Capítulo V O Romance de um Homem Rico · Capítulo 8 de 23
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Capítulo V

Os insensatos não comprehendem como se enlaçam o merecimento e a felicidade.

GOETHE (Fausto).

numa das suas muitas horas de desgraça impaciente e raivosa, é que estava Manoel Teixeira, ao anunciarem-lhe que parára à sua porta uma carruagem com a libré do intendente geral da policia. Não tinha ele ainda despregado a língua do céu da boca meio-aberta de pasmo, quando o guarda-portão fez anunciar João de Mattos, e Álvaro. Aqui nos falecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpresa com ímpetos de loucura rapidamente figurados no aspecto do negociante. E da alçada de todos imaginar a turbação que devia sentir o marido de Maria da Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher!

Estava já na sala de espera João de Mattos, algum tanto embaraçado em sua especial posição; mas tranquilo na aparência. Já o dono da casa se ia demorando, quando a sala imediata se abriu, e o escudeiro veio aí dizer a sua excelência que o Sr.. Teixeira de Macedo não se demorava.

Álvaro tremia, e enfiava. João de Mattos tomava entre as suas as mãos do menino, e dizia-lhe:

— Que medo é esse, menino?! Seu pai não lhe faz mal... Tranquillise-se, que isto não é nada. Por que treme?

— Nem eu sei dizer... Não é medo...

Durante um curto dialogo assim travado entre o homem e a criança, vagava como alucinado o negociante, remetendo contra a porta que o separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez mais descomposto. nesta aflitiva oscilação, tornou ao seu quarto, tirou de um estojo uma pistola de dois tiros, acomodou-a na algibeira do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.

João de Mattos ergueu-se, e disse com pausada gravidade:

— Não me é difícil ler no rosto de vossa senhoria o abalo que o meu nome lhe fez. E tão natural esse sentimento de ódio, que desonrado seria vossa senhoria se o não sentisse contra mim.

— E vem a minha casa?! — disse Manoel Teixeira com os olhos fitos no pavimento que se interpunha aos dois.

— Venho a sua casa, senhor Macedo, oferecer-me desarmado e sozinho à sua justa vingança...

— E como se acha meu filho ao lado do senhor intendente? — interrompeu o comerciante, relanceando os olhos fuzilantes sobre Álvaro.

— Vai vossa senhoria sabê-lo; mas eu peço que o menino nos deixe sozinhos por alguns segundos.

Álvaro saiu da sala; João de Mattos fechou a porta; e Manoel Teixeira encostou-se ao bordo de um tremo, e cruzou os braços em postura, que seria dramática, se não fosse incivil.

João de Mattos, com a mão esquerda na lapela da casaca, e a direita, segurando o chapéu, sobre a cintura, falou assim:

— Creio que o Sr.. Manoel Teixeira tem sobeja inteligência para conhecer que um homem, como eu, na sua presença e em sua casa, significa um sucesso extraordinário movido por um impulso também extraordinário.

— Eu desejo realmente saber o que vem vossa excelência fazer a minha casa.

— Venho...

Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um preso entre soldados queria falar a sua excelência.

— A mim?! — disse o negociante.

— É a mim — acudiu sorrindo João de Mattos. — Queira vossa senhoria consentir que o preso esteja às minhas ordens na sua sala de espera.

Manoel Teixeira ergueu os ombros, e disse enleiado das estupendas ocorrências:

— Mas esse preso é coisa que tenha relação comigo?!

