SCENA VII Frei Luiz de Sousa · Capítulo 9 de 43
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SCENA VII

SCENA VII

JORGE, MAGDALENA, MARIA, MIRANDA, MANUEL DE SOUSA _entrando com varios

criados que o seguem--alguns com brandões accesos.--É noite fechada_.

*Manuel*, _parando juncto da porta, para os criados_. Façam o que lhes

disse. Ja, sem mais detença! Não apaguem esses brandões; incostem-n'os

ahi fóra no patim. E tudo o mais que eu mandei.--(_Vindo ao proscenio_)

Magdalena! Minha querida filha, minha Maria! (_Abraça-as_) Jorge, ainda

bem que aqui estás, preciso de ti: bem sei que é tarde e que são horas

conventuaes; mas eu irei depois comtigo dizer a «mea culpa» e o

«peccavi» ao nosso bom prior.--Miranda, vinde ca. (_Vai com elle á porta

da esquerda, depois ás do eirado, e dá-lhe algumas ordens baixo_.)

*Magdalena*. Que tens tu? nunca entraste em casa assim. Tens coisa que

te dá cuidado... e não m'o dizes? O que é?

*Manuel*. É que... Senta-te, Magdalena; aqui aopé de mim, Maria; Jorge,

sentemo'-nos que estou cançado. (_Sentam-se todos_) Pois agora sabei as

novidades, que seriam extranhas se não fosse o tempo em que vivêmos.

(_Pausa_) É preciso sahir ja d'esta casa, Magdalena.

*Maria*. Ah! inda bem, meu pae!

*Manuel*. Inda mal! mas não ha outro remedio. Sahiremos ésta noite

mesma. Ja dei ordens a toda a familia: Teimo foi avisar as tuas aias do

que haviam de fazer, e lá anda pelas cameras velando n'esse cuidado.

Sempre é bom que vas dar um relance d'olhos ao que por lá se faz: eu

tambem irei por minha parte.--Mas temos tempo: isto são oito horas, á

meia noite vão quatro; d'aqui lá o pouco que me importa salvar estará

salvo... e elles não virão antes da manhan.

*Magdalena*. Então sempre é verdade que Luiz de Moura e os outros

governadores?...

*Manuel*. Luiz de Moura é um villão ruim, faz como quem é: o arcebispo

é... o que os outros querem que elle seja. Mas o conde de Sabugal, o

conde de Sancta-Cruz, que deviam olhar por quem são, e que tomaram este

incargo odioso... e vil, de opprimir os seus naturaes em nome de um rei

extrangeiro!... Oh que gente, que fidalgos portuguezes!... Heide-lhes

dar uma licção, a elles, e a este escravo d'este povo que os soffre,

como não levam tyrannos ha muito tempo n'esta terra.

*Maria*. O meu nobre pae! Oh, o meu querido pae! Sim, sim, mostrae-lhes

quem sois e o que vale um portuguez dos verdadeiros.

*Magdalena*. Meu adorado espôso, não te deites a perder, não te

arrebates. Que farás tu contra esses poderosos? Elles ja te querem tam

mal pelo mais que tu vales que elles, pelo teu saber--que esses grandes

fingem que desprezam... mas não é assim, o que elles teem é inveja!--O

que fará, se lhes deres pretexto para se vingarem da affronta em que os

traz a superioridade do teu merito!--Manuel, meu espôso, Manuel de

Sousa, pelo nosso amor...

*Jorge*. Tua mulher tem razão. Prudencia, e lembra-te de tua filha.

*Manuel*. Lembro-me de tudo, deixa estar.--Não te inquietes, Magdalena:

elles querem vir para aqui ámanhan de manhan; e nós forçosamente havemos

de sahir antes d'elles entrarem. Por isso é preciso ja.

*Magdalena*. Mas para onde iremos nós, derepente, a éstas horas?

*Manuel*. Para a unica parte para onde podêmos ir: a casa não é minha...

mas é tua, Magdalena.

*Magdalena*. Qual?... a que foi?... a que péga com San'Paulo?... Jesus

me valha!

*Jorge*. E fazem muito bem: a casa é larga e está em bom reparo, tem

ainda quasi tudo de trastes e paramentos necessarios: pouco tereis que

levar comvosco.--E então para mim, para os nossos padres todos que

alegria! Ficâmos quasi debaixo dos mesmos telhados.--Sabeis que tendes

alli tribuna para a capella da Senhora da Piedade, que é a mais devota e

a mais bella de toda a egreja... Ficâmos como vivendo junctos.

*Maria*. Tomára-me eu ja lá. (_Levânta-se pulando_.)

*Manuel*. E são horas, vamos a isto. (_Levantando-se_.)

*Magdalena*, _vindo para elle_. Ouve, escuta, que tenho que te dizer;

por quem es, ouve: não haverá algum outro modo?

*Manuel*. Qual, senhora, e que lhe heide eu fazer? Lembrae vós, vêde se

achaes.

*Magdalena*. Aquella casa... eu não tenho ânimo... Olhae: eu preciso de

fallar a sos comvosco.--Frei Jorge, ide com Maria ahi para dentro; tenho

que dizer a vosso irmão.

*Maria*. Tio, venha, quero ver se me accommodam os meus livrinhos;

(_confidencialmente_) e os meus papeis, que eu tambem tenho papeis:

deixae que lá na outra casa vos heide mostrar... Mas segrêdo?

*Jorge*. Tontinha!

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