Universo da obra
Universo da obra
No quarto da moribunda havia dois tamboretes, um colocado junto à cabeceira, outro aos pés do pobre girau. Havia também defronte do leito uma mesa pequena e tosca, sobre a qual estava colocado um crucifixo de madeira entre duas velas acesas; assim como também um tinteiro, pena e papel. A enferma, graças aos cuidados do francês, que conforme as recomendações de Conrado, além de ter mandado arejar o aposento e mudar a roupa da cama, tinha-lhe enviado um caldo e um cálice de vinho, achava-se mais reanimada. Estava ela meio sentada, e encostada a alguns travesseiros. Conrado fez Frei João sentar-se à cabeceira, e ele mesmo colocou-se aos pés da cama da enferma. O francês e as outras duas testemunhas, por não haver mais assentos, ficaram em pé defronte do leito.
— Senhora Dona Gertrudes, — disse Conrado, com um acento de voz pausado e brando, de modo que tranquilizasse a enferma, — prometi trazer-lhe um confessor: venho cumprir a minha promessa. Aí está em sua presença o Sr. Padre Frei João de Santa Clara, digno e virtuoso sacerdote, que está pronto a ouvi-la de confissão, e absolvê-la de seus pecados.
A velha voltou a custo o rosto para o padre, depois, levando lentamente sobre o coração a destra mirrada em sinal de gratidão e reverência o saudou com uma leve inclinação de cabeça.
— Tenha piedade de mim, senhor padre, murmurou com voz seca e alquebrada.
— É a misericórdia divina, e não a minha, que a senhora deve implorar, respondeu brandamente Frei João, — É Deus, e não eu, que tem de julgá-la.
— Sim é ele,... bem sei; mas minhas culpas são tantas e tão enormes...
— Embora. Se a senhora tem verdadeira contrição e arrependimento de seus pecados, por muitos e enormes que sejam, deve ter firme esperança de que Deus se amerceará de sua alma. Há porém um ponto de sua confissão que este meu amigo, que aqui me trouxe, deseja que seja feito em voz alta e em presença das testemunhas, que aqui nos achamos, e tomada por escrito, a fim de remediar um grande mal, que a senhora fez, reduzindo à escravidão pessoa livre. Recorda-se desse fato?...
— Oh! sim! muito! para vergonha minha e tormento de minha alma.
— E está pronta a declará-lo em voz alta perante nós, que aqui estamos?
— Pronta, senhor padre; pronta para tudo.
— Pois bem, faça em primeiro lugar conscienciosamente e com toda a sinceridade a declaração desse fato com todas as circunstâncias, de que se lembrar. Depois a ouvirei em confissão particular e secreta.
— É verdade, senhor padre; foi um crime abominável que cometi... Graças a Deus, que ainda me dá tempo de remediá-lo nesta hora derradeira.
A velha em seguida fez com voz débil e arrastada a narração minuciosa da fraudulenta manobra, que já conhecemos, e por meio da qual reduzira à escravidão a filha de Conrado e Adelaide. Frei João redigiu e ditou, e o francês escreveu a seguinte declaração:
« Eu Gertrudes Maria dos Anjos, natural de Mogi-Mirim, província de S. Paulo, achando-me em artigo de morte e prestes a entregar minha alma ao Criador, em confissão pública, que de viva voz e de livre vontade faço perante o Rm.º Sr. Padre Frei João de Santa Clara, e mais testemunhas, para desencargo de minha consciência, salvação de minha alma, e reparação do mal causado, declaro que na noite de dezoito para dezenove de novembro de mil e oitocentos e quarenta..., uma escrava minha deu à luz uma menina, a qual faleceu logo depois de nascida.
Nessa mesma manhã, ao romper do dia, encontrei exposta em minha porta uma menina recém-nascida, que substituí à criança morta, fazendo-a passar pela filha da escrava, e dizendo que a enjeitada é que tinha morrido. Esta enjeitada foi batizada na Igreja de Santa Ifigênia como escrava minha com o nome de Rosaura, e como tal foi conservada em meu poder até a idade de dez anos, sendo então vendida por mim a um senhor Basílio, morador na rua do Tabatinguera. ignoro o que depois foi feito dela. S. Paulo, 2 de novembro de 184...
