Capítulo X O Romance de um Homem Rico · Capítulo 13 de 23
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Capítulo X

Se alguém provou já o golpe de um desprezo aconselhe à minha dor os remedios da sua.

D. F. MANOEL (Epanáforas).

Não estava em si Leonor enquanto se não viu nos Olivais. A olhos enxutos vira ela sumir-se o navio, e já dizia ao pai que lhe doía o braço de agitar o lenço para responder ao adeus de Álvaro.

Miguel de Sotto-Maior, decorridos dois dias, apareceu nos Olivais, de volta de Sacavem, e Vila-Franca, para aceitar a honrosa hospedagem de Sebastião de Brito, oferecida no primeiro e casual encontro, casual digo com respeito ao morgado.

Leonor sabia que Miguel de Sotto-Maior ali vinha. O juramento, feito em Vairão aos quatorze anos, não tinha sido ainda quebrantado aos dezenove. Recebera sempre cartas, e respondera a todas do seu poeta, na esperança de ser um dia, embora tarde, sua esposa.

Havemos de esboçar a índole deste moço, se trinta e dois anos podem adornar-se com as graças da mocidade.

As freiras tinham dito que Miguel de Sotto-Maior era mau filho; péssimo devia ele de ser, quando as virtuosas línguas do mosteiro não escrupulisavam em murmurar do próximo. Fora ele acadêmico, duas vezes riscado por contumaz na desordem e outros efeitos da vinolência. Este vicio dominava-o no seio da família, e desafogava por maus tratos e injúrias aos pais e irmãos. Entendêra ele que o éstro da poesia carecia a confirmação da extravagancia. Lera de Biron os atrevimentos do gênio conformados com os desvarios da vida, e não achou coisa impossível nascer em Vila do Conde o Biron de Portugal. Em verdade, as musas não lhe eram avêssas; mas, posto que na desordem se avantajasse ao lord inglês, o gênio ficava-lhe aquém, na distancia que vai de um soneto de abbadessado às «Peregrinações de Childe-Harold».

Por vezes alcançara a casa de seus pais, exigindo dinheiro para excursões ao Porto: davam-lh'o para se livrarem dos escândalos na terra, e tinham muitas vezes de ir resgatal-o à cadeia onde o levavam os escândalos de fora.

Em 1828, morrera o morgado, e sucedera Miguel no vinculo, onerado de grandes dividas. Muita gente espantou-se do favor que a Providência dá aos maus: gente van dos seus juízos que quer com olhos do rosto abranger o infinito dos juízos divinos.

Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdícios, com o nome de despesas necessárias à sustentação da dignidade de seus maiores e sua. Os sustentáculos desta dignidade estavam na estrebaria: eram-os arrogantes cavalos, que escouceavam os velhos machos de seu pai.

Posto que Miguel de Sotto-Maior mantivesse correspondência com Leonor de Brito, o coração era estranho àquela constância, umas vezes passatempo, e outras calculo. Enquanto filho segundo, convinha lhe o patrimonio de Leonor, se bem que desfalcado pelo pai. Informára-se, e sabia ao certo o valor da morgada dos Olivais. Depois que sucedeu no vinculo, curou de agenciar mulher mais rica, e têl-a-ia, se a reputação lhe não deslustrasse o nascimento e os bens da fortuna. nestas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e em menos de dois anos — eram-lhe escassos para viver limpamente os rendimentos dela.

No entanto como quer que nunca deixasse de escrever a Leonor, ao ver-se assim repelido das ricas herdeiras, e ameaçado de uma fidalga pobreza, reacendeu a poesia das cartas, e afogueou à mais alta temperatura o coração da donzela. Animou-o ela a pedil-a ao pai, ainda que não asseverava o bom exito da petição; todavia, tão da alma era escrava dele, e tão livre se sentia nessa escravidão que, no dizer dela, quando o pai a negasse, o coração se obrigava a emendar o erro do pai.

Tinham assentado em isto, quando Miguel de Sotto-Maior, explorando o cançado veio das dividas, levantou o dinheiro para a jornada e consequências dela.

Agora o temos nós em casa de Sebastião de Brito, como passageiro que se faz recommendavel pelos dois cavalos e lacaio. Aí, primeiro, desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis godos lhe giram no sangue. Sebastião de Brito, regalado com uma pratica de sua maior predilecção, mostra os retratos de alguns avós, e lastima que os não retratados fossem mais antigos que a arte da pintura.

