Capítulo III
Quem não vê por isto que o mundo é um juiz iníquo?
S. FRANCISCO DE SALES (Introd. à vida devota).
Temo que me chamem milagreiro, e tomem este livro como aditamento à «Flor dos Santos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota. Vou demonstrar que soror Joana das Cinco Chagas do Senhor não fazia milagres: antevia unicamente, com os olhos de sua virtuosissima alma, as consequências do que já sabia. Saiba também o leitor que este romance, por ter o mérito da verdade, pouco tem que fazer: é a natureza que o faz.
É já sabido que Manoel Teixeira de Macedo foi a Macau, em 1815, liquidar a herança paterna de sua mulher.
Maria da Gloria tinha então vinte e três anos, e muita formosura. Não direi que amava, mas estimava grandemente seu marido, mais velho que ela doze anos. Não casara apaixonada, nem sequer voluntaria. Seu pai, comerciante laborioso, simpathisou com o incansável bastardo do titular; tomou-lhe o pulso dos haveres, e achou-o já rico aos trinta e dois anos; e, como deixasse o seu negocio na Índia entregue a caixeiros, acelerou o casamento com o duplo fim de desapressar-se de cuidados, que lhe inquietavam os ócios de ricaço aposentado. Não quero dizer que os esposórios de paixão assegurem felicidade duradoura: sobejam aí exemplos do contrario; estou, porém, em afirmar que os casamentos involuntarios é que não asseguram felicidade nenhuma.
Na ausência de seu marido, a vida de Maria da Gloria era o amor de encanto à criancinha de três meses. Não a mortificavam grandes saudades, e menos ainda ciumes. Toda no filho, não curava de outras sensações, como quem já não era sua, e só vivia para ele.
Defrontava com a sua casa um cavalheiro de anos adiantados, quarenta teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser presado. Umas dava-lh'as a figura, outras a posição e os créditos. Era um magistrado, e chamava-se João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de Magalhães.
Está o leitor como atônito de ver em romance um galan que não se chama Alfredo, Ernesto, Arthur, ou Júlio. Aceite-o assim, que era aquele o nome do cavalheiro, que foi depois intendente geral da policia, e ministro de estado, e holocausto de suas ideias liberais no desterro, se bem que exilado pelo ilegitimo soberano a quem honradamente servira.
João de Mattos reverenciava a sã moral, nunca violara os deveres de bom cidadão, respeitava os direitos alheios por amor de si, tinha que farte deste útil egoismo que equilibra os atos humanos, e forma o pilar das virtudes sociais, sem absoluta dependência dos preceitos religiosos. Pensava com Benthan, e não tinha ido mal com tal guia. O caminho do filosofo inglês não é tão abrolhado de dificuldades como o dos moralistas ascéticos, e tem de bom que conduz ao mesmo ponto — à virtude, sem penitenciar o corpo nem a alma.
João de Mattos amou Maria da Gloria.
Mandam-me, talvez, cancelar o período em que ficam elogiadas as qualidades do magistrado. Não consentem que se compadeçam as virtudes sociais com aquele amor. Isso é juízo de vulgo errado.
Aqui tenho eu aberto um livro de grande nomeada. É o DEVER, de um professor de moral em França. A academia premiou-lh'o, e os seus concidadãos consomem as edições, e moralisam-se. Este livro dá preceitos para regrar todas as propensões da alma. Explora a origem destas, e tenta corrigil-as desde a raiz.
Quando, porém, entende no sublime verbo do «amor», exprime-se de est'arte: «A origem do amor, e os alimentos que o nutrem, quais são? Como cresce? Como acaba? Não lia dizê-lo: tão variável é tal sentimento. No máximo dos casos, é pelos olhos que nos sentimos captivos; mas o amor acha mil avenidas por onde insinuar-se na alma. É notório o modo como o poeta fazia falar Othello: «Contava-lhe os meus azares: não empreguei outra magia... »
em outro relanço diz:
«de onde vem o amarmos as coisas belas? porque são belas; e as boas? porque são boas. » Vão tomando nota.
