Universo da obra
Universo da obra
No dia seguinte, Frei João veio almoçar em casa de Conrado, e daí dirigiram-se ambos para a casa do major Damásio. A missão que iam desempenhar, era grave e melindrosa, e é fácil de compreender a emoção com que ambos e especialmente Conrado transpuseram a soleira daquela casa, onde por uma fatal necessidade iam talvez levar a vergonha e a desarmonia.
Introduzidos na sala de visitas, foram aí recebidos pelo major Damásio com fria polidez.
— Desejava saber, — disse o major convidando-os a sentarem-se, — a que devo a honra desta visita.
Frei João, que conhecia a velha indisposição que existia entre o major e Conrado, e refletindo que debaixo da emoção, que o dominava, seu amigo não teria a necessária presença de espírito para entabolar convenientemente a conversação, resolveu-se a responder por ele.
— Não é propriamente uma visita, senhor Major, — disse o frade. — O que nos traz hoje à sua casa, é um negócio da mais alta importância, não só para nós, como para V. S.ª
— Um negócio da mais alta importância!... exclamou o major, fingindo-se surpreendido. — E comigo!... pode ser... Declarem qual é esse negócio, e estou pronto a dar a solução, que for de direito, e couber no possível.
— Entretanto, senhor major, — continuou Frei João, — para tratarmos desse negócio é indispensável que estejam também aqui presentes o senhor Morais e sua senhora, que são nele altamente interessados, e por isso rogamos-lhe o favor de mandá-los chamar.
— Muito grave é o negócio, mas por isso não seja a dúvida, — disse o major tocando a campainha.
Apareceu um escravo, pelo qual mandou chamar a filha e o genro, que após instantes se apresentaram na sala.
Quando Adelaide deu com os olhos em Conrado, apesar de prevenida, empalideceu, foi extraordinária sua perturbação, e a muito custo com passos vacilantes adiantou-se para tocar a mão, que ele lhe estendia.
Ah! que tristes e amargas recordações lhe oprimiam o coração, e que sérias e assustadores apreensões lhe assaltavam o espírito naquela ocasião e em presença daquele homem!...
Adelaide, apesar dos filhos e de mais quatorze primaveras que tinham passado sobre sua juventude, ainda conservava no frescor da tez, no brilho dos olhos, e na delicadeza e flexibilidade de seu bem feito corpo quase intactas todas as graças da primeira mocidade. A matrona de trinta anos em quase nada diferençava de donzela de dezoito.
O tempo apenas lhe tinha tornado as belas feições um pouco mais pronunciadas, e lhe imprimira na fisionomia certa expressão grave e melancólica, que ainda mais lhe realçava os encantos.
Ao ver tão perto de si e ao tocar a mão daquela que fora o primeiro e único amor de sua vida, Conrado sentiu o mais violento abalo, e abafou um gemido de angústia e de saudade. Pareceu-lhe que sua antiga paixão ia renascer com todos os seus arroubos e exaltações, e a muito custo conseguiu domar a extrema emoção que o assoberbava.
Também Frei João se achava bastante comovido. Espírito elevado, e alma nobre e sensível, bem compreendia o alcance e importância da cena, que se ia passar. O major e seu genro eram os únicos que se mostravam pouco preocupados, e apesar de não ignorarem o motivo da visita de Conrado, afetavam certo ar de indiferença e seguridade. Tinham razão; estavam longe de suspeitar a que tristes resultados poderia chegar aquela conferência. Se pudessem adivinhar, que vergonha e ignomínia estava suspensa sobre suas cabeças como a espada de Dâmocles, seriam eles os primeiros a se apresentarem de fronte humilhada e cheios de confusão, pedindo uma acomodação honrosa.
— Senhor major, — disse Frei João, — ainda precisamos pedir-lhe mais um favor.
— Pronto, se estiver em meu poder...
— É muito simples o meu pedido. É de absoluta necessidade que aquilo, sobre que temos de conversar, se passe debaixo do maior segredo, de modo que jamais possa ser divulgado, nem conhecido senão por nós, que aqui nos achamos. Por isso peço-lhe que mande retirarem-se dos cômodos vizinhos os fâmulos e escravos e mais pessoas da família e feche as portas de modo que não possam escutar-nos.
— É boa! — exclamou o major com desabrimento. — Nunca tive e nem tenho segredos em minha casa! não me dirá para que fim tanto mistério?!...
— Teremos acaso o tribunal da Inquisição em nossa casa, senhor padre?... perguntou Morais empertigando-se.
