Capítulo I O Romance de um Homem Rico · Capítulo 4 de 23
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Capítulo I

Grande, três-grande révélation. Ce em est pas ici un vain spectacle de art et de sensibilité, simple volupté du cœur et des ieux. Non, c'est un acte de foi, un mystère...

MICHELET (La Femme.)

Álvaro Teixeira de Macedo nasceu, em Lisboa, no ano de 1813. Foi seu pai um comerciante rico, bastardo de um fidalgo da corte.

Cresceu Álvaro, e nunca seus lábios proferiram a palavra mãe, nem tinha o coração memoria dela. Entrou num colégio. Aí, ouviu de seus companheiros aquela dulcíssima palavra, como grande parte e incentivo das saudades de eles. Dizia um «minha mãe recomenda-me, que estude muito, que me há de levar à feira do Campo Grande», outro, repartindo confeitos ou amêndoas pelos condiscípulos, dizia: «foi minha mãe que mas mandou»; este escrevia a sua mãe, pedindo-lhe que o mandasse buscar no sabbado; aquele chorava e adoecia de saudades de sua mãe.

Álvaro devia acreditar que a sua tinha morrido; mas ninguém lho dissera; nunca seu pai, nem sequer sua ama lhe falaram em mãe.

Estava de ferias em casa, e tinha nove anos, quando perguntou a Eufemia, sua ama de leite, porque não lhe tinha falado nunca de sua mãe. Eufemia, atalhada pelo repente da pergunta, tartamudeou algumas palavras, que exprimiam o em baraço dela, suspeitoso à precoce esperteza de Álvaro.

— Vou perguntar a meu pai — disse ele.

— Ora! — acudiu a ama — para que há de ir o menino fazer essa pergunta a seu pai?! Não queira saber dessas coisas.

— Então que tem?! — tornou Álvaro, cada vez mais enleado, e curioso como criança — Eu havia de ter mãe por força, não é assim?

— Isso é; mas...

— Mas quê?

— E se ela morresse!?...

— Se morreu, é outra coisa... Então diga-me que morreu. Morreu ou não?

— Está bom, menino; deixe-se de querer saber o que não lhe importa — disse, em conclusão, a perturbada ama, fugindo a novas perguntas.

Manoel Teixeira, pai de Álvaro, queria do coração ao seu filho único. Amimava-o em aquela idade como no berço. Parecia crescer o amor à proporção que as feições do menino se iam compondo, retrato fiel das suas.

nesse mesmo dia de inquietação para a boa Eufemia, estava o menino sentado nos joelhos de seu pai, que lhe anediava os cabelos, e aparava as unhas.

— Ó papá — disse Álvaro com um gesto carinhoso — a minha mãe já morreu?

Manoel Teixeira ficou por um pouco tempo suspenso; mas continuou a aparar as unhas do menino, e disfarçou a resposta com algumas perguntas concernentes ao colégio.

Estava Álvaro a ponto de sair do gabinete de seu pai, e, como levado de providencial impulso, retrocedeu, e disse:

— O papá não me disse se a minha mãe morreu...

— Morreu — disse secamente o pai.

Foi o primeiro gesto de enfado que viu Álvaro no rosto dele, sempre de riso e meiguice.

Contou o menino este caso à ama, e esta, profundamente magoada, disse-lhe em ar de reprehensão:

— Não lhe disse eu que não fizesse tais perguntas?

Tornou Álvaro para o colégio, e contou inocentemente a um dos mestres, que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pai. Ficou o mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Álvaro era filho natural do capitalista, e pode ser que da própria criada, a quem ele chamava ama. Estas desconfianças não eram boas para serem comunicadas aos nove anos do colegial, e calou-se com elas o mestre. O menino, porém, não falava em outra coisa, e instava por esclarecimentos, até que uma vez o mestre, mal assombrado, lhe disse:

— Estude, Álvaro; não lhe importe saber o que não lhe é necessário.

O alumno mais estudioso do colégio fora Álvaro até àquele dia. Maravilhava o pai e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em aproveitar o natural engenho. De repente, com igual admiração dos mestres e do pai, o mais descurioso e desleixado do estudo era Álvaro; mas também, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus condiscípulos.

