Capítulo IX O Romance de um Homem Rico · Capítulo 12 de 23
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Capítulo IX

Proichè suo fui, non ebbi ora tranquila, Nè spero aver...

PETRARCA (Rime).

Em breves termos darei conta do viver de cinco anos em casa de Manoel Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a história minudenciosa dos menores atos, que naturalmente se encadearam para reflorir a primavera de Maria da Gloria, e adoçar o agro que uma suposta desonra devêra ter instilado no animo do banqueiro. É um engano. As primaveras da alma, se a aza negra de uma tormenta as esfolha, nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho para lhe immolarem sem piedade as vítimas, a si se golpêam, e tal chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra.

Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a ele, sem testemunhas:

— Recebes em tua casa uma tua irmã, meu amigo. desta casa dá-me um quarto ao pé do quarto de teu filho. Se isto me concederes, enches o meu coração ambicioso: nada mais quero; e violentar-me a aceitar mais do que isto é mortificar-me. Acostumei-me à clausura: hei de continual-a aqui. Se me lá era penosa por me Deus abençoar com o ardente amor de mãe, aqui, na tua casa, serei feliz porque tenho comigo tudo que me prendia à vida pela esperança. Não me leves à sociedade, nem me peças que a receba nesta casa. Ser-me-ia doloroso contrariar-te, ou contrafazer-me. Não alteres, tu, Manoel, os teus hábitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que mo digas: basta que eu o tenha ouvido da malévola curiosidade de pessoas, que, ainda há quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em ódio dele. A tua bondade tem-me ouvido com indulgencia para ser em tudo generosa. Dás-me assim a vida, que te peço, de portas a dentro?

— Vive como quiseres, Maria — respondeu Teixeira com semblante magoado — Hei de obedecer a quantas condições estipulares, se de elas depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente minha irmã.

— Tua irmã.

— Confirmas o que já me tens dito: o teu coração morreu para mim.

— Coração de irmã não é coração morto, meu amigo. A esposa hás de conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa com que há doze anos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre.

— Compreendi... Serás obedecida, Maria. Não me revolto contra o castigo: descontar em amarguras a culpa é alívio de remorso nas almas, que não estão de todo pervertidas. Aceito tudo.

E cumpriu religiosamente.

Aquela italiana do palácio de Belém achou-se de repente augmentada em riqueza; mas a riqueza era o último saldo de contas. O milionário dera-lhe, com o dinheiro, o conselho de retirar-se a Nápoles com os dois filhos. A cantora ficou com o dinheiro, e devolveu-lhe o conselho. Se até ali a perfídia fora clandestina, dali em diante até por soberba se patenteava. O novo amante orgulhou-se da substituição, e ostentou-se redobrando a magnificência da napolitana. Quis Manoel Teixeira tomar conta dos filhos; ela, porém, respondeu que as veleidades da mulher não tinham nada comum com o coração de mãe; e não lhe deu os filhos.

Álvaro não voltou ao colégio, a não ser para ir mostrar ao seu mestre e amigo as lágrimas de alegria.

— Minha mãe — dizia-lhe ele — é agora a minha mestra. Tudo o que eu sabia era muito pouco comparativamente ao que ela me ensina. Disse-me que as horas de resignação, que teve em onze anos, as dera ao estudo. É um prazer ouvi-la discorrer a propósito de qualquer passagem de história; mas o que mais me prende é o que ela diz da vida.

— Seu pai — disse o professor — deve sentir-se feliz, ouvindo-a...

— Meu pai raras vezes entra nestas nossas conversações. Há dois anos que minha mãe veio do convento, e desde então não sei como explicar o ar sombrio de meu pai. Fala-lhe com brandura e contentamento a ela; mas, se o encontro sozinho no seu gabinete, parece que vejo estarem-lhe os cabelos a embranquecer, e não tem ainda quarenta anos, penso eu. Começo a entender tudo, e o meu amigo há de dizer-me o que eu não souber. Lembro-me que meu pai é desgraçado porque minha mãe involuntariamente o mortifica com os sinais do sofrimento a que ele a obrigou. Ela é que envelheceu, e está para pouca vida. Muitas vezes me diz a chorar: «Quererá Deus que eu não vá deste mundo sem te ver homem, e no caminho da felicidade? » Receio muito que ela sucumba aos efeitos dos padecimentos passados...

Um dia, Álvaro Teixeira encontrou João de Mattos, sentado ao lado do conde de Basto, na carruagem deste. João de Mattos viu-o, e fez parar a carruagem. O ministro da justiça apeou, e abraçou Álvaro.

— Nunca mais se lembrou de mim? — disse-lhe ele.

— Lembro sempre; mas não me atrevi a procurar vossa excelência.

— Pois procure-me, e nunca esqueça as minhas últimas palavras.

Este encontro é posterior cinco anos à visita do intendente geral da policia a Manoel Teixeira.

Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico comercial. Falleciam-lhe forças para o trabalho, e sobravam-lhe os haveres. O seu estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido reduzidas ao indispensável. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos Olivais, a horas em que não pudesse ser observada. Álvaro, e só ele, era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais se irritaram contra uma feroz virtude que não pagava visitas. As bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de Vairão, umas da santa, outras de Cecília, e muitas de todas as religiosas, a quem ela respondia sempre. As de soror Joana cessaram ao cabo de cinco anos; dizia, porém, Maria da Gloria que a via em sonhos, e a ouvia do céu. Depois ela, como se a santa fosse eleita para guia da bem-aventurança, algumas outras levaram a sua luz ao altar do Eterno. Os dias destas novas eram celebrados com muitas lágrimas de Maria. «Se tu não existisses, dizia ela ao filho, estas santas criaturas teriam expirado nos meus braços. »

Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os ares de Itália, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a sua mulher se o acompanhava, e ela respondeu que a magoava a pergunta, sendo esse não só o dever dela, que também a sua mais ardente vontade. Lembrou-se o pai de Álvaro levar também Leonor. Maria aprovou a lembrança e Álvaro não soube esconder a alegria que lhe ela dava. O morgado dos Olivais folgou também com o convite; Leonor, porém, nem sequer por condescendência contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pai inventasse desculpas que dispensassem a filha.

Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, falou-lhe assim:

— Álvaro, o coração não se esconde a tua mãe. Tens dezoito anos: posso falar-te sem rebuçar as palavras. Tu amas tua prima?

Álvaro corou, e balbuciou.

Maria prosseguiu:

— Já respondeste, meu filho. Amas tua prima; e eu te digo que faças tudo quanto podem forças humanas para esquecel-a.

— Por que, minha mãe?!

— Aquela menina tem condão fatal. Os instinctos seriam bons; mas a educação degenerou-lh'os. Podes tu imaginar que espaço vai abrir-se diante de teus olhos? A chave das maravilhas deste mundo há de dar-t'as a riqueza. Não quero dizer que o teu ouro descubra corações nobres e dignos de ti; mas é certo que em volta do homem que tu hás de ser, se ajuntam os tesouros mais raros, e tu escolherás então o mais primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma víbora enroscada entre as flores, que amavas desde a infância. Um dia verás secas as flores, e a víbora em toda a sua peçonha. Perguntarás então à imagem de tua mãe que voz do céu lhe disse à alma a profecia, que te faço hoje.

Álvaro não respondeu, senão com um sorriso de complacência, triste sorriso, e dolorosa significação de uma angustia, que se peja de confessar-se. Estas linhas escritas de Álvaro a Leonor dizem mais:

«Eu cuidava, minha prima, que eras feliz acompanhando a nossa família. Meus pais amam-te muito, e eu... bem sabes quanto te amo. Não és grata ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de nós, e de mim; e vem dar-me um abraço antes da nossa partida. »

No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa.

— Não sabe quem eu hoje encontrei nos Olivais?! — disse Sebastião de Brito a Maria da Gloria — A mana lembra-se daquele poeta, chamado Miguel de Sotto-Maior?

— Perfeitamente... Está nos Olivais?!

— O mesmo em pessoa. Perguntei-lhe o que fazia por ali, e ele respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso é que o rapaz viaja como grão-senhor! Traz criado de libré, e dois bonitos cavalos. Pelos modos, há poetas que tem libré e cavalos.

— Isso que admira?! — acudiu com azedume Leonor — O pai não ouviu dizer que ele era filho segundo da casa mais antiga de Vila do Conde! É boa! querem que os poetas sejam todos uns maltrapilhos, porque Camões, Bocage, Tolentino e outros não tiveram senão versos que mostrar ao mundo! Eu cá de mim, não lhe admirei os cavalos nem a libré; o que mais notável vejo no poeta é o seu talento!

— E o fogo que tu tomas nestas coisas da poesia, minha sobrinha! — disse Maria da Gloria.

— A pequena é maniaca por versos — replicou o pai — E o mais é que já os faz também. Tu ainda não fizeste versos a teu primo, Leonor?

— Meu primo não gosta de versos... — respondeu ela com fastio.

— Eu não desgosto; — disse Álvaro — e, se fossem teus, gostaria muito, prima...

— Ora! não há muitos dias que eu estava a ler-te o Oriente, e tu disseste que os versos do padre José Agostinho eram gordos e atoucinhados como o autor.

— Pois sim, eu disse isso a brincar; mas, se não gosto do Oriente, poderei, lendo os teus versos, tomar gosto pela poesia.

O coração de Álvaro estava cheio de lágrimas. Fizera-se-lhe uma luz súbita no espirito. Recordou-se do entusiasmo pueril de Leonor pelo poeta de Vila do Conde, e concluiu dele para a visita aos Olivais. Apenas nascido, o abutre do ciume recurvou-lhe as garras no seio. A paixão deu-lhe o desembaraço, e a dor a eloquência. Buscou ensejo de estar só com Leonor, e disse-lhe com os olhos marejados de pranto:

— Tu de certo não vens conosco para Itália?

— Que pergunta! Eu já disse que não ia.

— E porque não vais, Leonor?

— Porque não quero deixar meu pai, nem troco os regalos de ver mundo pelos afagos dele.

— Mas teu pai tem vontade que venhas...

— Deixá-lo ter; se ele não présa a minha companhia, préso eu a dele.

— Há outro motivo, minha prima — redarguiu Álvaro com muita tristeza corada por um suave sorriso de artificio.

— Qual?

— Tu amas o poeta, que hoje viste nos Olivais.

Leonor descompôz-se numa risada toda da garganta, e disse a final:

— Tens graça, primo! Estou eu agora feita castellan, com trovador debaixo do balcão do Castelo a chorar amores!... Valha-te Deus, Álvaro! A mim importa-me cá o homem de Vila do Conde!

— Mas ele de certo ali foi por tua causa...

— E, se foi, que culpa tenho eu! Os poetas tem aquelas coisas, e eu não posso ser responsável das tolices alheias...

Leonor lançou mão do primeiro pretexto para rematar o dialogo. Álvaro, quase repelido quando ia a falar, foi ter com sua mãe, e desabafou por estas palavras no seio dela:

— Tem razão... devo esquecer minha prima.

— Menos, quando ela for desgraçada... — disse Maria da Gloria — Lembre-te isto sempre, meu filho.

Saíram para Veneza.

Auras bonançosas lhes assopre brandamente as vélas, e renasçam para eles debaixo de outros céus as lágrimas do coração!

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