Reserva Térmica Presentes de Gelo · Capítulo 5 de 37
Obra Menu

Reserva Térmica

Capítulo 5: Reserva Térmica

O sono não a encontrou naquela noite, embora o quarto tivesse sido preparado para produzi-lo com a mesma eficiência com que a plataforma produzia reverência, silêncio e conforto seletivo. Deitada apenas por instantes, Perchta fechava os olhos e via outra vez as linhas escondidas na placa, a linguagem seca, contábil, a obscenidade calma de quem convertera perdas humanas em categoria de estabilidade, e do corredor vinham, em intervalos regulares, ruídos que antes lhe pareciam parte indistinta do funcionamento da máquina, carrinhos metálicos deslizando, comandos curtos, o ranger abafado de portas espessas, sons de uma vida subterrânea cuja utilidade consistia em fazer o poder parecer espontâneo. Quando enfim se ergueu, a aurora falsa projetada na parede ainda fingia um horizonte sereno, montanhas paradas e um céu lento demais para ser lembrança do mundo, e por um instante lhe ocorreu que talvez toda a plataforma existisse para isso, para oferecer imagens suportáveis a pessoas escolhidas enquanto, alguns níveis abaixo, a engrenagem verdadeira seguia trabalhando com corpos, números e calor.

Donn levantou a cabeça. Rudra já estava desperto, como se esperasse o movimento dela desde muito antes do primeiro passo. Perchta não vestiu o manto cerimonial, escolheu apenas uma capa escura, simples, prendeu os cabelos de qualquer maneira e saiu. Nos corredores centrais, o calor permanecia uniforme, disciplinado, porém bastava reparar melhor para perceber pequenas variações, zonas em que o piso vibrava mais forte, curvas de ar morno escapando por frestas mínimas, pulsações técnicas que denunciavam um organismo enterrado sob a arquitetura polida. Cruzou com dois auxiliares que empurravam caixas lacradas de madeira branca, finas demais para conter presentes, pesadas demais para guardar enfeites. Nenhum dos dois ergueu os olhos. Nas laterais das caixas, gravado a ferro, havia um selo que ela nunca notara, um círculo partido por três linhas horizontais e, abaixo, uma sigla breve, `R.T.`. Os homens seguiram pelo corredor de serviço à esquerda. Perchta guardou a marca na memória e prosseguiu até a pequena capela de manutenção onde, segundo lhe disseram horas antes, os aprendizes-Termo faziam a vigília dos condutos sagrados.

Iriel estava ali, ajoelhado diante de uma coluna quente, os dedos pousados sobre uma faixa de metal incrustada na parede como se escutasse, através dela, o humor do edifício. Virou-se antes que ela dissesse qualquer coisa, e a expressão em seu rosto trazia o cansaço de quem já sabia qual pergunta viria. Havia olheiras novas sob os olhos muito claros, a batina vermelha mal fechada no peito, a juventude inteira dele submetida a um trabalho de contenção que o fazia parecer mais velho quando se calava. Perchta tirou a placa de dentro da capa e a colocou sobre o banco estreito ao lado. O texto comemorativo continuava visível, tranquilo, ornamental. Iriel desviou o olhar de imediato.

— Você sabia — disse ela, e a frase saiu baixa, embora carregasse mais peso do que um grito naquele recinto estreito.

Ele demorou alguns segundos a responder, os bastantes para escolher qual parcela da verdade ainda lhe seria suportável.

— Sabia o suficiente para temer que você visse.

— Quero o resto.

— O resto não cabe numa explicação curta.

— Então me leva até ele.

Iriel baixou a cabeça. Não havia insolência alguma em Perchta, sequer raiva explícita, o que o desarmou de modo mais profundo do que a ameaça teria feito. A devoção administrativa sabia lidar com rebeldes, criava para eles celas, acusações, cerimônias corretivas. Diante de alguém que ainda buscava compreender antes de destruir, a máquina ficava menos preparada. Ele respirou fundo, tocou a coluna aquecida uma última vez e se levantou.

— Se você descer comigo, volta diferente — disse. — E, depois de ver, talvez cada homenagem soe como insulto, cada festa como técnica, cada presente como recibo.

— Ontem, isso já começou.

Saíram pela parte posterior da capela, atravessaram um corredor estreito cujo revestimento de pedra branca cedia lugar, pouco a pouco, a uma superfície mais crua, metal aparente, rebites, tubulações expostas, respirações mecânicas ao longo das paredes. O calor aumentava conforme desciam, embora o ar, paradoxalmente, se tornasse menos acolhedor, denso, seco, saturado por um cheiro mineral de salmoura, ferrugem e tecido esterilizado. Em certos trechos passavam esteiras carregando objetos embrulhados em fitas pálidas, pequenas caixas, amuletos, miniaturas, adornos de mesa, os mesmos presentes que nas celebrações eram erguidos como prova da continuidade civilizatória. Ali, fora do enquadramento festivo, pareciam outra coisa, peças de um rito de administração, marcadas com códigos de setor, temperatura de destino, prioridade de distribuição. Iriel viu o olhar dela e decidiu falar antes que a pergunta se formasse.

