Capítulo VII O Romance de um Homem Rico · Capítulo 10 de 23
Obra Menu

Capítulo VII

Na oração que há senão aquela duplicada força, capaz de amparar-nos na queda, ou solicitar-nos o perdão, se nos despenhamos?

SCHAKSPEARE (Hamlet).

Manoel Teixeira esperava encostado a uma coluna do pórtico. Os amigos cuidavam em preparal-o para a impressão. Tão agitado o viam que receiavam o efeito do abalo que a primeira vista de Maria da Gloria devia fazer-lhe.

Dizia Sebastião de Brito:

— Deves estar prevenido, mano Manoel, para veres uma mulher muito diferente daquela gentil dama, que era Maria da Gloria há onze anos. No ar do convento dizem os santos que as almas respiram regaladamente; mas eu, que não sou medico, nem sequer santo, defendo que o ar do convento deve ser como peste para os pulmões de uma menina galante.

A comitiva fez o favor de rir à graça do morgado dos Olivais; o negociante, porém, fez um gesto de enfado, e limpou o suor da fronte.

Abriu-se a porta: era a prelada, à frente de uma procissão de monjas, noviças, e criadas. Entre todas, vinha Maria da Gloria pelo braço de soror Joana das Cinco Chagas, e esta com a mão apoiada no ombro esquerdo de Álvaro. A luz, que as alumiava, era de tochas de cera, ao clarão das quais procurava Manoel Teixeira, com espavorido olhar, sua mulher. Viu-a e reconheceu-a. Levado da sua ânsia, chegou a transpôr o limiar da porta; mas a prelada, estendendo para ele a mão, disse com affectuoso sorriso:

— Queira ter a paciência de esperal-a aqui: não é permitida a entrada nem mesmo aos maridos penitentes.

Maria da Gloria não podia ver claramente os vultos que divisava fora da portaria. Quase suspensa do frágil braço da decrepita freira, pediu a Cecília que a amparasse pelo outro braço. Porfiavam em sustental-a todas, e quase no colo a trouxeram à porta. Aí sentiu ela que uns lábios lhe osculavam a mão com afogo e tremor. Era Manoel Teixeira, que dobrara o joelho diante dela.

— És tu? — disse ela — E podeste conhecer-me?

— Quando te não conheceria eu, infeliz? — respondeu ele afogado de lágrimas e gemidos.

— Também tu tens cabelos brancos!... — tornou Maria da Gloria, sorrindo — Os felizes envelhecem tanto como os desgraçados! Não estejas assim, Manoel... Aos pés de uma amiga não se ajoelha... Ou ela perdoou antes da posição humilhada; ou não perdoa nunca. Ergue-te...

— Ajoelhe diante de Deus, diante de Deus, senhor Manoel Teixeira — disse soror Joana — e dê-lhe muitas lágrimas de louvor e gratidão por este anjo. Agora, torno a fugir-lhe com ela; por ora é nossa; amanhã lha daremos. Vá vossa senhoria e mais os seus amigos para a hospedaria do mosteiro. A nossa boa prelada lá lhes manda o chá. Vão repousar, ou façam versos, se são poetas, que esta noite todos somos poetas, todos temos no coração himno em ação de graças ao Senhor da misericórdia e da justiça.

Maria da Gloria apertou a mão do marido, balbuciando algumas palavras, e o mesmo fez ao cunhado, que a saudou com esta tirada de palaciano e enamorado de todas as palacianas:

— Olhe que eu não a esperava ver tão encantadora, mana Maria! Agora vejo que o condão das perpetuas se mudou para as rosas da sua formosura — (Sebastião de Brito havia dito isto, meses antes, a uma marquesa bem conservada, e soubera que a marquesa repetira em ar de enfado a toda a gente a fineza; porém, gostosa de que a metáfora fosse aplaudida, como de feito era). A graça do mundo — continuou ele, oferecendo simonte em caixa de ouro à abadessa — desbota as flores, e a de Deus reflorece-as. A mana Maria está como era; e, se não fosse a simpática palidez que lhe realça o mimo, seria menos bela, ou tão bela como foi.

Maria da Gloria riu-se, e as senhoras de Lisboa com ela, mas delicadamente. Ao mesmo tempo espirraram de um grupo uns frouxos de riso, que estalaram em gargalhada mais longe: eram as noviças, gente bravia, como a abadessa lhes chamava, que traziam o mosteiro em desordem, e nunca podiam dar grande saída pelos caminhos do céu.