— Não se agastem, meus senhores, — respondeu o frade com brandura. — Bem sei que o senhor major não tem segredos em sua vida, e se os tem, ele próprio os ignora; e fique certo o Sr. Morais, que não venho trazer à sua casa o tribunal da Inquisição. Venho aqui a convite de meu amigo o senhor Conrado a fim de cumprir um dever não só de amizade, como de religião e humanidade. Tenho enfim com o desígnio de levar a um feliz e pacífico desenlace um negócio de muito melindre, que pende entre ele e os senhores. No fundo desse negócio existe um segredo importante, que talvez seja forçoso revelar, e que é mister que fique sepultado aqui entre nós, sem que jamais possa ecoar além destas quatro paredes.
O major e Morais olharam um para o outro, como que perguntando o que significavam as palavras que Frei João acabava de proferir; Adelaide porém, que bem compreendia o alcance delas, estremeceu e recolheu sua alma no seio de sua angústia.
— Pois bem! — disse Morais fechando bruscamente as portas do salão. — Faça-se a vontade às vossas senhorias; quanto a mim, tanto me rende, que as portas estejam fechadas, como abertas. Não tenho segredos, mas não posso proibir que outros os tenham. Vejamos agora, — concluiu ele sentando-se,— qual é esse tão importante e misterioso negócio.
— Esse importante e misterioso negócio, — disse Conrado levantando-se, e com voz firme e pausada, — é de suma importância, e precisa muito da sombra do segredo e do mistério, principalmente da parte de vossa senhoria. É coisa muito simples; e para evitar mais perguntas, vou explicá-la em poucas palavras. Há pouco tempo o senhor Morais comprou como escrava uma menina por nome Rosaura a um negociante de escravos, para servir de mucama a uma menina chamada Estela, filha do senhor Morais e da senhora Dona Adelaide.
— Até aí tudo é exatíssimo, — m urm urou Morais.
— Ora, sem o saberem, — continuou Conrado, — compraram uma pessoa que nasceu livre, e que por fraude e malícia de uma mulher, que ontem faleceu, foi reduzida à escravidão. Ontem eu procurei o senhor Morais, e pedi-lhe o resgate dessa menina oferecendo-lhe a quantia que quisesse; mas ele recusou-se obstinadamente. Ontem eu ainda não tinha provas irrecusáveis; hoje, mercê de Deus, as tenho sólidas e irrefragáveis, e venho apresentá-las e exigir que me seja entregue essa menina, sobre a qual tenho direitos sagrados.
— Direitos sagrados! — exclamou o major, — esta ainda é mais importante. Quais são eles?
— Já ontem declarei ao senhor Morais, e agora o repito: sou pai de Rosaura.
— Há! h a! há! — gargalhou o major com riso aparvalhado. — O senhor é o pai e não poderá fazer-nos o favor de dizer quem era a mãe?
Conrado olhou para Adelaide, e empalideceu; ela baixou os olhos e corou. Ambos tiveram comiseração do dito inconsciente do pobre velho.
— Não há necessidade de saber-se quem é a mãe, — redarguiu Conrado; — é um segredo, que desejo guardar, e que só em última necessidade revelarei para salvar minha filha da escravidão e da desonra.
Conrado carregou nesta última palavra fitando os olhos em Morais, que percebendo-lhe o alcance estremeceu como o réu que vê seu crime descoberto.
— Estou pronto, — continuou Conrado, — a indenizá-los da soma por que compraram a menina, porque sei que o fizeram em boa-fé.
— É debalde insistir, senhor Conrado, — replicou Morais; — nós não disporemos dela, nem mesmo que o senhor ofereça toda a sua fortuna. A paternidade, que V. S.ª chama a se, e de que não queremos duvidar, nada significa; a maternidade é o que importa neste caso, e enquanto V. S.ª não provar que Rosaura é filha de mãe livre...
— Nada mais fácil, — atalhou Conrado; — mas quero guardar esse segredo, porque importa a honra de uma mulher, a quem consagro... a mais alta estima.
— Ah! nesse caso só V. S.ª tentando os meios judiciais; e mesmo assim lhe será talvez necessário desembuchar esse segredo. Devo notar-lhe também que nós não maltratamos Rosaura; pelo contrário a consideramos como fazendo parte da família, e a tratamos com o mimo e carinho que ela merece. A minha Estela a quer como se fosse sua irmã, e minha mulher a estremece, como se fosse sua filha.
