Nenhuma Anomalia Presentes de Gelo · Capítulo 4 de 37
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Nenhuma Anomalia

Capítulo 4: Nenhuma Anomalia

O alojamento reservado a Perchta ficava no núcleo mais aquecido da plataforma central, um quarto amplo demais para quem quase nunca dormia o suficiente para merecê-lo, revestido por painéis claros e linhas discretas de calor que subiam das paredes com a regularidade de uma oração industrial. Não havia janela. Em vez disso, uma superfície translúcida ocupava a parede principal, projetando um horizonte de gelo imóvel, montanhas distantes, uma aurora lenta demais para ser céu de verdade. O conforto ali tinha a mesma natureza do calor do restante da plataforma, era uma recusa técnica do frio, não uma hospitalidade. Donn deitou-se próximo à entrada, pesado e vigilante. Rudra circulou pelo aposento como quem fareja uma ameaça que ainda não tem forma. Perchta pousou a placa metálica sobre a mesa baixa e ficou algum tempo olhando para ela sem a tocar, como se a superfície morna pudesse de repente devolver-lhe, em vez do elogio, a encosta rachada, o rosto preso no gelo, a frase final do relatório. `Nenhuma anomalia relevante identificada.`

Tirou então o manto restante de neve viva dos ombros e percebeu que o corpo estava exausto num lugar mais profundo do que o músculo, um cansaço de instrumento usado até o brilho. Da parede à esquerda vinha um zumbido contínuo, discreto, e por trás dele outros sons mais baixos, quase apagados pelo sistema de isolamento, passos curtos, metal arrastado, algum mecanismo abrindo e fechando, vozes breves de trabalhadores noturnos que jamais apareceriam nas telas de agradecimento. A plataforma central sustentava-se sobre um submundo de manutenção, condutos, fornos regulados por mãos anônimas, turnos de gente cuja tarefa era impedir que o conforto administrativo parecesse trabalho de alguém. Perchta aproximou-se da parede e pousou a palma sobre ela. O calor estava ali, firme, constante, com uma vibração miúda que lembrava pulsação. Pensou nos cinturões centrais, nos presentes recebidos com sorriso, nas frases ensinadas às crianças, e lhe ocorreu que o sistema inteiro dependia dessa magia profana, manter afastado do enquadramento tudo aquilo que queimava para produzir civilização.

Rudra roçou a mesa com o focinho. A placa vibrou. Não com o calor da sala, e sim ao toque do núcleo vermelho que o pequeno animal trazia na testa. Perchta franziu o cenho, aproximou-se e tomou o metal de volta nas mãos. As letras de homenagem, antes estáveis, tremularam um instante. Então sumiram. No lugar delas, surgiram linhas menores, mais secas, menos ornamentadas, como se a placa possuísse um segundo idioma reservado a outra temperatura. Perchta passou os dedos frios pela superfície e o texto respondeu melhor ao frio do que ao calor, uma inversão que a perturbou de imediato. `SALDO TÉRMICO RECUPERADO.` Abaixo, em caracteres ainda mais estreitos, `PERDAS HUMANAS DIRETAS: ACEITÁVEIS.` Depois outra linha. `CORPOS EM SUSPENSÃO PRESERVADOS PARA ESTABILIDADE DE MASSA GLACIAL.` Por um momento ela pensou estar lendo mal, submetida ao cansaço, à dúvida recém-nascida, à persistência do cheiro antigo ainda alojado em algum lugar do corpo. Leu de novo. As palavras permaneciam. Não falavam de luto, nem de mártires, nem de memória. Falavam de preservação de massa, de saldo, de aceitabilidade. Falavam dos congelados como elementos de engenharia térmica.

