Capítulo XI
C'était Ninon de Lenclos qui disa-ti qu'ele remerciait tous lés soirs, de son esprit, et qu'ele lé priait, tons lés matins, de la préserver des erreurs de son cœur.
MIRABEAU (Lettres à la marquise de Monnier).
Já Leonor não estava no mosteiro, quando Maria da Gloria, mês e meio depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pai, temendo que a exasperação a alucinasse até o extremo do suicídio, levou-a para os Olivais, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e distracção de amigos e parentes, devotados todos a delir-lhe da lembrança a imagem do expatriado.
Álvaro, no dia imediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de João de Mattos, para ir falar-lhe.
— Chamei-o — disse-lhe ele — para lhe dar o que o senhor Macedo me não pede: é um conselho. Seu pai, que Deus haja, tinha em vista casal-o com sua prima Leonor de Brito. O senhor consultou alguma vez o seu coração sobre este desígnio de seu pai?
— Sim, senhor, e achei-o conforme aos meus mais ardentes desejos.
— Tem o senhor Álvaro alguma especie de confiança nos merecimentos de sua prima? Crê que ela o estima?
— Devo supôr que sim.
— Está num erro. Agora o conselho sem preâmbulos: não case com sua prima, nem exponha o seu bom coração ao escárnio e à desonra que inevitavelmente lhe há de vir com o arrependimento extemporâneo. Se não pode esquecêl-a, converta essa lembrança em estima, e a estima em virtude: quando a vir desgraçada, ampare-a. Imagine que sua prima há de passar pelos élos de uma cadeia fatal. Não está nas suas mãos quebrar-lhe a cadeia; mas a misericórdia pode muito, e a caridade faz milagres. Ainda o chamei para outro fim. Eu vou depois de amanhã deportado para Abrantes, à ordem do senhor D. Miguel. Vou ralado de desgostos, e vaticino que toda a força de minha alma, e a muita energia que me dá a consciência pura, me não sustenham na queda. Se eu cair, e o não tornar a ver, lembre-se, no longo curso da sua vida, destas lágrimas que viu na face de um velho, e por elas lhe rogo que, em meu nome, ajoelhe aos pés de sua santa mãe, e lhe peça perdão para mim que lhe matei a felicidade de toda a vida.
João de Mattos apertou ao seio o filho de Maria da Gloria, e disse-lhe:
— Vá!... Eu não o verei mais... Na eternidade saberei se sua mãe me perdoou.
Álvaro apareceu a sua mãe ainda com lágrimas. Interrogado acerca de elas, contou o sucesso, e fez de joelhos a suplica. Maria da Gloria ergueu as mãos, e disse em seu coração: «Vós bem sabeis, meu Deus, que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que pecou, e se rehabilitou pela contrição da honra, dai vós, Senhor misericordioso, as consolações que a mim me daís por intervenção de meu filho. » E acrescentou em voz alta:
— Vai dizer a esse nosso amigo que tua mãe lhe deu este nome. Pede-lhe licença para saber as intimidades da sua vida. Se ele quiser emigrar, e não tiver recursos, diz-lhe que és rico: pede-lhe com encarecimento que t'os aceite. Ouvi dizer à santa de Vairão que seu sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m'o em elogio da sua probidade. Vai, meu filho, que esse homem perdeu tua mãe para a felicidade; mas restituiu-t'a para o amor.
João de Mattos ouviu da boca de Álvaro as textuais palavras de sua mãe. Balbuciou muito comovido expressões de reconhecimento, e apontando para um grande painel, disse:
— Guarde de mim aquela lembrança: o retrato de um pai honrado é um constante pregão de honra; o do amigo verdadeiro, e inflexivel no infortúnio, é um consolador, quando não pode ser um conselheiro mudo.
Agradeceu Álvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar consigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruínas dos Olivais.
deste probo e desditoso estadista não falaremos mais. Logrou ser profeta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua última carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida dos dias em que a paixão o ensandecera a ponto de não ver o abismo em que a virtude e a paz de uma mulher se despenhavam com a honra dele. Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a última, de perto se seguiu o apagar-se aquela grande luz, que de mais, no entender dos magnates e dos áulicos, alumiava a ignomínia e a protérvia de aqueles que empeçavam na virtude do homem, leal ao trono; mas leal ainda mais à honra.