— Os presentes aquecem o mundo de um jeito muito diferente do que se conta às crianças. Eles organizam o fluxo. Sem oferta, não há direito de recebimento. Sem recebimento, um distrito perde cota térmica. Chamam isso de reciprocidade para que pareça moral, e assim a escassez ganha idioma de virtude.

Desceram mais um nível. Ali já não havia imagens nobres nas paredes, só painéis técnicos, números luminosos, tabelas variando em vermelho e azul, mapas dos cinturões com linhas pulsantes feito sistema circulatório de um corpo gigantesco que sobrevivia sacrificando regiões inteiras para preservar outras. Perchta parou diante de uma tela onde colunas de dados se atualizavam em tempo real. `ENTRADAS DE OFERTA`, dizia uma delas. Outra, `CONVERSÃO DE MASSA FRIA`. A terceira, `RETENÇÃO DE ESTABILIDADE`. O corpo dela endureceu. Iriel, sem coragem para fingir inocência, tocou rapidamente um controle lateral e apagou a tela.

— Eles dão nomes aproximativos às coisas — murmurou. — É assim que conseguem viver com elas.

No fundo do corredor, duas portas circulares se abriram após o reconhecimento do anel sacerdotal de Iriel. Atrás delas, encontrou-se enfim o centro do segredo. Era uma galeria larga, quase bela à primeira vista, formada por sucessivos arcos translúcidos onde a luz azulada corria como se o próprio gelo tivesse aprendido a respirar. Só depois o olhar alcançava o que havia dentro dos arcos, corpos suspensos em câmaras verticais, alinhados em fileiras impecáveis, alguns inteiros, outros parcialmente cobertos por placas opacas, todos conservados numa mistura de gelo vivo, salmoura luminosa e contenção mineral. Havia homens de trabalho pesado, mulheres ainda com pulseiras de família no punho, adolescentes, velhos, uma quantidade dolorosa de pessoas cuja singularidade fora preservada apenas o bastante para que pudessem continuar servindo. Dos compartimentos saíam condutos finos que se ligavam às paredes, ao piso, ao teto, ramificando-se rumo às zonas altas da plataforma, e um zumbido contínuo, grave, percorria o lugar como uma prece sem fé.

Perchta não avançou de imediato. O estômago se contraiu, os dedos perderam a temperatura, e por um instante cruel o próprio dom que ela carregava pareceu reconhecer aquela engenharia, como se a neve em sua pele compreendesse antes da mente a natureza daquilo. Seus olhos passaram de um rosto a outro, detendo-se mais do que devia, e então o espanto se reorganizou em entendimento. Aqueles corpos não estavam armazenados apesar do sistema. Eram parte dele. Não serviam como memória, não aguardavam resgate, não eram sequer mausoléus técnicos erguidos por uma civilização em crise. Eram infraestrutura.

— Quantos? — perguntou, a voz rouca, estreita.

— Nesta plataforma, pouco mais de quatro mil unidades estáveis — respondeu Iriel, e se odiou pela naturalidade administrativa da própria frase. Corrigiu-se em seguida, tarde demais. — Quatro mil pessoas. Em toda a rede, ninguém fora da Corte sabe ao certo. Os totais se dividem entre os cinturões, as minas profundas, os lagos proibidos, os polos de armazenamento e as cidades que já nasceram dependendo de reservas anteriores.

Perchta enfim caminhou entre os arcos. Em cada câmara havia uma pequena placa metálica com dados mínimos, setor de origem, data de incorporação, valor térmico estimado, grau de estabilidade, autorização sacerdotal. Nomes apareciam abreviados, quando apareciam. Em muitos casos restavam só iniciais e um número. Parou diante de um compartimento onde uma mulher trazia ainda, preso sob o gelo, um broche infantil em formato de estrela. Ao lado, um rapaz de traços quase adolescentes tinha o maxilar retesado como alguém que congelara lutando contra a própria respiração. Mais adiante, um trabalhador do Limiar Norte, reconhecível pelo tecido do uniforme, carregava no ombro a marca recente do desabamento que ela havia tentado impedir. O registro indicava hora de incorporação anterior ao encerramento oficial da emergência. Ou seja, a burocracia térmica escrevera o destino de alguns vivos antes de saber se continuariam vivos.

— Vocês já contam com a morte antes que ela termine — disse, e desta vez o horror nela veio acompanhado por uma clareza quase serena, a serenidade das coisas insuportáveis quando enfim recebem nome.

Iriel assentiu.

— Chama-se previsão de continuidade. Os conselheiros dizem que governar exige antecipar perdas, reservar matéria, impedir pânico. Durante os invernos grandes, bairros inteiros foram deixados sem retorno para alimentar núcleos centrais. Depois criaram os rituais de oferta, os presentes, a pedagogia da gratidão, e pouco a pouco a violência ganhou aparência de pacto. Quem entrega, acredita participar. Quem recebe, teme perder. Quem duvida, parece ameaçar a sobrevivência comum.