O ar do quarto pareceu estreitar. Perchta sentou-se devagar, a placa nas mãos, e deixou que o raciocínio, lento e quase contra a própria vontade, encontrasse forma. Se os blocos antigos eram mantidos por estabilidade, não estavam ali por reverência. Se o sistema os contava como massa glacial útil, a encosta não era cemitério, era infraestrutura. O mundo inteiro, com seus rituais de presentes, suas cerimônias de calor compartilhado, sua fé no trabalho como proteção contra o gelo, talvez estivesse apoiado sobre uma contabilidade muito mais brutal, aproveitar até o frio armazenado nos corpos para alimentar equilíbrio, produção e narrativa. Rudra emitiu um som curto, agudo. Donn ergueu a cabeça. A porta externa, até então silenciosa, recebeu duas batidas leves. Não de autoridade, e sim de cautela.

Era o sacerdote mais jovem, o mesmo que desviara os olhos na cerimônia. Chamava-se Iriel, soube ela quando ele entrou apenas o bastante para que a porta se fechasse logo atrás. Trazia nas mãos uma bandeja com água aquecida e pão mineral, pretexto transparente, e o rosto de quem já se arrependera de estar ali antes mesmo de tocar a maçaneta. Perchta não o convidou a sentar. Apenas levantou a placa. Iriel viu. A cor fugiu-lhe da face. Durante um segundo inteiro não houve a menor dúvida entre eles, ele conhecia aquelas linhas. Conhecia e temia o fato de que ela também agora as conhecia. Disse primeiro que ela não deveria ter acesso ao modo interno, depois tentou corrigir-se, chamando aquilo de camada técnica, de leitura destinada aos organizadores térmicos, mas sua voz não sustentava a própria pedagogia. Perchta perguntou se os congelados da encosta eram mantidos ali para estabilizar a mina. Iriel fechou os olhos. Quando tornou a abri-los, já não tinha mais como fingir inocência.

Explicou sem coragem para discurso inteiro, aos pedaços, que certos complexos antigos haviam sido construídos sobre zonas de gelo profundo sensíveis a deslocamento, que remover grandes massas congeladas alterava pressão, refletância, retenção de frio, que os Essenciais chamavam de preservação aquilo que em outra linguagem talvez recebesse nome menos suportável. Disse também que a política oficial era nunca misturar função térmica com explicação pública, porque o povo precisava continuar acreditando que os presentes aqueciam o mundo por dádiva, mérito e partilha, e não por uma economia subterrânea de extração, desperdício calculado e restos humanos incorporados à paisagem como se fossem parte natural da geologia. Parou várias vezes. Evitou olhar diretamente para ela. Ao fim, quando Perchta perguntou quantos complexos faziam o mesmo, ele não respondeu em número. Respondeu apenas, mais do que a maioria admite. Depois acrescentou algo que pesou ainda mais, a sua função, Perchta, não é saber isso, é continuar sendo a forma visível do consolo.

Quando Iriel foi embora, o quarto parecia menor. A aurora falsa continuava a pulsar na parede como se nada houvesse mudado. Donn tornara a baixar a cabeça, mas sem dormir de fato. Rudra deitou-se junto aos pés dela, ainda com o núcleo aceso em intensidade mínima, como uma brasa guardada. Perchta ficou sentada, a placa fria nas mãos, repetindo em silêncio as palavras do relatório oculto e tentando entender em que momento o mundo se tornara uma máquina capaz de chamar utilidade térmica o que em qualquer coração ainda mereceria escândalo. Lá fora, por trás das paredes aquecidas, os trabalhadores invisíveis continuavam alimentando o núcleo da plataforma. Lá longe, os cinturões talvez dormissem aquecidos por presentes recém-entregues. E entre uma coisa e outra, sob a camada de fé, de festa e de sobrevivência, abria-se diante dela uma verdade mais gelada do que a tempestade, o planeta não apenas temia o frio, aprendera a administrá-lo com tanta habilidade que já conseguia tirar proveito até dos que nele permaneciam presos. Pela primeira vez desde que recebera a Corte, Perchta não soube se o poder que carregava servia para salvar aquele mundo ou apenas para mantê-lo funcionando.

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