Universo da obra
Universo da obra
O vento arranhava o Complexo inteiro, batendo nos mastros, nas torres de xilita, nas antenas, nos trilhos espessos de gelo, até fazer cada estrutura tremer como se o próprio ar quisesse arrancar tudo do lugar. O Complexo de Ofertório de Limiar Norte morria, e morria em público, com suas sirenes berrando um aviso único, repetido até a histeria, `FRIO DE COLAPSO. ABRIGOS IMEDIATOS. FRIO DE COLAPSO.` Corredores de pedra mineral vibravam com o impacto do som, portas pesadas batiam, trabalhadores largavam ferramentas, brinquedos inacabados, estatuetas brilhantes, caixas de presentes que talvez jamais fossem entregues, e corriam sem olhar para trás. Lá fora, a mina principal estava em carne viva, o grande poço antes luminoso convertera-se numa garganta de escuridão rasgada por neve horizontal, e a xilita das estruturas de apoio, estressada pelo calor excessivo das últimas semanas, rangia como dentes, braços de madeira mineral se retorcendo, rachando, cuspindo lascas afiadas. Um supervisor, pendurado numa passarela que balançava sobre o vazio, berrava para que fechassem chaminés e desligassem fornos, embora a ordem chegasse tarde demais, porque ninguém já conseguia alcançar os painéis externos, a nevasca avançava como um animal cego, empurrando massas de gelo pela encosta da cava, e onde o frio encostava portas emperravam, trilhos endureciam em segundos, pele rachava por baixo das máscaras.
O pior medo, ali, nunca fora morrer. Morrer ainda guardava uma espécie de limpeza, um desfecho, uma violência breve. O horror verdadeiro era ficar, ser apanhado inteiro pela neve viva, endurecer por dentro até o sangue empedrar e, em vez de desaparecer, continuar consciente dentro de um corpo imobilizado para sempre, ouvindo o mundo afastar-se em milímetros. Jasmin, trabalhadora da linha de montagem, escorregou nas escadas metálicas e caiu de joelhos, a luva esquerda rasgada no corrimão, a pele dos dedos entregue ao ar aberto por um segundo fatal, e a dor foi tão aguda que o grito não chegou a nascer, ficou preso na garganta antes de virar nada. O rapaz ao lado tentou erguê-la, gaguejando seu nome, falando sem terminar a frase que ambos conheciam desde a infância, se congelar aqui e te deixarem, e o resto já não precisava ser dito. Uma nova rajada veio da mina trazendo estilhaços de xilita e flocos tão duros quanto lâminas, a passarela tremeu, uma das torres de suporte partiu-se ao meio com um estalo seco que explodiu a madrugada, e nesse momento alguém gritou que tudo iria desabar, voz levada embora antes de completar o próprio medo.
Foi então que o ar se abriu. Não por milagre suave, nem por recuo da tempestade, e sim por um gesto de precisão quase brutal. Um risco de gelo atravessou o vendaval, primeiro fino como um corte em vidro, depois mais largo, mais firme, girando no vazio até dividir o vento em duas correntes opostas. Entre elas se formou um corredor estreito de calma, um túnel provisório onde a neve caiu em flocos lentos, e a criatura que o desenhara voltou uma segunda vez, longa, ágil, feita de cristal e movimento, uma lontra esguia de placas geladas chamada Dasca. Atrás dela veio um rugido grave, pesado, e das sombras brancas surgiu Donn, metade touro, metade montanha viva, recebendo no corpo compacto tudo aquilo que o mundo lhe arremessava, chifres embotados à frente, patas esmagando neve e pedra até fabricar caminho onde antes só havia colapso. Sobre o dorso de Donn vinha uma figura envolta em vermelho e branco, e a primeira impressão era a de volume, de alguém maior do que realmente era, porque o corpo dela estava coberto por camadas de neve viva que se agarravam a ombros, braços e cintura, caindo pelo peito como uma barba branca em perpétua recomposição. Por baixo dessa matéria móvel, o vermelho das vestes ardia no branco do desastre. Seus olhos, azulados até a cinza, traziam reflexos líquidos, e bastou que Jasmin os visse para sentir algo raro demais naquele mundo, uma segurança tão antiga que doeu. Perchta tinha chegado.
O vento mudou de obediência. No alto, Pria mergulhou, ave de penas de aço, abrindo no céu uma espiral imensa que sugou a nevasca para longe do coração da mina, enquanto Blixen, enxame mineral de insetos luminosos, entrava por frestas e rachaduras devolvendo em lampejos o desenho invisível das galerias, das bolsas de água, das colunas prestes a ceder. Komet desceu pela encosta como um corpo de pedra em rotação calculada, reorganizando o próprio desmoronamento a cada impacto, Vix correu pelas vigas de xilita soldando falhas com as garras de luz, Cupra abriu sobre os desabrigados uma sombra leitosa onde o ar voltava a ser respirável, Astor ergueu o lago de contenção até o limite exato entre água e prisão, Rudra faiscou entre os corpos apontando onde a vida ainda oscilava no fio, e Perchta, em pé sobre Donn, distribuía ordens em voz baixa, como se não falasse com criaturas, e sim com as próprias camadas do mundo, vento, gelo, minério, pânico. Cada nome lançado por ela corrigia uma parte do caos. Cada gesto redesenhava um trecho de realidade, aqui um muro de gelo, ali um degrau improvisado, adiante um desvio para salvar quem ainda conseguia correr. Jasmin, que mal recuperara os dedos, ergueu os olhos para a mulher cercada pela Corte dos Nove e pensou, num reflexo infantil e absoluto, se ela está aqui, ninguém fica, ninguém será deixado vivo dentro do gelo, não hoje.
A mina, no entanto, não era apenas um lugar em risco. Era também um lugar exigido. Quando os alto-falantes de comando romperam o vendaval para ordenar produção máxima até novo aviso, para lembrar que presentes seguiam em rota de entrega e que os fornos não deveriam ser interrompidos, Perchta entendeu, com a rapidez de quem aprendeu cedo a pensar sob pressão, que o frio ali não vinha somente da tempestade, vinha também da fome térmica de um sistema que continuava queimando seu próprio corpo para aquecer outros cinturões. Ela desviou o fluxo dos fornos com a força do vento, impediu o choque fatal com as paredes da mina, abriu passagem para os últimos trabalhadores e sustentou o Complexo um pouco além do que ele parecia merecer. Quando, por fim, os gritos de `PERCHTA` começaram a subir das plataformas, dos túneis, dos abrigos e das passarelas, ela os recebeu com a solenidade de quem acredita estar fazendo apenas o necessário. No meio da estrutura que arrancava calor do mundo e chamava isso de salvação, no centro do maquinário que convertia sobrevivência em rito, Perchta ainda cria, com todo o coração, que nascera para impedir que o frio se transformasse em prisão. Por enquanto, essa verdade bastava. Bastava até para que ninguém ousasse perguntar o preço.
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