SCENA I Frei Luiz de Sousa · Capítulo 16 de 43
Obra Menu

SCENA I

SCENA I

MARIA e TELMO

*Maria*, _sahindo pela porta da esquerda e trazendo pela mão a Telmo,

que parece vir de pouca vontade_. Vinde, não façaes bulha, que minha mãe

ainda dorme. Aqui, aqui n'esta sala é que quero conversar. E não teimes,

Telmo, que fiz tenção e acabou-se.

*Telmo*. Menina!...

*Maria*. «Menina e môça me levaram de casa de meu pae:» é o principio

d'aquelle livro tam bonito que minha mãe diz que não intende: intendo-o

eu.--Mas aqui não ha menina nem môça; e vós, senhor Telmo-Paes, meu fiel

escudeiro, «faredes o que mandado vos é.»--E não me repliques, que então

altercâmos, faz-se bulha, e acorda minha mãe, que é o que eu não quero.

Coitada! Ha oito dias que aqui estamos n'esta casa, e é a primeira noite

que dorme com socêgo. Aquelle palacio a arder, aquelle povo a gritar, o

rebate dos sinos, aquella scena toda... oh! tam grandiosa e sublime, que

a mim me encheu de maravilha, que foi um espectaculo como nunca vi outro

de egual majestade!... á minha pobre mãe atterrou-a, não se lhe tira dos

olhos: vai a fechá-los para dormir, e diz que ve aquellas chammas

innoveladas em fummo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar, e a

devorar tudo com furia infernal... O retratto de meu pae, aquelle do

quarto de lavor tam seu favorito, em que elle estava tam gentil homem,

vestido de cavalleiro de Malta com a sua cruz branca no peito--aquelle

retratto não se póde consolar de que lh'o não salvassem, que se

queimásse alli. Ves tu? ella que não cria em agouros, que sempre me

estava a reprehender pelas minhas scismas, agora não lhe sái da cabeça

que a perda do retratto é prognostico fatal de outra perda maior que

está perto, de alguma desgraça inesperada, mas certa, que a tem de

separar de meu pae.--E eu agora é que faço de forte e assizada, que

zombo de agouros e de sinnas... para a animar, coitada!... que aqui

entre nós, Telmo, nunca tive tanta fe n'elles. Creio, oh se creio! que

são avisos que Deus nos manda para nos preparar.--E ha... oh! ha grande

desgraça a cahir sôbre meu pae... decerto! e sôbre minha mãe tambem, que

é o mesmo.

*Telmo*, _disfarçando o terror de que está tomado_. Não digaes isso...

Deus hade fazê-lo por melhor, que lh'o merecem ambos. (_Cobrando ânimo e

exaltando-se_) Vosso pae, D. Maria, é um portuguez ás direitas. Eu

sempre o tive em boa conta; mas agora, depois que lhe vi fazer aquella

acção,--que o vi, com aquella alma de portuguez velho, deitar a mão ás

tochas, e lançar elle mesmo o fogo á sua propria casa; queimar e

destruir n'uma hora tanto do seu haver, tanta coisa de seu gôsto, para

dar um exemplo de liberdade, uma licção tremenda a estes nossos

tyrannos... oh minha querida filha, aquillo é um homem. A minha vida que

elle queira é sua. E a minha pena, toda a minha pena é que o não

conheci, que o não estimei sempre no que elle valia.

*Maria*, _com as lagrymas nos olhos, e tomando-lhe as mãos_. Meu Telmo,

meu bom Telmo!... É uma glória ser filha de tal pae: não é? dize.

*Telmo*. Sim é: Deus o defenda!

*Maria*. Deus o defenda! amen.--E elles, os tyrannos governadores ainda

estarão muito contra meu pae? Ja soubeste hoje alguma coisa, das

diligências do tio Frei Jorge?

