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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 31 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo XII: Frei João de Santa Clara

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Conrado, chegando à cidade, apenas parou um momento à porta de sua casa para dar ordem a seu pajem de selar o animal mais manso que houvesse na cocheira, e levá-lo imediatamente ao convento do Carmo, onde ia esperá-lo. Achava-se então em São Paulo hospedado no Convento de sua ordem, um frade carmelita, por nome Frei João de Santa Clara, distinto por suas virtudes e seu grande saber. Pregador exímio e teólogo profundo, este não tinha passado seus dias vegetando em piedoso ócio e pisando mansamente os santos ladrilhos com o breviário na mão à sombra das severas abóbadas do claustro. Tinha percorrido quase todas as províncias do Brasil, missionando já entre populações civilizadas, já entre aldeias de indígenas em serviço de catequese. Era também por vezes encarregado pelo Geral da Ordem de árduas e importantes comissões, e era em virtude de uma destas que se achava então em São Paulo. Suas virtudes não consistiam meramente na prática desses exercícios ascéticos, que seus confrades de ordinário tanto alardeiam mais para se imporem à veneração do vulgo, do que por verdadeiro espírito de penitência e mortificação. Tolerante, benévolo e afável para com todos, nada tinha dessa exterioridade ríspida e austera, que constitui o caráter essencial do frade. Era ameno e singelo na conversação, e entregava-se sem escrúpulo aos prazeres lícitos e compatíveis com o seu estado. Pertencendo a uma importante e abastada família da Bahia, renunciara a todas as vantagens que lhe proporcionavam o nascimento e a fortuna, e tomara o hábito em virtude de uma vocação sincera posta à prova por longo noviciado. Era portanto Frei João de Santa Clara um monge moldado pelo tipo sublime dos Boaventura, Francisco Xavier, Luís de Gonzaga e Vicente de Paula. A figura de Frei João estava em perfeita harmonia com sua natureza. Porte elevado, feições corretas e suaves, fisionomia nobre e expansiva, maneiras singelas, mas delicadas, um timbre de voz claro e sonoro tornavam-no um personagem altamente simpático, que logo à primeira vista conquistava a afeição e respeito de todos. Todavia, não obstante a moderação e brandura de seu caráter, não lhe faltava energia e severidade, quando assim era mister, quer na linguagem, quer nas ações. A idade de Frei João orçava então pelos quarenta e cinco anos, e tanto no porte como no semblante reunia ao viço e ao vigor da juventude, a gravidade e sisudeza da idade madura. Quando Conrado esteve no Sincorá, também aí se achava Frei João missionando, e teve então aquele ocasião de travar relações com o carmelita, relações que em breve se converteram em laços de recíproca estima e amizade. Quando o frade chegou a São Paulo, onde na época dos acontecimentos, que vamos narrando, se achava há cerca de um mês, Conrado foi um dos primeiros que apressou-se em visitá-lo e oferecer-lhe seu préstimo e seus serviços. Frei João folgou muito de encontrar o seu jovem conhecido e amigo de outrora em tão próspera e brilhante posição, e como não tinha senão mui poucas relações em São Paulo, começaram ambos a frequentar-se com assiduidade, e os laços da antiga amizade se reataram talvez com mais força e intimidade ainda. Nenhum sacerdote pois estava em melhores condições para ser o confessor de Nhá-Tuca, e auxiliar a Conrado no melindroso negócio em que se achava empenhado. Além de ser homem de consumada prudência e discrição, e um sacerdote respeitável por possuir em grau eminente todas as virtudes peculiares ao seu estado, era seu amigo. Conrado apeou-se à porta do Convento do Carmo, subiu as escadas e foi direito à cela de Frei João. Não pense o leitor que os conventos em São Paulo na época a que nos reportamos, eram ainda, como outrora, claustros ou mosteiros regulares, com bom número de frades, com seu competente abade ou prior, mantendo todo o rigor da disciplina monástica, salmeando todos os dias em horas próprias matinas, laudes e vésperas. Não; já nesse tempo os dois conventos, que eram propriedade monacal, e creio que ainda o são os do Carmo e de S. Bento, eram apenas habitados por dois ou três frades, servindo de guardiães a esses imensos edificios desolados, tristes e mergulhados em silêncio tumular. Esses frades tinham também às vezes por companhia algum estudante, que por escassez de meios ou por qualquer outro motivo lá era admitido por especial favor a partilhar o pão e o teto das ricas confrarias. Portanto não se admire o leitor ao ver Conrado subir sem a menor cerimônia as escadas do convento e dirigir-se à cela que lhe era mui conhecida, ocupada por Frei João. Não causou estranheza ao frade o aparecimento inesperado de Conrado, que em razão da intimidade batia-lhe no aposento sem se fazer anunciar; mas quando o mancebo lhe declarou o motivo que naquela ocasião ali o trazia, e a natureza do serviço que vinha pedir-lhe, não deixou de ficar algum tanto surpreendida. Em casos tais, — disse ele, fosse quem fosse, que viesse reclamar de mim um tal serviço eu não saberia recusá-lo. Mas, — continuou com sorriso quase imperceptivel, — permita-me que lhe diga, meu amigo, ao que me parece, não é só espirito de caridade que o faz procurar-me com tanta sofreguidão, deixando em caminho o cura da freguesia, que é quem tem obrigação de acudir com os sacramentos, e tantos outros padres, que aí os há com fartura em uma cidade episcopal. Tendes talvez algum interesse particular nesse negócio, e eu não devo ignorá-lo.

