Capítulo XVI O Romance de um Homem Rico · Capítulo 19 de 23
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Capítulo XVI

Suadeo tibi emere à me aurum ignitum probatum, ut locuples fias.

Admoesto-te a que me compres o meu ouro de fino quilate para te locupletares.

APOC. 3. 18.

Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria da Gloria com ela. Era de ver os assíduos desvelos com que as famílias de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que a souberam restituida à graça da suposta milionária Maria da Gloria. E, como fosse notório e vulgar o amor de Álvaro a Leonor, já diziam os arúspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas nupcias da morgada pobre com o filho único do banqueiro Macedo seriam espetáculo de pouca delonga e muita graça. Houveram sujeitos imaginadores de tragedias que aventaram a verosimilhança de ter sido assassinado Miguel de Sotto-Maior por ordem de Álvaro de Macedo. A sociedade teve sempre destes carrascos, para assim dizer, encarregados de mostrarem do cadafalso à canalha, sedenta de escândalos, as melhores reputações a escorrerem sangue. Eufemia ouviu, uma vez, numa, loja de capelista esta calúnia. Chegou a chorar e espavorida ao pé da ama, repetindo o que ouvira. Maria da Gloria respondeu às aflições da criada com um sorriso, e estas palavras:

— Deus sabe quem matou o marido de minha sobrinha: a calúnia é que não mata a honra de ninguém.

Ficou Leonor com seu pai.

Dizer que a viúva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do defuncto marido, seria inventar. Não seria mais exato o dizer que a purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto se recompoz. Leonor nunca mais foi bela, desde o primeiro dia que se viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a lançava de si: — a pobreza. Devorou-lhe a vaidade, insofrida e furiosa na dor, a alegria da alma, e o mesmo foi tirar-lhe às flores do rosto a seiva que as alindava.

Em que pensava Leonor, em aquela sua rápida mudança de vida? Parecia não pensar. Decorridos seis meses, saiu a pagar visitas em Lisboa, menos a de Maria da Gloria, que lhe não dera a isso azo. Viram-na nos teatros, e nos bailes, passado um ano. Apontaram-lhe os binóculos os conquistadores da época; e, com quanto a denominassem «belas ruínas», fosse ela menos esquiva, e teria sobeja beleza, para acorrentar os leões de S. Carlos, jaula então muito mais de aterrar que hoje.

Em que pensava Álvaro? Como cismava ele em sua prima? Amava aquela mulher, que vira cinco anos antes. Não formava ideia alguma da mulher, que era cinco anos depois. Nunca mais a vira, nem quisera ver. Desde que pessoa descuriosa lhe disse, sem propósito, que a vira, muito outra do que era, em casa da prima condessa de tal, e no teatro de S. Carlos, Álvaro deixou de frequentar o teatro, local único onde o levava a suave tristeza da musica.

Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser convidada para casa de sua tia. Álvaro respondeu:

— A mãe pode recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não encontrarmos.

— E, todavia, meu filho — replicou a mãe — estás sempre perguntando-me se a mesada será suficiente para o bem-estar de Leonor!...

— Que tem que ver uma coisa com outra, minha mãe!? É um pouco de dinheiro inútil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser feliz com Leonor. Se o dinheiro não entrava por nada nas minhas contas, sinal é de que não representa algum afeto de coração a minha prima.

— E se ela se despenhasse em novo precipício? Se casasse com um homem que a expozesse a novas misérias?

— Dando-me minha mãe licença, continuaria a soccorrel-a, e a lutar contra a estrela fatal daquela infeliz.

— E crês tu na fatalidade, filho?...

— Creio, minha mãe.

— E a virtude que fica sendo?

— A fatalidade do bem.

— Não achas mais racional submeter à Providência Divina, e à deducção dos atos humanos o que tu chamas fatalidade?!

— Eu — disse Álvaro com profunda amargura — não sei o que é melhor, nem mais racional, minha mãe... Se quer que eu lhe diga o que sinto... o melhor é... não viver; o bem supremo da vida é esquecêl-a. O que é a embriaguez no homem de espirito que conhece o travo da peçonha que bebe? O que é o suicídio, senão a passagem para o esquecimento?

— Deves ter sofrido muito, meu filho, porque te vejo sem religião?...

— Não tenho a religião que ora, tenho a que perdoa, e se amisera de amigos e inimigos. Minha virtuosa mãe tem esta, e a da oração. Deus me será bom e piedoso pelos merecimentos de minha mãe...

Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava falar a Álvaro.

— A mim!?... — disse ele, admirado — e foi à sala onde o esperava a senhora.

Viu ele uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta anos amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.

— Não a conheço, minha senhora — disse Álvaro.

— De certo, não. Eu sou a mãe de dois filhos de seu pai — respondeu ela em italiano — sou a desgraçada que acompanhou seu pai do teatro de Milão para Lisboa há dezesseis anos. Vi o Sr.. Álvaro criancinha ao peito de sua ama, e torno a vê-lo homem com a reputação igual à das virtudes de sua nobre mãe.

