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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 37 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo XVIII: A mãe e a filha

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Terminou-se assim o grave e delicado negócio do reconhecimento de Rosaura como livre de nascimento, com aprazimento de todos. Somente Morais, apesar de reconhecer a justiça e indeclinável necessidade daquele ato, sentia-se com razão humilhado e abatido sob o peso de sua nova situação. A revelação que acabava de ouvir, confirmada por um modo irrefragável, de ter ele desposado como pura uma mulher maculada por uma primeira falta, o acabrunhava. Se já os encantos de Rosaura iam extinguindo em seu coração o amor conjugal, daí em diante jamais poderia conservar para com ela a mesma afeição e estima, que até ali lhe votava, mas desprezo e aversão.

Não se pode negar que assistia-lhe bastante razão. Os zelos não se limitam somente aos cuidados do presente e aos receios do futuro; estendem-se também pelo passado e tornam-se retrospectivos. Com efeito deve ser bem doloroso para o coração de um marido, que tem vivido largos anos na doce persuasão de que fora ele objeto do primeiro e único amor de sua esposa, saber que esta já tivera outro afeto talvez mais extremoso e ardente do que aquele que lhe consagrava, embora mesmo não fosse acompanhado das fatais consequências, que teve o de Adelaide. Ainda se o objeto dessa primeira paixão já não existisse, ou pelo menos a distância ou novos laços de amor tornassem provável a completa extinção de seu primeiro afeto, o espírito de Morais poderia tranquilizar-se algum tanto. Mas Conrado estando ali vivo, morando na mesma cidade, solteiro, com o coração completamente livre e isento, moço elegante, rico e rodeado, a situação de Morais não era das mais invejáveis.

Por outro lado, a perda de Rosaura por quem tinha concebido uma dessas paixões sensuais e infrenes, que quase não se podem explicar, o enchia de despeito, raiva e ciúme. Rosaura livre e debaixo do domínio de Conrado ficava inteiramente fora do alcance de seus libidinosos desejos, e formosa, rica e cheia de atrativos como era, não tardaria a encontrar algum amante feliz que a desposasse; esta ideia, por mais que ele se esforçasse por arrancá-la, se lhe agarrava teimosa ao coração como farpa envenenada.

Para Adelaide também esta nova fase de sua existência apresentava duas faces bem diferentes; uma risonha e feliz, cheia de suaves expansões de ternura e alegria; outra porém carregada de sombrios matizes, entenebrecida de cruéis angústias e pungentes inquietações. O tempo havia mitigado, mas não extinguido, o vivo pesar, antes remorso que a cruciava, quando se lembrava da filhinha, fruto de seu primeiro amor, exposta e falecida no mesmo dia em que nascera. Quando essa cruel recordação lhe preocupava o espírito, acudiam-lhe as lágrimas aos olhos, acusava-se de mãe desnaturada, maldizia-se e lançava contra se mesma a exprobração de infanticida. Estas cruéis recordações, estas amargas reflexões é que transformando seu gênio outrora tão alegre, descuidoso, e até mesmo leviano, tinham comunicado ao seu caráter, à sua fisionomia e às suas maneiras esse ar grave e melancólico, que dessa época em diante sempre a distinguiu.

Compreende-se, pois, o júbilo íntimo que lhe banhava o coração, vendo viva e restituída a seus carinhos a filha, da qual julgava que na terra já nem os ossos existiam. Entretanto esse prazer era fortemente contrabalançado pela vergonha e humilhação em que se via colocada perante o pai, e principalmente perante o marido. Do pai estava ela certa de que fora completo o perdão e nascido de abundância do coração; o do marido porém via bem claramente e todos compreenderam que fora arrancado pela força das circunstâncias. A infeliz esposa já presentia que jamais poderia gozar do mesmo grau de afeto e confiança que até ali merecera do marido, e antevia com tristeza um futuro de desavenças e dissabores, de zelos e desconfianças; mas estava resignada a aceitar submissa e sem queixume, como expiação de sua falta, o peso de sua nova e triste situação.

Lucinda, a quem Adelaide imediatamente comunicara o resultado da conferência, não cabia em si de contente; parecia ter sacudido o peso dos anos, e ria, cantava, e pulava como uma criança. Correu imediatamente para junto de Rosaura, caiu-lhe aos pés, e abraçando-a pelos joelhos, com os olhos arrasados em lágrimas de alegria, chamou-a de — sinhazinha, — de sinhá Rosaura, e de mil outras coisas fagueiras e afetuosas, que puseram em grande espanto a pobre menina.

— Que quer dizer isto, tia Lucinda?! — exclamou Rosaura entre atônita e risonha; — você hoje está louca... ou...?...

— Não sou sua tia, não, sinhazinha; mecê não é nem nunca foi cativa; seu pai e sua mãe estão aí bem, e gente rica.

