Capítulo XX - Conclusão O Romance de um Homem Rico · Capítulo 23 de 23
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Capítulo XX - Conclusão

Oublie-toí! dévoue-toí! sacrifie-toí!

J. SIMON (Lé devoir.)

E não há um remançoso abrigo onde saiam a repousar-se e a deleitar-nos estes desafortunados dos prazeres reais da vida!

De força há de o animo do leitor compenetrar-se dos regalos íntimos da virtude, para entender que a virtude é boa?

Quando raiará o dia de felicidade para Álvaro?

Quando entardeceu o dia de contentamento para Maria da Gloria?

Peccaminosa pergunta, se o leitor dúvida das consolações misteriosas com que Deus acode e se amerceia dos que o confessam e chamam nas atribulações.

Que ante gosto da bem-aventurança não provou Maria, abraçando aquela mortalha de seu filho! Que suave doer, e dulcíssimo anhelar a Deus não será o daquele levita na correnteza dos anos, de penitencia voluntaria, e de evangélica abnegação? Não duvidemos: abaste-nos o orgulho da nossa miséria, e não façamos do nosso ceticismo um cadafalso injurioso à dor e à fé. Se em volta de nós não vemos senão imagens nossas, e almas aferidas no padrão vulgar; se a nossa ideia do prazer a aceitamos do vulgo, remodelada nas suas apreciações; será justo que não desdenhemos a felicidade que nos fica incomprehensivel aquém da baliza onde o curto alcance do espirito viciado nos leva.

Se Álvaro foi feliz?! Perguntemos a Deus se os seus mártires correm neste mundo os estádios de suas dores, sem que a luz inefável de seus olhos os não guie ao horizonte da bem-aventurança, assignalado pela cruz! E o caminhar sem desvio nem tropeços à pátria infinita que nome tem, se não é a felicidade suprema?

Oito dias depois do trespasse de Maria da Gloria, padre Álvaro falou a sua prima, num tom de voz e majestade de postura, que denotava a mudança do homem, ou o esforço dele sobre o coração do homem amortalhado.

— Leonor — disse ele — bem me vês: vesti-me assim para a mim me ver e convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma e as voluntarias mortificações do meu sacrifício. Este caminho é o das alegrias da virtude, por ele irei indo ao lado da sombra de minha mãe, até me identificar com a luz da sua gloria. Se errar o passo dificultoso, a santa pedirá por mim ao Pai compassivo dos que se levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infância, minha prima: os teus infortúnios ganharam para sempre a dedicação, que a tua paciência merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu agora contasse a longa história, os longos trabalhos que me custou o morrer do coração. Tu é que me não desculparias a inútil crueza de te dar um espetáculo de angustias, que eu de mim próprio forcejava por esconder. Lá vai tudo. Agora, perdão e paz. Nem lágrimas me dês às cinzas da paixão desgraçada! Escuta, Leonor, tu tens nos Olivais uma casa em ruínas. Venho-te pedir que ma cedas para os dias todos da minha vida.

— A casa é tua, Álvaro; é teu tudo quanto o mundo chamava meu...

— Não sei se eram minhas as ruínas dos Olivais, Leonor; sei que sinto prazer em pedir-t'as.

— E poderemos ali viver, Álvaro? — atalhou Leonor.

— Eu viverei.

— Tu! e eu não, meu primo?!

— Não, Leonor — respondeu o padre com um ar de firmeza, que não animava a ser contrariado — Ficas aqui, com as criadas de minha mãe, senhora destes nadas que pouco importam à tua triste existência; mas o teu lugar é este onde recende ainda o perfume da mulher virtuosa, que nos levou a Deus a conta das nossas lágrimas.

— E queres que eu aqui fique, Álvaro? não poderei pedir-te que me deixes escolher outra residência? Respeitarás, ou terás piedade do coração que ta pede, do coração que não morreu ainda?

— Escolhe, Leonor; quererás voltar a Lisboa? queres antes viver na casa que lá temos?

— Não, meu primo. Dá-me uma cela num convento, e uma criada, que me sirva.

— E a chorar me pedes um convento, Leonor?

— Quem deixaria de chorar a esta hora, Álvaro!...

— Eu, bem vês.

— Tu, sim, primo... Só podiam ser do coração as tuas lágrimas!...

— Não são, não devem ser... — Álvaro concentrou-se, levantou ao céu os olhos, e continuou:

— Irás para um convento, deixando-me sem condições a licença de regular a tua casa. As criadas de minha mãe irão contigo, menos Eufemia, que me embalou o berço, e me há de fechar o caixão. Amanhã iremos para Lisboa. Se, durante a noite a reflexão alterar o teu propósito, dir-m'ohas, Leonor.

No próximo dia, saiu Leonor com as suas criadas para Lisboa. O padre Álvaro anticipou-se algumas horas, e foi em direitura ao convento de Santa Joana, e dali ao conseguimento das licenças eclesiásticas para a reclusão de sua prima.

nesse mesmo dia, entrou Leonor de Brito no mosteiro de franciscanas, e depois ela uma sumptuosa mobília.

O padre abraçou-a no pórtico do convento, e disse-lhe:

— A paciência faz os anjos: pedirás a Deus por mim, quando te sentires alumiada da graça que fortalece e santifica.

Leonor soluçava em gemidos, que lhe tomavam a voz. Álvaro pôs-lhe a mão de leve no rosto, e murmurou:

— Não sejam as últimas que chores por saudade de nossa mãe... Nossa, de certo, minha irmã!... Juntos seremos em cada prece que ela fizer a Deus.

Álvaro cortejou a prioreza e outras religiosas que assistiam à entrada de Leonor, e saiu.

