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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 43 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo XXIV: Beatitude

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Quando Carlos bateu palmas em casa de Conrado, foi Rosaura que se apresentou no topo da larga escadaria, e com um gracioso aceno disse-lhe:

— Queira subir.

Estava divina; em toda a sua figura respirava um não sei quê de celeste e arrebatador; banhava-lhe os lábios um ligeiro sorriso, que comunicava-lhe a toda a fisionomia uma expressão de felicidade tão calma e suave, que a teríeis por um anjo no gozo completo de todos as venturas do empíreo. Tinha chegado há pouco da rua, e ainda não tinha deixado o vestido de nobreza preta, com que fora com seu pai ouvir na Sé a missa conventual. Esta cor do vestido dava o mais esplêndido realce ao seu busto gracioso, e comunicava-lhe à tez uns matizes de jaspe ligeiramente rosado do mais encantador efeito.

Subindo as escadas, Carlos pensou que ia sendo assumido ao paraíso, a cuja porta um querubim o esperava para introduzi-lo na mansão das delícias eternas. Todavia não ia muito seguro da sorte que o esperava, e transpôs a passos vacilantes o pórtico daquele recinto, que para ele simbolizava o céu. A despeito dos lisonjeiros e esperançosos sintomas, que lia no rosto radiante de Rosaura, ainda pairava-lhe na mente um resto da dúvida e desconfiança, que o assaltara na véspera. Era ainda uma alma que chegava às portas do céu para ser julgada, e bem podia acontecer que fosse precipitada por aquelas escadas abaixo, condenada aos tormentos do inferno.

Tendo introduzido Carlos no salão, Rosaura retirou-se, e daí a poucos instantes apareceu Conrado.

— Muito bem, meu caro Carlos, — disse ele ao entrar; — estimo que viesse cedo, como lhe havia recomendado, pois temos muito que conversar.

— Aqui estou às suas ordens, — replicou Carlos, — e ansioso por escutar as interessantes comunicações, que prometeu fazer-me. Creia que desde ontem trago o espírito atormentado pela mais viva curiosidade de saber por que maneira Vossa senhoria de um dia para outro tornou-se pai de uma criatura de quatorze anos, revestida de todas as ingênuas graças da infância, e de todos os encantos da puberdade. A não lhe ter caído dos céus um anjo, só se vossa senhoria tem a virtude do onipotente, e criou de sua própria costela de um momento para outro essa nova Eva, como Deus formou a mãe de gênero humano, a princesa do paraíso.

— Creio no que me diz, e compreendo perfeitamente a sua curiosidade, replicou sorrindo-se o pai de Rosaura. Dentro em pouco sua curiosidade vai ser plenamente satisfeita. Mora longe, o sol está ardente; deve estar cansado. Também cheguei há pouco da rua, e me acho bastantemente encalmado. Descansemos um pouco, enquanto tomamos algum refresco.

Daí a instantes entrou um moleque trazendo sobre uma rica bandeja de charão copos, garrafas de cerveja e outros refrescos. Tomaram um copo de excelente Bass, e enquanto aspiravam a fumaça de um delicioso havana, Conrado pôs-se a contar ab ovo com toda a minudência e franqueza a história de seus amores, as contrariedades que encontrou, a fraqueza, em que caiu, da qual resultou o nascimento de uma filha, cuja existência até bem poucos dias ele próprio ignorava. Contou também toda a história de Rosaura, como fora batizada como escrava pela mulher avara e perversa, em cuja casa fora exposta, e como tal fora vendida na idade de dez anos a esse senhor Basílio, em cuja casa Carlos a tinha conhecido; como enfim, por um concurso de circunstâncias, que pareciam encaminhadas pela mão da Providência, tinha-se chegado enfim ao conhecimento da verdadeira origem da menina, reconhecendo-se pública e autenticamente o seu nascimento livre. Nessa narração porém, alterando certos nomes e mudando para Curitiba o cenário de suas aventuras amorosas, procurava como sempre arredar de sobre a verdadeira mãe de Rosaura a mais leve sombra de suspeita.

Carlos escutava absorto e enlevado a narração de Conrado, como quem ouvia as melodias de um coro angelical. Jamais havia lido páginas de mais delicioso romance em cujo festivo e risonho desenlace ia ele entrar por caminhos juncados das flores do amor e da felicidade.

— Bem me adivinhava o coração! — exclamou com expansivo entusiasmo. Bem me dizia não sei que voz do céu que essa tão formosa e interessante menina não podia ter seu berço na senzala da escravidão!... Meu espírito revoltava-se obstinadamente contra esse fato, apesar de ser confirmado por um modo, que parecia irrefragável. A imagem daquele anjo de celeste pureza e incomparável formosura parecia afugentar para bem longe de mim a sinistra e aviltante ideia da escravidão. Oh! é que a verdade, sem que eu o soubesse, penetrava em meu espírito por caminhos ocultos, e nele derramava essa luz vaga e misteriosa, que se chama pressentimento.

