Universo da obra
Universo da obra
Lucinda contou minuciosamente a Conrado tudo, o que havia sucedido em casa do major desde a época em que aquele repelido com brutal tenacidade em suas pretensões à mão de Adelaide vira-se forçado a retirar-se de São Paulo. Informou-o das rigorosas medidas e precauções que o major tomara a fim de interceptar toda e qualquer comunicação entre os dois amantes, de modo que não lhes foi possível nem mesmo fazê-lo sabedor do grave e melindroso estado em que se achava Adelaide. Se não fosse a dilatada e oportuna viagem que fizera o major, e os cuidados e precauções tomadas por ela, Lucinda, não sabe o que teria sido da honra e mesmo da vida da pobre sinhá, que teria talvez sucumbido vítima da cólera do pai.
Narrou-lhe como em uma noite Adelaide, assistida unicamente por ela, tinha dado à luz com feliz sucesso uma linda e vigorosa menina, que nessa mesma madrugada pela deplorável necessidade das circunstâncias expôs ocultamente em casa de uma vizinha, conhecida pelo nome de Nhá-Tuca, que passava por uma senhora honesta e caridosa. Em casa desta mulher ficava-lhes fácil velar sobre a sorte da criança, ter frequentes notícias dela, socorrê-la por meios ocultos e indiretos, e vê-la mesmo de quando em quando, sem suscitar desconfianças; que nesse mesmo dia porém indo à casa de Nhá-Tuca colher disfarçadamente alguma notícia da enjeitada, soube que tinha morrido, e vendo em uma sala o cadáver já amortalhado de uma criança recém nascida, acreditou piamente, que era o da filha de Adelaide. Voltou a casa com essa triste nova. Passaram-se dois anos, sem que recebessem notícia alguma de Conrado, até que correu em São Paulo como certa e confirmada por todos a notícia de seu falecimento. Adelaide passou mais dois anos de tristeza e abatimento, deplorando a perda do amante e da infeliz filhinha, recusando alguns casamentos vantajosos, até que enfim se resolveu, não sem alguma relutância, a casar-se com o senhor Morais, do qual tem tido até o presente quatro filhinhos. A primeira, linda menina, por nome Estela, que é o mimo da casa, e o ídolo dos pais e do avô, mostrou ultimamente com insistência o desejo de possuir uma mulatinha, que lhe servisse de mucama, que a acompanhasse à escola, à missa e os passeios. O avô, que se desejava adivinhar os pensamentos da netinha, deu ordem franca ao genro para procurar e comprar, fosse por que preço fosse, a mais linda mulatinha, que pudesse encontrar. O senhor Morais, depois de muito procurar, acertou de encontrar com efeito a mais linda jóia que se pode imaginar, comprou para escrava de sua filha a filha de sua mulher, a irmã de seus filhos!... quem tal creria! É uma menina branca, mimosa, rosada e linda como um anjo, — dizia Lucinda. — Tem cabelos soltos, pele fina... encheu as vistas e fez a admiração de toda a gente de casa... os meninos, coitadinhos, sem saberem que ela é irmã deles, já lhe querem muito bem, por que ela não só é bonita como muito boazinha. Conrado mal respirava ouvindo esta tôsca mas fiel descrição de sua filha. — Basta, Lucinda, basta! interrompeu ele impacientado,
— agora só quero que me digas por que meio descobriste que essa menina é a filha de Adelaide. Lucinda continuando revelou a Conrado as desconfianças, que lhe haviam atravessado o espírito ao observar a notável semelhança que as feições de Rosaura tinham com as de Adelaide e mais ainda com as de Conrado. Por fim contou-lhe como havia adquirido a certeza de que Rosaura era a filha de Adelaide, em razão do sinal que na véspera havia descoberto no peito da menina, e por certas perguntas que tinha feito, e cujas respostas combinavam perfeitamente com suas suposições.
— Deus me perdoe! — concluiu ela, — se juro falso... mas posso... devo jurar... juro que Rosaura é a filha de sinhá Adelaide, que fizeram batizar como escrava. Conrado escutou com a mais profunda atenção a longa narrativa, que a preta lhe fez em linguagem simples e expressiva, e de que demos um rápido resumo, por já ser conhecida do leitor. Ele conhecia bem Lucinda, essa boa e fiel escrava, que criara Adelaide com o leite de seus peitos, e que sempre lhe fora tão dedicada. Não lhe era possível duvidar de suas depoimentos. Apenas a interrompera uma ou outra vez com interjeições de pasmo ou de dó, de despeito ou de cólera.