Choraram-no Álvaro e sua mãe. Tão afeiçoado lhe era o moço, que pedira licença a Maria da Gloria para o ir visitar em Abrantes, e conduzil-o para sua casa, indultada a sentença. Algumas horas, cismando nele, pensava Álvaro em ver sua mãe ligada em segundas núpcias a um homem de quem ele já tinha no coração palavras paternais, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e veneração de filho. Deu mate a estas doces cogitações a morte; mas a saudade ficou imperecivel no coração de Álvaro, e a gratidão no espirito de Maria da Gloria.
Se não cahisse a propósito este incidente, logo de começo teria eu dito que Sebastião de Brito foi logo visitar sua cunhada, e oferecer-lhe a sua casa dos Olivais. A viúva não aceitou, porque a soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e aceitável neste mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Maior, cujo silencio de alguns meses a desmemoriára, e ao mesmo tempo industriada por amigas e parentas, mostrou afável sombra ao primo, por entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ela que um ano de vida lhe modificara em muito o gênio, e que ainda agora começava a sentir-se no coração. Recebia carinhosa, ou antes desafiava, os agrados de Álvaro, já comovendo-se com arte às saudades com que ele relembrava o pai, já seguindo-o às inspirações da vindoura felicidade, e fantasiando-a com ele na vida do campo, na ausência dos esplendores sociais, e na permutação intima e obscura dos sentimentos de duas almas apaixonadas. Com Maria da Gloria não era ela menos artificial, ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o igualar em merecimentos.
Escutava Álvaro sua prima com assombro e desconfiança; e Maria da Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora industriada pelo pai ambicioso, e pelas mulheres da roda ilustre, professas no logro e nas fraudes do coração. E daí, o silencio de ambos no tocante a casamento; e os sustos de Sebastião de Brito, e os despeitos da filha orgulhosa, à conta daquele silencio.
Seccára a fonte perenal dos recursos do morgado com a morte do irmão bastardo. A cunhada não se afoutava ele a pedir as grandes quantias, nas ocasiões apertadas; e ainda menos ao sobrinho, o qual, se bem que tivesse dezoito anos, nada pedia nem aceitava dos grandes haveres de sua mãe. Lastimava-se o morgado à filha, arguindo-a de ser causa de tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regímen faz conhecer, duplicava as ciladas ao coração do primo e à bemquerença da tia.
Uma vez estava ela a sós com Álvaro. Este entretinha-se nesse tempo a escrever as memorias da sua infância, e deixara o manuscrito aberto na mesa de estudo. Pediu Leonor licença para ler algumas páginas, e ele hesitou; mas insistiu Leonor tão meigamente que o primo deixou-a ler as duas últimas. Tinham estas referencia aos oito anos de sua idade, e terminavam assim: «Não esqueceria nunca os dias dos Olivais, ainda mesma que da afeição, então nascida, mais odiosa me fosse a lembrança. » Seguiam-se algumas reticencias.
Leonor depoz o manuscrito, e disse triste:
— Estes pontinhos que significam?
— Nada, minha prima.
— Dás-me licença que eu complete o teu pensamento? Deixas-me escrevêl-o sobre as reticencias?
— Escreve — disse Álvaro risonho.
Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escrita:
«Aquela criança, inocente e formosa como um anjo aos meus olhos, em aquela idade, amava-me, e não sei que amor era o seu, porque o amor dos anjos deve ser misterioso, e é. Mais tarde, eu não podia amal-a, porque não poderá entendel-a. Senti-me enfastiado dela, como as crianças das flores com que brincam uma hora. Não a esqueci porque a vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me fala nos sonhos, me disser: Sou eu. A tua Leonor era o amor da inocência; e eu sou a mulher da paixão. »
— Aqui tens — disse ela — Agora, sim; está completa a página.
Álvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse:
— Por que te enganas a ti própria, ou porque me mentes, Leonor?!
— É uma nova injúria que o meu coração te agradece assim... — E dizendo, beijou-lhe a face e retirou-se.
Ai! Maria da Gloria, como hás de tu combater o veneno corrosivo daquele beijo?!
João de Mattos, varão justo, que tinhas no tom e no gesto a modulação e a postura do profeta, as tuas palavras esculpiram-se no espirito de Álvaro; mas o coração não fora chamado a jurar nas promessas do espirito!
Venceste, Leonor, venceste!... Uma Vitória só te falta: olha se rebelas o filho submisso contra a vontade da mãe; espedaça os liames, que prendem essas duas almas; e então levarás a rojo da tua astucia os mais sagrados deveres do coração.