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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 39 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo XX: Projetos vãos

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Passaram-se quinze dias, durante os quais o estado moral e físico de Carlos apresentou algumas melhoras, se bem que a sua paixão nada declinasse de seu primitivo grau de ardor e exaltação. O desabafo, que tivera com Frederico, lhe fizera bem, e como já tinha um peito amigo, a que confiasse suas mágoas e inquietações, sentia o coração algum tanto aliviado do peso que o oprimia, e o espírito mais calmo para entregar-se ao estudo, e continuou a frequentar as aulas com alguma assiduidade. O vivo desejo, que tinha, de terminar seus estudos para pôr em execução o plano, que formara para libertar sua formosa vizinha, influiu talvez mais que tudo para esse lisonjeiro resultado.

Quanto a Frederico, esse tinha desistido completamente de seu propósito de combater a paixão de Carlos, e dizia de si para si, que só depois de dar todas as cabeçadas que pretendia, é que seu amigo poderia tomar rumo. Levado por uma curiosidade mui natural quis conhecer também essa escrava de peregrina formosura, que por tal sorte tinha transtornado a cabeça e cativado o coração de seu amigo. Foi para esse fim à casa do Carlos, o qual não hesitou, antes folgou por ter ocasião de proporcionar a seu amigo um ensejo para ver e admirar o encantador objeto de sua ardente paixão. Esperava que depois de vê-la, Frederico se despojaria de grande parte de sua austeridade, e não estranharia tanto a exaltação de seu amor. De feito Frederico escondido cautelosamente no quarto de Carlos, de modo que pudesse ver sem ser visto, gozou por um quarto de hora o indizível e platônico prazer de contemplar uma das mais sedutoras belezas que o céu tinha criado, e de presenciar um namoro o mais ingênuo, sentimental e apaixonado, que se pode imaginar, expressado pela mais eloquente e significativa mímica. Aquilo que para os dois amantes era o mais sério episódio do drama do amor, para Frederico tornava-se quase uma cena cômica, e ele teria soltado ali mesmo uma grossa gargalhada, se não o contivesse por um lado a beleza angélica, a graciosa e ingênua figura da moça, e por outro o respeito que devia à afeição profunda e sincera do amigo. Saiu dali desanimado mais que nunca de poder desviar o amigo de sua louca paixão, e se não deixava de lastimá-lo, reconheceu todavia que a menina era com efeito digna desse culto fanático, dessa fervente adoração que lhe consagrava. Tomando sumo interesse não já só pela sorte de Carlos como também pela da gentil escrava, que deplorava do fundo d’alma ter nascido naquela condição, Frederico, que era filho de pais opulentos, obedecendo aos nobres e filantrópicos impulsos de seu coração, concebeu desde logo a generosa ideia de empregar os meios a seu alcance para conseguir a liberdade da gentil cativa. A princípio havia pensado que essa rapariga não seria mais do que uma linda mulata, como há tantas no Brasil, faceiras e sedutoras, e a pintura, que dela Carlos lhe havia feito, levava em conta de exagero apaixonado de um homem que só vê o objeto amado através de um prisma ilusório, que elimina todos os defeitos, e realça as mais comezinhas qualidades. Desde que a via porém, suas ideias se modificaram consideravelmente, e o amor de Carlos, de que a princípio mofara com seu ar de risonha bonomia, lhe pareceu plenamente justificado.

De feito, desde que se via a formosa escrava do senhor Basílio, era preciso um supremo esforço de imaginação para acreditar que era realmente uma escrava. Sua tez branca e delicada, os magníficos cabelos escuros, que lhe emolduravam o rosto, e lhe ondeavam pelo bem torneado colo, as feições corretas e harmoniosamente delineadas, os ademanes naturalmente graciosos e elegantes, acrescendo a tudo isso o encanto da inocência e candura infantil, não denunciavam por certo a filha da senzala. Ao vê-la, qualquer juraria que era uma donzela distinta, criada com todo o mimo e solicitude entre os carinhos de uma família honesta, e bafejada desde o berço pelo sopro da liberdade.

Frederico, impressionado pela rara formosura da menina, já não julgava uma degradação, uma abdicação da própria dignidade desposar uma liberta de tanta beleza e merecimento. Também Frederico no íntimo de sua consciência estava bem convencido de que a escravidão é um acidente do destino, que não constitui uma nódoa, e o fato de casar-se o seu amigo com uma liberta, mormente sendo dotada de tão vantajosas prendas físicas e morais, nenhum desar, nem mesmo ridículo poderia provocar sobre a sua pessoa e reputação. Formou pois generoso, se bem que um pouco excêntrico projeto de procurar aplanar o caminho, para que os votos do coração de Carlos fossem satisfeitos. Comunicou suas intenções ao amigo, que lho agradeceu do íntimo d’alma, e daí em diante criou novo ânimo e novos incentivos para prosseguir em sua arrojada empresa.

O primeiro passo que Frederico tentou, foi procurar travar conhecimento e relações com o senhor Basílio, dono da escrava. Mas Basílio era um homem excêntrico, de difícil trato, quase incomunicável, que não dava ingresso em sua casa senão a raríssimas pessoas. Ele e sua respeitável e veneranda esposa viviam vida misteriosa e retraída; não saíam de casa senão aos domingos pela madrugada para ouvirem missa na Sé, o marido bem embuçado em seu comprido capote de gola em pé, que lhe tapava a cara até os olhos, e ela toda embiocada em sua mantilha. Fora disso só se lhes enxergava às vezes a ponta do nariz por entre as rótulas, que apenas entreabriam momentaneamente para espiarem a rua.

O seu tráfico de escravos também se fazia algum tanto à sorrelfa e com certo mistério; mas os habitantes de São Paulo já o conheciam, e quando algum por necessidade de dinheiro ou por qualquer outro motivo desejava desfazer-se de algum escravo, já sabia a que porta iria bater. Quando tinha reunido uma coleção suficiente, ele os comboiava para fora da capital, quase sempre em direção aos ricos municípios do norte da província e para a mata do Rio de Janeiro, onde os negociava vantajosamente com os opulentos fazendeiros cafezistas daquelas paragens. Estas suas saídas eram, como todos os atos de sua vida, feitas com segredo e mistério nas horas mortas da noite. De um dia para outro o velho com toda a sua família, a qual consistia em sua mulher e seu comboio de escravos, desaparecia de casa, sem que ninguém soubesse para onde se havia dirigido.

Basílio, além de sua absoluta insociabilidade, tinha particular ojeriza à classe acadêmica, da qual se arrepelava como de cobra venenosa ou cão danado, sem dúvida por que já alguma vez teria sido vítima de seus desapiedados motejos.

Tudo isto dificultava sumamente a generosa empresa de Frederico, e a tornava quase impraticável. Entretanto não desanimou. Por três vezes bateu palmas à porta de Basílio; por três vezes uma voz esganiçada gritou do interior — não está em casa, — sem que ninguém lhe aparecesse à porta. Entendeu por fim que só por intermédio de um terceiro, que gozasse da amizade e confiança de Basílio, poderia penetrar naquela espelunca e entabular negociação com semelhante casmurro.

Enquanto Frederico andava em diligências para encontrar um intermediário prestimoso, que o pusesse em comunicação com o velho Basílio, deram-se acontecimentos que vieram inteiramente burlar seus planos, e derrocar todas as esperanças que começavam a embalar a imaginação do pobre Carlos.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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