A Placa Presentes de Gelo · Capítulo 3 de 37
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A Placa

Capítulo 3: A Placa

O calor da plataforma central não vinha do mundo externo, vinha das paredes. Era um calor sem cheiro, sem fumaça, sem brasa, saído de grelhas embutidas no piso, de linhas opacas nas colunas, de painéis metálicos ocultos atrás das superfícies lisas. Não derretia a neve, não evaporava o frio com honestidade, não deixava marca na pele. Limitava-se a empurrar o inverno alguns passos para trás, como fazem os regimes que não resolvem a miséria, apenas a mantêm longe do enquadramento principal. Perchta sentiu a mudança assim que Donn atravessou o campo de contenção térmica. O manto de neve viva aderido ao seu corpo reagiu com um arrepio, compactando-se antes de começar a ceder, camada por camada, como um animal relutante sendo obrigado a deixar a floresta para entrar num templo. Uma voz neutra, sem rosto e sem idade, anunciou do alto que o suporte externo seria desligado, que a zona de recepção estava estabilizada, e a própria frase soou como um elogio à técnica, não às vidas recém-arrancadas da beira do gelo.

A plataforma estava cheia. Trabalhadores de outros setores, técnicos, auxiliares, aprendizes de sacerdote, todos acomodados em arquibancadas metálicas dispostas em semicírculo. Quase todos vestiam tons apagados, cinza, azul, branco mineral, e aqui e ali o vermelho mais firme dos sacerdotes-Termo interrompia a paleta como se o poder precisasse sempre de uma cor que o denunciasse. Acima deles, grandes telas ocupavam as paredes mostrando o emblema dos Essenciais pulsando em vermelho profundo, três linhas onduladas, calor ascendente, ordem térmica, sobrevivência tornada símbolo. Quando Perchta entrou, o emblema desapareceu e deu lugar a ela. Não a ela que cruzava a plataforma naquele instante com neve derretendo dos ombros, mas uma versão editada daquilo que fora minutos antes, recortada de dentro da mina, iluminada com heroísmo suplementar, acompanhada por cordas tensas e um coro baixo que não existira no vento real. A avalanche surgia menor, os mortos ausentes, o pânico reduzido, Dasca deixava no ar um brilho que nunca deixara, Cupra parecia abrir-se como bênção, Donn tornava-se muralha perfeita, e Perchta, vendo a si mesma pela primeira vez através do aparato dos Essenciais, entendeu sem palavras que o resgate já estava sendo convertido em pedagogia.

O sacerdote-Termo no palco anunciou números, perdas previstas, colapso evitado, integridade térmica preservada, produção futura garantida. A plateia explodiu em aplausos. Donn resmungou baixo. Perchta desceu de seu dorso e caminhou pelo trilho luminoso que a conduzia até o centro como quem entra num ritual antigo demais para ser recusado sem escândalo. Na tela, o momento em que chamara Astor voltava em close, o lago brilhando de um modo falso, e a câmera cortava sempre antes da encosta dos congelados. Um sacerdote mais velho desceu então com uma placa metálica clara nas mãos, fina como espelho fosco, e sorriu para ela com aquela devoção treinada que mistura gratidão real, administração e cálculo. Disse-lhe que o planeta agradecia. Depois corrigiu a própria frase, na prática, mostrando que o planeta que agradecia era o planeta filtrado pelos cinturões quentes, pelas salas de exibição, pelos olhos que dependiam do trabalho alheio sem precisar encarar a mina. Ergueu a placa para a multidão e falou de perdas reduzidas, de comunidades salvas, de ciclos de calor garantidos, de mais presentes de gelo para aquecer o mundo.

A palavra presentes soou diferente ali dentro. Nas telas, as imagens mudaram para jovens de algum cinturão central recebendo pequenas esculturas de xilita que brilhavam por dentro, famílias sorrindo ao lado de fornalhas cerimoniais, canecas fumegantes, crianças saudáveis, um lema em letras firmes, `CADA PRESENTE É CALOR COMPARTILHADO`. Perchta conhecia aquele material desde as Escolas de Ciclo. Toda criança o conhecia. Era assim que lhes ensinavam a amar a engrenagem antes de terem idade para perguntar de onde vinha o calor, quem extraía o minério, quem era deixado para trás quando a conta falhava, e quem precisava congelar para que a narrativa seguisse limpa. Ela aceitou a placa com as duas mãos. O metal estava morno, porém não como o que passa pelo fogo, era um morno sem origem, uma temperatura administrativa. Na superfície surgiam letras vermelhas classificando sua atuação em percentuais, índices de estabilização, consumo térmico, impacto projetado em ciclos futuros. Ao fim, uma frase curta resumia a noite inteira, `OPERAÇÃO BEM-SUCEDIDA. NENHUMA ANOMALIA RELEVANTE IDENTIFICADA.` Foi então que a lembrança do bloco rachado, do rosto sereno preso no gelo, do cheiro sem nome, encostou nela de novo como uma mão invisível.

Ela ergueu os olhos para as telas procurando qualquer menção às encostas. Nada. Perguntou ao sacerdote sobre os congelados. Ele respondeu com a calma pedagógica dos que transformam supressão em cuidado, disse que se tratava de mártires antigos, de registros apartados, de imagens impróprias para aquela narrativa, que misturar tudo confundiria as pessoas. Outro sacerdote, mais jovem, desviou os olhos. O mais velho tocou-lhe o braço e disse que seu papel não era investigar arquivos antigos, e sim impedir novos blocos, e nisso, acrescentou, ela era perfeita. A palavra ficou nela como gelo fino. Perfeita para mover o inverno, perfeita para salvar minas, perfeita para manter de pé o mesmo sistema que enterrava rostos na encosta e depois os retirava do enquadramento para não prejudicar a lição moral do dia. Por um instante, Perchta quis perguntar quem eram aquelas pessoas, por quanto tempo o planeta as deixava em suspensão, se ainda ouviam, se alguém algum dia as retiraria dali. Quis também mencionar o cheiro, a pressão muda, a sensação de que o gelo não estava morto. O mosaico seguinte nas telas interrompeu tudo, rostos de trabalhadores agradecendo seu nome, presentes erguidos para a câmera, mantas, ferramentas, canecas, calor administrado e devolvido em imagem.

Perchta fez então o que lhe haviam ensinado desde sempre. Curvou levemente a cabeça, ergueu a placa metálica à altura do peito e disse que o calor pertencia a todos, que ela apenas movia o gelo. Os alto-falantes repetiram a frase como se estivessem já transformando-a em lema oficial. A multidão respondeu com o coro esperado. O sacerdote sorriu satisfeito. Rudra, aos pés de Donn, acendeu o núcleo vermelho por um segundo, curto como nervosismo. Quando a cerimônia terminou e um corredor lateral se abriu apenas para ela e para a Corte, as paredes lisas e brancas, interrompidas por linhas horizontais de luz, pareceram mais frias do que o exterior, apesar do aquecimento contínuo. Uma voz escondida repetia ainda que nenhuma anomalia relevante fora identificada. Perchta apertou a placa entre os dedos e percebeu que, naquele planeta, as placas não serviam apenas para registrar feitos. Serviam para fixar o sentido admissível das coisas, para dizer o que havia acontecido, o que deveria ser lembrado, o que podia ser omitido sem culpa. O frio aprisionava corpos. A linguagem, começou ela a suspeitar, aprisionava o resto. Ainda era cedo para chamar aquilo de desconfiança. Mesmo assim, alguma coisa dentro dela já não se deixava aquecer com a mesma facilidade.

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