Universo da obra
Universo da obra
A aquisição da linda escrava Rosaura foi um motivo de festa por muitos dias na família do major. Era um mimo, que há muito o avô desejava fazer à Estela, linda e interessante netinha, que era o seu ídolo; e para esse fim tinha dado amplas autorizações ao genro. O mimo excedeu a sua expectativa, e valia realmente um tesouro. Rosaura nos primeiros dias foi antes o enlevo e admiração da família, do que a escrava da casa. Adelaide a tratava com carinho maternal; Lucinda a rodeava de cuidados e procurava adivinhar-lhe os desejos; as crianças não comiam um doce, uma gulodice qualquer, que não repartissem com ela; o major a chamava de minha tetéia , e o senhor Morais ficava às vezes a contemplá-la com ar tão terno e embevecido, que não deixava de causar displicência e inquietação à Adelaide.
E Rosaura merecia bem essas contemplações e deferências. Ativa, inteligente e habilidosa, não se recusava a serviço algum. Na cozinha ajudava a tia Lucinda com tal jeito e desembaraço, que fazia pasmar a velha preta. Na sala engomava, cosia e bordava de modo que encantava à sua senhora. Aos trabalhos mais delicados, como aos mais rudes e fragueiros se oferecia e prestava não só com prontidão, como também com certo ar afetuoso, que fazia crer que tomava gosto em seu cativeiro. Tratava das crianças com tal amabilidade, jeito e carinho, que parecia não uma rapariga de quatorze anos, mas uma provecta mãe de família. Reunindo-se a estas qualidades adoráveis o porte e o rosto de uma donzela que poderia figurar em um salão aristocrático, .pode-se fazer ideia do tesouro inapreciável, que graças ao dinheiro do major e às diligências de seu genro era hoje propriedade da casa.
Quando estava em companhia, Rosaura era sempre alegre, meiga e afável; mas Lucinda c mesmo Adelaide a tinham surpreendido a sós cismando tristemente, e às vezes com as lágrimas nos olhos.
— Que tens, Rosaura, que estás aí tão triste e amuada e quase a chorar? — perguntou-lhe uma vez Adelaide com ternura.
— Nada, minha sinhá , é porque estava me lembrando de minha mãe, que já morreu.
— Ora! não chores; — replicou Adelaide pousando a mão sobre a linda cabecinha de Rosaura. — Eu também quase não conheci mãe, e não estou chorando. Não chores mais não; eu também sou tua mãe.
E com estas doces palavras a menina se consolou e recobrou seu ar sereno e jovial.
Este estado de paz e bem-aventurança doméstica infelizmente não pôde durar por muito tempo. A força de contemplar todos os dias as belezas plásticas da formosa Rosaura, Morais se foi deixando arrastar por uma paixão insensata e frenética por ela.
Ou fosse um amor verdadeiro, íntimo e profundo, que lhe revolucionasse a alma, o que era bem possível à vista da sedutora beleza da cativa, ou fosse o demônio da libidinagem, que lhe turvava o espírito e lhe inflamava o sangue, o que é ainda mais provável, o certo é que Morais, sem atender nem ao menos às conveniências e ao decoro da família, deixou entrever a cega paixão que o dominava. Um dia não podendo mais conter-se declarou suas impudicas intenções à ingênua e virtuosa escrava, que mal as podia compreender. Senhor quase absoluto da casa fazia cotidianamente à inexperiente rapariga pomposas promessas de liberdade, dinheiro e mil felicidades, às quais a singela menina opunha sempre a mais rude e obstinada negativa. Com as repulsas e esquivanças ainda mais recrudecia a febre de ardente sensualismo que abrasava o sangue de Morais; depois de ter empregado em vão todos os meios de sedução a seu alcance, lançou mão também da mais terríveis ameaças.
— se não cederes a meus desejos, Rosaura, — dizia-lhe ele nos transportes de sua insenata e lasciva paixão, — vendo-te aí a qualquer senhor libertino e sem coração, que fará contigo o que eu não posso, nem tenho ânimo de fazer; que te amarrará de pés e mãos, e fará de ti o que muito bem quiser.
— Senhor, — respondia a escrava com uma resolução e firmeza para admirar em sua idade e condição, — é escusado ameaçar-me, perde seu tempo; nunca cederei, nunca! faça de mim o que quiser, tenho fé que Deus me há de valer.
