Estabilidade Presentes de Gelo · Capítulo 2 de 37
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Estabilidade

Capítulo 2: Estabilidade

Os gritos demoraram a diminuir, não porque o perigo tivesse passado por inteiro, e sim porque ninguém sabia o que fazer depois de gritar o nome de alguém que parecera rearranjar o mundo com as mãos. Perchta baixou o braço devagar. A barba de neve que se formava em seu rosto, assim como o manto vivo aderido ao corpo, acompanhou o movimento com um atraso quase orgânico, como se outra criatura estivesse pendurada nela, aprendendo seus gestos. Rudra ainda marcava pontos azuis no campo de visão dela, pequenas feridas frias espalhadas pelo Complexo, e foi olhando essas manchas, não as pessoas, não os painéis, que ela continuou a comandar o fim do desastre. Donn virou para a ala esquerda, Cupra desceu até quase tocar a cabeça dos trabalhadores, Vix abriu escotilhas que o gelo transformara em pedra, Blixen recolheu rotas e rachaduras, Pria apertou o olho da tempestade até que o vento deixasse de cair em bloco sobre as torres. Aos poucos a visibilidade voltou, as chaminés reapareceram, os trilhos, as passarelas, a mina devolvendo sua forma à noite.

Foi então que surgiram os blocos. Não blocos novos, não restos do colapso recém-controlado, e sim massas mais escuras, meio rochosas, desenterradas pelo vento na encosta oposta, grandes demais para serem fruto daquela madrugada. Jasmin, com os dedos ainda latejando de volta à vida, seguiu a direção do olhar de Perchta e viu, no gelo partido de um deles, um rosto. Os olhos estavam fechados, a boca relaxada, uma expressão de suspensão que não pertencia aos vivos nem aos mortos. Ninguém se aproximou. Alguns desviaram o rosto com a rapidez aprendida de quem sabe que certas coisas, se olhadas por tempo demais, exigem pensamento. Outros fizeram no peito o gesto ritual reservado aos congelados, curto, econômico, quase burocrático. Perchta sentiu antes de compreender, um cheiro sem cheiro, uma memória antiga presa na matéria, algo como fumaça fossilizada dentro da neve. Donn parou sem que ela lhe ordenasse. Rudra quis avançar. Ela o conteve com um dedo erguido. Havia naquele bloco uma espécie de pressão muda, não sobre sua pele, e sim sobre o limite onde a neve viva que a vestia tocava o restante do mundo.

A vontade de encostar a mão no gelo veio como reflexo. Quase obedeceu. O chamado dos alto-falantes chegou antes, cortando o instante com a violência lisa das vozes oficiais. `COMPLEXO DE OFERTÓRIO DE LIMIAR NORTE ESTABILIZADO. PERCHTA CONCLUIU A OPERAÇÃO DE CONTENÇÃO. CONTINUAR A EVACUAÇÃO ORDENADA. A PRODUÇÃO SERÁ RETOMADA APÓS REVISÃO ESTRUTURAL.` Cada palavra fez vibrar os cristais grudados ao corpo dela. O contato se rompeu. O cheiro sumiu. Perchta respirou fundo e reorganizou a Corte como quem recolhe uma liturgia, Komet para os pontos de risco, Astor segurando o lago, Cupra conduzindo os últimos corpos ainda trêmulos para o abrigo principal. Um a um, os animais se desfizeram da cena, Dasca mergulhando de volta na nevasca, Pria dissolvida no alto da espiral, Vix correndo pelas vigas finais, Komet rolando para o centro da cava, Astor afundando no espelho de água que voltava a endurecer, Rudra ainda olhando para trás antes de apagar o rubro do núcleo. Quando o grosso da evacuação terminou, restavam na borda da mina apenas equipes técnicas, alguns supervisores, meia dúzia de sacerdotes-Termo e ela, montada em Donn, com o vermelho das vestes mais pesado pela neve derretida. Jasmin a observava de baixo como quem tenta decorar um milagre. Perchta, do alto, olhava para as antenas coroadas pelo símbolo dos Essenciais, três linhas vermelhas onduladas, e pela primeira vez lhe pareceram bandeiras de rendição.

Disseram-lhe então que o transporte para a plataforma central já a esperava, que o relatório inicial fora encaminhado, que os Essenciais agradeceriam pessoalmente em breve. Ela assentiu com a docilidade automática de quem fora ensinada desde cedo a obedecer ao protocolo depois de cada salvação. O trabalho ali estava encerrado, disseram. A mina não desabara, as perdas podiam ser absorvidas, os fornos seriam recalibrados, o calor voltaria a circular, a produção futura estava garantida. Em algum salão distante, sabia Perchta, as telas repetiriam em breve uma versão mais limpa daquela noite, menos vento, menos pânico, mais heroísmo, e os cinturões quentes aplaudiriam a mulher de vermelho que enfrentara o frio de colapso para lhes preservar mais um ciclo. Ela fez Donn virar o corpo. No movimento, alguns flocos desprendidos da barba de neve caíram perto do bloco rachado e, por um segundo, pareceram recusar a superfície antiga, escorrendo por ela como se o interior do gelo guardasse alguma temperatura própria. O arrepio voltou. Ela tornou a sentir a dúvida, fina como um risco de cristal atravessando matéria densa.

Mesmo assim, virou as costas. O mundo a que servia ainda lhe oferecia uma explicação pronta para tudo, mártires do frio, registros antigos, zonas interditadas, arquivos separados, e por enquanto essa arquitetura bastava para sustentar sua fé. Seguiu com a Corte em direção à plataforma central levando consigo a certeza tranquila de que salvara o mundo por mais um dia e uma inquietação mínima que o discurso oficial ainda não conseguira dissolver. Talvez fosse cedo demais para chamar aquilo de pensamento. Talvez ainda fosse apenas fissura. No planeta onde trabalho aquecia, onde presentes mantinham cidades vivas e onde falhar significava congelar em vigília perpétua, até a dúvida precisava nascer escondida, debaixo da neve, onde ninguém a catalogasse antes que ela pudesse crescer.

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