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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 24 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo V: Confidência

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Era perto de dez horas da noite. Em casa do major Damásio tudo repousava em profundo silêncio. As crianças dormiam o sono suave e tranquilo da inocência. Rosaura, que tinha o seu aposento em um pequeno quarto imediato à alcova de sua senhora, apesar dos transes e inquietações por que passara, há muito que adormecera. Havia chorado um pouco antes de conciliar o sono pensando nas perseguições de Morais, e mais ainda nos desabrimentos da senhora; mas graças aos seus quatorze anos, à pureza de seu coração e à tranquilidade de seu espírito, a insônia lhe era desconhecida.

Só Adelaide velava refletindo nas ingratidões e desvarios do marido e na pretendida deslealdade de Rosaura, da qual a cegueira do ciúme lhe fazia formar tão mau conceito.

Todavia quando com o espírito mais calmo se lembrava da fisionomia de menina tão cheia de pudor e candura, de suas maneiras tão honestas e recatadas, de sua índole tão dócil e fagueira, repugnava-lhe a ideia do mau procedimento que lhe atribuía em seus acessos de despeito, e um misterioso sentimento de benevolência e ternura como que a obrigava a inocentar no íntimo da alma a desventurada escravinha.

À força de entregar-se ao embate de tantas tribulações e dissabores, Adelaide havia chorado, e encostada a um bufete tinha os olhos rubros e úmidos quando Lucinda entrou-lhe pelo quarto.

— Santa Virgem! — exclamou a preta observando a fisionomia alterada e os olhos macerados da senhora.

— O que é que lhe aconteceu, sinhazinha?

— Nada Lucinda; — absolutamente nada.

— Nada!! não me engana;... como é que sinhazinha então está assim com os olhos vermelhos e cheios d’água!

— É verdade, Lucinda; estava pensando em coisas bem desagradáveis, e creio que chorei um pouco... mas...

— Mas o quê, sinhazinha?... não me esconda nada, não; pode sem susto abrir seu coração com sua preta. Não quero ver sinhazinha chorando assim; o que é que mecê tem?

Lucinda, como o leitor sabe, fora outrora em circunstâncias bem críticas a amiga dedicada, a leal confidente, e a única depositária do maior ou antes do único segredo de Adelaide. Esta portanto não tinha razão para recusar-se a explicar-lhe o motivo de seus desgostos, e naquela ocasião até estimou o aparecimento e a interpelação da escrava, porque tinha realmente necessidade de desabafar com alguém as mágoas que lhe oprimiam o coração. E com quem melhor poderia ela abrir sua alma, do que com a velha e leal escrava, que de tanto lhe tinha valido nos mais apertados e melindrosos transes de sua vida íntima?

Assim a preta, que viera para fazer uma revelação, teve de ouvir em primeiro lugar as confidências e queixumes da senhora; tanto melhor para Lucinda, que assim se achava em mais favoráveis disposições para entrar com sua senhora em conversação confidencial. Adelaide, com algum vexame e embaraço, mas em poucas e rápidas palavras, expôs à escrava o motivo de seus desgostos; contou não só as impudentes tentativas que seu marido fazia quase à sua vista, para seduzir Rosaura, como também as desconfianças que nutria a respeito desta.

— Eu sei já disso tudo, sinhazinha, — disse Lucinda; — mecê tem razão contra sinhô moço; com efeito ele tem andado muito mal. Mas a respeito da pobre menina, sinhazinha anda muito enganada. se sinhazinha soubesse quem é esta Rosaura!...

— Sei bem, Lucinda; ela me parece muito boa rapariga, cuidadosa, diligente e muito carinhosa com as crianças, mas... desconfio...

— Deixa dessas desconfianças, sinhazinha, Rosaura não é capaz disso. se sinhazinha soubesse tudo, como eu sei, em vez de zangar-se com ela, havia de trazê-la mesmo dentro do seio, como se fosse sua filha.

A estas palavras Adelaide sentiu um estremecimento involuntário.

— Como se fosse minha filha! porque dizer isto, Lucinda?

— Sim, senhora, — insistiu a escrava, — como se fosse sua filha, e sinhazinha havia de arrepender-se mil vezes de tê-la em tão ruim conta. Há aí uma coisa que eu devo por força contar à sinhazinha, se não quiser botar minha alma no inferno.

— O que é? conta, Lucinda..., será ainda alguma desgraça?

— Não, sinhazinha, não é nenhuma desgraça; antes pelo contrário é coisa de lhe dar muito gosto e alegria.

— Deveras, Lucinda! ...pois conta depressa o que é isso.

Lucinda então acocorando-se aos pés da senhora, e abafando a voz para não acordar as crianças e Rosaura, que dormia ali bem perto, contou por miúdo tudo quanto nessa tarde se tinha passado entre ela e Rosaura e a plena convicção em que estava à vista de tão veementes indícios, de que a escrava que o senhor Morais havia comprado não era outra senão a filha de Adelaide, que ela Lucinda havia exposto em casa de Nhá-Tuca e que, não se sabe com que interesse ou para que fim, fizeram passar por morta.

