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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 34 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo XV: O sogro e o genro

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Esse dia primeiro de novembro de 186... tão cheio de emoções profundas e interessantes peripécias na vida de Conrado, não se escoou também tranquilamente em casa do major Damásio. Desde que Conrado aí aparecera, exigindo do senhor Morais a libertação e a entrega de Rosaura, alegando que ela nascera livre, e declarando que era sua filha, o marido de Adelaide perdeu não somente toda a tranquilidade de seu espírito, como também algum tanto de sua razão. Por mais que se esforçasse por dar pouca importância às declarações do rico capitalista, elas não deixavam de fazer sobre sua alma a mais esmagadora impressão.

O genro do major conhecia a Conrado pela bela e honrosa reputação, de que gozava não só na capital, como em toda a província de S. Paulo. Sabia muito bem que, além de rico, era homem honesto e honrado, incapaz de aleives e manejos torpes.

— Este homem terá decerto algum motivo particular para querer pregar-me alguma peça, — murmurava consigo. — Já fui estudante, e ele sempre foi futrica; talvez eu lhe tivesse arranjado alguma caçoada, de que não me lembro, e para tirar desforra vem-me agora com esta... Mas perde seu tempo; não é a mim que há de fazer engolir araras;.... vá com sua caçoada para mais longe. Decerto o maganão sabe que gosto de Rosaura, e quer me fazer medo...

Com estas e outras estólidas reflexões, que o seu mesquinho espírito lhe sugeria, Morais procurava dissipar a terrível impressão que lhe causara a visita de Conrado; mas era debalde; a figura grave e severa de Conrado, suas palavras firmes e concisas, e o estranho motivo de sua visita eram como visões sinistras, que de contínuo lhe apavoravam a imaginação. Embaraçado com mil conjeturas, que lhe escaldavam o cérebro, não pôde ter-se que não fosse comunicar ao sogro tudo quanto havia ocorrido entre ele e Conrado, esperando que aquele dissipasse a inquietação, que o torturava. O velho, que em razão dos janeiros e das moléstias já começava a tresler seu tanto ou quanto, soltou uma estrondosa gargalhada.

— Pois deveras não sabe ainda quem é esse peralta? — exclamou ele. — Foi meu capataz; fui eu quem lhe deu a mão e o tirou do nada; se não fosse eu, ainda hoje ele estaria em Curitiba, domando burros, ou tocando tropa.

— Isso sabia eu, — respondeu Morais; — mas o certo é que hoje é um homem de importância e bastante rico...

— Rico! ora rico!... não creia nisso, homem. É mais basófia e impostura do que qualquer outra coisa. Anda nos fazendo foscas com suas pataratas de luxo e riqueza só para nos pôr sal na moleira. Se tu soubesses o motivo por que esse biltre nos tem ojeriza, não lhe davas tanta importância.

— Então ele nos tem ojeriza?... dessa não sabia eu.

— Tem, e muita, meu rapaz, e eu já te conto porque. Hás de acreditar que aquele pé de poeira, sendo meu capataz, teve o descoco de apaixonar-se pela nossa Adelaide a ponto de ter o desaforo de pedi-la em casamento a mim, a mim mesmo, que aqui estou?!

— Deveras!?...

— Olé!... sim, senhor!... e com uma petulância e impertinência de espantar. O que vale é que a menina nunca lhe deu confiança, e eu arrumei-lhe com um não redondo à cara.

— Por isso! por isso!... exclamou o genro com alegria aparvalhada.

— Mas o bicho teimou assim mesmo, — continuou o sogro, — e foi-me preciso enxotá-lo pela porta afora para me ver livre dele.

— Por isso! por isso! — exclamou ainda o genro. — Por isso é que ele vem com tamanha arrogância exigir o que não lhe pertence, inventando embustes e patranhas para me embaçar...

— Queres saber uma coisa? — interrompeu o sogro. — Quer me parecer que esse pelintra já conhecia Rosaura, e desejava possuí-la, decerto para seu serralho... o maganão gosta de boas fazendas, e como se acha apatacado, cobiçou a menina, e faz o possível para obtê-la.

— Coitado!... disso está ele bem livre.

— Mas escuta ainda, basbaque. Não tens reparado que Rosaura tem assim certas parecenças com Adelaide, quando era mocinha?

— Oh! se tem!... — murmurou o genro quase falando consigo mesmo. — Pensei que só eu tinha reparado nisso.

Pois é isso talvez que lhe despertou agora outra vez a paixão antiga, e... compreendes o resto, para o bom entendedor um pingo é letra. Mas como lhe tomaste a dianteira comprando a rapariga, que ele cobiçava lá para seus fins, danou com o caso e agora vem com essas patranhas procurar arrancá-la de nossas mãos.

— Ah! patife! — bradou o genro encrispando os punhos. — Volta cá outra vez a buscar lã, e verás como sairás tosqueadinho!