— Não duvido que assim seja, meu amigo; mas eu infelizmente não sou dotado desse sexto sentido, pois não tive nem o mais leve pressentimento de que tinha uma filha, e essa condenada ao cativeiro. Deixemo-nos porém de pressentimentos por agora, que já não nos são necessários. Tratemos dos sentimentos. O senhor, que não é de hoje que conhece Rosaura, não acha que ela tem bastante formosura e merecimento?...

— É incomparável. O meu amigo possui em sua filha um tesouro inestimável.

— Estimo muito que faça dela tão elevado conceito. Também eu estou me convencendo de que Deus me deu em minha filha uma jóia, um tesouro de inestimável valor.. e é por isso mesmo que ando assustado com medo que mo roubem.

— Por que diz isso, senhor Conrado?

— Ora por quê?!... linda, amável, rica, não faltarão ladrões que ma roubem, e eu ficarei órfão da filha, que há poucos dias os céus me concederam.

— Tem razão, — disse tristemente Carlos, — mais tarde ou mais cedo tem de casá-la com alguém.

— É verdade; mas permita-me que lhe faça uma pequena pergunta. O senhor que teve a fortuna de conhecer Rosaura primeiro que eu, que sou pai dela, e que talvez teve com ela entretenimentos particulares, diga-me francamente, meu amigo, até que ponto chegaram as suas relações?

Carlos ficou por algum tempo perplexo e desapontado com estas perguntas de Conrado. Foi só então que compreendeu a que alvo atiravam as palavras um pouco vagas e ambíguas do pai de Rosaura. Logo viu que ele já suspeitava, se é que não estava certo, da natureza de seus sentimentos para com a gentil menina.

— Já sabe que a amo, — pensou consigo, — é mister falar-lhe com toda a franqueza, revelar-lhe tudo.

Carlos então reanimando-se e cheio de confiança começou a contar como tinha conhecido Rosaura, e como tinha concebido por ela a mais ardente e viva paixão. O profundo desgosto que se apoderou de seu coração ao saber que Rosaura era cativa, os projetos loucos, que concebeu para restituí-la à liberdade, as angústias por que passou, o profundo desalento em que caiu quando Rosaura desapareceu, constando com todos os caracteres da certeza que tinha sido levada no comboio por seu senhor para ser vendida em longes terras, nada disso lhe ocultou.

Também lhe disse que o desespero e dor, que sofreu com este último golpe, tinha afetado profundamente a sua saúde fazendo-o definhar rapidamente, e talvez o tivesse levado ao túmulo, se a mais feliz eventualidade não lhe tivesse feito deparar livre e feliz, e na mais brilhante posição social, aquela que ele supunha ainda na triste condição de escrava, exilada de sua terra, arrancada às suas afeições, palmilhando a pé essas escabrosas estradas para ser vendida...

Aqui a voz de Carlos embargou-se pela emoção... não pôde mais continuar.

Conrado sentia também de sua parte emoção extraordinária.

Carlos falava com tal animação, e com tal tom de franqueza e sinceridade, que Conrado não pôde deixar de dar pleno crédito às suas palavras.

— Enfim, meu amigo, — concluiu ele; conheci sua filha supondo-a livre, porém pobre; amei-a com todas as forças de minha alma.

Vim depois ao conhecimento de que era escrava, e nem assim deixei de adorá-la com o mesmo afeto puro e respeitoso, que sempre lhe havia consagrado. Por duas vezes me achei junto dela, e a mais audaciosa homenagem que meu amor ousou render-lhe, foi beijar-lhe a mão uma ou outra vez. Hoje, que a vejo livre, rica, feliz e restituída a um tão bom pai, o meu amor é o mesmo, minha esperança porém é muito fraca; bem vejo que a não mereço, e serei o último entre tantos e tão brilhantes competidores, que sem dúvida se apresentarão aspirando à sua mão.

Carlos pronunciou estas últimas palavras com tal tom de tristeza e desalento, que Conrado comovido deu-se pressa em manifestar-lhe suas verdadeiras intenções.

— Tranquilize-se, meu caro Carlos, — disse-lhe com benévolo sorriso, não tem por ora nem rival, nem concorrente algum, e mesmo que os tivesse, o preferido seria sempre o senhor, não só por minha parte como também por ela. Melhor do que ninguém o senhor deve saber, se ela corresponde ou não ao seu amor. Desde ontem que os estou observando e estudando a ambos, e agora, em vista das revelações táo explícitas e sinceras, que acaba de fazer-me, era preciso que eu fosse bem destituído de penetração para não compreender que se amam mutuamente.