*Telmo*. Ja, sim. Vão-se desvanecendo--ainda bem!--os agouros de vossa

mãe... hãode sahir falsos de todo. O arcebispo, o conde de Sabugal, e os

outros, ja vosso tio os trouxe á razão, ja os moderou. Miguel de Moura é

que ainda está renitente; mas hade-lhe passar. Por estes dias fica tudo

socegado. Ja o estava se elle quizesse dizer que o fogo tinha pegado por

acaso. Mas ainda bem que o não quiz fazer; era desculpar com a villania

de uma mentira o generoso crime por que o perseguem.

*Maria*. Meu nobre pae!--Mas quando hade elle sahir d'aquelle omizio?

Passar os dias retirado n'essa quinta tam triste d'além do Alfeite, e

não podêr vir aqui senão de noite, por instantes, e Deus sabe com que

perigo!

*Telmo*. Perigo nenhum; todos o sabem e fecham os olhos. Agora é so

conservar as apparencias ahi mais uns dias, e depois fica tudo como

d'antes.

*Maria*. Ficará, póde ser, Deus queira que seja!--Mas tenho ca uma coisa

que me diz que aquella tristeza de minha mãe, aquelle susto, aquelle

terror em que está--e que ella disfarça com tanto trabalho na presença

de meu pae (tambem a mim m'o queria incobrir, mas agora ja não póde,

coitada!) aquillo é presentimento de desgraça grande...--Oh! mas é

verdade... vinde ca: (_Leva-o deante dos tres retrattos que estão no

fundo; e apontando para o de D. João_) de quem é este retratto aqui,

Telmo?

*Telmo*, _olha, e víra a cara de repente_. Esse é... hade ser... é um da

familia, d'estes senhores da casa de Vimioso que aqui estão tantos.

*Maria*, _ameaçando-o com o dedo_. Tu não dizes a verdade, Telmo.

*Telmo*, _quasi offendido_. Eu nunca menti, senhora D. Maria de Noronha.

*Maria*. Mas não diz a verdade toda o senhor Telmo-Paes; que é quasi o

mesmo.

*Telmo*. O mesmo!... Disse-vos o que sei, e o que é verdade; é um

cavalleiro da familia de meu outro amo que Deus... que Deus tenha em bom

logar.

*Maria*. E não tem nome o cavalleiro?

*Telmo*, _imbaraçado_. Hade ter: mas eu é que...

*Maria*, _como quem lhe vai tapar a bôcca_. Agora é que tu ias mentir de

todo... cala-te.--Não sei para que são estes mysterios: cuidam que eu

heide ser sempre criança!--Na noite que viemos para ésta casa, no meio

de toda aquella desordem, eu e minha mãe entrámos por aqui dentro sos e

viemos ter a ésta sala. Estava alli um brandão acceso, incostado a uma

d'essas cadeiras que tinham pôsto no meio da casa; dava todo o clarão da

luz n'aquelle retratto... Minha mãe, que me trazia pela mão, põe

derepente os olhos n'elle, e dá um grito, oh meu Deus!... ficou tam

perdida de susto, ou não sei de quê, que me ia cahindo em cima.

Pergunto-lhe o que é; não me respondeu: arrebata da tocha, e leva-me com

uma fôrça... com uma pressa a correr por essas casas, que parecia que

vinha alguma coisa má atrás de nós.--Ficou n'aquelle estado em que a

temos visto ha oito dias, e não lhe quiz fallar mais em tal. Mas este

retratto que ella não nomeia nunca de quem é, e so diz assim ás vezes:

«O outro, o outro...» este retratto, e o de meu pae que se queimou, são

duas imagens que lhe não sahem do pensamento.

*Telmo*, _com anciedade_. E ésta noite ainda lidou muito n'isso?

