SCENA III Frei Luiz de Sousa · Capítulo 18 de 43
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SCENA III

SCENA III

MANUEL DE SOUSA e MARIA

*Manuel*. Ora ouve ca, filha. Tu tens uma grande propensão para achar

maravilhas e mysterios nas coisas mais naturaes e singellas. E Deus

intregou tudo á nossa razão, menos os segredos de sua natureza

ineffavel, os de seu amor, e de sua justiça e misericordia para

comnosco. Esses são os pontos sublimes e incomprehensiveis da nossa fe!

Esses creem-se: tudo o mais examína-se.--Mas vamos: (_surrindo_) não

dirão que sou da Ordem dos Prégadores? Hade ser d'estas paredes, é

uncção da casa: que isto é quasi um convento aqui, Maria... Para frades

de San'Domingos não nos falta senão o hábito...

*Maria*. Que não faz o monge...

*Manuel*. Assim é, querida filha! Sem hábito, sem escapulario nem

corrêa, por baixo do setim e do velludo, o cilicio póde andar tam

appertado sôbre as carnes, o coração tam contricto no peito... a

morte--e a vida que vem depois d'ella--tam deante dos olhos sempre, como

na cella mais estreita e com o burel mais grosseiro cingido. Mas emfim,

chega-te aos bons... sempre é meio caminho andado. Eu estou

contentissimo de virmos para ésta casa--quasi que nem ja me pêza da

outra. Tenho aqui meu irmão Jorge e todos estes bons padres de

San'Domingos como de portas a dentro.--Ainda não viste d'aqui a egreja?

(_Levanta o reposteiro do fundo, e chegam ambos á tribuna_) É uma devota

capella ésta. E todo o templo tam grave! dá consolação vê-lo. Deus nos

deixe gosar em paz de tam boa visinhança. (_Tornam para o meio da

casa_.)

*Maria*, _que parou deante do retratto de D. João de Portugal, vólta-se

derepente para o pae_. Meu pae, este retratto é parecido?

*Manuel*. Muito; é raro ver tam perfeita similhança: o ar, os ademanes,

tudo. O pintor copiou fielmente quanto viu. Mas não podia ver, nem lhe

cabiam na télla, as nobres qualidades d'alma, a grandeza e valentia de

coração,--e a fortaleza d'aquella vontade serena mais indomavel, que

nunca foi vista mudar. Tua mãe ainda hoje estremece so de o ouvir

nomear; era um respeito... era quasi um temor sancto que lhe tinha.

*Maria*. E lá ficou n'aquella fatal batalha!...

*Manuel*. Ficou.--Tens muita pena, Maria?

*Maria*. Tenho.

*Manuel*. Mas se elle vivêsse... não existias tu agora, não te tinha eu

aqui nos meus braços.

*Maria*, _escondendo a cabeça no seio de seu pae_. Ai meu pae!

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