— Oh! sem dúvida, e nem tenho intenção de ocultá-lo, — respondeu Conrado com vivacidade, — a pressa é que me não permite explicar-me desde já. Tenho nessa confissão um interesse do mais subido alcance para mim. A velha tem de fazer uma declaração da qual depende o sossego e felicidade de toda a minha vida.

— Ah!... o negócio então é mais que sério. Pretendo por conseguinte exigir dessa mulher uma confissão pública.

— Sim, meu amigo.

— E ela se prestará?,..

— Acabo de estar com ela; está talvez mais disposta e mais impaciente do que eu, porque essa declaração é de absoluta necessidade para a reparação do mal que ela fez. Mas ela acha-se nas extremas entre a vida e a morte; não temos tempo a perder; avie-se, que daqui a um instante chegará a sua cavalgadura, e de caminho lhe contarei toda essa história. De feito; enquanto Frei João calçava suas botas pretas de couro de mateiro com esporas de ferro, e tomava o chapéu de fêltro com abas largas, o pajem de Conrado chegava à porta do convento trazendo pelas rédeas um lindo cavalo escuro completamente ajaezado. O palafrém, posto que fosse mui bem doutrinado, era vivo e ardente.

— O maldito! — gritou Conrado para o pajem, não te recomendei que trouxesses um animal bem manso?...

— Pois este ainda é chucro? — perguntou sorrindo o frade.

— Não, respondeu Conrado; mas é tão fogoso!...

— Não se importe com isso; não sou tão mau cavaleiro como pensa. E de feito o frade ganhou a sela com tal presteza e agilidade, e soube sofrear e dirigir o irrequieto animal com tal garbo e desembaraço, que faria inveja ao mais hábil picador. A sotaina e o grande chapéu em nada prejudicavam a habilidade e gentileza do guapo cavaleiro.

— Na verdade, — exclamou Conrado, — V. Rev.ma é um homem admirável; além de ser o ornamento de sua classe, tem as qualidades do homem do mundo mais amável e elegante que se pode imaginar.

— Hábito e natureza, meu caro, — respondeu o frade com volubilidade; sempre tive gosto pela equitação; a necessidade de viajar continuamente me tornaram perito na arte.