— Acaba V. S.ª de proferir a meio uma verdade mais verdadeira do que imagina, — disse Conrado com certo sorriso de melancólica ironia, cuja significação só Adelaide e Frei João compreenderam.
— Mas, senhor Morais, — continuou Conrado, — creio que neste negócio poderei prescindir dos meios judiciários. A infeliz mulher que escravizou Rosaura, faleceu ontem, mas antes de expirar fez confissão pública do seu crime; o sacerdote, que a ouviu de confissão, foi o meu amigo, que aqui se acha presente, o senhor Frei João de Santa Clara, de cujas virtudes, prudência e ilustração não é dado duvidar. Em presença dele, minha e de mais duas testemunhas a velha fez a seguinte declaração, que tomamos por escrito, e que passo a ler.
Conrado tirou da algibeira e leu com voz firme e clara o papel, cujo conteúdo já conhecemos. Finda a leitura decorreram silenciosamente alguns instantes de angústia e inquietação para uns, e de estupefação para outros. A angústia estava no coração de Conrado, de Frei João e de Adelaide, que compreendiam perfeitamente a crítica situação em que se achavam. Pode-se idear, mas não explicar, a penível posição em que se achavam aquelas duas almas nobres em presença de uma mulher, cuja reputação iam ver-se talvez na dura necessidade de sacrificar para salvar a filha da escravidão e da desonra; de uma mulher, que não obstante ter no seu passado uma nódoa muito desculpável, tinha-se mostrado por seu ulterior comportamento digna de todo o respeito e estima da sociedade.
A estupefação era por parte do major e de seu genro, que a princípio sentiram-se inteiramente desconcertados e como que aturdidos com a leitura do documento, que Conrado apresentara. Todavia não quiseram dar-se ainda por vencidos. O primeiro, já treslendo algum tanto, não quis dar crédito ao que via e ouvia, e começou a pensar lá de si para si que toda aquela cena não passava de manejo preparado pelo seu ex-capataz, que por aquela maneira procurava vingar-se dele por lhe ter recusado a mão de sua filha. O genro dominado pela insensata paixão, que concebera pela gentil Rosaura, e alucinado pelo ciúme, que o sogro lhe excitara na alma fazendo-lhe crer que Conrado cobiçava a rapariga para sua amásia, fechava também os olhos à evidência, e não via nessa triste e pungente cena mais que embuste e velhacaria.
Foi Morais quem primeiro rompeu o silêncio.
— Senhor Conrado, — disse ele com desdenhosa e impertinente altivez, — sei muito bem quem era essa mulher, que foi a primeira senhora de Rosaura, e que ontem faleceu. Também já houve quem esta manhã me desse notícia da cena, que vossa senhoria preparou, e que de fato não foi mal representada.
Em qualquer outra ocasião Conrado teria repelido com energia e dignidade esta tão grosseira e insultuosa insinuação; mas naquele delicado transe lhe era mister levar ao extremo sua paciência e longanimidade. Uma ruptura logo no começo daquela conferência podia transtornar todos os seus planos de acomodação pacífica e honrosa, e portanto deixou passar sem resposta as palavras injuriosas de Morais.
— Não contesto, — continuou este, — que essa mulher foi quem vendeu Rosaura; mas vendeu-a como sua legítima senhora; posso contestar, contesto e contestarei sempre que Rosaura seja livre, por nascimento, como filha de mulher livre. Merece ser livre, é verdade; mas a mim compete dar-lhe a liberdade, quando me aprouver e julgar conveniente. Todo o povo de São Paulo conhece muito bem quem foi essa Nhá-Tuca. Foi uma boa e honrada senhora, que há muitos anos por desgraças e contratempos, que lhe sobrevieram, caiu na miséria e perdeu o juízo. Caduca e alienada, como estava, com mais de oitenta anos de idade, e de mais a mais já nas vascas da morte, que valor pode ter a sua declaração, embora feita perante três ou mais testemunhas?...
— Isso é que é verdade, — ponderou o major.
— Isso é que nada tem de verdade, — replicou Frei João com voz sonora e firme; — minha depoimento ali está firmada com juramento, e mercê de Deus nunca profanei o sagrado hábito que visto, com um juramento falso ou mal considerado. Também não sou tão destituído de penetração e inteligência, que não saiba discernir quem está ou não em estado de demência, e posso asseverar e jurar, se necessário for, que essa mulher morreu no gozo perfeito de suas faculdades intelectuais.
— Mas, senhor padre, — replicou Morais, — todo o homem está sujeito ao erro; V. Rev.ma bem podia enganar-se.