Esta espécie de termo, declaração, depoimento, ou como melhor se possa chamar, foi lido à enferma, que o julgou conforme ao que tinha declarado, e em ato contínuo assinado por Frei João e as outras testemunhas. Frei João, para dar maior força e autenticidade àquele importante documento antes de assinar-se, escreveu o seguinte juramento:
« Pelo sagrado hábito que visto, da Ordem dos Carmelitas, juro que a presente declaração foi feita perante mim, tal qual se acha escrita, em ato de confissão pública in articulis mortis.
Concluído este ato, retiraram-se todos, deixando somente o frade para ouvir a penitente em confissão auricular.
É escusado dizer que o fato que constituiu a confissão pública da velha, logo circulou de boca em boca entre os caipiras que cercavam o rancho, e foi discutido, comentado, e apreciado de mil maneiras. Sua curiosidade já em parte ficara satisfeita; já sabiam qual o nobre e generoso motivo, pelo qual o cavalheiro, que ali se apresentara pela manhã, havia mostrado tanto interesse e solicitude pela velha, e feito tantos esforços para que não morresse sem confissão. Não cessavam de elogiá-lo tanto, quanto maldiziam a desditosa velha. Mas restava ainda um mistério, que não podiam penetrar, e que lhes causava no espírito o mais incômodo prurido. Dariam tudo para saberem que laço misterioso havia entre o cavalheiro e a menina batizada como escrava, que lhe merecia tantos cuidados e sacrifícios. De conjetura em conjetura alguns não deixaram de tocar certo no alvo; mas eram meras suposições; a dúvida e o mistério persistiam.
Com grande desgosto de Conrado, que pretendia ir nessa mesma tarde arrancar sua filha às mãos de seus supostos senhores, a confissão da velha teve de durar uma boa hora, tanta era a carga de pecados de que aquela alma trazia carregada a consciência, e que lhe era mister alijar à borda do túmulo para poder subir ao céu.
De profundis exclamavi, — veio murmurando Frei João ao sair do rancho da moribunda.
— Morreu? — perguntou Conrado, que o esperava à porta.
— Sim; morreu. Aquela pobre alma parece que por um supremo esforço se mantinha presa ao corpo para descarregar o peso de suas enormes culpas. Foi recebendo a absolvição e expirando imediatamente.
— Deus se compadeça de sua alma, — disse Conrado.
— Amém, — respondeu Frei João.
Enquanto Nhá-Tuca se confessava, o sol próximo ao ocaso já quase tocava na serra da Cantareira, não entre vapores diáfanos e nuvenzinhas douradas, mas entre negros e carregados bulcões de orlas cor de cobre, que a cada instante se acendiam, e apagavam ao sulcar de mil coriscos. Era a tempestade, que se avizinhava em seu carro impetuoso, impelido pelo sopro dos furacões.
Estava-se já nos primeiros dias de novembro, e nem uma gota de chuva tinha ainda caído do céu sobre a terra ardente e sequiosa. A seca com seu sinistro cortejo de calamidades ameaçava a bela província de S. Paulo, pouco afeita a ser castigada com semelhante flagelo. Já se tinham feito preces públicas, implorando a misericórdia divina; já a milagrosa Imagem de Nossa Senhora da Penha, que tem a sua capela a duas léguas de distância da cidade de São Paulo, tinha sido conduzida em procissão solene desde lá até a Igreja da Sé com grande devoção e atos de penitência.
A tempestade portanto, apesar de avizinhar-se medonha e ameaçadora, foi saudada com gritos de alegria pelo povo, que se achava reunido em torno da cabana de Nhá-Tuca. O vento zunia com fúria diabólica, os coriscos fuzilavam de instante a instante, os trovões estouravam cada vez com mais força, e a chuva começava a despenhar-se em violentas e copiosas rajadas.