A italiana enxugava as lágrimas.

— Queira continuar — disse Álvaro.

— Quando seu pai me abandonou ao meu funesto destino, tinha eu dois filhos, dos quais ele quis senhorear-se; eu, porém, sobre ser infeliz, era caprichosa, e não sei mesmo se boa mãe: não lhe dei os filhos. Em quanto a beleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos delírios de uma brilhante ignomínia; mas não olvidei a educação dos meus pobres filhos: sustentei-os num colégio, até 1832, época em que eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulência ao charco da miséria. Tirei do colégio os meus filhos: o mais velho era um demônio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um ano depois, quase fulminado pela cólera-mórbus; o outro ficou ao pé de mim como instrumento nas mãos da Providência para minha expiação. Meu filho pedia-me contas do luxo, que vira em minha casa, quando criança: eu não podia responder-lhe. Quis eu forçal-o a respeitar-me, e ele reagiu com ameaças à minha severidade. Um dia desamparou a minha casa, roubando-me as poucas alfaias de algum valor, que eu guardava para não ir tratar-me na última doença a um hospital. Passados dias, soube que ele estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao dono, e a liberdade a meu filho. Fui, depois, lançar-me aos pés de um homem, que me conhecera em tempos felizes... felizes! ... que falsa apreciação!... Pedi uma qualquer ocupação para meu filho, e alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante responsabilidade. O desgraçado parecia regenerar-se; não houve queixa dele em dois anos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o pão da velhice. Há oito meses que um grande roubo se descobriu na alfandega, e meu filho é convencido de ladrão de grandes valores, valores que ele perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Há quinze dias que o filho de seu pai, senhor Álvaro, foi condenado à grilheta por toda a vida.

A italiana esperou que os soluços a desafogassem, e continuou:

— Eu não venho pedir ao generoso filho do pai do condenado que o salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de mãos erguidas suplicar é que vossa excelência empregue o valimento dos seus amigos para que a pena seja comutada em degredo perpétuo, sem o ferro aos pés, que assim o pede o desgraçado.

Álvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:

— O nome de seu filho?

— É Júlio de Macedo.

— Farei o que poder. Vá a senhora dizer-lhe que espera alguma coisa dos meus esforços.

A italiana fez menção de ajoelhar outra vez, desconfiada da frieza de aquelas palavras: impediu-a Álvaro, e seguiu-a até ao topo da escada.

Maria da Gloria, mais por amor de mãe que por curiosidade de mulher, tinha ouvido tudo. Saiu, como desapercebida ao encontro de Álvaro, e disse-lhe risonha:

— Com que então as damas de Lisboa vem assim à hora do dia procurar-te em casa!? Queira Deus que me não raptem o meu Álvaro!...

Sorriu-se o moço, e ficou pensativo, cogitando no modo como falaria a sua mãe.

— Em que pensas, filho!? — tornou ela rindo em gargalhada — Estás ainda arrobado na visão da deidade, que te veio roubar o sossego?!... Diz o que sentes, Álvaro!

— Logo, minha mãe, logo... — respondeu Álvaro, cada vez mais enleado.

— E porque não há de ser já?! — redarguiu Maria da Gloria com gravidade — Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa árvore produziu frutos tão maus!?

Álvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns monossílabos.

— São aberrações — prosseguiu ela — Não lhe ouviste dizer à pobre mulher que o mais novo era um anjo? Aí tens... Foi como as árvores que dão aromas e veneno... Não tens porque cismar, meu Álvaro. Faz a tua vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens autorização minha para levantares o dinheiro que quiseres. O teu fausto, segundo vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a fortuna te dá.

Álvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o perdão do condenado a preço da quantia em que fora avaliado o roubo. O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia. Álvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço. Júlio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e apareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas de Álvaro, desfazia os últimos lenções para fazer camisas, que seu filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre; a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo como o salvara. neste lance, apareceu Álvaro, e recebeu nos braços a italiana, e o filho de seu pai, a quem chamou irmão.

O filho da italiana não conhecia o filho de seu pai. Balbuciava palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado de uma virtude em que não acreditava. Álvaro atalhou assim as exclamações da antiga locatária do palácio de Belém:

— Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não pode contar com os meios dele para a sua sustentação. Meu pai, como a senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Nápoles, que eu conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e levem as lições da desgraça para a conservarem.

de um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Álvaro, com exclamações e lágrimas.

— As lágrimas são um segundo baptismo em alguns olhos — disse Álvaro — Permita Deus que o filho de meu pai se regenere com as que lhe vejo no rosto.

D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho, partiram para Itália. Vinte e dois anos depois, me disse aquele santo dos Olivais que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Júlio de Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração daquele homem e a velhice venturosa da amante de seu pai, ele me respondeu:

— A fortuna de duas famílias independentes.

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