— É o facto importante da nossa pratica — respondeu João de Mattos, e acrescentou com tristeza: — é o fecho desta abobada, debaixo da qual vossa senhoria há de sentir esmagado o coração... Queira atender-me. Eu morei, há onze anos, em frente do seu palacete. Não era já moço de paixões violentas; mas... era homem. Amei a Sr.. a D. Maria da Gloria porque a vi, e porque ela me não dava o mais leve sinal de estima nem sequer de preocupação das minhas constantes solicitações. O coração humano é assim absurdo. Vossa senhoria foi nessa época à Índia, e eu cuidei miseravelmente que a esposa fiel deixaria de o ser na ausência de seu marido. Havia na sua casa um criado, que adivinhara as minhas intenções, e se me ofereceu para entregar uma carta a sua ama. Aceitei e paguei liberalmente o serviço do seu criado; porém, escrevi mais cinco cartas instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca me respondeu. Um dia, fui animado pelo meu confidente a entrar furtivamente em casa de sua esposa, e esperal-a na passagem do seu quarto para uma sala. Cego da minha paixão, não compreendi que praticava uma desonra; mas sua mulher lançou-m'a em rosto, e eu saí de sua casa, cuidando que me era sobejo castigo o desprezo com que fui expulso por um ligeiro aceno de mulher. Momentos depois, o criado era despedido também, e a esposa sem macula ficou pensando que Deus abençoara a sua resolução, e que o mundo lhe seria sempre uma testemunha e um aplauso da sua dignidade. Terminei. Agora peço licença para ser trazido à nossa presença o preso.

Manoel Teixeira fez um gesto como de automato. João de Mattos levantou o feixo da porta, e disse ao meirinho:

— Entrem... Conhece este homem? — disse ele ao negociante, indigitando o preso.

— Tenho ideias... — respondeu Manoel Teixeira, afirmando-se.

— Diz a este senhor quem és — tornou o intendente com terrível sombra ao preso.

— Eu sou aquele criado, chamado Gregório, que cá estive há onze anos em casa de vossa senhoria.

Mal o preso proferiu estas palavras, caiu de joelhos aos pés de Manoel Teixeira.

— Mande erguer esse homem — disse o intendente. — O juiz aqui sou eu. Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a tua ama, esposa deste senhor?

Gregório balbuciava, e João de Mattos atalhou com formidável e colérico acento:

— Se faltas num só ponto à verdade, mando-te espedaçar os pulsos com dois anéis de ferro. Responde. Entregaste cartas minhas à senhora D. Maria da Gloria?

— Sim, senhor — disse o preso.

— Entregaste-me algumas cartas da senhora D. Maria da Gloria?

— Não, senhor.

— Quem me disse que entrasse na casa de tua ama, e me encaminhou até ao lugar onde ela havia de passar?

— Fui eu, senhor.

— Qual foi o procedimento de tua ama, quando me viu ajoelhado a seus pés?

— Mandou-o sair de casa...

— E a ti que te disse?

— Mandou-me embora.

— Que disseste tu a teu amo, quando ele voltou de Macau?

O preso ajoelhou outra vez aos pés de Manoel Teixeira, exclamando:

— Eu menti a vossa senhoria, e fui a causa da desgraça de minha ama; mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de vossa senhoria. Perdoe-me pelo amor de Deus, que estou há três meses com ferros aos pés numa enxovia sem ar nem luz!

João de Mattos fez um sinal ao quadrilheiro. Este, puxando pela gola da vestia de Gregório, quase o arrastou para fora da sala, a tempo que Manoel Teixeira, como se espertasse de um sonho vertiginoso, engatilhava a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito do preso.

João de Mattos colocou-se entre o negociante e o preso, dizendo:

— Este homem não se castiga assim, senhor Macedo. E preciso matar-lhe uma existência em cada fibra. A morte instantânea deste miserável não vale onze anos de lágrimas.

O negociante, ofegando, já com as lágrimas no rosto, e a voz embargada pelos soluços, lançou-se a um canapé.

Álvaro, alvoroçado pelo ruido, correu à sala. João de Mattos tomou a mão do menino, e aproximou-o do pai, dizendo-lhe:

— Diga a seu pai que sua mãe lhe perdoa; e peça-lhe de joelhos o perdão para quem unicamente precisa dele, que sou eu.