Manoel Teixeira, informado disto, sentiu a tristeza do filho e deu medíocre apreço ao desgosto dos mestres, no tocante a estudo. O negociante não; queria que seu filho seguisse as letras, nem se gloriava de procrear um talento. O que ele desejava era dar-lhe um verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua, morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez anos nesse tempo. Entrava em isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da riqueza conseguira hombrear com os filhos legítimos de seu pai, e acudir-lhes, por orgulho também, nas crises fidalgas em que se eles viam apertados, no dia imediato à noite do jogo, ou do baile, ou dos casamentos e natalícios da corte.

Decorreram três anos. Quis Manoel Teixeira, neste espaço de tempo, por muitas vezes tirar o filho do colégio, à conta de magreza, de fastio, de doença, e de mil causas que inventa um pai extremoso. Álvaro resistia à ternura paternal, pedindo que o deixasse estar no colégio, onde se affeiçoára ao seu quarto, aos seus mestres, e a alguns condiscípulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso.

Tinha Álvaro já doze anos. Os três últimos, mal aproveitados nos livros, fructearam temporãos em discernimento e porte varonil. de entre os professores, aquele que muito o estimava e conversava, tinha-o em conta de homem, e como a homem lhe falava. Por vezes, em intima pratica, relembravam aquela instancia de um, acerca de sua mãe, e a resposta enfadosa do outro. Notou, porém, o mestre que estas recordações traziam tristeza mais sombria para o alumno, e abstinha-se de revivel-as. Que montava isso, se Álvaro não podia esquecel-as, nem o mestre desconhecer a origem da melancolia do discípulo!?

— O senhor Álvaro está homem no espirito; — disse-lhe um dia o seu afeiçoado mestre de inglês — vou dizer-lhe o que não quis explicar à sua ignorância dos nove anos, quando o senhor me pedia esclarecimentos acerca de sua mãe. Presumi eu naquele tempo que seu pai tinha alguma forte, ou pelo menos desculpável, razão para não lhe dizer quem era sua mãe. Bem podia ser que o menino fosse filho de uma das criadas de seu pai, ou mesmo ainda de uma senhora, cuja reputação corresse risco de ser manchada. Creio que me comprehende...

— Manchada... porque? — disse Álvaro.

— Por ser sua mãe.

— Por ser minha mãe!... Não entendo!...

— Assim me quer parecer; mas eu lhe aclaro a escuridade. Honram-se de serem mães, e o mundo honra aquelas mães, que estão ligadas por um sacramento aos pais de seus filhos. Agora de certo me entendeu.

Álvaro fez um gesto afirmativo, e disse:

— E minha mãe não estava assim ligada a meu pai?

— Era isso que eu cuidava; mas, estimulado também da sua curiosidade, pedi informações, que obtive logo, e já pudera ter-lh'as revelado, se as julgasse de alguma utilidade, há mais de dois anos. Vou agora contar-lhe o que sei de sua mãe. Conheço a causa da sua tristeza: é ela. Esse seu amor vago de filho tem influxo do céu. Alguma coisa quer Deus que se esconda nesse amor; e a minha consciência manda-me falar.

Seu pai casou há quatorze anos com uma senhora de rara formosura e rica, filha de um negociante português em Macau. Maria da Gloria é o nome de sua mãe.

Os olhos de Álvaro reluziam, e a purpura do rosto inflamava-se à medida que o professor ia rompendo o véu que, para assim dizer, lhe velava um novo mundo de afetos, de sentimento, de esperanças, e um destino imprevisto.

Continuou o mestre:

— Seus pais viviam extremamente felizes, e o menino nasceu ainda na época da felicidade. Tinha Álvaro alguns meses, quando sua mãe saiu da companhia de seu pai, para, volvidos alguns dias, entrar num convento da província do Minho, onde vive agora. Não me peça esclarecimentos que não posso dar à sua idade, nem os daria ao seu pundonor, se o senhor Álvaro, em vez de doze, tivesse vinte e quatro anos. Fique sabendo que sua mãe é viva.

Foram as breves e últimas palavras que o mestre lhe disse a tal respeito.

Álvaro não respondeu, de confuso que devia naturalmente ficar. A educação, a convivência de moços como ele inocentes, a ignorância das novelas que ensinam o espirito a tirar, por comparação, os vícios reais da desnudez dos vícios imaginários, eram causa a serem de todo o ponto misteriosas para Álvaro as razões que haviam levado sua mãe a um convento, de modo que seu pai a tinha em conta de morta, e queria que seu filho assim a julgasse.