— Meu Deus! meu Deus! — exclamou a moça levantando as mãos ao céu. — Será possível!... ter sem o saber comprado como escrava minha própria filha!... Ah! se assim é, Lucinda, foi Deus, foi a divina providência, que se serviu das más intenções de meu marido e fez Rosaura correr para junto de ti naquele estado a fim de tudo se descobrir. Sem isso era bem possível que ela ficasse por muito tempo, talvez por toda a vida, condenada ao cativeiro e isto em casa de sua mãe, no meio de suas irmãs!... ah! só de pensar nisto arrepiam-se-me as carnes, e se me espedaça o coração!...

— Mas agora sinhazinha só tem motivo para dar graças a Deus, que não permitiu que assim acontecesse.

— É verdade, Lucinda. Ah! Rosaura! Rosaura! minha infeliz filhinha, — continuou Adelaide estendendo os braços para o lado, em que dormia Rosaura;— perdoa-me; enganaram-me; eu não podia saber do teu destino; mas hoje graças a Deus, vejo-te viva e perto de mim! Mas ah! isto parece-me impossível, — continuou ela a bracos ainda com a incredulidade; — viste bem esse sinal, Lucinda? quem sabe se não há algum engano da tua parte? quase todo o mundo nasce com algum sinalzinho no corpo.

— Isso é verdade; mas no mesmo lugar do mesmo tamanho e do mesmo feitio, sinhazinha?! e demais a mais acontecer que no mesmo dia em que Rosaura nasceu, morreu uma criança enjeitada em casa de Nhá-Tuca?! Imagina bem, sinhazinha, e verá se aí anda alguma tramada, ou não. Demais disso, repara bem na carinha de Rosaura, sinhazinha, e me diga com quem ela dá ares. Ela se parece com sinhazinha um pouco porém ainda mais com certa pessoa, que mecê bem sabe.

— Sim! sim! cala-te Lucinda; tudo isso é verdade, — disse Adelaide arquejando de emoção. — Além disso desde a primeira vez que pus os olhos em Rosaura, comecei a sentir por ela uma afeição e ternura de mãe... oh! Lucinda!... não há dúvida mais para mim ... Rosaura é minha filha.

A surpresa e emoção de Adelaide eram extremas. Muito havia ela sofrido por amor daquele primeiro fruto de um amor infeliz; os longos anos que haviam decorrido, a felicidade conjugal que havia encontrado, os carinhos do pai e do espôso, as carícias dos filhinhos não tinham podido apagar a lembrança da inocente e infeliz menina, que do seio materno passara a braços estranhos e deles ao túmulo, nem estancar de todo o pranto, que tão dolorosa recordação às vezes lhe arrancava ao coração. Nesses últimos dias principalmente, e depois que Morais, desmentindo o seu passado se entregava a desregramentos indesculpáveis, sofria mais cruelmente que nunca, e sentindo o remorso atassalhar-lhe a alma atribuía sua desgraça a castigo de Deus pelas fraquezas de sua mocidade.

— Rosaura, minha filha, perdoa-me! — exclamava ela com lágrimas nos olhos querendo precipitar-se no quarto vizinho a ir abraçar a menina, que dormia o sono dos anjos. Lucinda a custo pôde conter e acalmar sua senhora.

— Não, minha sinhá; não acorde a menina ainda não; deixe ela dormir. Por enquanto é bom que ela não saiba nada do que se passa. Antes de tudo é preciso procurar modos de tirá-la do cativeiro e justificar que ela nasceu livre. Mas já vai ficando tarde, e sinhô Morais não pode tardar por aí. Amanhã nós precisamos conversar para ver como se há de arrumar isso, ouviu sinhá — sinhá!

A preta tomou a bênção e retirou-se. Daí a pouco chegou o senhor Morais, que fatigado dos passeios tratou imediatamente de deitar-se, e em breve adormeceu profundamente.

Adelaide porém com o espírito superexcitado pelo singular e estranho acontecimento que acabava de lhe ser revelado, não podia conciliar o sono. Por três vezes levantou-se e tomando a lâmpada, que ardia sobre um bufete, enquanto todos dormiam, dirigia-se pé ante pé para o quarto de Rosaura, e ali sentando-se de mansinho à beira da cama da menina adormecida ficava por longo tempo a contemplar-lhe o rosto angélico que lhe despertava n’alma recordações a um tempo tão triste e tão suaves. Da terceira vez, que lá foi, o semblante da gentil escrava apresentava um aspecto ainda mais risonho e encantador; um sonho celestial parecia iluminar-lhe a fisionomia.

Adelaide a contemplava absorta e enlevada, e a muito custo continha-se para não estreitá-la nos braços e cobri-la de beijos. Dir-se-ia que a filha, apesar de ter os olhos cerrados, estava vendo com os olhos d’alma o rosto da mãe, que a contemplava, procurava sorrir-lhe e se esforçava por lançar-lhe ao colo os braços entorpecidos pelo sono. De feito passados alguns instantes os braços de Rosaura fizeram um pequeno movimento para se erguerem, e a rosada boquinha entreabriu-se mostrando os alvos dentes num sorriso cheio de carícias e meiguice. Adelaide não pode conter-se; abaixou o rosto sobre o de Rosaura, e a mãe em um assomo de inefável ternura encostou sua boca à da filha, colheu nos lábios dela aquele angélico sorriso, como o colibri colhe a gota de mel no cálice de uma rosa.

Rosaura acordou e abriu os olhos; mas já Adelaide, medrosa como o amante que tivesse furtado um beijo à amada adormecida, tinha apagado a lâmpada rapidamente e se esgueirado para sua alcova.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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