— V. S.ª é que está perfeitamente enganado a respeito dessa mulher. Nhá-Tuca nunca foi essa boa e honrada mulher, que V. S.ª pensa. A princípio passou por tal; mas há muito tempo o povo está no conhecimento de sua triste e vergonhosa crônica, das torpezas, embustes e perversidades que praticou para enriquecer-se. Além de sua própria confissão, aí está a voz pública, que há muito tempo já a tinha condenado. É portanto irrecusável o documento, que o meu amigo acaba de ler.
— Vê-lo-emos em juízo,— retorquiu Morais com arrogância.
— Não há de ser preciso, — exclamou Conrado levantando-se com indignação, — quero poupar-lhe esse trabalho, senhor Morais. — A validade desse documento vai ser confirmada aqui mesmo e sem mais demora.
Frei João lançou um olhar a Conrado, e fez-lhe um gesto negativo, como dando-lhe a entender que ainda se devia tentar algum esforço para trazer aqueles homens a um acordo razoável. Conrado o compreendeu e calou-se.
Frei João levantou-se então, e com ar grave e solene:
— Não posso compreender que poderoso motivo leva Vossas senhorias a cerrarem os olhos à evidência, e a recusarem-se com tanta pertinácia à prática de uma ação nobre e generosa, que não é mais do que o cumprimento de um dever de justiça e de humanidade, que em nada os prejudica. O meu amigo possui um documento incontestável, que há pouco acabamos de ouvir ler, e que jamais, quer em juízo como fora dele, poderá ser infirmado. Além disso alega um direito sagrado: a paternidade; o senhor Conrado é pai de Rosaura. Por fim oferece-se para indenizá-los do valor por que compraram a menina, e está pronto a dar mais ainda, se o exigirem. Por cúmulo de generosidade, o meu amigo quer evitar os meios judiciários para arredar um escândalo, cujo peso tem de recair todo sobre quem o quer provocar. A justiça, a humanidade, a religião e a honra exigem que vossas senhorias entreguem a menina ao senhor Conrado, restituam a filha a seu pai.
Muitas outras coisas disse o respeitável carmelita em linguagem severa, mas comedida, e com a eloquência de um verdadeiro apóstolo de Cristo; não conseguiu porém arrancar aqueles dois homens de sua cega obstinação.
Adelaide pálida e aniquilada ousou também balbuciar algumas palavras em favor da pretensão de Conrado; mas apenas havia começado a falar, um olhar terrível do marido e um gesto ameaçador do pai a fizeram em emudecer.
— Reflitam bem, meus senhores, — disse ainda o carmelita; — olhem que com sua obstinada recusa vão dar um triste e escandaloso desfecho a um negócio, que bem podia terminar-se entre nós de um modo amigável e honroso para todos.
— Desista de semelhante empresa, senhor padre, — redarguiu Morais com azedume e mau modo; — ela é imprópria, para não dizer indigna de seu estado. É a primeira vez que vejo ir-se aos conventos arrancar os frades de suas tranquilas celas, distraí-los de suas santas ocupações para nos virem à casa disputar-nos nossa legítima propriedade.
A estas desrespeitosas e insensatas palavras de Morais, Frei João não perdeu a calma nem a paciência; mas perdeu toda a esperança de poder chamar aqueles dois homens ao caminho da prudência, da razão e da justiça. Convenceu-se por fim que baldados seriam todos os esforços que empregasse para conduzir o negócio, que ali o trazia, a uma solução menos escandalosa e menos fatal à tranquilidade e honra daquela família. Olhou para Conrado e com um gesto deu-lhe a entender que já não havia outro recurso senão lançar mão da fatal e extrema arma de que dispunham. Conrado o compreendeu, e abafando a voz, para que não ecoasse fora daquele recinto, mas com um acento bem distinto e repassado de dolorosa e profunda emoção:
— Deus e todos que aqui se acham, — disse, — são testemunhas dos esforços, que temos empregado, eu e meu amigo Frei João, no sincero e louvável empenho de evitar um grande escândalo conservando inviolável um segredo, cuja revelação vai trazer a vergonha, a desconfiança e a discórdia ao seio de uma família, cuja harmonia e felicidade eu sou o primeiro a desejar. Mas desgraçadamente forçam-me a dar esse extremo e doloroso passo; resignem-se portanto a ouvir a verdade toda inteira. Senhor major, restitua-me sua neta; senhor Morais, restitua-me a filha de sua mulher; Senhora Dona Adelaide, faça com que me seja entregue a nossa filha!...
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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