Capítulo XIX O Romance de um Homem Rico · Capítulo 22 de 23
Obra Menu

Capítulo XIX

.... Já dava no rosto a friagem da noite da eternidade; só faltava regelar de todo... e cair.

A. F. DE CASTILHO (Fr. F. de Monte-Alverne).

Leonor, ao cabo de dois anos de padecer, dificultosamente saía do leito. A extrema fraqueza e tremor espasmódico das pernas seguiu-se a paralisia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito, transferiam-na a uma poltrona de rodas, que Álvaro com sua mão conduzia a uma varanda envidraçada, onde Leonor ficava horas embebecida nas belezas do céu, e do Vale de Santarém. Duas maravilhas então ocorreram: nunca mais Leonor se lastimou da sua desgraça. E se acontecia Maria ou Álvaro olharem-na com piedade, sorria ela, e dizia:

— O espirito é feliz; e as dores abrandaram muito, desde que metade do corpo morreu. Vejo-me meia morta, e não me aterro.

A outra maravilha foi o remoçar-se-lhe o rosto, até à formosura que ela naturalmente conservaria, com vida quieta e bonançosa, nos seus vinte e nove anos. A nutrição encheu-lhe os sulcos das faces; a pele amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, enquanto ela, sorrindo, dizia:

— Queres por força que a morte se namore de mim!

Álvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e extasiava-se nos olhos dela; mas que amargura ele escondia em aqueles êxtase!

— Vejo os teus dezoito anos, Leonor! — disse-lhe ele um dia.

— Valho hoje mais, Álvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o coração! — respondeu ela — A primeira paralisia era a pior...

Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:

— Vais ouvir-me, sem sobresalto, meu Álvaro. Eu tenho até hoje escondido de ti o único segredo, que devia esconder — a sensível aproximação do meu fim.

— Que é, minha mãe?! — exclamou o filho, correndo a abraçal-a.

— Não é isso o que eu te pedi, Álvaro!... Escuta-me com sossego: sê até ao meu último dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te revelasse a minha moléstia, depois que lhe arranquei a confissão de que ela é incurável. Eu morro do coração. Os rebates desta dolorosa doença senti-os no meu primeiro ano de convento. A minha vida tem sido um milagre. Quis Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu chegasse até aos teus vinte e sete anos, filho. E choras como aos dez, Álvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te dizer o fim para que te chamei!...

— Diga, minha mãe... — atalhou Álvaro com simulada quietação.

— Pois, sim; sossega, escuta-me, filho... Que farás tu, depois da minha morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás à agonia de Leonor, ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te amortalhará, meu pobre Álvaro!?

— Hei de eu amortalhar-me, minha mãe — respondeu ele tranquilamente após alguns instantes de concentração — Agora, rogo-lhe, por quanto amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas.

No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Álvaro a Lisboa. Apresentou-se ao cardeal-patriarca, e demorou-se algumas horas em pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa, e voltou ao Vale. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como quem ouvira da enferma o terrível segredo, obteve do medico a confirmação de uma breve morte. Era a doença um scirro no coração, já em seu período final.

Álvaro encontrou sua mãe animada, fora do leito, ouvindo Leonor, que lia os manuscritos de seu primo, na maior parte traducções, feitas no colégio. A que ela estava lendo, era a do «Cura do Wakefield» de Goldsmith. Reviam lágrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o XXIX capítulo que eu inculco muito de alma a todos os desgraçados, e que vem assim intitulado: _Demonstração da equidade da Providência para com felizes e infelizes. Resulta da própria natureza do prazer e da dor, que os desgraçados devem encontrar na vida futura compensação dos seus sofrimentos. _

Álvaro não consentiu que Leonor fechasse o manuscrito, e sentou-se a ouvi-la, até estas linhas que a leitora já lera a custo, de turvada que tinha a vista por lágrimas: «A morte nada é, e todo homem pode mostrar-lhe rosto sereno; mas os tormentos é que são provações horriveis, que poucos sabem suportar. »

— Não leias mais, filha... — disse Maria da Gloria — conta-nos o que fizeste em Lisboa, Álvaro... Devia de parecer-te nova a cidade! Há três anos que lá não tinhas ido!... Com quem falaste, filho?

— Com poucas pessoas, minha mãe. Passados dias, tenho de me lá demorar algum tempo para negócios nossos.

— Algum tempo! — disse Leonor — e com que placidez de espirito dizes isso, primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E podes, Álvaro?

— São sacrifícios necessários, minha prima. Eu hei de aligeirar a minha demora o mais que possa...

— Soubeste — atalhou Maria — se têm sido cumpridas as nossas determinações?

— As mezadas?... tem sido pontualmente pagas, minha mãe... Parece-me que a vejo reanimada!...

