Universo da obra
Universo da obra
Desanimado de achar acesso junto à respeitável pessoa do senhor Basílio, Frederico mesmo na Academia entrou a fazer pesquisas e indagações entre os contínuos e bedéis a fim de ver se podiam informá-lo das relações e amizades que porventura o tal homem entretinha na cidade. No fim de quatro ou cinco dias achava-se tão adiantado como dantes. Como porém não julgava de grande urgência a solução daquele negócio, não o tangia com grande afã e diligência, esperando que com tempo e perseverança sempre havia de deparar um meio de achar-se face a face com o senhor Basílio.
Entretanto Carlos começou de novo a não comparecer às aulas e durante toda uma semana não foi visto na Academia, o que causava grande cuidado e inquietação a Frederico. Os dois amigos não se frequentavam com assiduidade em razão da distância que separava suas residências, morando cada um na extremidade de bairros diametralmente opostos. Perguntando Frederico por seu amigo aos companheiros que com ele moravam, estes lhe responderam que Carlos estava a ponto de ficar completamente maníaco; o namoro e a preguiça o estavam pondo a perder; vivia trancado no quarto, comia pouco e às vezes nada, saía à rua de quando em quando, e voltava sempre com ar cada vez mais lúgubre e desconsolado.
O mais breve que lhe foi possível, Frederico dirigiu-se à casa de Carlos, onde o encontrou em um estado de prostração e desaiento, que fazia dó. Soube então pela boca do próprio Carlos, que há mais de oito dias a janelinha, onde costumava ver a formosa escrava, se conservava fechada!... Nos dois ou três primeiros dias ainda havia suportado com alguma resignação e sem desesperar o desaparecimento de sua amante. Talvez estivesse doente, ou quem sabe, se tinham sido percebidos os seus colóquios de janela, e por isso era agora severamente vigiada por seus senhores? e também, que horror!... quem sabe se teria sido vendida!?... Esta última hipótese era como um estilete envenenado a pungir continuamente o coração do pobre rapaz. Para livrar-se de tantas e tão cruéis incertezas deliberou indagar pela vizinhança o que teria sido feito da menina. Os vizinhos porém, que sabiam tanto como ele do que se passava em casa do senhor Basílio, não puderam dar-lhe informação alguma.
Depois de dois ou três dias de baldadas indagações pela vizinhança, resolveu-se a ir ele próprio à casa de Basílio, e se bem que já tivesse conhecimento dos hábitos de incomunicabilidade do velho, jurou de si para si que tanto havia de bater à porta, tanto gritar e rogar, tal algazarra e tais disparates havia de fazer, que não teriam remédio senão abrir a porta e falar-lhe. Firme neste propósito tratou de pô-lo em execução, e cheio de arrojo e resolução foi pela manhã bater à porta do misterioso e invisível vizinho Basílio. Mas... ai dele!... a porta da rua estava fechada e sem chave, as rótulas e janelas trancadas de modo, que nem a luz nem o ar ali podiam penetrar. Por mais que Carlos, depois de muito bater, aplicasse o ouvido, não distinguiu nem o mais leve rumor, que denunciasse a presença de ente vivo, nem mesmo de um cão ou de um gato.
Carlos retirou-se dali pálido, exsangue, e a cambelear, como um homem que acabasse de ser gravemente ferido. Nesse estado ia-se dirigindo para a casa, quando uma velha da vizinhança, cuja vida era tão misteriosa como a do senhor Basílio, pondo o nariz fora da rótula, perguntou-lhe:
— Quem estava procurando ali, meu moço?..
— Ora é boa pergunta, — respondeu Carlos de mau humor, — procurava o dono da casa.
— Chê! que esperança! há que tempo ele já saiu pra fora vender seus escravos.
— Que está dizendo, senhora!... oh!... minha senhora!... não saberá me dizer se levou também uma menina... ainda muito nova...
— Eu sei lá disso, meu moço?... ele quando sai, é às chuchas caladas e fora de horas... decerto essa também havia de ir.
Nada mais era preciso para esmagar completamente o coração do pobre rapaz. Recolheu-se à casa e trancou-se em seu quarto.