— Eu?... tenho pai e mãe vivos!... ora me deixe, tia Lucinda; você está caducando.

— Ah!... eu estou caducando!... pois sim, escuta cá, menina.

Lucinda levantou-se dos pés de Rosaura, sentou-se em um tamborete e fez a menina sentar-se sobre seus joelhos. Nessa posição contou à menina em poucas palavras, mas com muita vivacidade, a história do seu nascimento, a malícia e fraude da velha que a tinha reduzido ao cativeiro, o modo singular, pelo qual ainda na véspera, e de que Rosaura estava bem lembrada, ela, Lucinda, tinha descoberto que Rosaura era a menina que tinha sido enjeitada à porta de Nhá-Tuca, a confissão da velha, e como acabava de ser reconhecida como livre de nascimento por toda a gente de casa.

Lucinda em toda a sua singela e animada narração tinha contado unicamente o milagre, mas muito de propósito não tinha nem por indícios revelado o nome do pai nem da mãe de Rosaura; queria reservar-lhe essa deliciosa surpresa.

Quando terminou, Rosaura saltou-lhe do colo, e colocando-se em pé defronte da velha crioula fitou-a com um desses olhares indefiníveis, que exprimem a um tempo surpresa e prazer, dúvida e assombro.

— Então, quem é meu pai? — perguntou ela.

— É aquele moço que ontem veio aqui, que esteve lá embaixo na loja com Nhô Morais, e que hoje veio aí também; é nhô Conrado.

— Deveras! — exclamou Rosaura interrogando a velha crioula com seu olhar expressivo e cintilante de alegria. — Deveras meu pai é aquele homem que ontem esteve aí, e que me mandou chamar lá em baixo na loja?...

— É esse mesmo; pois ainda duvida, minha menina?...

— Ah! meu Deus! não duvido não; deve ser ele mesmo; meu coração parece que estava adivinhando. Desde que o vi, não quis mais arredar meus olhos dele, e fiquei, não sei porque, lhe querendo um bem como você não faz ideia, tia Lucinda.

— Como não havia de ser assim?... a voz do sangue fala muito alto.

— Mas, tia Lucinda, você disse também que eu ainda tenho mãe; isso é que eu não posso acreditar. Quem é ela?... onde está?... Oh! meu Deus, que alegria não seria para mim ir beijar agora mesmo a mão dela.

— Isso é que nada custa.

— Mas, quem é ela?... fala, tia Lucinda.

— Pois sinhazinha deveras ainda não adivinhou?...

Rosaura olhou atônita para Lucinda, e nada respondeu.

— Pois bem, — continuou o crioula tomando a mão de Rosaura; — eu vou levar já sinhazinha onde está sua mãe.

Rosaura, sem saber o que pensar, deixou-se machinalmente levar pela mão de Lucinda, que a conduziu ao quarto de Adelaide.

— Mas aqui é o quarto de sinhá Adelaide, — disse Rosaura. — Minha mãe está aí com ela?...

— Está, sim, — respondeu vivamente a crioula empurrando a porta do aposento, que apenas se achava encostada. — Entra, sinhazinha.

Adelaide estava só. Tinha mandado os filhos a passeio. O major, profundamente comovido pela cena a que acabava de assistir, tinha-se recolhido à solidão de seu gabinete. Morais havia descido para a loja a ver se ali encontrava alguma distração ao embate de mil pensamentos peníveis, que lhe atormentavam o espírito.

Adelaide já esperava sua filha, essa que ainda ontem julgava sua escrava, e que agora pela primeira vez ia apertar em seus braços. Estava encostada a um bufete, com a face pousada sobre uma das mãos, e voltada para a porta, sobre a qual tinha os olhos fixos. Divisavam-se em suas pálpebras vestígios de lágrimas, mas pairava-lhe nos lábios um leve sorriso cheio de afeto e melancolia. Era nobre e simpática a sua figura e em seu todo brilhava uma espécie de formosura talvez mais atrativa do que essa que na aurora da vida florejava em seu rosto tão esplêndida e viçosa. Era a beleza calma e suave do outono, despida dos garridos encantos e das vivazes e embaidoras seduções da primavera. Apenas viu Rosaura, que entrava por seu quarto procurando em vão com os olhos por todos os cantos alguém que não fosse Adelaide, adiantou-se para ela com os braços abertos.

— Vem, minha filha, vem, — exclamou Adelaide com transporte; — vem abraçar tua mãe!...

Rosaura a princípio estacou petrificada de pasmo; seu espírito hesitou um momento; julgava-se vítima de alguma alucinação; mas bem depressa a voz de natureza falou-lhe alto ao coração, e dissipou-lhe todas as dúvidas.

— Minha mãe! — foi a única palavra que pronunciou, e precipitou-se nos braços de Adelaide, inundando-lhe o seio de lágrimas de prazer e ternura.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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