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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 25 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo VI: Um sonho realidade

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A descoberta que Lucinda acabava de fazer, havia colocado Adelaide na mais singular e complicada situação. O vivo prazer que experimentava vendo sua filha como que ressuscitada, e além disso crescida, vigorosa e bela como um anjo, era contrabalançado por considerações que o leitor bem pode avaliar. Tinha sua filha em casa, é verdade, mas como escrava, como propriedade, como um móvel. Era-lhe possível talvez libertá-la à força de instâncias e súplicas para com seu pai e seu marido e depois conservá-la por tempo indefinido em casa junto a se, mas como liberta, e não como filha, não como irmã de seus outros filhinhos. Bem se vê que isto só poderia suavizar um pouco a sorte da infeliz enjeitada, mas seria dolorosíssimo para um coração materno. Era mister ao menos que se verificasse que Rosaura, — embora não se declarasse ser filha de Adelaide, não nascera cativa, e que só um cruel e inexplicável destino a fizera passar por tal, e como tal ser vendida de mão em mão. Demais, esse fato de que somente Adelaide e Lucinda se achavam intimamente convencidas, não estava comprovado, senão pelos indícios, aliás robustíssimos, em que se firmara a velha escrava. Essas provas porém não eram ainda peremptórias, e não constituíam senão presunções muito fortes em favor da suposição de Lucinda. Sem algum documento escrito, sem alguma justificação irrefragável, essa suposição podia cair por terra, como mero embuste de negra velha, e a condição de escrava da pobre Rosaura, não tendo nenhum fundamento sólido para ser contestada, nem ao menos poderia ser posta em litígio. Não eram porém só esses os maiores embaraços, com que lutava o espírito atribulado da pobre senhora. Mesmo que Rosaura fosse reconhecida livre e nascida de pais livres, jamais poderia ser reconhecida como sua filha, sem que se revelasse a nódoa do seu passado, e sem incorrer no desprezo e talvez no ódio de um e outro. Poderia ela confessar a um ou a outro a sua falta com esperança de obter indulgência e perdão?... Era principalmente para com o esposo que a posição de Adelaide se tinha tornado uma das mais difíceis e angustiosas, que se pode imaginar. Confessar ao marido uma falta, que há mais de doze anos lhe havia ocultado, era um passo arriscadíssimo, a que jamais se abalançaria. Tinha vergonha, e também muito medo da cólera do marido. Quando se ama uma mulher, que se julga pura, o ciúme não perdoa nem mesmo as fraquezas do passado. Lutando com estas angústias do coração e perplexidades do espírito, Adelaide, que nem um momento adormecera, esperou ansiosa o alvorecer do dia. Rosaura com um semblante risonho e tranquilo foi a primeira que lhe veio pedir a bênção. Adelaide olhou para ela com enternecimento e alegrou o coração da pobre menina. Adelaide esperava com impaciência uma ocasião oportuna, em que achando-se a sós com Lucinda, se aconselhasse com ela a fim de combinar os meios de salvar Rosaura das garras do cativeiro e fazê-la reconhecer como livre de nascimento sem comprometer a honra de Adelaide; sem revelar o triste acontecimento, que até ali felizmente havia dormido na sombra do mais profundo mistério. Temos falado muito de Lucinda, e temos visto ela fazer um papel importante nesta história sem lhe darmos o devido apreço. Era uma crioula velha, que havia amamentado sinhá Adelaide, e que a queria como filha. Tinha muito juízo, muito boa alma e muito boas intenções. Além disso a velha crioula era dotada de tal ronha, penetração e finura para negócios difíceis, como os de que vamos tratando, que faria inveja ao mais hábil diplomata. Lucinda porém diferia dos diplomatas em só empregar o seu talento a bem da paz e da prosperidade da família, de que fazia parte, e não em multiplicar dificuldades alimentando o espírito de discórdia. Rosaura, que tinha acordado alegre e risonha com um passarinho, que saúda uma bela aurora, apenas tomou a bênção à Adelaide, correu logo a tagarebar com Lucinda.

— Tia Lucinda, não sabe?... tive esta noite um sonho, o mais bonito deste mundo, um sonho, que me fez chorar de alegria.

— Deveras, menina!... bem bom é isso. Então que foi?...

— Adivinhe, tia Lucinda.

— Não sou adivinhadeira... mas de certo você sonhou com os anjinhos do céu, minha menina. Que mais podia você sonhar?...

— É quase isso mesmo, tia Lucinda. Eu sonhei que estava debruçada na janela olhando para o céu. Era de noite. Eu estava namorando as estrelas...

— Bonito namoro, — interrompeu a crioula, — de certo elas também te estavam namorando.