Foi Álvaro, de vontade sua, passar alguns dias a casa. Fez especie em Manoel Teixeira a extraordinária vivacidade do moço. Folgou com a mudança, e foi agradecer aos professores, e especialmente ao mais amigo de seu filho, as melhoras do pequeno. De feito, Álvaro estava preocupado de uma ideia que lhe dava novos espíritos.

Estava ele, um dia, em conversação acintemente promovida com Eufemia, e encaminhada ao ponto de lhe dizer:

— Quem me dera ver um retrato de minha mãe!

Eufemia fitou os olhos nele, abraçou-o, beijou-o, como quando o tinha ao peito, e, entre lágrimas e soluços, balbuciou:

— Se a visse!...

— Ela de certo morreu, minha Eufemia? — tornou ele, acariciando-a — Fale a verdade... Não minta ao seu Álvaro!...

— Para que me faz essa pergunta, menino Valha-me nossa Senhora dos Remedios! Deus me não salve, se eu sei o que lhe hei de dizer.

— Diga a verdade, que é o mais agradável a Deus.

Eufemia quis fugir; Álvaro susteve-a pela saia, e acrescentou:

— Venha cá, sente-se aqui, e responda-me, se é minha amiga: Porque está minha mãe num convento?

— Santo nome de Jesus! — exclamou Eufemia, levantando as mãos à cabeça — Quem lhe disse isso, menino?

— Que lhe importa a vossemecê saber quem mo disse? É isto verdade? É, sei que é; o que eu lhe pergunto é a razão porque minha mãe não está nesta casa.

— Senhor Álvaro, se continua a perguntar-me coisas assim, eu vou-me embora desta casa — replicou a ama com resolução feita de sair.

— Está bom — redarguiu Álvaro — não se aflija, que eu não falo mais em isto; mas prometa de não dizer a meu pai nada.

— Eu, menino! Eu caía lá nessa! Tomara eu que ele nem por sonhos se lembre de que o senhor Álvaro me disse tais palavras!...

num dos próximos dias, Manoel Teixeira de Macedo, tinha saído apressadamente, e deixara aberta uma gaveta cuja chave nunca lhe esquecera.

Álvaro entrou no escritório, e reflectindo disse entre si:

Não haverá aqui alguma coisa que me fale de minha mãe?

E diz ele no seu livro, por estas ou consentâneas palavras, que ouvira uma como voz do céu que o mandava abrir a gaveta da escrivaninha.

A tremerem-lhe as mãos, abalançou-se o moço ao que nunca se atrevera a fazer. Viu uma caixa de veludo encarnado, com fechos de prata. Abriu a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim.

— Será? — disse ele — «Senhora de rara formosura» me disse o mestre; e esta é tão formosa!...

Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse Álvaro ao pé da misteriosa gaveta, com um retrato na mão, correu para junto dele, dizendo:

— Que está a ver o menino?

— E de minha mãe este retrato? — respondeu ele sem turbação.

Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou:

— É, é; mas, pelo amor de Deus, não esteja aqui, meta o retrato na gaveta, de modo que seu pai não dê fé. Venha, venha comigo, menino!

— Não vou, — disse ele com firmeza — em esta gaveta é que está o segredo que a Eufemia não quer contar-me. Hei de procurar entre estes papeis alguma carta de minha mãe.

Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalável daquela resposta.

— Feche a gaveta, que eu prometo contar-lhe tudo — disse ela — Venha depressa, que eu ouço passos... E o paesinho que vem...

Não era; mas o medo figurava horrores na cabeça da pávida mulher.

Álvaro saiu, depois que repoz o retrato no seu lugar, com tal cautela, que não podia denunciar mão estranha.

— Conte-me agora o que souber — instou ele com a ama.

Eufemia oscilou ainda; mas, obrigada por um gesto de justa severidade com que Álvaro censurava a hesitação, disse o seguinte:

— A razão porque sua mãezinha foi para o convento... ainda que eu lha diga, o menino não a entende.

— Mas diga, e depois me explicará, se eu não entender.

— Olhe, o seu pai foi a Macau receber a herança de sua mãe, que era de lá...

