SCENA IV
SCENA IV
*Telmo* _so_. Virou-se-me a alma toda com isto: não sou ja o mesmo
homem. Tinha um presentimento do que havia de acontecer... parecia-me
que não podia deixar de succeder... e cuidei que o desejava em quanto
não veiu.--Veiu, e fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguem!--Meu
honrado amo, o filho do meu nobre senhor está vivo... o filho que eu
criei n'estes braços... vou saber novas certas d'elle--no fim de vinte
annos de o julgarem todos perdido--e eu, eu que sempre esperei, que
sempre suspirei pela sua vinda...--era um milagre que eu esperava sem o
crer! Eu agora tremo... É que o amor d'est'outra filha, d'esta última
filha, é maior, e venceu... venceu, apagou o outro. Perdoe-me Deus, se é
peccado. Mas que peccado hade haver com aquelle anjo?--Se me ella
viverá, se escapará d'esta crise terrivel!--Meu Deus, meu Deus!
(_ajoelha_) levae o velho que já não presta para nada, levae-o por quem
sois! (_Apparece o romeiro á porta da esquerda, e vem lentamente
approximando-se de Telmo que não dá por elle_.) Contentae-vos com este
pobre sacrificio da minha vida, Senhor, e não me tomeis dos braços o
innocentinho que eu criei para vós, Senhor, para vós... mas ainda não,
não m'o leveis ainda. Já padeceu muito, já traspassaram bastantes dores
aquella alma: esperae-lhe com a da morte algum tempo!