SCENA XI Frei Luiz de Sousa · Capítulo 42 de 43
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SCENA XI

SCENA XI

O PRIOR DE BEMFICA, _o_ ARCEBISPO, MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, etc.

MARIA, _que entra precipitadamente pela egreja em estado de completa

alienação; traz umas roupas brancas, desalinhadas e cahidas, os cabellos

soltos, o rosto macerado, mas inflammado com as rosetas ethicas, os

olhos desvairados; pára um momento, reconhece os pais e vai direita a

elles.--Espanto geral: a cerimonia interrômpe-se_.

*Maria*. Meu pae, meu pae, minha mãe! levantae-vos, vinde. (_Toma-os

pelas mãos; elles obedecem machinalmente, veem ao meio da scena:

confusão geral_.)

*Magdalena*. Maria! minha filha!

*Manuel*. Filha, filha!... Oh, minha filha!... (_Abraçam-se ambos

n'ella_.)

*Maria*, _separando-se com elles da outra gente, e trazendo-os para a

bôcca da scena_. Esperae: aqui não morre ninguem sem mim. Que quereis

fazer? Que cerimonias são éstas? Que Deus é esse que está n'esse altar,

e quer roubar o pae e a mãe a sua filha?--(_Para os circumstantes_) Vós

quem sois, espectros fataes?... quereis-m'os tirar dos meus braços?...

Esta é a minha mãe, este é o meu pae... Que me importa a mim com o

outro? Que morrêsse ou não, que esteja com os mortos ou com os

vivos--que se fique na cova ou que resuscite agora para me mattar?...

Matte-me, matte-me, se quer, mas deixe-me este pae, ésta mãe, que são

meus.--Não ha mais do que vir ao meio de uma familia e dizer: «Vós não

sois marido e mulher?... e ésta filha do vosso amor, ésta filha criada

ao collo de tantas meiguices, de tanta ternura, ésta filha é...»--Mãe,

mãe, eu bem o sabia... nunca t'o disse, mas sabia-o: tinha-m'o ditto

aquelle anjo terrivel que me apparecia todas as noites para me não

deixar dormir... aquelle anjo que descia com uma espada de chammas na

mão, e a atravessava entre mim e ti, que me arrancava dos teus braços

quando eu adormecia n'elles... que me fazia chorar quando meu pae ia

beijar-me no teu collo.--Mãe, mãe, tu não hasde morrer sem mim... Pae,

dá ca um panno da tua mortalha... dá ca, eu quero morrer antes que elle

venha: (_incolhendo-se no hábito do pae_) quero-me esconder aqui, antes

que venha esse homem do outro mundo dizer-me na minha cara e na

tua--aqui deante de toda ésta gente: «Essa filha é a filha do crime e do

peccado!...» Não sou; dize, meu pae, não sou... dize a essa gente toda,

dize que não sou. (_Vai para Magdalena_) Pobre mãe! tu não podes...

coitada!... não tens ánimo...--nunca mentiste?... Pois mente agora para

salvar a honra de tua filha, para que lhe não tirem o nome de seu pae.

*Magdalena*. Misericordia, meu Deus!

*Maria*. Não queres? Tu tambem não, pae?--Não querem. E eu heide morrer

assim... e elle vem ahi...

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