Puseram-se a caminho. O leitor que já visitou São Paulo sabe que o convento do Carmo acha-se situado na extremidade da cidade do lado oposto àquele a que os dois cavaleiros tinham de dirigir-se. Tiveram pois de atravessar toda a cidade na melhor marcha de seus cavalos sem poderem conversar em razão do tumulto das ruas. Felizmente não era extenso o trajeto da então pequena cidade, e logo que transpuseram a ponte do Macu, e penetraram no bairro mais silencioso e deserto de Santa Ifigênia, Conrado, retardando um pouco o passo do animal, começou a dar conta a Frei João do ponderoso motivo que o levara a chamá-lo para aquele mister. Narrou-lhe com toda a sinceridade e franqueza, como se estivesse no tribunal da penitência aos pés do confessor, os fatos capitais que o leitor já sabe e constituem o assunto desta história, sem preterir circunstância alguma importante. Contou-lhe com toda a lhaneza o amor que desde a infância concebera pela filha de seu antigo patrão; os esforços sobre-humanos que fizera para tornar-se digno dela; a falta em que a cegueira do amor, e a imprudência e ardor da mocidade o fizera incorrer; a invencível obstinação, com que o filaucioso velho manteve-se na negativa, perseguindo-o por esse motivo encarniçadamente e até ameaçando-lhe a existência, pelo que viu-se obrigado a retirar-se por longo tempo de São Paulo sem poder ter a menor comunicação com sua amante; a ignorância, em que até àquela data estivera, da existência de sua filha, fato de que só na véspera tivera conhecimento por intermédio de uma escrava, que por um feliz acaso o descobrira; como essa filha fora batizada como escrava pela mulher, que Frei João ia confessar, e nessa condição se achava até àquela data tendo sido ultimamente, por um estranho capricho da sorte, vendida à sua própria mãe.

— Agora, — concluiu Conrado, — já o meu amigo compreende o alto interesse que ligo à confissão dessa desgraçada velha, que por grande favor do céu ainda encontrei viva, e o motivo, porque o procuro, não só como sacerdote, mas também como amigo a fim de coadjuvar-me no desempenho de uma missão, que é para mim um dever sagrado. Conto que não só nesta confissão, como em outros passos que terei de dar para ser reconhecida a verdadeira maternidade de Rosaura, o meu amigo não me recusará o auxílio de suas luzes e de sua influência. O frade ouviu a narração de seu amigo com a maior atenção, e apenas o interrompera poucas vezes com interjeições de interesse e de surpresa. Por indiferente que me fosse a pessoa que reclamasse de mim um serviço dessa ordem, — respondeu Frei João, — não me era lícito recusá-lo, quanto mais a um amigo a quem tanto desejo ser útil. Na verdade, a história, que acaba de contar-me, é um drama contristador, e contém as mais severas e terríveis lições. Ainda bem que com o favor de Deus tenho esperança de levá-lo a um desfecho feliz e satisfatório para todos. É ainda um episódio palpitante de interesse e de triste originalidade, que nos vem mostrar bem ao vivo os singulares e funestos resultados a que nos pode arrastar essa desumana e degradante instituição da escravatura, que para vergonha nossa ainda subsiste no país. Entretanto noto que a divina Providência como que tem querido proteger por um modo manifesto a sua Rosaura, dirigindo os acontecimentos por tal sorte que em breve se revelará em plena luz a verdadeira origem da menina. Repare o meu amigo como tudo vai se combinando, e como que conspirando para esse feliz resultado!... A venda de Rosaura à sua própria mãe foi um fato providencial. Se Deus quis por esse estranho meio colocar em contato essas duas criaturas, que pertenciam uma a outra, e conservar até hoje a vida a essa desgraçada mulher que reduziu a menina à escravidão, foi por certo para esse grande e misericordioso desígnio. Vamos, meu amigo, apressemos o passo. Estou ansioso por ver chegado a um próspero desfecho este singularíssimo drama.

Neste ponto da conversação já estavam à vista da casa do taverneiro francês, onde foram apear-se.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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