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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 20 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo I: Doze anos depois

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Eram passados doze anos depois dos acontecimentos, que acabamos de narrar. Em uma sala mobiliada com bastante luxo, se bem que não com muito gosto, em um sobrado da rua de S. Bento na cidade de S. Paulo, uma linda menina de dez anos estava sentada ao piano dedilhando com volubilidade e bem pouca atenção as lições de Hünten. À direita, ao pé dela achava-se também sentada em uma cadeira, com a mão na face e acotovelada sobre a mesa do piano, uma senhora, que poderia ter quando muito trinta anos, e que parecia observar com certo orgulho e complacência o estudo da gentil menina. Era uma senhora morena, de fisionomia regular e simpática, de grandes olhos negros e lânguidos e que tinha bem conservada ainda uma beleza, que no viço dos anos devia ter sido das mais encantadoras. Pelo primoroso cuidado com que se trajava, pelas maneiras e ademanes um tanto afetados, via-se que ainda predominava nela esse fundo de vaidade inseparável das moças formosas, mesmo quando essa formosura já vai declinando para o ocaso. A desta porém ainda não declinava; nem cãs, nem rugas, nem macilência denunciavam nela a época da decadência. Não era já a tenra e mal aberta flor, brilhante de viço e frescura, e ainda rociada das pérolas da aurora; mas sim a flor, que alardeia desabrochadas em toda a sua plenitude as pétalas formosas ao fulgor de um belo sol de estio.

Brincavam também em torno dela pela sala entrando e saindo mais três crianças de mais tenra idade, interrompendo a cada passo com suas travessuras o estudo da pianista, que em vão zangava-se e ralhava com elas.

— Estela, — disse a moça com voz suave estendendo a mão e fazendo parar de chofre os róseos dedinhos da menina, que esvoaçavam ligeiros como borboletas sobre o teclado, — estás hoje muito rudesinha; disseste muito mal esse último compasso; repete ainda uma vez; não quero que a mestra venha ralhar contigo.

— Ora, mamãe! — replicou a menina dando um muxoxo, — estes meninos estão a toda a hora me atrapalhando... Também não sei porque é que papai hoje está tardando tanto.

— Ah! logo vi; teus dedos estão correndo pelas teclas, enquanto teu sentido mesmo anda bem longe, tontinha!

— Não, mamãe; estou esperando papai para jantar; estou com saudade dele, e também com fome. Olha, mamãe, — acrescentou apontando para um lindo pêndulo, que estava sobre um aparador; — já são quase quatro horas.

— Qual saudade, nem fome!... estás com sentido é na mulatinha, que teu pai foi comprar para ti, e que prometeu trazer hoje. Sossega esse coraçãozinho, que ela há de vir; senão por hoje, há de ser amanhã, porque já está comprada e paga.

— Ah! já faz hoje mais de oito dias, que papai está comprando essa mulatinha, e nunca mais ela vem.

— É porque ainda não tinha encontrado uma que servisse; mas agora já achou, já comprou, e há de vir.

— Bravo! bravo! mamãe, — exclamou Estela saltando do tamboretinho, e indo envolver com os braços o colo da mãe encarando-a tão de perto, que quase a beijava; — ela é bonitinha? já é grande?... como se chama? eu queria que ela fosse do meu tamanho. Mamãe há de dar a ela um vestido bem bonito para ela andar comigo na rua, não há de, mamãe?

— Hei de, hei de, sim, minha filha. Arre lá! sufocas-me com tantas perguntas.

Neste ponto da conversação ouviu-se rumor de gente, que vinha subindo a escada.

— Escuta, — continuou a senhora, há de ser teu pai, que chega.

Estela e seus irmãozinhos correram logo para o topo da escada; a mãe deixou-se ficar sentada em seu lugar. Daí a instantes entrou na sala um homem de bela presença e elegantemente trajado.

— Entra, Rosaura; é aqui que está tua senhora, — dizia ele, voltando-se para trás.

Entrou logo após ele, acompanhada pelas crianças, uma linda criatura, em cuja descrição é mister determo-nos um pouco.

Era uma menina, que parecia ter quatorze anos, de belo porte, cabelos de azeviche, não mui finos e sedosos, mas espessos e de um brilho refulgente como o do aço polido. — Os olhos grandes e da mesma cor dos cabelos tinham tal expressão de ingenuidade e doçura, que captavam logo a simpatia e afeição de todos. A boca pequena, com lábios carnudos do mais voluptuoso e encantador relevo formava com o queixo algum tanto pronunciado e o nariz reto e afilado um perfil das mais delicadas e harmoniosas curvas. A tez do rosto e das mãos era de um moreno algum tanto carregado; mas quem embebesse olhar curioso pelo pouco que se podia entrever do colo por baixo do corpilho do vestido, bem podia adivinhar que era o sol, que a tinha assim crestado, e que sua cor natural era fina e mimosa como a do jambo. Não trazia mantilha, esses dois côvados de pano ou baeta, em que não andou tesoura nem agulha, e com que as escravas e as mulheres de baixa classe em S. Paulo usavam embrulhar a cabeça e os ombros; em vez dela trazia sobraçado um bonito xale de lã, e trajava um vestido cor de rosa; a linda e opulenta madeixa era o único ornato de sua cabeça, e os pés calçavam chinelos de marroquim vermelho. Trajada com tal singeleza e dotada de tanta graça e formosura oferecia um interessante e gentil modelo de camponesa digno de ocupar a atenção e o pincel do mais hábil artista.