— Oh! minha adorada e infeliz Rosaura!... tu vendida!... tu, a mais bela e a mais adorável das criaturas, que saiu das mãos do Eterno, tangida a pé por essas estradas no meio de um comboio de escravos, como uma rez no meio da manada para ser exposta no mercado!... Vendida, Deus do céu!..., vendidas a inocência e a beleza pelo mais abjeto e ignóbil dos homens!... Vendida e a quem, Deus de misericórdia! quem sabe, em que mãos irás parar, minha infeliz Rosaura!... ah! talvez nas mãos de algum senhor brutal e devasso, que empregará todos os meios para profanar-te a pureza, violar-te a pudicícia! Oh! sim, porque teus encantos fascinam, cercam-te de mil perigos, e vão expor-te às mais terríveis vicissitudes. Ah! maldita sociedade! maldita lei! povo e governo mil vezes maldito, que tolera e fomenta tão vergonhoso e execrando tráfico! Oh! se eu fora rico, iria por essas estradas, acompanhado de uma escolta de bons capangas, no encalço do ladrão, havia de descobrir-lhe a pista, e por vontade ou por força o infame havia de largar mão da presa. Ah! pobreza! pobreza! tu resumes em ti todos os infortúnios... Pobre menina! lírio cândido e sem mancha atirado no infecto e lodacento abismo da escravidão!...
Exalando estas e outras dolorosas e intermináveis exclamações, o mancebo passou dias e dias encerrado em seu quarto, entregue à mais pungente angústia e desesperação, desatando torrentes de lágrimas, que em nada mitigavam a dor que lhe torturava a alma; seus sofrimentos não eram daqueles que acham desabafo no pranto copioso; as lágrimas ardentes que lhe crestavam as pálpebras, exprimidas do coração entre torturas, só deixavam nele a aridez do desespero.
Foi assim que Frederico o veio encontrar encerrado em seu quarto em tal estado de prostração o desalento, que causava dó e inquietação, não só pela sua saúde como pela sua razão. Não reproduziremos as violentas explosões de furor, as amargas lamentações e terríveis imprecações, em que prorrompeu ainda o mísero mancebo em presença do amigo. Este as escutou todas com a maior paciência sem interrompê-lo, nem contrariá-lo, e profundamente abalado pelo deplorável estado em que via o amigo; conservou-se mudo por largo tempo sem achar uma frase de conforto e animação para tão acerbo sofrimento.
— Que se há de fazer em casos tais, meu amigo? — disse ele por fim; — lastimo-te deveras no fundo do coração, e lastimo ainda mais essa infeliz e formosa criatura, que o destino fez nascer escrava, devendo ter nascido em berço de púrpura e ouro. Mas não serei eu mais quem te vá ainda embalar o espírito com vãs e ilusórias esperanças; não; é escusado lutar contra a fatalidade. O único refúgio, que te resta, é a resignação; é pedir ao tempo e às distrações o lenitivo para o rude golpe, que feriu-te o coração, Basta de te entregares a esse aflitivo desalento, a essa desolação, que cada vez mais agrava-te os pesares. Vamos, meu amigo; cobra coragem, e mostra-te homem. Veste-te e vamos passear; irás morar comigo de hoje em diante; é necessário que abandones para sempre essa casa, que tão amargas recordações te traz ao espírito.
— Entrego-me em tuas mãos, meu Frederico; se bem que nada espere nem do tempo, nem das distrações, nem mesmo da tua amizade para mitigar a angústia que me devora; vou para onde quiseres levar-me; abdico em tuas mãos a minha vontade, como um autômato, cujos movimento dirigirás a teu bel prazer, porque de fato tudo me é indiferente; nada me interessa, nada mais desejo neste mundo.
— Isso é por agora, meu Carlos; com o tempo há de passar esse teu triste desalento. Vamos; quero afastar-te dos lábios o teu cálice de amargura; quero arrancar-te deste Getsêmani, em que pareces querer exalar a existência. Lembra-te que estamos em fim de outubro, e é preciso nos prepararmos para o ato.
— Não me fales em atos, nem estudos, nem me faças lembrar de Academia. Se não fosse essa maldita Academia, que aqui me trouxe, eu estaria agora bem tranquilo em minha província, e não aqui como ludíbrio do destino suportando as mais cruéis torturas. Diga-me de que nos serve vir aqui estudar o direito, o dever e a justiça, se eles não são e nunca serão respeitados, nem executados?... se praticam-se por aí impunemente todos os dias as mais torpes e atrozes iniquidades, as mais flagrantes e hediondas violações da lei e do direito? Maldita ciência, — se é que merece tal nome, — maldita ciência que só existe nos livros e nos códigos, como pura irrisão aos direitos da humanidade, que a sociedade pesa em sua balança corrupta para calcá-los aos pés!... Não; não vou nem mais uma vez à Academia. Em novembro irei pela última vez a casa de meu correspondente para... para ir-me embora.
— Pois bem: vou de acordo com isso, Carlos; a agitação que atualmente te perturba o espírito, não te permite estudar. Deixarás o teu ato para março ou abril; será melhor assim. Entretanto por agora me pertences; já o declaraste. Vamos com isto; avia-te, e quanto antes vamo-nos embora daqui.
Carlos vestiu-se automaticamente, e os dois amigos, de braço dado, tristes e taciturnos, atravessaram a cidade e dirigiram-se para a casa de Frederico.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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