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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 44 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo XXV: Os óbitos

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Voltemos à casa do major Damásio, pois há muito não temos notícia do que por lá se passa; não sabemos o que é feito da infeliz e interessante Adelaide, de seu pai, de seu marido, e nem de sua linda e crescente prole.

É-nos forçoso dar agora, ainda que com bastante pesar, uma dupla notícia fúnebre; mas como dizem que há males que vêm para bem, devemos suportá-la com resignação respeitando sempre os altos desígnios da Providência.

Oito dias pouco mais ou menos depois da cena tão venturosa, tão cheia de emoções deliciosas, a que acabamos de assistir em casa de Conrado, a família do major Damásio cobria-se de luto. Morais, depois da terrível conferência, que se passara entre ele, sua esposa, seu sogro, Frei João e Conrado, caíra gravemente enfermo. Os médicos chamados à sua cabeceira declararam que era um caso de febre perniciosa, que então grassava pela cidade, e pouca esperança mostraram de poder salvá-lo, e tinham razão.

Os sofrimentos do espírito, se não produzem, ao menos aumentam a intensidade da moléstia existente, e a tornam incurável, quando as causas morais são desconhecidas ou quando mesmo, sendo conhecidas pelo próprio paciente, não podem ser reveladas como as de Morais, e portanto não podem ser combatidas.

O infeliz Morais tinha dupla razão para desesperar-se e sofrer horrivelmente; uma legítima e natural, outra procedente de um desvario, de uma paixão insensata; ambas porém inconfessáveis, porque era seu dever recalcá-las bem no fundo do coração.

Triste situação, em que nem ao menos lhe era permitido o alívio do desabafo! Desesperador infortúnio, cujas causas não podia revelar sem desonra para a mulher, que tanto amara, ou sem se confessar réu de uma grande infâmia.

Para uma organização enfraquecida, e para uma alma ainda suscetível de pundonor não era preciso mais. O desgosto, a vergonha, os remorsos, e tudo isso reunido talvez a um insulto da febre, de que falavam os médicos, o levaram ao túmulo em poucos dias.

Quanto ao major, sua saúde e sua razão já muito enfraquecidas pelos anos e pelas moléstias não puderam resistir ao doloroso golpe do dia fatal da conferência. Paralítico e inteiramente desmemoriado jazia no fundo de uma cama, e nem teve conhecimento da morte de seu genro, a quem poucos dias sobreviveu. Adelaide e Lucinda foram durante os longos dias de tão sinistra e dolorosa crise os dois anjos tutelares, que em tudo cuidavam, a tudo providenciavam.

Conrado era minuciosamente informado pela boa e zelosa Lucinda de tudo o que se passava em casa do major. Depois que este morreu, julgou que era seu dever ir visitá-la e oferecer seus serviços àquela que tanto amara, que era mãe de sua filha, viúva e órfã de pai, não tendo senão filhos em tenra idade, e entretanto herdeira de uma fortuna, que, se bem que reduzida pelos esbanjamentos e má administração dos últimos tempos, devia ser ainda considerável.

Conrado seria levado a dar esse passo somente por seu pensamentos generosos e tão consentâneos ao seu caráter, ou também embalado pela esperança de fazer ressuscitar o seu passado?... Sua filha, cuja existência ignorava, tinha ressuscitado. Teria ele esperanças de fazer também ressuscitar como esposa á mãe de sua filha?

Eis o que em breve havemos de saber.

Adelaide recebeu a visita de Conrado com tão cordial e sincera gratidão, que ele não hesitou em continuá-las encarregando-se com a melhor vontade de todos os negócios de casa.

O amor antigo e recíproco renasceu livre e expansivo como nunca. Os infortúnios de um e outro tinham posto ao claro as nobres qualidades de ambos.

A faceirice e galanteios de Adelaide durante a primavera de sua vida, não eram mais do que resultado da inexperiência e irreflexão dos verdes anos, alimentadas por uma educação mal dirigida.

Adelaide, graças ao vigor de sua organização, tendo já trinta anos, podia bem mentir que não tinha ainda vinte e cinco. Depois que a esperança de um novo amor antigo lhe tinha entrado no coração, havia voltado aos anos de sua juventude, e seu ar melancólico era temperado por um desses risos meigos e suaves, como um raio do sol escoando-se por entre as nuvens tênues e vaporosas de uma tarde tépida e serena.

O mesmo acontecia a Conrado.

Era um homem na idade viril, mas que parecia ter dez anos de menos.

Somente um aspecto mais severo, e certa beleza máscula o tornavam algum tanto diferente do que antes era.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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