Morais rugia de raiva e desespero, mas nem assim deixava de prosseguir cada vez com mais ardor em seus assaltos brutais contra a pudicícia da gentil escrava. Estes torpes manejos por mais que Morais se esforçasse por ocultá-los não puderam escapar por muito tempo à sagacidade de Adelaide, que depressa colheu provas manifestas do indigno procedimento de seu marido. Ela amava-o sinceramente, e esta triste descaída do esposo magoou-lhe cruelmente o coração. Há doze anos era casada, e nunca até ali a mais ligeira nuvem de discórdia viera perturbar a harmonia conjugal, e toldar a serenidade do lar doméstico. Foi portanto um rude golpe para sua alma, golpe, que a feria e humilhava ao mesmo tempo, ver a paz, que até então tinha reinado no seio da família, perturbada por tão ignóbil e vergonhoso motivo. Era Adelaide, como sabemos, de temperamento ardente e irascível; não sabia abafar seus ressentimentos; eles faziam explosão com violência. Todavia desta vez corando por seu marido, o pejo e o pundonor tolheram-lhe a princípio as expansões de despeito e indignação, de que trazia saturado o coração. A tal ponto porém chegaram os desmandos do senhor Morais, que ela não pôde conter-se por mais tempo. Rubra de pejo e de ressentimento exprobrou ao marido seus vergonhosos desvarios.
— O senhor, disse ela depois de amargas queixas e pungentes inveclivas, quer me pôr a dura necessidade de comunicar tudo a meu pai, a fim de que ele mande para longe, forre ou venda essa pobre menina, causa por certo inocente de semelhantes escândalos, e isto seria uma crueldade. Não, meu, amigo, acrescentou ela ameigando a voz e abraçando o marido, — espero que não continuará mais nesse mau caminho. É tua mulher quem te pede em nome de nosso amor de doze anos, em nome de nossos inocentes filhinhos.
Morais sentiu-se algum tanto abalado com estas ternas e sentidas palavras da esposa, e quase sentiu remorsos por afligi-la tanto com seu mau procedimento.
— Minha querida Adelaide, — disse com a mais bem fingida e refinada hipocrisia que se pode imaginar, como pudeste dar entrada em teu coração a tão injustas suspeitas contra teu marido!... como pudeste imaginar nessa louca cabecinha que eu seja capaz de ter tão depravadas intenções contra uma pobre e interessante menina, que só me inspira compaixão, interesse e simpatia!... Gosto muito de Rosaura, acho-a muito engraçada e bonitinha, amo-a mesmo se assim o queres, mas com esse amor, de que falava um dos meus colegas, metido a poeta; amo-a como se ama as flores do campo, as estrelas do céu, o canto dos passarinhos; amo-a como se ama tudo quanto é belo na criação. É verdade, que às vezes procuro beijá-la na fronte e mesmo na face mas ela foge toda espantadiça e coitadinha, não sabendo talvez que a procuro beijar, como beijo a meus filhinhos.
— Ah! senhor, — disse a moça fitando os lindos olhos no marido como procurando ler-lhe no fundo da alma, será sincero o que me está dizendo?
— Juro pelo nosso amor, minha Adelaide.
Adelaide pareceu convencida e tranquilizada com as palavras do marido, e os dois esposos reconciliados se abraçaram em mútua efusão de ternura. Mas o ciúme é como um cancro; quando uma vez se agarra ao coração nunca mais se pode extirpar completamente; por mais hábil que seja a mão do operador, lá ficam raízes e filamentos imperceptíveis, dos quais renasce e se alimenta a chaga devoradora. Morais na persuasão de ter iludido sua mulher e dissipado completamente suas desconfianças, abandonou-se daí em diante com mais desembaraço ainda às expansões de sua louca paixão pela formosa escrava, e redobrou de ardis, seduções, promessas e ameaças para rendê-la a seus impudicos desejos.