Outra passagem:
«Uma paixão nos senhoreia e nos abandona, sem podermos atinar com o porquê. Sahimos a negócios, e depara-se-nos ao dobrar de uma esquina a mulher, que vai transfigurar-nos o coração. »
Última citação:
«Como havemos de conjecturar uma paixão que a si mesma se defenda de demasias? Absurda coisa! Para a paixão há um freio somente: é o desgosto ou o fastio. »
Conclusões a tirar em favor da paixão de João de Mattos, sem implicância das suas excelentes qualidades:
Não sabia ele como nascera o seu amor; menos sabia ainda como havia de matá-lo. Amou pelos olhos Maria da Gloria; mas as mil avenidas da sua alma tinham sido escaladas pelo amor. Amou a formosa porque era formosa. Achou-se transfigurado no coração, quando o cria esmagado sob a graveza dos cálculos ambiciosos de gloria. Quis enfrear os ímpetos do sentimento; mas, antes do fastio, não há hora alguma em que o amor, coma o leão sezonático, se deixe acorrentar.
Aí está. Se eu não consegui desculpar o magistrado com o livro — O DEVER, perdôem-lhe os leitores por misericórdia.
Quais foram, porém, às demasias do vizinho de Maria da Gloria? Escreveu uma, duas, seis cartas, longas e eloquentes como devia dictal-as o coração e o gênio. A esposa de Manoel Teixeira pecou lendo a primeira, e lendo todas; mas não respondeu a alguma.
João de Mattos subiu um dia as escadas da esposa leal, e ajoelhou-lhe, quando ela saía da sua antecamara para ir beijar o filho no berço. Maria da Gloria estendeu o braço para a porta da saída, e disse ao homem corrido e alucinado:
— Quem lhe abriu as portas para esta infâmia? Sáia, senhor!
Não respondeu, e saiu.
A mulher pura chamou o criado, que lhe entregara as cartas, por intervenção da ama. Não lhe viu os olhos. Atirou-lhe com a soldada, e despediu-o. O criado quis explicar a entrada de João de Mattos. Maria da Gloria fez-lhe um gesto severo de silencio, e mandou-o descer no rasto de quem lhe comprara a fidelidade. Vacillou em despedir a criada. nesta oscilação olhou para o menino, e disse à ama: «perdoo-te por amor do meu filho, e porque sei que a tua culpa é de estupidez e não de imoralidade. »
Maria da Gloria tinha este crime: lera seis cartas de João de Mattos, e dissera consigo: — «Isto entretem. »
Voltou de Macau Manoel Teixeira de Macedo. Depois de abraçar a esposa, acordou o filho, e tanto o acarinhou que pôs a criança a pique de morrer abafada. A bem-aventurança estava ali no viver de Manoel Teixeira. Senhor de uma mulher bela, e virtuosa, e meiga; pai de um menino lindo como os amores; rico sem ambições que não pudesse logo comprar a ouro; estimado de uns sinceramente, e lisongeado por outros; cheio de saúde e promessas de longa vida... que mais pode dar este mundo?
O mundo não pode dar mais; mas pode tirar num momento tudo isto.
Uma tarde, entrou no quarto de sua esposa Manoel Teixeira, e disse-lhe, com rosto sêcco e pesado:
— Por que despediste o criado Gregório?
— Porque me não convinha respondeu Maria, descórando.
— Porque descóras?
— Pois eu descórei?! — balbuciou ela — Impressionou-me a mudança do teu rosto.
Saiu Manoel Teixeira, porque neste ponto entrou Eufemia com o menino.
Maria seguiu-o, e entrou com ele numa sala.
— Por que me fazes semelhante pergunta?! — disse-lhe ela, resolvida a contar-lhe o acontecimento.
O marido fitou os olhos nela e nas janelas de João de Mattos. Maria ia a falar, quando lhe ele voltou de golpe as costas, e saiu.
— Deus sabe a minha inocência: nada temo — disse ela.
É certo que Deus vê o crime e a inocência de nós todos; consente, porém (e louvados sejam por isso os altissimos juízos do Senhor!) que os inocentes sejam condemnados em muitas instancias, antes de serem citados ao seu tribunal supremo, e — em isto vai muito a dizer — parece que vê sem ofensa de sua justiça a impunidade dos que delinquiram. Os teólogos é que sabem dizer como isto é, e convencem a gente de que os romancistas são os menos azados para deslindarem esta meada. Consultem-se, pois, os teólogos.
Na porta vizinha de João de Mattos morava um especieiro que fora criado de Manoel Teixeira, e se estabelecêra com o credito deste. O logista procurou o seu antigo amo, e contou-lhe que vira entrar e sair João de Mattos de sua casa, uma vez pelo menos, enquanto o seu protetor estivera em Macau. Antes e depois da revelação, o mercieiro deu as razões da denuncia: achava-se obrigado a não consentir que o seu segundo pai fosse desonrado por uma mulher indigna. E tais coisas disse neste sentido, e com tamanha dor, que chorou!
