tuca. Mas Lucinda era discreta, e bem via que a menor palavra que dissesse, podia dar lugar a suposições, não só da parte da velha dona da casa, como também de toda aquela gente abelhuda e maliciosa, que ali se achava. Entretanto não podia deixar de dar crédito ao que dizia a velha, pois ali estava bem patente a prova irrefragável, o cadáver da criança. Refletindo um pouco passou-lhe rapidamente pela ideia, que sem dúvida seriam as escravas da casa, que entrando com a criança aos boléus e passeando-a de mão estouvadamente e sem cuidado algum, a tinham feito morrer; e vendo-as do lado de dentro do balcão e escutarem de parte a conversação, Lucinda relanceava sobre elas olhares arrevesados e furibundos.

— A menina, — continuou Nhá-Tuca, — ali pelas dez horas mais ou menos entrou em convulsões, e não houve chá, fomentação, nem benzedura, que eu não fizesse; nada pôde lhe valer. Ali pela volta do meia dia entregou a alma a Deus. Não sabia se era batizada, e portanto, aqui neste ermo, onde a gente não encontra, quando quer, nem padre, nem cirurgião, mandei chamar um vizinho para batizá-la. Graças a Deus não morreu pagã, e vai ser enterrada em sagrado na Igreja de Santa Ifigênia. É uma despesa que Deus sabe quanto me custa! — terminou soltando um estrepitoso suspiro; mas seja tudo pelo amor de Deus.

Lucinda voltou para casa a passos lentos e com o coração repassado de amargura, estudando um modo de dar a triste nova à sua senhora de maneira que a não chocasse muito. Deu-a por meias palavras, mas Adelaide a compreendeu logo, e exclamou cheia de angústia:

— Meu Deus! meu Deus! levaste minha filhinha!... bem! é um anjo que chamaste para perto de vós para interceder por mim, pobre pecadora. Agora chama-me também, e leva-me para junto dela.

— É verdade, sinhazinha; aquela música, que estava tocando, quando ela nasceu, não era cá de terra. — Eram os anjos do céu, que estavam esperando sua irmãzinha — disse Lucinda, e ambas puseram-se a chorar amargamente.

FIM DO TOMO PRIMEIRO

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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