SCENA X Frei Luiz de Sousa · Capítulo 25 de 43
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SCENA X

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JORGE, MAGDALENA

*Magdalena*, _fallando ao bastidor_. Vai, ouves, Miranda? Vai e deixa-te

lá estar até veres chegar o bergantim; e quando desimbarcarem, vem-me

dizer para eu ficar descançada. (_Vem para a scena_) Não ha vento, e o

dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a viagem. Mas a volta...

quem sabe? o tempo muda tam depressa...

*Jorge*. Não, hoje não tem perigo.

*Magdalena*. Hoje... hoje! Pois hoje é o dia da minha vida que mais

tenho receado... que ainda temo que não acabe sem muito grande

desgraça... É um dia fatal para mim: faz hoje annos que... que casei a

primeira vez--faz annos que se perdeu elrei D. Sebastião--e faz annos

tambem que... vi pela primeira vez a Manuel de Sousa.

*Jorge*. Pois contaes essa entre as infelicidades da vossa vida?

*Magdalena*. Conto. Este amor--que hoje está sanctificado e bemditto no

ceu, porque Manuel de Sousa é meu marido--começou com um crime, porque

eu amei-o assim que o vi... e quando o vi--hoje, hoje... foi em tal dia

como hoje!--D. João de Portugal ainda era vivo. O peccado estava-me no

coração; a bôcca não o disse... os olhos não sei o que fizeram: mas

dentro d'alma eu ja não tinha outra imagem senão a do amante... ja não

guardava a meu marido, a meu bom... a meu generoso marido... senão a

grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quasi que mais deve a si

do que ao espôso. Permittiu Deus... quem sabe se para me tentar?... que

n'aquella funesta batalha de Alcacer, entre tantos, ficásse tambem D.

João...

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