No mesmo dia, foi o padre para as ruínas dos Olivais, onde Eufemia o estava esperando. Enquanto fazia habitável uma parte do edifício alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue. Reconstruída uma pequena porção do palácio, transferiu-se para lá, e decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infância em casa de Sebastião de Brito. Entre estes objetos, de sua casa levara apenas o leito em que morrera sua mãe, e o retrato de João de Mattos.

Os bens de fortuna de padre Álvaro Teixeira eram ainda grandes. Adjudicou a maior parte de eles ao tratamento de Leonor, e a pensões de algumas religiosas necessitadas do convento dela. Para si tomou uma pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia ele muitas vezes à velha criada «que estava vivendo da beneficência dela. »

Este viver assim durou desde 1839 até 1859. Vinte anos!

neste longo termo, quando alguém acertava de perguntar por aquele exquisito Álvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de plangente hipocrisia que o pobre moço endoudecera. Lembrem-se do que a tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguém soubesse atinar com a razão daquela virtude, os mais cordatos chamavam-lhe misantropia, e os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguém cantou o herói obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos românticos daquela época. Esqueceu, por tanto, Álvaro Teixeira amortalhado no seu habito.

É de crer que lêsse muito, porque a sua instrução era admirável, e que sofresse muito porque os seus quarenta e cinco anos eram a decrepidez.

Visitava Leonor às temporadas, e a secular de Santa Joana vinha à grade, transportada na sua poltrona de rodas, e chorava a cada traço novo de extemporânea velhice, que divisava no rosto de Álvaro.

Algumas vezes suplicou-lhe que a deixasse ir estar com ele, algum tempo, nas suas ruínas. Álvaro respondia que o seu pacto com ela era encontrarem-se na presença de Deus.

Tinha o padre um amigo em Lisboa; era o seu mestre de inglês, aquele homem que assistiu comigo ao sublime espetáculo da morte do justo. Accrescentado pelas liberalidades do sacerdote, o professor abandonara o ofício, e chegara a merecer por suas virtudes uma distinta posição entre os homens uteis deste país. Se ele tivesse passado, e se a gloria da virtude não fosse a modéstia, eu escreveria aqui o nome do amigo digno de Álvaro Teixeira.

Não sei que mais lhes possa dizer da vida daquele padre dos Olivais. Recordem os primeiros capítulos, e suave lhes será relembrar os santos dictames daquela boca ungida das lágrimas que lhe sulcavam o rosto venerando.

Já sabem porque ele se esquecia contemplando a janela fronteira das suas ruínas. em aquela janela ouvira ele, em noite de baile, vinte e nove anos antes, as palavras de Leonor com que o seu amor inflorára a garganta do abismo onde caíra entre os braços da piedade e da honra. Também se lembram da rápida sabida, que ele fez para Lisboa, ao anunciarem-lhe a agonia de Leonor.

Eu fui ao convento de Santa Joana, e perguntei a história dos últimos instantes da entrevada. Disseram-me, debulhadas em pranto as religiosas, que a morte de Leonor fora o remate de um colóquio com o espirito de Maria da Gloria. E, como eu me detivesse em amiudar os pormenores deste vago dizer, tiveram as senhoras a bondade de me contar que o rosto de Leonor, nos seus últimos meses, brilhava de um resplendor, que não era natural; e, ao sair de aqueles êxtase, dizia às suas amigas que estivera vendo no céu a imagem de sua tia. num destes arrobamentos é que Leonor expediu o espirito, dizendo estas palavras: «Abre-nos o teu seio, santa! leva para ti os teus dois filhos, e não me lances de ti, que as minhas lágrimas purificaram-me. »

Eu quis, não por duvidar, mas por escrúpulo, combinar dois factos inconciliaveis.

— Se Leonor morreu de repente, como foi avisado o padre Álvaro de que ela estava em agonia da morte?

— Não se lhe deu tal aviso; — respondeu a prioreza — Leonor, na véspera do seu trespasse, tinha dito que, se o seu primo não viesse vê-la até às quatro horas do dia seguinte, só na presença de Deus a veria, Ora, nós tanta confiança tinhamos nas previsões da virtuosa senhora, que nos apressamos a chamá-lo.

— Deu-se, por tanto um milagre! — atalhei eu.

— Milagre foi, louvado seja por isso o Senhor, que escolheu a sua serva para nos edificar — respondeu a prelada — O padre Álvaro chegou minutos depois da hora que ela dissera.

— Serei importuno fazendo mais uma pergunta?

— Queira dizer.

— Leonor tinha reminiscências magoadas, ou mesmo saudosas de um passado, anterior a trinta anos?

— Não sabemos — respondeu promptamente a prioreza — o que podemos dizer-lhe é que Leonor, logo que entrou nesta casa, quis que as suas criadas lhe chamassem Magdalena.

Pensei na palavra, e pus ponto na minha curiosidade.

Já fora da portaria do convento, meditei no que teriam sido vinte anos de horrível imobilidade, de paralisia, com o coração vivo, e o fogo da índole e do instinto inextinguivel nele. Não me entendia com o mistério de semelhante conversão.

Alheado nestes pensamentos ingratos e inconcludentes, ouvi uns sons de órgão, cuja toada vinha do templo do mosteiro. Retrocedi, entrei na igreja, ajoelhei, orei, e tudo compreendi, encarando no retabulo de um dos altares. Era o painel significativo da contrição de S. Pedro; e, à orla inferior, li estas palavras: Flevit amàre: CHOROU AMARGAMENTE.

Os infelizes chorem, que à última lagrima da penitencia segue-se a primeira da santificação.

FIM.

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