A proporção porém de seus esforços, com grande desesperação sua mais recrescia a relutância da honesta e inocente menina. Mas o ciúme não dorme, tem vista aguda e ouvido delicadíssimo. Adelaide a despeito dos protestos do marido que a tranquilizaram momentaneamente, não deixava de espiar seus passos com disfarce e fina sagacidade, e à vista do que ia observando, não podia convencer-se de que a afeição, que ele consagrava Rosaura, fosse amor puro e inocente, que procurava aparentar. Receando, porém, que o ciúme lhe estivesse alucinando algum tanto o espírito, fazendo-lhe dar grandes proporções a coisas insignificantes, decidiu-se a interrogar a própria Rosaura sobre esse particular para acabar de uma vez com tão cruciantes incertezas.
Como se pode imaginar, foi um passo bem difícil e penível para ela entabolar conversação a esse respeito com uma escrava, e com uma quase criança; mas era forçoso para descobrimento da verdade e sossego de seu coração.
— Rosaura, — disse ela um dia à escrava; os meninos estavam ausentes e Rosaura sentada a seus pés sobre um tapete se ocupava em trabalhos de agulha; — parece que o senhor Morais te persegue e atormenta com carícias excessivas. Vejo-te às vezes correr dele assustada, como lebre que foge ao cão. Que te quer ele?... não me dirás, Rosaura?
Fazendo estas perguntas Adelaide procurava em vão disfarçar o amargor de suas palavras com certo tom de gracejo.
— Não sei, minha senhora; — respondeu a escrava corando muito e com visível perturbação; — ele gosta muito de brincar comigo; mas eu tenho muito medo e respeito dele, e por isso fujo para perto de minha senhora.
— Fazes bem, Rosaura; mas tudo isso não passará de mero brinquedo?... estás bem certa disso?
— Eu acho que não passa de brinquedo: quer brincar comigo, como brinca com sinhá Estelinha.
— E ele não te diz nada?... não te declara coisa alguma?...
— Eu mesmo não sei o que ele diz; não escuto nada, e vou correndo para longe, porque tenho muito respeito, e...
A pobre escravinha queria ainda dizer muita coisa, mas de embaraçada não sabendo explicar-se, nada mais pôde dizer e parou na reticência, esperando mais alguma pergunta. Adelaide porém não quis insistir mais; uma sinistra desconfiança lhe havia atravessado o espírito; a boa e simples Rosaura não quis declarar à sua senhora toda a verdade, porque apesar de sua pouca idade era ajuizada e discreta, e não queria atear o facho da discórdia o seio da família com suas hesitações, porém com suas respostas tímidas e evasivas teve a felicidade de produzir um efeito mil vezes pior do que aquele que desejava evitar. Notando as frases indecisas, a perturbação e enleio de Rosaura, entrou pelo espírito de Adelaide a suspeita de que Rosaura era cúmplice na deslealdade de seu marido, ou que pelo menos aceitava sem repugnância seus afagos, e por isso procurava encobrir-lhe a verdade. Julgou-se duplamente ultrajada em seu pundonor de esposa, e em sua qualidade de senhora, e tomou daí em diante tal indisposição contra a pobre escrava, que começou a tratá-la não só com indiferença, mas com tão pronunciada malevolência, que esmagava o inocente coração de Rosaura. É verdade que no fundo de sua alma não se extinguira de todo esse sentimento de terna simpatia, que Rosaura lhe havia inspirado desde a primeira vez em que a vira; mas a cegueira do ciúme sufocava quase sempre esse sentimento, e a fazia tratar a escrava com o mais cruel desabrimento e aspereza. O mau humor de Adelaide subia de ponto, e já não havia naquela casa a bonança, união e contentamento de outros tempos. Adelaide ralhava sempre; os meninos andavam espantados e em gritos vendo a bela cativa sempre amuada e chorosa, e a mãe a mimoseá-la com os edificantes epítetos de delambida, tarasca e outros quejandos, que eles felizmente não podiam compreender. O major estranhava mas nem de leve suspeitava o verdadeiro motivo da mudança de humor de sua filha, e perguntando a se mesmo a causa desse fenômeno, o atribuía à volta de lua, e talvez a algum novo astro, — ainda em gestação, que vinha aumentar a brilhante plêiade de sua ilustre descendência. Morais, sem deixar de activar suas diligências para seduzir a infeliz menina, todavia andava cabisbaixo e desconfiado. Assim Rosaura vivia em contínua tribulação entre as perseguições do senhor e a rispidez e malevolência da senhora. O demônio da discórdia tinha roçado sua asa negra por aquele lar, há pouco tão feliz, alegre e esperançoso.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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