SCENA IV Frei Luiz de Sousa · Capítulo 6 de 43
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SCENA IV

SCENA IV

MAGDALENA, MARIA

*Maria*. Quereis vós saber, mãe, uma tristeza muito grande que eu

tenho?--A mãe ja não chora, não? ja se não infada commigo?

*Magdalena*. Não me infado comtigo nunca, filha; e nunca me affliges,

querida. O que tenho é o cuidado que me dás, é o receio de que...

*Maria*. Pois ahi está a minha tristeza: é esse cuidado em que vos vejo

andar sempre por minha causa. Eu não tenho nada; e tenho saude, olhae

que tenho muita saude.

*Magdalena*. Tens, filha... se Deus quizer, hasde ter; e hasde viver

muitos annos para consolação e amparo de teus paes que tanto te querem.

*Maria*. Pois olhae: passo noites inteiras em claro a lidar n'isto, e a

lembrar-me de quantas palavras vos tenho ouvido, e a meu pae... e a

recordar-me da mais pequena acção e gesto,--e a pensar em tudo, a ver se

descubro o que isto é--o porque tendo-me tanto amor... que, oh isso

nunca houve decerto filha querida como eu!...

*Magdalena*. Não, Maria.

*Maria*. Pois sim; tendo-me tanto amor, que nunca houve outro egual,

estaes sempre n'um sobresalto commigo?...

*Magdalena*. Pois se te estremecêmos?

*Maria*. Não é isso, não é isso: é que vos tenho lido nos olhos... Oh,

que eu leio nos olhos, leio, leio!... e nas estrêllas do ceu tambem--e

sei coisas...

*Magdalena*. Que estás a dizer, filha, que estás a dizer? que desvarios!

Uma menina do teu juizo, temente a Deus... não te quero ouvir fallar

assim.--Ora vamos: anda ca, Maria, conta-me do teu jardim, das tuas

flores. Que flores tens tu agora? O que são éstas? (_pegando nas que

ella traz na mão_)

*Maria*, _abrindo a mão e deixando-as cahir no regaço da mãe_. Murchou

tudo... tudo estragado da calma... Éstas são papoulas que fazem dormir,

colhi-as para as metter debaixo do meu cabeçal ésta noite; quero-a

dormir de um somno, não quero sonhar, que me faz ver coisas... lindas ás

vezes, mas tam extraordinarias e confusas...

*Magdalena*. Sonhar, sonhas tu acordada, filha! Que, olha, Maria,

imaginar é sonhar: e Deus pôs-nos n'este mundo para velar e

trabalhar--com o pensamento sempre n'elle sim, mas sem nos extranharmos

a éstas coisas da vida que nos cercam, a éstas necessidades que nos

impõe o estado, a condicção em que nascêmos. Ves tu, Maria: tu es a

nossa unica filha, todas as esperanças de teu pae são em ti...

*Maria*. E não lh'as posso realizar, bem sei.--Mas que heide eu fazer?

eu estudo, leio...

*Magdalena*. Les demais, cânças-te, não te distraes como as outras

donzellas da tua edade, não es...

*Maria*. O que eu sou... só eu o sei, minha mãe... E não sei, não: não

sei nada, senão que o que devia ser não sou...--Oh! porque não havia de

eu ter um irmão que fosse um galhardo e valente mancebo, capaz de

commandar os terços de meu pae, de pegar n'uma lança d'aquellas com que

os nossos avós corriam a India, levando adeante de si Turcos e Gentios!

um bello moço que fosse o retratto proprio d'aquelle gentil cavalleiro

de Malta que alli está. (_Apontando para o retratto_) Como elle era

bonito meu pae! Como lhe ficava bem o preto!... e aquella cruz tam alva

em cima! Paraque deixou elle o hábito, minha mãe, porque não ficou

n'aquella sancta religião, a vogar em suas nobres galeras, por esses

máres, e a affugentar os infieis deante da bandeira da Cruz?

*Magdalena*. Oh filha, filha!... (_Mortificada_) porque não foi vontade

de Deus: tinha de ser d'outro modo.--Tomára eu agora que elle chegásse

de Lisboa! Comeffeito é muito tardar... valha-me Deus!

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