Morais achou todo o fundamento nas conjeturas do major, que vieram dar bases mais sólidas às suas estólidas suposições, e em consequência suas inquietações se transformaram no mais entranhado rancor contra Conrado. Lembrando-se do ar meigo e afetuoso, com que Rosaura com seus grandes olhos límpidos e ternos havia contemplado o moço durante todo o tempo que estivera em sua presença, o ciúme atracou-lhe ao coração as garras ferozes; sua paixão insensata pela inocente menina tomou um caráter sombrio de exaltação e ferocidade, que quase tocava ao delírio. Andava de aposento em aposento procurando Rosaura, e quando a encontrava, a envolvia em um olhar torvo e inflamado, que não se poderia dizer se era de cólera, ou desse ardente sensualismo que lhe queimava o sangue. Rosaura fugia, e correndo espavorida procurava abrigo, ora junto de Adelaide, ora junto de Lucinda.

O mau humor de Morais se fez sentir nesse dia em toda a casa. Na loja o pequeno caixeiro, que o ajudava, tendo cometido uma insignificante falta, Morais investiu sobre ele de côvado em punho com tal fúria, que o obrigou a saltar o balcão e correr pela porta afora para não mais voltar. A mesa achou o jantar péssimo, e a pobre Lucinda teve de ouvir os mais horríveis repelões.

Enfim, nesse dia tudo em casa do major andou inquieto e agitado. Lucinda, preocupada e ansiosa pelo resultado das passadas que Conrado ia dar para conseguir a liberdade de Rosaura, não sabia o que fazia, e esperava com impaciência a noite para pôr termo às suas incertezas.

Adelaide, apesar do prazer íntimo que sentia vendo perto de si a filha do seu primeiro amor tão linda e tão amável, achava-se desassossegada e apreensiva, receando com bastante fundamento que o reconhecimento da liberdade de Rosaura não se pudesse realizar sem se romper talvez para sempre a confiança e harmonia que até ali tinha reinado no seio de sua família.

A própria Estela, apesar de sua tenra idade, vendo que Rosaura, a quem já adorava, em vez de brincar com ela na forma do costume, andava ressabiada pelos cantos da casa com ar espavorido e consternado, sem saber por que achava-se também triste e amuada.

Somente as crianças mais tenras brincavam, riam, saltavam com a descuidosa alegria da puerícia.

Quando desceu a noite, Lucinda achou pretexto para sair, e foi direito à casa de Conrado. Este ainda não tinha chegado. Lucinda o esperou à porta por espaço de quase uma hora. Triste e contrariada, já vinha de volta para a casa, quando encontrou em caminho dois cavalheiros, em um dos quais reconheceu Conrado. Era tal a sua ansiidade que, esquecendo-se de sua condição, abalançou-se a travar da rédea do animal no meio da rua, suspender-lhe a marcha, e dirigir ao elegante cavalheiro uma pergunta.

— Então, Nhô Conrado?... como é?... — foram as únicas palavras que lhe dirigiu.

— Tudo correu à medida de nossos desejos, respondeu o cavalheiro, que logo reconheceu a velha escrava. — Amanhã Rosaura está livre.

A preta voou para a casa pulando de contente; seu humor do dia para a noite mudou-se por tal forma, que a todos causou estranheza; ela, que durante todo o dia estivera distraída, rabujenta e de poucas graças, apresentava-se agora alegre e folgazona como nunca. Corria, cantava, ria-se à toa, como se fosse uma criança. Tomou Rosaura ao colo, e cobrindo-a de carícias a chamava de sinhazinha com alegria tal, que parecia loucura. Rosaura, Estela e as crianças, que nem por sombra suspeitavam o motivo de tão insólito contentamento, riam-se também, a não poderem mais, da desenvoltura de Lucinda.

Adelaide que fora a primeira a quem a preta logo ao chegar tinha comunicado as palavras de Conrado, sentiu banhar-se-lhe em júbilo o coração; mas um cruel presentimento pesava-lhe sobre o espírito, e não permitia que o seu júbilo se manifestasse com as mesmas expansões do de Lucinda. Ela compreendia vagamente que se achava na véspera de um acontecimento que tinha de exercer a mais decisiva influência sobre seu destino futuro, e cheia de inquietação e angústia aguardava o desenlace de uma situação que ela, melhor que ninguém, sabia quanto era grave e melindrosa.

Durante a noite o sono de todos, à exceção do das crianças, foi agitado, febril e povoado de sonhos. O espírito de Adelaide debatia-se entre o prazer de ver sua filha bela, grande e pura, arrancada à escravidão e restituída aos carinhos de seus progenitores, e o receio cruel de ver perdida aos olhos do esposo e do pai a reputação, de que até ali gozara, e estes pensamentos afugentavam o sono de suas pálpebras.

Morais teve horríveis pesadelos e sonhos pavorosos, em que se lhe apresentava a figura de Conrado torva e inexorável, disputando-lhe a posse da formosa Rosaura.

Para Lucinda essa noite pareceu uma eternidade; estava ansiosa pelo momento em que, em vez de dar, teria de pedir a bênção à Rosaura.

Esta dormiu com a imaginação entre a figura sombria e sinistra de Morais, ameaçando-a com seus olhares ardentes e carregados, e a benévola e plácida imagem que lhe ficara intimamente gravada na alma, do homem que estivera com ela pela manhã.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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