Os meninos rodeavam a rapariga com ar de estupefação e a contemplavam com a mais viva curiosidade. Ela parou defronte da senhora, fitou-lhe os olhos meigos, e tomou-lhe a bênção com um ar ao mesmo tempo terno e submisso. Ao pôr os olhos na menina, a senhora sentiu-se assaltada de estranha emoção, ou porque a simpática fisionomia da escrava, e a encantadora ingenuidade, que respirava em toda sua angélica figura, lhe tocasse o coração, ou porque o seu lindo rosto lhe despertasse n’alma vaga reminiscência de alguma pessoa que conhecera. Enfim não podia capacitar-se de que aquela formosa e interessante rapariga fosse a escrava destinada à sua filha.

— Que menina é esta, que o senhor nos trás, senhor Morais? — perguntou ela ao marido.

— Que é da escravinha, que está sempre a prometer à Estelinha: ela está sempre a amofinar-me com suas impaciências.

— Pois não está ai diante de teus olhos?! — respondeu o marido apreciando com desvanecimento a surpresa da mulher.

— Eu tinha prometido à Estela uma jóia, e não aí qualquer crioula beiçuda, ou mulata encarapinhada. Custou-me, porém sempre achei. Que tal te parece?...

— Muito lindasinha. Como se chama?

— Rosaura.

— Rosaura!... até o nome é bonito. Vem cá, Rosaura; não sou eu a tua senhora; tua senhora é esta menina, — acrescentou pegando Estela pelo braço e colocando-a defronte de Rosaura.

Então a gentil escravinha com singeleza e desembaraço infantil acocorou-se sobre o largo tapete junto ao piano, sentou Estela sobre o seu regaço e envolvendo-a com os braços beijou-a em ambas as faces exclamando:

— Esta é que é minha sinhazinha!... como é tão bonitinha!...

A linda escrava também nesse momento sentiu banhar-se-lhe o coração em eflúvios de estranha ternura, que lhe umedecia os olhos, e ora acariciando a filha, ora olhando para a mãe, julgava-se como que arrebatada a um mundo estranho. Estela retribuía com mudos afagos as carícias da escrava. A senhora com a face na mão contemplava com a mais benévola e terna complacência aquela cena encantadora, e não se fartava de olhar para Rosaura, que com modos tão meigos e naturais lhe afagava os filhinhos, como se já os conhecesse de longa data.

— Está bom, — disse a senhora levantando-se, — são horas de jantar. Estela, vai chamar Lucinda.

A menina correu para o interior da casa, e daí a momentos reapareceu com a preta velha, que já conhecemos.

— Lucinda, — disse a dona da casa, — leva esta menina para dentro, mostra-lhe toda a casa, e trata bem dela; de hoje em diante ela faz parte da família; é a mucama de sinhá Estelinha.

A preta estatelou os grandes olhos esbugalhados sobre a rapariga.

— Hé! há! — exclamou ela admirada — Como é isso, sinhá! pois essa menina é cativa mesmo?... é a mucama, que sinhô comprou?!... cruz!... parece mais outra sinhazinha. Vamos, minha filha, vamos para dentro, — continuou Lucinda, tomando a mão de Rosaura e conduzindo-a para o interior da casa. Os meninos as acompanharam, pulando de contentes.

— Não achas, Adelaide, — disse Morais à sua mulher, logo que se acharão sós, — não achas que não era possível encontrar peça mais linda para a nossa Estelinha? como ela ficou satisfeita com a sua faceira mucama!...

— Na verdade é muito linda criatura, — respondeu Adelaide.

— Até faz pena ver no cativeiro uma menina tão mimosa. se ela for boa mesmo, como parece, hei de tratá-la com todo o carinho, mais como uma companheira, uma irmã de meus filhos, do que como escrava; e até, se for possível, o meu desejo é dar-lhe a liberdade. Uma criatura tão bela e interessante não nasceu para o cativeiro.

— Oh! quanto a isso, mais devagar, minha querida. Poderemos forrá-la lá pelo tempo adiante, se ela o merecer. Custou-nos uma soma considerável, e não é para já largarmos mão dela. Não pude arrancá-la das garras do casmurro do senhor, senão por dois contos e quinhentos mil réis. Como teu pai deu-me carta branca e disse-me que não olhasse a dinheiro, mais que me pedissem, eu daria.

— Muito mais que isso vale ela, — retorquiu Adelaide.

— Por mim não a largarei mais nunca, nem por quanto dinheiro há neste mundo.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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