No dia imediato, falaram em casamentos desiguais, e prostituição da nobreza ao ouro das classes mecânicas. Sotto-Maior verberava os indignos herdeiros de um Castelo avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala cios, à custa de dotes ganhados ao balcão e na balança.

Brito foi remisso nos gabos à soberba de Sotto-Maior, porque tinha de lhe dizer que sua filha ia casar com o filho de um negociante seu irmão bastardo, e de uma filha de outro negociante de Macau. Dito isto, perguntou o de Vila do Conde se era irrevogável o plano de tal consorcio. O morgado dos Olivais deu a sincera explicação do casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de braço forte que a subtrahisse aos vexames da usura. Desanimou algum tanto o poeta-fidalgo; mas a súbita aparição de Leonor, linda como ouro aos olhos de um aváro, fulminou com um relance de amoroso olhar a ideia sórdida que surgira da baixa alma do seu poeta. Ousou Miguel pedir a filha ao pai, na própria presença dela. Sebastião de Brito disse a Leonor que respondes-se: tamanha segurança tinha de a ter conforme nos seus cálculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote.

Leonor respondeu que não podia ser esposa de outro, com aprovação da sua alma. Gelou-se o sangue nas veias do pai, e nunca o ela vira tão mal assombrado e iroso. Mandou-a sair da sua presença, e disse ao hospede que, em sua casa, só eram bemquistos os amigos, que lhe não traziam planos de completarem sua ruína.

Miguel de Sotto-Maior mandou aparelhar os cavalos, esperou no pátio que o lacaio lhe apresentasse o seu, e disse ao capelão de Brito:

— Diga ao cavalheiro que lhe não pergunto quanto devo de hospedagem, porque hei de fazer contas com ele, quando for seu genro.

Isto entendeu ele que era puro bironianismo; o dono da casa, porém, é que deu à coisa o seu verdadeiro nome, chamando-lhe «patifaria»; e lamentou que os seus criados lhe não pozessem o espirito e a carne em lenções de vinho.

Ao romper da manhã do dia próximo, Sebastião de Brito foi com Leonor para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minímas ações. daí a dias, foi ela intimada para recolher-se ao convento das Comendadeiras, e esperar ali que seu primo voltasse da viagem para se realizar o casamento. Leonor ostentou brava reação; mas cedeu, por fim, à força, dizendo que o tempo era a arma e a Vitória dos fracos.

Miguel de Sotto-Maior, abonado e recomendado por cartas que apresentou ao ministro da justiça, vindas de Barcellos, tentou remover judicialmente do convento Leonor. João de Mattos, ouvindo do próprio morgado dos Olivais as razões da sua negativa, afastou de si o pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha rebelde, e concital-a a reservar o coração para Álvaro, que, no dizer do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pai e do angélico espirito de sua mãe. Leonor passou da contumácia à dissimulação, e prometeu submeter se à vontade paternal.

A traça ardilosa desta condescendência fora-lhe suggerida por Sotto-Maior. João de Mattos era barreira mais insuperável à primeira tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de Vila do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A inimisade do ministro da justiça equivalia a um cerco de esbirros lançado no seu encalço. Soccorreu-se, por isso, da velhacaria, e, delineado o plano por cartas a Leonor, saiu de Lisboa.

Sebastião de Brito duvidou da reforma da filha. Decorreram seis meses, sem que os rogos de Leonor o movessem a tiral-a do convento. «Há de sobejar-te tempo de seres feliz — dizia-lhe o pai — Teu primo não pode demorar-se... Que te diz ele nas cartas? »

— Diz que o tio está cada vez pior.

— Pois aí tens, Leonor. Se peora, vem; e, se morre, mais depressa vem, e mais depressa és senhora da enorme riqueza de teu sogro.

— E que dirá meu primo — replicava ela — vendo-me reclusa num convento?! O pai não receia que ele me rejeite, sabendo os motivos que eu dei para ser aqui encarcerada? Se ele tiver dignidade, não me quer; e, se a não tiver, não o devo eu querer a ele.

— A tua fama não está manchada — volveu o pai — Teu primo de certo perdoa a inocente volubilidade de uma menina, engodada por um homem matreiro, ou apaixonado por ti. Não há dama da corte a quem não tenham sucedido estes episódios trinta vezes, e raras saem de eles com a sua reputação ilesa como tu. Que culpa tens tu, se por ti enlouqueceu o poeta minhoto? E quem pede contas da sua fascinação a um espirito noviço, incauto, e impersistente de uma menina da tua idade? Se toda a gente te desculpa, que fará Álvaro que te ama desde criança?!