— Oh! meu Deus! meu Deus! — exclamou ele, quando Lucinda terminou. — Minha filha escrava! escrava de outros!... e por fim ser vendida à sua própria mãe!... Ah! maldito major! tu só és responsável perante Deus e a humanidade de tão estranha desventura. Foste tu, e mais ninguém, que reduziste tua neta à condição de escrava. Mas eu juro por Deus e por tudo quanto há sagrado, minha filha, a filha de Adelaide, em poucos dias será reconhecida livre, como nasceu, e não como liberta, custe o que custar, dinheiro, lágrimas, sangue mesmo, se for preciso, Lucinda; tu bem vês, Deus nos favorece, e tu tens sido em tudo isto o instrumento da sua providência.
— Sim, nhô Conrado; ao menos assim parece; mas tenha dó de sinhá Adelaide; não a ponha a perder; ela, coitada, não tem culpa de nada.
— Sim, Lucinda, bem sei, e não quero comprometer a honra e reputação de que goza Adelaide; mas não sei... se isso será possível... Dize-me uma coisa; ainda existe essa mulher, chamada Nhá-Tuca.
— Não lhe sei dizer, nhô Conrado. Pensando que a enjeitada tinha morrido deveras, não me importei mais com tal mulher; nunca mais fui por aquelas bandas, e nem tenho perguntado por ela a ninguém.
— Mau! — disse Conrado estremecendo; — se ela não é viva a coisa não está muito bem parada. Só ela poderia desembrulhar este mistério e converter em certeza o que por ora não passa de uma conjetura.
— Não se aflija, nhô Conrado; bem pode ser que ela ainda viva na mesma casa. Amanhã vou saber.
— Pois sim, Lucinda; vê modos de lá ir o mais breve, que te for possível, e verificar se é viva ou não essa mulher. Ajuda-me nesta empresa; eu não posso ter nem mais um instante de sossego, enquanto não vir minha filha restituída à condição em que nasceu, à sombra deste telhado partilhando comigo destes bens, que deu-me a fortuna; vai, eu saberei recompensar os teus serviços.
— Ah! nhô Conrado! pois é preciso paga?... pois ela também não é o mesmo que minha filha? não basta a alegria, que eu hei de ter? deixe-se disso, nhô Conrado; sua escrava está pronta para tudo que mecê determinar.
Amanhã é domingo; costumo sempre ir ouvir missa em Santa Ifigênia, e tenho de ir à chácara. Da chácara à casa de Nhá-Tuca é um pulo. Amanhã pela tardinha, às mesmas horas que hoje vim, aqui estou para dar parte a mecê do que souber.
— Aqui te espero. Se por felicidade ainda ela for viva, exista ela onde existir, irei imediatamente procurá-la, e com um punhal em uma das mãos e uma bôlsa bem recheada na outra, forçá-la-ei a vomitar a confissão da execrável atrocidade, que cometeu. Mas antes disso irei amanhã mesmo, vencendo minha repugnância, cruzar a soleira daquela casa, sepulcro de minha felicidade, e proporei ao tal senhor Morais a compra de sua escrava; não quero que ela continue nem mais um só dia no cativeiro. Vou comprar minha filha a peso de ouro!... Depois tratarei de provar aos olhos da sociedade que ela nasceu livre.
— Ah! nhô Conrado, eu acho que sinhô Morais não vende a menina nem por quanto ouro há neste mundo.
— Julgas isso!... pior para ele. Declararei que Rosaura é minha filha, e como pai tenho o direito de reclamá-la. Se nem assim quiser cedê-la, lhe direi que tenho certeza de que nasceu de mãe livre, o que tratarei de provar perante os tribunais, ainda que para isso seja preciso despender tudo quanto possuo.
— Mas sinhá Adelaide!... coitada!
— Não tocarei no nome de Adelaide; minha boca jamais revelará quem é a mãe de minha filha, salvo no caso que isso seja absolutamente necessário.
— Permita Deus que não seja.
— Neste caso é bem triste a colisão em que me verei, — entre a honra de uma mulher, que amei, que amo ainda, e a liberdade de minha filha!... Que partido posso eu tomar? A própria Adelaide, creio eu, não hesitará em confessar sua falta, se assim for preciso para arrancar sua filha ao cativeiro.
— É assim mesmo, nhô Conrado; é uma lástima; mas tenho fé que Deus não há de permitir que isso seja preciso. Lucinda voltou para a casa contentíssima pelo feliz resultado da comissão de que se havia encarregado. Ao ver que Conrado nenhum rancor guardava contra Adelaide, e que pelo contrário só tinha para com elas palavras de afetuosa ternura e de triste e saudosa recordação, seu coração nadava em júbilo. Apressou-se em comunicar tudo à sua senhora, que sentiu acudirem-lhe aos olhos lágrimas de enternecimento, e estremeceu em sua consciência de honesta e leal esposa, receando que se ateassem de novo debaixo das cinzas as mal extintas chamas de seu primeiro amor. Se bem que contente e esperançada pelo modo por que as coisas se iam encaminhando, bem mal dormida passou Lucinda essa noite, atormentada pela incerteza de achar ou não viva Nhá-Tuca, esperando com a mais viva impaciência o alvorecer do dia.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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