A estas palavras o estudante deslumbrado pelos fulgores da mais risonha esperança e mergulhado em eflúvios de beatitude esteve a ponto de arrojar-se aos pés de Conrado e beijar-lhe as mãos; mas a própria violência de sua emoção o acanhava, e naqueles momentos, não sabendo o que devia dizer ou fazer, quedou-se por algum tempo silencioso, de olhos cravados no chão, e o peito a ofegar.

— O senhor me faz o mais ditoso dos homens, — murmurou enfim; — não sei como testemunhar-lhe o meu reconhecimento...

— Nada tem que agradecer-me, — atalhou Conrado; — concedendo-lhe a mão de Rosaura não faço mais que dar cumprimento a um enlace que o destino tinha preparado de antemão, e ainda mais uma vez não posso deixar de dar graças à Providência, que, restituindo-me a filha, depara-me ao mesmo tempo para ela um esposo tão digno de minha escolha. Não serei eu que vá romper violentamente laços tão santos e puros, que a natureza formou, e que o céu deve abençoar. Como há pouco lhe contei, muito sofri na minha mocidade em razão de ser contrariado em meus afetos, e a oposição caprichosa de um pai pouco insensato nos tornou para sempre infelizes a mim e a mãe de Rosaura. Eu seria pior mil vezes do que esse pai, se, tendo passado por tão cruel e dolorosa provação, quisesse condenar à mesma sorte a filha que o céu preservou-me por meios tão extraordinários.

Carlos nada respondeu; tomou uma das mãos de Conrado, levou-a ao coração, e o abraçou. A emoção embargava-lhe a voz, e o peito lhe arfava afogado em ondas de felicidade. A excessiva ventura, como a extrema desgraça, quando assim vem inesperada, desorienta e embota o espírito. Conrado compreendeu o acanhamento, em que aquela extraordinária comoção colocava o mancebo e julgou conveniente deixá-lo a sós inebriar-se nos eflúvios de prazer e ventura, que lhe banhavam o coração.

— Já temos conversado muito, — disse-lhe, — é quanto basta por agora; permita-me que o deixe a sós por alguns instantes; esteja à sua vontade.

Conrado retirou-se para o interior da casa, e Carlos ficou sozinho respirando à larga as auras da esperança e da felicidade. Ao contrário do dia anterior começou a examinar minuciosamente todos os objetos, que ali existiam. Viu o que na véspera não vira, sobre o bufete um pequeno ramalhete de jasmins e violetas, o par de luvas e o leque, que Rosaura costumava sempre ali deixar. Respirou com avidez o perfume dos jasmins e violetas, beijou três vezes o leque que não soube retribuir-lhe tão extremosos carinhos, apertou as luvas ao peito, e ninguém seria capaz de traduzir o hino de amor, que do fundo do coração entoava à senhora daqueles objetos e de seus pensamentos.

Notou também que havia na sala um magnífico piano de Erard, e sobre ele aberto o método de Hünten.

— Ah! — exclamou ele, — eis aí um bem singular capricho do destino!... aquela que queriam votar à escravidão e condenar a só ouvir na senzala as cantigas do africano ao som da marimba ou do machete, vai de hoje em diante interpretar as mais admiráveis produções da arte moderna.

Neste seu passeio extático em roda do salão, foi interrompido pelo aparecimento de Conrado e Rosaura, agradável interrupção que veio pôr o cúmulo às suas deliciosas emoções. O leitor fará ideia de quão rápidas e agradáveis correram as horas para os dois amantes. À tarde, depois do jantar, enquanto Rosaura, principiante ainda, sentada ao piano estudava as escalas, Conrado tomou de parte seu futuro genro, levou-o para a sacada.

— Como vê, ela é ainda muito principiante; — disse-lhe — é necessário, que eu a eduque ainda para poder lha entregar. Veio para aqui sabendo apenas ler e escrever mal; mas tem tal inteligência, é tão dócil, e entrega-se ao estudo com tal ardor, que espero em menos de um ano dar-lhe uma noiva digna do senhor, e que poderá apresentar-se no meio da mais distinta sociedade sem fazê-lo corar.

Carlos não se enfadaria se pudesse desde logo desposar a menina assim mesmo bisonha, como estava, e esta proposta para esperar mais um ano não lhe agradou muito.

— Paciência! — murmurou consigo; — fui condenado a um ano de purgatório; porém que importa, se depois disso tenho certa a bem-aventurança?...

Retirou-se ao pôr do sol, e voou para o casa nas asas do amor, da alegria e da esperança.

Entrando em casa fez tais tolices, brincou, cantou e saltou por tal arte, que Frederico ficou apreensivo, julgando que suas mágoas o tinham enlouquecido. Mal pensava ele que essas mágoas da noite para o dia se tinham transformado em júbilos inefáveis.

Depois porém que o seu amigo o pôs ao fato de todo o ocorrido, o coração do bom Frederico também transbordou de alegria, e apesar do seu sério ficou quase tão louco como o próprio Carlos.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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