— Estou, filho... Por que te admiras?! No final das jornadas parece que o vigor do caminhante se recobra para maior caminho. A esperança é tudo, meu Álvaro, e, a morte é nada... não o ouviste ainda agora?

Nos três dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou placidamente ao seu medico se seria chegado o termo. Não era. As dores abrandaram; e o descanso de alguns dias faria reviver esperanças a quem as tivesse vivas e anciosas no espirito.

Leonor, desde que sua tia acamou, pediu que lhe não dessem outro local, senão o quarto dela; Álvaro entregou-lhe à sua vigilância a mãe, e foi para Lisboa.

Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada pelo receio de ver morrer sua tia, posto dizer a enferma que não morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que parecia instinto do céu. Em carta, escrita de seu próprio punho ao filho, dizia ela: «não te apresses nem alvoroces, filho, que eu pão morro sem te dar o último suspiro. »

A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a Lisboa. Sem respiro, transpoz Álvaro as doze léguas que o separavam de sua moribunda mãe. Diziam as criadas, e Leonor com elas, que Maria da Gloria, sem delírio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras exclamações:

— Como ele vem triste; mas que linda é a sua auréola de justo!

— O senhor condoeu-se da mãe inocente, e deu-lhe aquele filho. Bendito seja o Senhor no improfundável mistério dos seus juízos!

Foi Aivaro ofegante ao quarto de sua mãe, que tinha a cabeça encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao ver o filho, nem sequer se aterrou no rosto, a não ser o sorriso instantâneo, que se abriu, na custosa articulação destas palavras:

— Não te disse eu que não era pressa, filho? Estou agora socegada; e, se assim morrer, suave é a morte. Tinham-me dito que o morrer deste mal era horrível de agonias! Deus faz o que os médicos não sabem... Estás fatigado, Álvaro? Vai descançar... Almoçaste, filho? Vai tratar dele, Eufemia... A nossa Leonor, coitadinha, não pode ir... A tua irmã querida... Deixo-t'a como filha.

— Eu vou contigo, Álvaro? — disse com muita doçura Leonor — Ajuda-me? levas contigo este meu esquife?

— A mãe quer estar sozinha? — disse Álvaro.

— Quero, filho: está aí o meu confessor...

Saíram da câmara, e acharam fora o confessor e o medico. O segundo pediu vênia ao medico da alma para ver a doente. Demorou-se instantes, e disse ao padre:

— Agora é toda sua a missão. Eu não venho em cata de esperanças; vinha espantar-me da serenidade da moribunda.

Depois de confessada, preparou-se o quarto para a recepção do Sagrado Viatico.

Álvaro, quando soube que sua mãe ia ser ungida, entrou no quarto, beijou-lhe a mão com torrentes de lágrimas, e pediu-lhe licença para vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso assentimento.

Soava já o toque lúgubre da campainha, e o «bendito» do povo, que acompanhava a extrema-unção. Os servos da casa ajoelharam na ante-câmara da agonizante. Leonor estava já aos pés do leito, num recanto escuro, com as mãos erguidas.

Entrou o ostiário, e ao lado dele um outro sacerdote com as ambulas dos santos-óleos.

Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Álvaro proferido com espanto. Leonor reconheceu-o, Maria descerrou as pálpebras, e balbuciou:

— Não está aqui meu filho!?

E o levita, que entrara a par do vigário, aproximou-se da cabeceira do leito, e disse:

— Aqui estou, minha mãe.

Maria da Gloria estremeceu, estendeu os braços ao vulto que falara na voz de seu filho, abriu a boca para deixar sair a respiração convulsa, correu as mãos na face de Álvaro, que se aproximára da sua, e pôde exclamar:

— Tu!... Álvaro!... tu!... ministro de Jesus!

— Já vê que fico amortalhado, minha santa mãe... — disse o padre Álvaro.

Maria pôs as mãos, cerrou os olhos, e murmurou:

— Infinitas graças, meu divino Senhor! Bendito seja o vosso nome, Virgem Mãe de Jesus! Joana das Cinco Chagas, santa, filha escolhida do meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva!

Ajoelharam todos. Maria comungou, e foi ungida. Terminada a cerimônia, e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de joelhos. Álvaro foi, e curvou-se sobre o leito, aplicando-lhe o ouvido aos lábios. Os lábios de Maria já não tinham palavras; se estavam ainda quentes, era o calor do último suspiro. Tomou-o Álvaro no coração quando a boca se entre-abria proferindo a palavra «mãe! »

Fez-se o terror do silencio ali naquele quarto. Ninguém se desafogou em gritos, porque era de todos a dor que os afoga na garganta.

1/1
Menu

Fazer anotação