Álvaro ajoelhou, e sentiu-se apertado nos braços do pai, que escassamente balbuciava exclamações cortadas de gemidos.

João de Mattos, abrasado daquela flama elétrica que experimentam as almas apaixonadas da terrível sublimidade da angustia, tirou da algibeira uma carta, que leu com voz solene, cava, e pungitiva por seu tremor nervoso:

«Meu sobrinho.

«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com que hás de convencer o pai desse menino da inocência desta santa. Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa da sua desgraça, e de outra que te há de castigar ainda, se fores testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por esse anjo, e Deus te ajudará nessa hora a alumiares o coração do infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quase certeza de que as horas de agonia desse homem podem bem comparar-se às desta sublime e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate desta mártir que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas criaturas escolhidas. Eu espero com ânsia que me digas o que o meu coração espera. Se a minha fé tem luz do céu, Maria da Gloria cedo estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu perco a companhia do anjo desta comunidade; mas ganho-a para a sua felicidade, e onde quer que ela esteja dar-me-há sempre o mais doce dos seus sorrisos, e a mais amarga das suas lágrimas. Não te digo mais nada, porque as minhas muitas enfermidades, bendito seja Nosso Senhor Jesus Cristo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção, sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde. Tua tia muito amiga.

Joana das Cinco Chagas do Senhor. »

— Que hei de eu responder a esta carta, senhor Manoel Teixeira? — disse João de Mattos.

O negociante ergueu-se, enxugando as lágrimas; estendeu a mão a João de Mattos, e disse:

— Eu vou levar a resposta a sua tia.

O magistrado pôde suster-se contra o impeto do coração que o impelia aos braços do negociante. Conteve-o a lembrança de que nunca podia merecer a amizade do marido de Maria da Gloria, porque a paixão não era desculpa, nem a impossibilidade do delito inocência.

E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a comoção sentida, ouvindo o sobrinho da religiosa de Vairão, não era isso bastante para que o homem compadecido oferecesse a sua amizade a outro que entrara em sua casa suplicando de joelhos a desonra de uma família, embora o efeito da tentativa criminosa fosse apenas a desgraça de onze anos, e a certeza da causa vilipendiosa dela. Sem embargo, não era tudo dor no animo de Manoel Teixeira. Era-lhe de grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como reabilitado perante sua própria consciência. em isto vai muito para a vaidade, quando não seja tudo para o coração do homem. Se remorsos o alanceavam, o muito amor às vítimas da injustiça é a penitencia destas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a inocente parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora perdão com lágrimas. Assim é, assim quer Deus que seja; mas o que não pode ser é um marido, que amou sua mulher e se amou a si por orgulho de a ter, perdoar ao homem, quer ele seja primeiro ou ínfimo, que pôs em ação os meios de empeçonhar uma legitima felicidade, embora a pureza invulnerável da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo a vaidade do marido. A toda a luz se vê que Manoel Teixeira, no recesso de sua alma, odiava João de Mattos; e este, homem de altos espíritos e coração, conhecia o ódio, e apertara a mão do negociante por não poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.

Álvaro não desfitava os olhos lagrimosos do afável e majestoso semblante do intendente.

Trinta e quatro anos depois, o padre Álvaro Teixeira, apontando o retrato de João de Mattos, me dizia em aquela casa dos Olivais:

— Contemplava-me assim com aquele rosto de graça! Nem a minha alma conserva tão fiel a cópia do momento em que me ele disse: «Se seus pais lhe derem licença, menino, seja meu amigo; aproveite a minha velhice; eu lhe direi o que é o mundo, e o amargo castigo das ações más. »

Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel Teixeira. Este escassamente curvou a cabeça respondendo à cortesia do intendente. É que, esfriado o momento do abalo, o negociante pejava-se talvez já de ter oferecido a mão a João de Mattos com a veemência expansiva de amigo.

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