Manoel Teixeira não viu sua mulher durante vinte e quatro horas. Decorridas estas, convidou-a a dar um passeio de carruagem ao campo. Maria da Gloria tremia de vago terror, quando se vestia para sair. Já preparada, foi ao berço do menino, e ajoelhou para beijal-o. Manoel Teixeira contemplava inalterável este lance. Que esforço de homem! não digamos maldade.
Fora de portas estava uma liteira, uma mulher sobre umas andilhas, e dois cavaleiros, que D. Maria não conheceu. A carruagem parou.
— Apeie-se, — disse ele depois que saltou rapidamente da sege.
Maria saiu machinalmente.
— Entre em aquela liteira.
— Para onde vou?! — exclamou ela.
— Sabel-o-há onde a pozerem. Não há tempo para explicações. Aquela mulher é sua criada.
— E meu filho?
— Lá irá. Estes homens são seus criados até ao ponto onde a deixarem. Adeus.
— Mas o meu filho! — exclamou, estendendo os braços ao marido — Dá-me ao menos aquele menino, se me lanças barbaramente de ti!...
— Olhe que nos ouvem, senhora! As altercações aqui, além de tardias, são indecentes.
A criada tinha apeado. Maria da Gloria foi transportada quase sem sentidos à liteira. Manoel Teixeira já não viu este doloroso conflito.
Deixemos ir aquela mártir, e esperemos em Deus.
O capitalista não entrou mais em sua casa. Pessoas estranhas tomaram conta de todo o conteúdo nela. Eufemia e o menino foram recebidos em casa de uma família, e daí levados para outro domicilio, onde os esperava Manoel Teixeira. nesta nova casa, medianamente adornada, não havia um só móvel da antiga, que suggerisse execraveis lembranças.
Correu a fama a contar os sucessos pelas mil bocas da difamação. Dizia-se que a criminosa esposa do desditoso fora encerrada num convento de Espanha; que os remorsos a matariam ali; que o extremoso marido estava a ponto de enlouquecer; que os seus amigos desvelavam as noites à beira dele, receiosos de um suicídio. Isto é o que se dizia no grêmio das famílias, onde as atoardas da fama iam buscar a sancção de evangelhos.
No entanto, João de Mattos, indigitado amante de Maria da Gloria, estava em Barcellos, sua terra natal, convalescendo da enfermidade do coração, medicada a tempo pelas ofensas do amor próprio. De volta à capital, ouviu a história, e deliberou-se nobremente a procurar Manoel Teixeira, e contar-lhe a inocência de sua mulher, confessando a própria culpa. Era honrada; mas extemporânea a tenção. O ricaço tinha ido viajar pela Itália, com o filho aos peitos da ama, e comprara uma quinta nos arrabaldes de Nápoles.
Decorreram três anos primeiro que Manoel Teixeira voltasse à pátria. João de Mattos, já no topo das grandezas sociais, nem deu conta da chegada do negociante, nem é de crer que a lembrança dos passados sucessos o perturbasse no exercício dos seus altos cargos. Imaginava Maria da Gloria em Espanha, e, por decoro seu e dela nunca inquiriu o local, nem lhe parecia fácil averigual-o. O homem é isto.
E o homem era também Manoel Teixeira de Macedo. Não há julgal-o de outro estôfo, vendo-o trazer consigo de Nápoles uma gentil italiana, e dois filhinhos, que aposentou em Lisboa num palacete de Belém. Consola, porém, dizer que o filho de Maria da Gloria era o mais querido, o que ele apertava ao coração com lágrimas, o que desde os quatro anos, trazia sempre sobre os joelhos, na carruagem, e oferecia aos carinhos de todos os seus amigos.
Entretanto, a mártir de Vairão, ajoelhando suplicante ou recuando blasfema dos degraus do altar, sentiu-se morrer em agonias atrozes durante os milhões de instantes de quatro anos. Estava da mão de Deus, porque era de Deus um anjo, que ela via ao seu lado, envolvido no habito de soror Joana das Cinco Chagas do Senhor.
neste largo espaço, teve noticias de seu filho a longos prasos: eram cartas que Eufemia lhe escrevia de Nápoles. Logo que as recebeu de Lisboa, escreveu a seu marido muitas cartas, que ele lia comovido. Não alcançou resposta de alguma. Já sabem o que ela pedia: ver seu filho, antes de ser chamada com o pai ao tribunal de Deus.