Universo da obra
Universo da obra
Em meados de novembro, vinte dias pouco mais ou menos depois que Frederico tinha levado Carlos para sua casa, às dez para onze horas do dia, achava-se Conrado sozinho em seu salão de visitas folheando alguns jornais, que acabava de receber, quando lhe bateram palmas à porta embaixo da escada. Mandou entrar quem fosse, e daí a alguns segundos apresentou-se na sala um moço pálido, alquebrado, e macilento, na figura do qual Conrado não sem alguma dificuldade e depois de alguns instantes de reparo reconheceu Carlos, o estudante, que já é do nosso conhecimento, e que era seu correspondido.
Conrado, quando em seus giros de muladeiro viajou pela província de Minas, passou mais de uma vez pela fazenda do pai de Carlos, com quem negociou, e em cuja casa encontrou hospitalidade franca e delicada, como se sói dispensar naquela província, nascendo daí relações de pura e boa amizade entre os dois. Por isso quando o fazendeiro teve de mandar seu filho para São Paulo, o recomendou a Conrado pedindo-lhe que fosse seu correspondente. O paulista aceitou com prazer aquele encargo, e o seu correspondido por suas belas qualidades, seu talento e boa conduta granjeou bem depressa sua estima e simpatia.
Carlos frequentava com assiduidade a casa de seu correspondente, onde era tratado com particular distinção e cordial amizade. Depois porém que o nosso estudante se travara de amores com a escrava de Basílio, suas visitas começaram a escassear de mais em mais até cessarem de todo; havia cerca de dois meses que não se viam; a última mesada Carlos a tinha mandado buscar por um recibo.
— Oh! mui bem aparecido, meu caro Carlos, — disse alegremente Conrado. — Há que tempos o não vejo!... estava mal comigo? mas estou o achando tão pálido e desfigurado!... tem estado doente?
— Algum tanto, senhor Conrado; tenho sofrido bastante nestes últimos tempos.
— Ah! e como não mandou-me dizer nada?... sabe quanto sou amigo de seu pai, e muito pesar me ficaria se o filho do meu amigo sofresse alguma coisa nesta cidade sem eu lhe ter valido em coisa alguma. Tenho estranhado a sua falta, e se não fossem certas ocorrências, que a dias há esta parte muito me têm preocupado, já teria ido procurá-lo em sua casa.
— Muito obrigado, senhor Conrado; mas não se inquiete; meus incômodos não são talvez de consequência; mas são do número daqueles que nem a ciência, nem os cuidados do homem podem minorar; somente o tempo...
— Deus o permita, — interrompeu Conrado. — Então já está preparado para fazer um brilhante ato como é seu costume?...
— De modo nenhum; não só não estou preparado, como mesmo não quero, e nem posso fazer ato este ano.
— E porque? acaso perdeu o ano em razão da moléstia?
— Não, senhor: não cheguei a perdê-lo, mas dei grande número de faltas, e nestes dois últimos meses quase nada pude estudar. Pretendo ir passar as férias em casa, e por isso venho hoje importuná-lo para dar-me além da mesada mais algum dinheiro para arranjar condução.
— Ah! muito bem; hei de sentir muito a sua ausência; mas não posso deixar de aprovar a sua resolução em vista do estado de sua saúde. Faz bem; vá tomar ares em sua bela província, e volte-nos robusto, sadio, e alegre como dantes.
— Não sei se voltarei, senhor Conrado, — murmurou Carlos com desânimo.
— Oh! porque não? há de voltar sem dúvida. Quererá dar a seu pai o desgosto de ver interrompida sua carreira quase no seu têrmo?... Há de voltar, sim, meu amigo. Entretanto não quero que se vá embora, sem que fique sabendo de uma novidade que há aqui em nossa casa... não é capaz de adivinhar qual é.
— Nem por sombra.
— Pois participo-lhe que sou pai; não há muitos dias nasceu-me uma filha, que desejo lhe apresentar.
— Uma filha! — exclamou Carlos com surpresa. — Ora essa! o senhor está gracejando; não é casado, e demais...
— Ora que tem isso? — atalhou Conrado; — não quer acreditar? pois vou apresentar-lha neste momento. Com licença...
Conrado retirou-se para o interior da casa. Carlos, se tivesse o espírito menos preocupado, e não trouxesse o coração tão pejado de amarguras, ficando ali só teria passeado uma vista d'olhos em torno do salão, e teria notado nele não pequena modificação no luxo e na disposição dos móveis. Teria notado neles um arranjo mais caprichoso e elegante, almofadas colocadas nos sofás com o mais esmerado asseio, flores frescas em todos os vasos, enfim em tudo certo ar garrido e festivo, que estava revelando que ali andava a mão de uma mulher, e mulher de fino e apurado gosto. Teria visto mais sobre um bufete de jacarandá negro um rico leque, um lenço de cambraia primorosamente bordado, e um mimoso ramalhete de violetas, objetos que seguramente não eram do uso de Conrado. O mancebo porém nada viu, nada observou, e durante a ausência de Conrado, que durou poucos minutos, ficou a fazer mil conjecturas sobre o que lhe acabava de anunciar seu correspondente.