Conrado, Frei João e toda aquela gente, que em número de trinta a quarenta pessoas ali se achava desde pela manhã, viram-se forçados a recolher-se atropeladamente à casa do francês. Os cômodos eram bastante acanhados para tanta gente; mas mesmo assim eles em pé, apinhados e acotovelando-se, enquanto lá por fora a tempestade desabava roncando furiosa, falavam em voz alta com a maior franqueza e desembaraço, formando outra tempestade de horripilantes pragas e maldições.
— Aquela mulher era mesmo o diabo que malsinava esta terra; — gritava um. — Foi ela morrer, e a chuva descer. Bendita morte e bendita chuva!
— E mesmo assim, — replicava outro, aquela maldita trazia o demônio na alma, e era preciso um padre santo para mandar o cão tinhoso com a velha e tudo estourar nas profundas dos infernos para a gente ficar livre da seca.
— Abençoado seja o Sr. Frei João de Santa Clara!
A imaginação do povo é sempre propensa a crendices e superstições, e aquele fenômeno, coincidindo com a morte da desgraçada velha, fez com que acreditassem que ela provocando com suas maldades as iras do céu era a única causadora do flagelo, com que Deus afligia aquela terra, e portanto continuavam a maldizer na morte a pobre mulher, a quem na vida já tinham votado ao desamparo e à execração. Assim, a alma de Nhá-Tuca, para onde quer que tivesse de dirigir-se, retirava-se deste mundo entre os roncos da tempestade, e as apupadas e maldições do povo.
O vento impetuoso tinha dilacerado e atirado pelos ares o teto de capim do rancho, deixando o cadáver da mísera velha exposto a todo o vigor do temporal.
— Se até o céu se zanga contra esta mulher, nós é que devemos ter piedade dela?... clamava o povo, e já se dispunha a ir, logo que amainasse a tormenta, atacar fogo ao rancho, a fim de que ardesse completamente com o cadáver da velha e tudo que lhe pertencia.
— Dela, — diziam eles, — não devem ficar sobre a terra nem mesmo as cinzas. Pouco nos custa acender um grande braseiro, que secará a chuva, e amanhã esse maldito rancho e sua dona não serão mais que um punhado de cinza, que o vento levará pelos ares.
E teriam levado a efeito sua intenção, se Conrado e Frei João não os tivessem estorvado, opondo-se com energia a tão cruel profanação.
Quando o temporal cessou de todo, a noite vinha descendo sobre a terra. Aquela chuva, que durou cerca de uma hora, a todos agradou, menos a Conrado, a quem viera tirar a possibilidade de ir, como pretendia, reclamar naquele mesmo dia a entrega de sua Rosaura. Sua impaciência era legítima; quisera que nem mais uma só noite sua filha dormisse debaixo do teto do major; informado por Lucinda, já era sabedor dos contínuos e graves perigos a que ali se achava exposta a pureza e pudicícia da menina. Mas forçoso lhe foi diferir para o dia seguinte a satisfação do seu intento; posto que tivesse cessado a chuva, o céu se conservava nublado, e a noite ia-se tornando escuríssima; isto, unido ao mau estado dos caminhos escavados pelas enchurradas, retardava consideravelmente a marcha dos animais, e não poderiam chegar à cidade senão com noite muito adiantada.
A despeito da escuridão e das dificuldades do caminho, Conrado e Frei João de volta para a cidade, não deixaram de conversar largamente combinando entre se os meios que deveriam empregar, para que sem escândalo e sem lesão da honra e da reputação de Adelaide, Rosaura fosse prontamente reconhecida como livre de nascimento, e entregue a seu pai, Frei João aconselhava a seu amigo que procurasse ser o mais humano e generoso que fosse possível, para com o pai e o marido de Adelaide, os quais, se fosse possível, deveriam ficar em perpétua ignorância da existência dessa neta e dessa enteada. Ponderava-lhe mais que, se eles recusassem entregá-la por meios amigáveis, restava ainda o recurso dos meios judiciais, pelos quais seriam sem remissão forçados a reconhecer a liberdade da menina e largar mão dela.
