Prefácio da segunda edição O Romance de um Homem Rico · Capítulo 2 de 23
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Prefácio da segunda edição

Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticínio, que aventuro sobre o meu futuro de escritor, me sai exato, este romance prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como à força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar daquela flama, que me aquentava a fantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica, lances da vida exterior, uns de riso, outros de lágrimas. E eu entrava em espirito e coração neste interior mundo, e lá me sentia viver, sofrer e amar. A isto não ousaria eu chamar inspiração; mas, sem modéstia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar obras de um dia, leituras de duas horas, recreio a ócios de quem os não sabia gastar melhor e mais aproveitados.

Como se foi amortiçando a luz da minha mocidade, e aquele incansável amor ao trabalho, languido a ponto de já agora deixar cair a fronte esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que principia, e mais depressa que o deperecer comum das faculdades inventivas. Esta é a sorte imerecida de aqueles que não puderam ou não quiseram poupar o vigor do coração em vantagem do vigor da inteligência. A mais ardente cabeça de homem empedrou debaixo da mão glacial da desfortuna.

Foi este romance escrito nas cadeás da Relação do Porto em 1861.

Quem dirá que tenho saudades de aqueles dias negros e de aquelas noites solitárias? Devo supor que vim aparelhado para os máximos infortúnios, quando o experimental-os levemente me incomoda, e o relembral-os me esperta uma quase saudade! Penso que não é isto saudade da desgraça: deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de lá, este árido pragal, que vou trilhando agora.

Ao menos, lá e então, aviventavam-me uma grande dor e uma grande esperança: hoje, nem sequer as amarguras do fel nem a prelibação dos balsamos dôces.

Este silencio dóe mais que o estridor dos ferrolhos. Esta paz, em redor do meu espirito, é uma quietação de sepulturas.

Viveram no meu ergastulo da Relação do Porto, comigo, noite e dia, o padre Álvaro deste romance, e Maria da Gloria e Leonor, e a santa de Vairão; e Teresa, e Mariana, e meu tio desterrado do outro livro chamado «Amor de perdição. » Viveram comigo aqueles ditosos pares que eu casei, e o publico hospedou alegremente, com o livro «Doze casamentos felizes. »

E eu tenho saudades de eles, e das noites em que os via sentados em volta do meu leito. Cá fora, à luz em cheio do sol, não os encontro.

Belas, 19 de Maio de 1863.

CAMILO CASTELO BRANCO.

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