Chegaram ao fim da galeria, onde um painel de obsidiana branca exibia os relatórios mais recentes. Iriel hesitou, contudo Perchta já havia visto demais para aceitar meias cortinas. Tocou a superfície. Linhas se abriram. Surgiram mapas dos cinturões, taxas de congelamento, listas de redistribuição térmica, margens de sacrifício aceitável por região, e um quadro final a fez prender o ar por longos segundos. No topo lia-se `COMPLEXO DE OFERTÓRIO DE LIMIAR NORTE`. Abaixo, em colunas meticulosamente organizadas, estavam os nomes dos trabalhadores da crise da noite anterior. Os salvos traziam a marca `recuperáveis`. Os desaparecidos, `absorção autorizada`. Ao lado de cada um, o valor de retenção produzido por sua eventual incorporação. Havia inclusive um campo reservado para aproveitamento comemorativo, a forma de traduzir o ocorrido em narrativa pública, quantos heróis seriam necessários, quantas placas, quantas procissões, quantos discursos.

Perchta pousou a mão no painel e a pressão dos dedos deixou cristais finíssimos na superfície escura. Jamais se sentira usada com tamanha nitidez. Sua chegada ao complexo, o espetáculo do salvamento, a homenagem na plataforma, tudo se rearranjava diante dela, e o que emergia desse rearranjo era uma verdade mais humilhante do que o engano, a de que sua bravura funcionava também como acabamento moral da máquina, uma camada de beleza aplicada sobre o cálculo para que o cálculo pudesse continuar. Pensou nas crianças que a imitavam nas praças, nos hinos ensinados nas escolas térmicas, nos rostos comovidos a cada aparição sua, e entendeu que não bastaria gritar. Um sistema tão antigo já aprendera a converter gritos em cerimônia.

— Por que me mostrar isso agora? — perguntou sem olhar para Iriel. — Você poderia ter continuado de joelhos diante das colunas, repetindo a doutrina até o fim.

Ele demorou a responder porque ali, pela primeira vez, falaria sem a proteção do idioma oficial.

— Porque comecei a perceber que a manutenção da fé depende de pessoas como você continuarem puras diante do próprio uso, e alguma coisa em mim já não suporta oferecer essa pureza ao mecanismo. Porque, quando vi seu rosto lendo a placa, entendi que talvez existisse uma chance de alguém forte o bastante para atravessar a superfície sem ser imediatamente engolido por ela. Porque estou cansado de benzer condutos alimentados por gente.

Um alarme suave vibrou ao longe. Não era ainda o toque de emergência, soava antes como busca protocolar, a maneira elegante de dizer que a ausência de uma autoridade começava a ser notada. Iriel aproximou-se de um nicho lateral, retirou dali um pequeno cristal de memória encaixado numa moldura térmica e o colocou na mão de Perchta. Dentro dele, microscópicas linhas de luz se moviam, vivas, delicadas.

— Cópia parcial dos relatórios de reserva, dos critérios de absorção e das rotas de distribuição. Eu não conseguiria sair daqui com isso sozinho — disse. — Com você, talvez ainda exista depois de hoje.

Perchta fechou os dedos em torno do cristal. Sentia vontade de partir todas as câmaras, arrancar as placas, expor os mortos ao céu e obrigar as cidades a encarar o que as aquecia. Sentia vontade, também, de recolher nome por nome, rosto por rosto, e devolvê-los a uma dignidade que a técnica havia reduzido a saldo. Porém outra percepção, mais dura, se impôs, cedo demais e ainda assim inevitável, a de que toda estrutura que domina por tanto tempo já preparou seus corredores de fuga, suas versões oficiais, seus culpados convenientes, suas formas de transformar escândalo em renovação controlada. Atacar sem entender o desenho inteiro seria oferecer à Corte dos Nove apenas uma crise administrável.

Guardou o cristal sob a camada interna da capa e voltou os olhos mais uma vez para a galeria. De algum modo silencioso, prometeu a cada corpo que o conhecimento daquela sala não terminaria ali embaixo, dissolvido em rito ou medo. Prometeu também a si mesma que aprenderia a linguagem completa do inimigo, desde os presentes até os mapas, desde as procissões até as minas, para que um dia o golpe não fosse apenas furor, e sim interrupção. Quando se virou para sair, o calor dos níveis superiores já lhe pareceu obsceno, um privilégio com cheiro de túmulo limpo.

No corredor de volta, antes que alcançassem a escada principal, um comunicador mural acendeu em vermelho cerimonial e a voz neutra da plataforma tomou o ar com sua habitual polidez de máquina soberana. `Convocação imediata para Perchta, enviada dos Essenciais. A Corte dos Nove solicita sua presença no Salão da Continuidade.` Iriel empalideceu. Perchta manteve o passo. O chamado chegava cedo demais para ser cortesia, tarde demais para ser coincidência. Algo na plataforma já começava a se mover em resposta à dúvida dela, e a partir daquele instante seria preciso aprender a caminhar por dentro do próprio gelo sem oferecer o coração à primeira rachadura.

1/1
Menu

Fazer anotação