*Maria*. Não; desde hontem pela tarde, que ca esteve o tio Frei Jorge e

a animou com muitas palavras de consolação e de esperança em Deus, e que

lhe disse do que contava abrandar os governadores, minha mãe ficou

outra; passou-lhe de todo, ao menos até agora.--Mas então, vamos, tu não

me dizes do retratto? Olha: (_designando o d'elrei D. Sebastião_)

aquelle do meio, bem sabes se o conhecerei: é o do meu querido e amado

rei D. Sebastião. Que majestade! que testa aquella tam austera, mesmo

d'um rei môço e sincero ainda, leal, verdadeiro, que tomou ao serio o

cargo de reinar, e jurou que hade ingrandecer e cobrir de glória o seu

reino! Elle alli está... E pensar que havia de morrer ás mãos de mouros,

no meio de um deserto, que n'uma hora se havia de apagar toda a ousadia

reflectida que está n'aquelles olhos rasgados, no apertar d'aquella

bôcca!... Não póde ser, não póde ser. Deus não podia consentir em tal.

*Telmo*. Que Deus te ouvisse, anjo do ceu!

*Maria*. Pois não ha prophecias que o dizem? Ha, e eu creio n'ellas. E

tambem creio n'aquell'outro que alli está; (_indica o retratto de

Camões_) aquelle teu amigo com quem tu andáste lá pela India, n'essa

terra de prodigios e bizarrias, por onde elle ia... como é? ah, sim...

«N[~u]a mão sempre a espada e n'outra a penna...»

*Telmo*. Oh! o meu Luiz, coitado! bem lh'o pagaram. Era um rapaz, mais

moço do que eu, muito mais... e quando o vi a última vez... foi no

alpendre de San'Domingos em Lisboa--parece-me que o estou a ver--tam mal

trajado, tam incolhido... elle que era tam desimbaraçado e galan... e

então velho! velho alquebrado,--com aquelle ôlho que valia por dois, mas

tam summido e incovado ja, que eu disse commigo: «Ruim terra te comerá

cedo, corpo da maior alma que deitou Portugal!»--E dei-lhe um abraço...

foi o último... Elle pareceu ouvir o que me estava dizendo o pensamento

ca por dentro, e disse-me: «Adeus, Telmo! San'Telmo seja commigo n'este

cabo da navegação... que ja vejo terra, amigo»--e apontou para uma cova

que alli se estava a abrir.--Os frades resavam o officio dos mortos na

egreja... Elle entrou para lá, e eu fui-me embora. D'ahi a um mez,

vieram-me aqui dizer: «Lá foi Luiz de Camões n'um lençol para

Sant'Anna.» E ninguem mais fallou n'elle.

*Maria*. Ninguem mais!... Pois não tem aquelle livro que é para dar

memória aos mais esquecidos?

*Telmo*. O livro sim: acceitaram-n'o como o tributo de um escravo. Estes

riccos, estes grandes, opprimem e desprezam tudo o que não são as suas

vaidades, tomaram o livro como uma coisa que lhes fizesse um servo seu e

para honra d'elles. O servo, acabada a obra, deixaram-n'o morrer ao

desamparo sem lhe importar com isso... Quem sabe se folgaram? podia

pedir-lhes uma esmolla--escusavam de se incommodar a dizer que não.

*Maria*, _com enthusiasmo_. Está no ceu.--Que o ceu fez-se para os bons

e para os infelizes, para os que ja ca da terra o adivinharam!--Este lia

nos mysterios de Deus; as suas palavras são de propheta. Não te lembras

o que lá diz do nosso rei D. Sebastião?... como havia de elle então

morrer? Não morreu. (_Mudando de tom_) Mas o outro, o outro... quem é

est'outro, Telmo? Aquelle aspecto tam triste, aquella expressão de

melancholia tam profunda... aquellas barbas tam negras e cerradas... e

aquella mão que descança na espada como quem não tem outro arrimo, nem

outro amor n'esta vida...

*Telmo*, _deixando-se surprehender_. Pois tinha, oh se tinha...

(Maria olha para Telmo, como quem comprehendeu, depois torna a fixar a

vista no retratto; e ambos ficam deante d'elle como fascinados. No

entretanto e ás últimas palavras de Maria, um homem imbuçado com o

chapeu sôbre os olhos levanta o reposteiro da direita e vem, pé ante pé,

approximando-se dos dois que o não sentem.)

1/1
Menu

Fazer anotação