— Já sei.

— Sabe?! quem lho disse? Credo! Aqui parece que anda bruxaria!

— E depois?

— Seu pai, quando voltou, passados dias mandou sua mãe para um convento...

— Na província do Minho, já sei também; mas isso não é o que lhe pergunto: o que eu quero é saber porque foi.

— Foi porque assacaram uma calúnia à sua mãezinha. Agora já sabe... Deixe-me, menino, por piedade lhe peço que me deixe.

— Calúnia! que calúnia!?... Então é isso o que me prometeu, Eufemia?

— Sabe que mais, senhor Álvaro?... quem lhe disse o que sabe, que lhe diga o resto...

Eufemia saiu da beira de Álvaro, e foi, a correr como douda, refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o patrão para casa.

Álvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e tirou ao acaso um massête de cartas de entre muitos sobre que assentava a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da campainha: era Manoel Teixeira. Álvaro, tão senhor estava seu, que meteu na algibeira o massête de cartas, fechou a gaveta, e saiu do gabinete.

Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no gabinete, correu à gaveta, e examinou-a; tornou a fechal-a, e não suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo Eufemia, nunca entravam em aquela recamara.

Álvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos, deslacrou o massête das cartas, e leu-as e releu-as sofregamente como se as houvesse recebido da primeira mulher amada, em aqueles dias de santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos vem fadado do céu, e as cartas mesmo as cuidamos dictadas pelos anjos.

A primeira, conheceu logo que eram de sua, mãe as cartas, escritas do convento de Vairão, em 1820, quatro anos depois da sua reclusão, e cinco anteriores àquela data.

Todas elas expressavam a mesma suplica, não de perdão, nem de piedade; mas a esmola de um beijo de seu filho, esperança única de que se alimentava e vivia a mãe infeliz. Os termos carinhosos do amor maternal, e comoventes rogos ao pai inflexivel da criança, iam crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de Maria da Gloria eram recebidas. Na última, que leu Álvaro, dizia ela que já não tinha forças para rebelar-se contra a vontade da Providência, e receiava muito que a confiança na divina justiça a desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua inocência, diante de Deus.

Na seguinte manhã, Álvaro disse ao pai que ia para o colégio, e não viria um mês a casa, porque se ia entregar todo a uma traducção de um livro inglês. Quis o negociante dissuadil-o do trabalho como nocivo à sua saúde; mas o moço, com afagos, e promessas de não fatigar-se, obteve licença de estar no colégio um mês.

daqui passou Álvaro a ter com Eufemia este dialogo:

— Vou ver minha mãe, Eufemia.

— Que diz, menino!? Está doudo!?

— Já lhe disse que vou ver minha mãe: o pai não vem a saber nada, porque pensa que estou no colégio.

Eufemia replicou amontoando razões que não puderam nada com Álvaro, sendo a mais forte de todas esta:

— E o menino cuida que se pode ir ao convento sem dinheiro? Olhe que são sete ou oito dias de jornada para lá, e outros, tantos para cá. Quem lhe dá o dinheiro?

— Há de emprestar-m'o a Eufemia, para eu ir ver minha mãe; e, se mo não emprestar, vou a pedir esmola.

A ama abraçou a chorar o seu filho, como ela lhe chamava, e daquele lance em diante não lhe negou dinheiro nem conselhos a fim de realizar-se o intento. Ela mesma, à tarde desse dia, ajudada por um seu irmão, foi alugar cavalgadura, e ajustar criado que acompanhasse o menino a Vairão, guardando nestes passos tal recato que não ficasse alguém sujeito às iras de Manoel Teixeira, se a desfortuna os descobrisse.

Foi Álvaro ao colégio, e contou ao seu mestre predileto a ida a Vairão. Tão digno e respeitável achou o mestre o arrojo do moço, que nem sequer lho tentou impedir com reflexões. Abraçou-o com veemente admiração de tão enérgica e nobre alma em tal verdura de anos, e prometeu por sua parte mentir piamente ao pai, caso acertasse de encontrar-se com ele. Aos outros professores disse Álvaro que ia passar um mês nos «Olivais» com seus tios, onde costumava ir às temporadas.

Na madrugada do próximo dia, saiu de Lisboa, o filho de Maria da Gloria.

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