— Comecei a lembrar-me de minha mãe, que já morreu, — continuou a menina sem dar muita atenção à lisonjeira réplica da crioula, quando uma nuvem cheia de luz se apresentou no céu mesmo defronte de meus olhos. Esta nuvem veio descendo pouco a pouco até chegar bem perto de mim. Dentro dela vinha uma mulher. A princípio fiquei com medo; mas essa mulher tinha um ar muito meigo, e disse-me com brandura:

— Minha filha, não chores mais tua mãe; eu não morri, não; fui ao céu, e agora volto para ficar contigo. Se ela não tivesse dito que era minha mãe, eu não a conhecia. Era uma mulher muito mais moça e muito mais bonita que a defunta mamãe. Tinha os cabelos bem compridos e soltos, e a cor mais clara. Queria abraçá-la, mas não podia; ela chegou bem pertinho e deu-me um beijo na boca. Acordei, mas até agora ainda me parece que estou sonhando aquele sonho.

— Deveras! — disse Lucinda; e quem sabe, se esse sonho não era verdade!

— Como!... isso não é possível!...

— Deixa estar minha menina; esse teu bonito sonho é ao menos de muito bom agouro.

— Deus o permita, tia Lucinda.

Neste momento apareceu Adelaide, e depois de ter encarregado a Rosaura de cuidar do almoço, chamou Lucinda a seu quarto. O marido e o pai tinham descido para a loja; os meninos alegres e descuidosos brincavam pela casa. Lucinda antes de tudo contou à sua sinhá o sonho de Rosaura.

— Que singular coincidência! — exclamou Adelaide comovida até o íntimo da alma. Havia de ser por certo no momento, em que eu estava perto dela alumiando-lhe o rosto, e que ela riu-se para mim sonhando, e eu beijei-lhe a boca.

— Ah! minha sinhazinha!... que me está dizendo? isso é deveras?...

— É a pura verdade, Lucinda; fui por três vezes com a luz na mão espiar o sono de... de minha filha, sim de minha filha; hoje estou certíssima de que Rosaura é minha filha.

— E sinhazinha não está vendo que aí anda o dedo de Deus. Bem estava eu dizendo ainda agora a Rosaura que aquele sonho tão bonito bem podia ser uma verdade; e era mesmo, mais do que eu pensava. Essa mãe, que não morreu, e que ela estava vendo, quem era mais senão sua mãe verdadeira, senão sinhazinha mesmo?

— É isso, Lucinda; parece que Deus por fim se compadece de mim, e nos quer favorecer, e tenho esperança de que Rosaura ainda há de ser muito feliz. Mas vamos ao que agora mais importa; o que havemos de fazer a bem de Rosaura? pensaste nisso, Lucinda?

— Ah! sinhazinha, eu banzei a noite inteira parafuzando na imaginação um modo de arranjar isso, sem que sinhazinha fique mal, e só achei um furo.

— Qual é ele? fala, Lucinda.

— Talvez sinhazinha não ache bom mas eu não vejo outro remédio.

— Não tenhas receio, fala, Lucinda; para conseguir a liberdade e fazer a felicidade de minha filha, estou disposta a tudo.

— Está direito, e mesmo eu penso que é de nossa obrigação fazer o que me veio cá na ideia.

— O que é então, Lucinda? estou impaciente por saber.

— Sinhazinha sabe que sinhá Rosaura não é sua só...

— Pois de quem mais é?

— Ui sinhazinha!... pois não é também de nhô Conrado?

— Ah! por certo, — respondeu Adelaide corando e baixando os olhos.

— Nesse caso nós devemos participar tudo a ele. Se ele não puder nos guiar e ajudar neste negócio, ninguém mais. Ele é rico, e tem muito boas amizades na terra; e demais sinhazinha bem pode imaginar, quanto ele é capaz de fazer sabendo que tem uma filha linda e mimosa, e que essa filha está no cativeiro.

— Tens muita razão, Lucinda; e eu que nem nisso havia pensado! mas a falar-te com franqueza repugna-me bastante dar esse passo. Não vá ele agastar-se comigo, ficar nos tendo ódio e desprezo por termos enjeitado a menina, e no excesso de sua indignação revelar tudo a meu pai e a meu marido, e expor-me à vergonha e desprezo de todos aqui. Ah! Lucinda, tenho muito medo.

— Nem pensar nisso, sinhazinha; eu conheço muito nhô Conrado; ele é incapaz disso. Tem muito bom coração aquele moço, e bastante juízo para ver que sinhazinha não podia criar sua filha. O que depois aconteceu, não foi por culpa nossa.

— Mas ele de certo me há de ter ódio por ter-me casado com outro.

— Qual ódio, sinhazinha! então ele não há de saber que aqui correu como certo que ele tinha morrido! Por fim de contas não vejo senão ele, que pode e deve amparar a pobre Rosaura. Deixa tudo por minha conta, sinhazinha; hoje mesmo eu vou conversar com nhô Conrado; primeiramente hei de sondar ele com jeito, e depois se eu perceber nele boa disposição, como espero, conto-lhe tudo sem esconder nem disfarçar coisa nenhuma. Sinhazinha me manda hoje de tarde à rua para qualquer serviço, e eu vou direitinho à casa de nhô Conrado, e logo de noite lhe venho dar conta do que se passar.

— Pois sim, Lucinda; agora compreendo que é indispensável fazer tudo quanto dizes; eu, fraca mulher, nada posso fazer em benefício de minha infeliz filha. Ele é pai, deve e pode fazer tudo. Deus nos há de favorecer, Lucinda; confiemos nele.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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