Replicava a tudo isto Leonor instando por sair do mosteiro, e mostrar-se com o arrependimento, e quietação na casa do pai, mais digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado dilatava a época da saída. Leonor, levada da sua irritabilidade, resolveu fugir, e preveniu Sotto-Maior. Não era sujeito de emendar desatinos alheios o poeta: quando muito, mais por medo da justiça que do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e bironiana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando Leonor por intercessão de terceira pessoa, que os trazia vendidos ambos a Sebastião de Brito. E o caso foi que Miguel de Sotto-Maior, horas depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao Castelo de S. Julião da Barra.

João de Mattos fora estranho àquela vil arteirice do morgado dos Olivais, e, cônscio dela, deu-lhe o nome que ela devia ter; chamou-lhe infâmia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe dos quadrilheiros, mandou o ministro da justiça dar liberdade ao preso, e chamá-lo à sua presença.

Miguel de Sotto-Maior teve uma hora de lucidez, na presença de João de Mattos: adoptou o conselho de sair de Portugal por algum tempo, única saída por onde podia salvar-se da perseguição politica, e dos tormentos que ele testemunhára nas cavernas da Torre. Partiu, pois, sem demora para França, onde então o núcleo do partido liberal fomentava a restauração dos legítimos poderes. No entanto, João de Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes atos de consciência honrada, attrahia sobre si acusações, que mais tarde lhe sortiram a deportação para Abrantes.

Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Álvaro:

«Estou sem pai, minha prima. Deixei minha mãe num letargo para vir escrever-te estas linhas. Estava tudo pronto para a partida, quando meu pai morreu, nos braços desta santa. Como ela o amava, ou como é o amor das mártires neste mundo! Em quatro meses de agonia, minha mãe nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de vida nas dores do coração. Foi uma aneurisma que o matou. Dizia em cada dia: — Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter nesta agonia a certeza de que hei de deixar-vos breve! Viver sem ti os melhores anos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim, quando já via esta morte! Que fiz eu da tua felicidade e da minha! Que espetáculo eu te dou para levar a tua desgraça à perfeição! Cinco anos de doença, de desgosto, e de pedir a Deus, por intercessão da tua santa alma, que me abrevie estas penas! Se as padeço como expiação, diz tu ao Senhor que me perdoas-te as culpas. Pede-lhe, Maria, que me deixe viver três anos por amor de ti e deste filho, deste anjo da reconciliação que nos veio das mãos de Deus. Pede-lhe, minha virtuosa amiga, que me dê horas de descanso e horas de tribulação. E, se Deus quer que eu acabe, roga-lhe que seja já, antes que eu perca a fé na misericórdia Divina. » « — Minha mãe debulhava-se em lágrimas; sentia-se extremosa amante pelas palavras de consolação que lhe dava; ia invocar a alma da santa de Vairão; e voltava cheia de esperança ao leito de meu aflito pai a pedir-lhe paciência e confiança. Aqui tens a nossa vida dos últimos quatro meses. Bem fizeste em não vir conosco: terias um quinhão destas amarguras, minha prima. Mas, ao mesmo tempo, que alívio para mim, se eu te visse ao pé de minha mãe! Eu não sei como hei de consolal-a! Tu saberias, Leonor, porque no coração da mulher é que Deus depositou as suas palavras de consolação para os desgraçados sem culpa... Chama-me a minha pobre Eufemia... Minha mãe está delirando; faz contra si própria acusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu pai por lhe não ter podido dar a felicidade, que ela em si não tinha!... Não te acuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que se fez nas cinzas do teu coração, anjo de ternura e de piedade, anjo de perdão e de suplica por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pai... Não posso mais... Logo que minha mãe tenha forças vamos para Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que ta merecem os infelizes que mais te amam neste total desamparo, de amigos.

«Nápoles — Maio 15 de 1831.

«Do teu Álvaro. »

Leonor não tinha lágrimas. Requeimára-lh'as o ódio ao pai, e o anseio da vingança.

Pouco antes de ler aquela carta, recebera ela a noticia do desterro violento de Miguel de Sotto-Maior.

As comendadeiras do convento houveram horror e não piedade dos esgares frenéticos da morgada.

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