— É porque o meu amigo não conhece de que têmpera é aquele major Damásio, — respondia Conrado. — É o homem mais teimoso, mais emperrado que o sol cobre. Quando encabeça para um lado, não há força humana que o possa desviar. É como a anta disparada pelo mato, esbarrando furiosamente enquanto obstáculo encontra, e levando tudo de vencida...
— Até que cai em algum poço, e aí, querendo fazer face ao inimigo, é de ordinário vencida e morta.
— É verdade, mas depois de muito acuada e à custa de renhido combate. Mas o meu amigo ignora ainda as perversas e sinistras intenções que o marido de Adelaide tem sobre a minha
— Ignoro certamente.
— Pois saiba que concebeu por ela a mais louca e infrene paixão, e a cada instante emprega todos os meios e artifícios para seduzi-la ou coagi-la, de modo que a infeliz menina a qualquer momento pode ser vítima da fúria libidinosa de seu pretendido senhor. E é bem de crer que quando ele perceber que a presa está prestes a escapar-lhe das garras, redobrará de esforços para levar a efeito seus execráveis desígnios. Eis aí porque não posso resignar-me às delongas dos meios judiciais, sempre morosos e complicados, mesmo nas coisas mais simples. Estou quase certo, que tanto o velho, como o genro hão de recalcitrar com a maior obstinação, e cerrando os olhos à evidência, hão de opor todos os embaraços que estiverem a seu alcance, a fim de obstar a liberdade e a entrega de Rosaura. Creio por isso que não terei remédio senão valer-me do meio pronto e decisivo, com que a Providência armou-me o braço.
— Tens razão de sobejo, meu caro amigo; — replicou o frade; — não sabia que as coisas se achavam em tão melindrosa conjuntura. Não obstante, antes de lançarmos mão desse recurso extremo, convém empregar todos os meios para conseguir a liberdade e entrega da menina sem quebra da honra de Adelaide, sem ir levar a vergonha e a discórdia ao seio de uma família considerada.
— De minha parte, — retorquiu Conrado, — bem estimaria que para seu castigo o major viesse ao conhecimento de todo o ocorrido, pois é ele o primeiro, o único causador de todos estes transtornos; mas a lembrança de que Adelaide, vítima dos caprichos de um pai estúpido e brutal, também irá participar do mesmo castigo, me contém em meus legítimos desejos de vingança.
— Nenhuma vingança é legítima, meu amigo.
— Está bem; mas isto não seria propriamente uma vingança, porém sim um castigo, que Deus lhe infligia por minhas mãos. Esteja porém tranquilo a esse respeito; não empregarei a arma terrível de que disponho, senão em último caso; mas tenho quase certeza de que me forçarão a empregá-la; ver-me-ei na cruel necessidade de invocar o testemunho da própria Adelaide perante seu pai e seu marido.
— Talvez não; o documento que levamos, não pode ser contestado.
— Eles são capazes de contestar a luz ao sol. Veremos amanhã. Às dez horas iremos à casa do major Damásio. Poderá fazer-me ainda este favor?
— Com muito prazer; creio até que a minha presença aí não é somente útil, torna-se mesmo necessária, pois creia que não sossego, enquanto não vir este negócio terminado com o mais feliz resultado. Eu lá estarei para coadjuvá-lo quanto em mim couber, a fim de concluí-lo sem escândalo, e do modo mais pacífico que for possível. Quando tivermos esgotado todos os meios brandos, eu darei um sinal, para que o meu amigo lance mão do extremo recurso.
Neste ponto da conversação os dois amigos entravam na cidade. Acabavam de soar nove horas. Conrado apeou-se em casa, e mandou seu pajem acompanhar Frei João ao Convento e trazer a cavalgadura.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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