— Será gracejo? — pensava ele. — Mas que alcance, que explicação, que espírito pode ter semelhante gracejo em tal ocasião, principalmente de um homem dotado de tanto senso e de tanta discrição como é o meu correspondente?!... O senhor Conrado, além de não ser
casado, não me consta, que tenha amásia alguma nem em casa, nem fora dela, e passa por celibatário exemplar. É mesmo para admirar, que este homem, moço ainda, rico e elegante não tenha tido namoro, nem intrigas amorosas de espécie alguma!... é coisa quase impossível... não há dúvida... a única hipótese razoável, que se apresenta ao espírito, é mesmo a de alguma filha natural fruto de algum amor misterioso, que ele até aqui tem sabido esconder com cuidado aos olhos do mundo. Como me tem amizade e deposita em mim alguma confiança, vai agora fazer-me depositário do seu segredo.
— Agora mesmo vai lhe ser apresentada a minha filha, senhor Carlos, — disse Conrado tornando a aparecer no solão.
Carlos em pé e com os olhos na porta, por onde Conrado havia entrado, esperava a cada momento uma ama ou uma escrava trazendo nos braços bem enfaixada a criancinha, filha de seu correspondente. De feito, passados alguns instantes ouviu passadas e o leve rugir de um vestido pelo pavimento.
Ei-la!... disse entre se. — Mas quem assomou no limiar da porta?... a mais formosa donzela que se pode imaginar, de gentil e esbelto porte, tendo no rosto não mui alvo todas as graças do pudor virginal e da ingenuidade infantil.
Vinha vestida de branco com encantadora e elegante simplicidade. Rosaura e Carlos imediatamente se reconheceram. Aquela mal pôde avançar dois ou três passos pela sala, e estacou como petrificada; Carlos a muito custo pôde conter uma explosão de espanto.
Assim permaneceram por alguns instantes em frente um do outro, tolhidos, embaraçados, atônitos, e como que julgando-se vítimas de alguma mistificação. Conrado, que ignorava a verdadeira causa daquele embaraço, atribuindo-o a acanhamento, tratou logo de tirá-los dele.
— Minha filha, — disse, — aqui está o meu amigo o senhor Carlos, estudante do quarto ano, a quem queria apresentar-te.
— Senhor Carlos, — disse Rosaura estendendo-lhe a mão e cobrindo-se de vivo rubor.
— Rosaura! — ia quase exclamar o mancebo no arroubo de sua indizível emoção.
— Minha senhora, — balbuciou ele, — custa-me a crer o que vejo; estava bem longe de esperar encontrá-la aqui!...
— Que quer dizer isto? — exclamou Conrado com surpresa. — Pelo que estou vendo já se conheciam?...
— Sim, senhor, — respondeu Carlos perturbado e baixando os olhos. A senhora era minha vizinha no Tabatinguera; já nos vimos algumas vezes.
— É verdade, — murmurou Rosaura.
— É singular, — refletiu Conrado.
— Mais singular me parece, — retorquiu Carlos um pouco restabelecido de sua primeira surpresa e emoção, — vir encontrar em sua casa esta senhora já não na condição, em que a conheci, mas na qualidade de sua filha. Perdoe-me se lhe falo com esta lisura; mas é um mistério, que me assombra, e que desejava ver decifrado. Até mesmo ainda me quer parecer que e isto um gracejo de sua parte.
— Um gracejo! — replicou Conrado formalizando-se um pouco. — A que propósito viria semelhante gracejo?... mas eu lhe desculpo; o senhor tem alguma razão para assim pensar, principalmente sabendo já dos precedentes de Rosaura, o que eu estava bem longe de imaginar. Há mesmo aí um mistério, que eu devo e desejo lhe comunicar. Promete vir jantar amanhã conosco?...
— Com muito prazer.
— Pois bem; venha cedo, e prometo-lhe que amanhã mesmo ficará ciente da história de Rosaura, e se dissiparão todas as suas dúvidas e incredulidades.
Conversaram ainda por algum tempo, mas nem Carlos nem Rosaura no assombro e enlevo, em que se achavam, sabiam bem o que diziam. Também de sua parte Conrado se achava bastantemente apreensivo; o fato de já serem os dois jovens conhecidos um do outro fizera-lhe impressão no ânimo, e não lhe tinha escapado o enleio e perturbação, com que se encaravam. Por mais que se esforçasse por dissimular sua preocupação, não podia deixar de mostrar-se pensativo e distraindo. Em vista daquele estado de embaraço e constrangimento, em que todos se achavam, Carlos compreendeu que não convinha prolongar por mais tempo sua visita, e sem se lembrar mais de mesada, nem de dinheiro para a viagem, levantou-se, tomou o chapéu, e já ia despedir-se.
— Então não quer receber a sua mesada? — perguntou Conrado.
— Ah! é verdade! ia me esquecendo.
Conrado sorriu-se de um modo que fez corar o estudante, e levando-o para o seu gabinete contou-lhe o dinheiro não só da mesada, como também do que ele exigiu para a viagem. Carlos porém ao retirar-se da casa do seu correspondente, tinha tanta vontade de ir a férias, como de atirar-se nas profundas e sombrias águas do Tietê com uma pedra ao pescoço.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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