A madre porteira fez menção de fechar a porta, quando Brito calou o refolhudo comprimento. Manoel Teixeira beijou a mão de Maria, e perguntou-lhe se o menino ficava.

— O menino fica — disse soror Joana com ar alegre — porque tem de me levar à cela. Estas senhoras, se quiserem, e a senhora dona abadessa consentir, podem também ficar. O patriarca S. Bento tudo tolera hoje, por amor do nosso anjo, que não pediu a felicidade só para si. Ora vamos com Deus.

Fecharam-se as portas. Maria passou a noite de vigília, com o seu leito rodeado das antigas amigas, das freiras mais da sua alma, e do filho acariciado, que adormecera com a fronte encostada ao travesseiro de sua mãe.

Manoel Teixeira e os seus companheiros, excepto Sebastião de Brito, pernoitaram na hospedaria do mosteiro. O dos Olivais, tão amante das musas, quanto o elas tratavam esquivamente, foi até às quatro da manhã o primeiro entusiasta do auditório, batendo palmas delirantes, e bradando os bis com todas as potencias da sua admiração pulmonar.

Agora, abro mão do seguimento da história, para acudir a uns reparos de algum leitor.

Diz ele:

«Eu estava preparado para ler algumas páginas bonitas e sentimentais, ocasionadas pelo encontro de Maria da Gloria e Manoel Teixeira. Fiquei logrado. Nenhum de eles disse coisa que fizesse chorar, nem escassamente comover a gente. O autor deixa perder as marés cheias de poesia. Aqui era que devia ostentar os tesouros do seu estilo lamuriante. Nem um aprendiz de romances deixava, pelo menos, de tirar do peito do marido quatro apostrofes, com grande chuveiro de lágrimas. Era belo fazêl-o discorrer uma hora de joelhos aos pés da esposa, desfalecida de cinco em cinco minutos. Que ela perdoasse, isso sobre ser justo, era dramático; todavia, a palavra misericordiosa devia fugir-lhe do coração, depois que as freiras todas chorassem em coro, e soror Joana discorresse dilatadamente acerca do perdão das injúrias. Além de que, nenhum desmaiou! O tocante era ir ela nos braços das esposas do Senhor para cima, e ele ficar cá fora, senão sem sentidos, ao menos declamando um quarto de hora, e cair a final extenuado nos braços dos amigos. Isso sim, era uma passagem que bastava à reputação da novela, e a venderem-se mais alguns milhares de volumes. Escrever as coisas como elas se passam no mundo, como nós as vêmos por aí! Então é melhor não dar cópias da realidade. O que a gente quer é que o romancista nos pinte a sociedade, a vida e as paixões melhores ou piores do que são. Regala estar lendo uma cena sem naturalidade, e dizer «isto não é assim; mas, se assim fosse, era mais agradável o mundo. » Onde está a imaginação do novelista, que repete o que viu, ou leu, ou lhe contaram?! E como dizerem que o teatro deve ser a fotografia da vida! Vão para lá com os seus dramasinhos verdadeiros, e verão que nem os músicos da orchestra lhos aturara. O romance é tal e qual a mesma coisa. Se nos não maravilha, enfada-nos. Viram coisa assim?! Deixar o autor correr glacialmente aquela cena da portaria do convento! Ainda agora podiam estar os cônjuges a dissertar a respeito da calúnia que custou onze anos de martírio à esposa sem nodoa! Pois o remorso não era aguilhão suficiente para fazer andar o marido em bolina naquele local tão poético, e obrigal-o a raivar contra si, e a desentranhar-se em eloquência de frases e lágrimas aos pés da mulher! Nem um ah! nem um oh! lhe ouvimos!... É de mais! Pode ser que assim acontecesse, e que o facto assim descrito o lêsse o autor no manuscrito do padre Álvaro Teixeira; mas isso não indulta o artista, que recebe das mãos da natureza uma pedra, e faz dela uma Nióbe ou um Laocoonte. O romancista é o esculptor das paixões: enfeital-as, corrigil-as, dar-lhes com palavras a expressão que elas esteticamente não podem exprimir, é seu ofício. E, se o autor me não entende, eu lhe aclaro a ideia: É de crer que as pessoas testemunhas do lance, entre Manoel Teixeira e sua esposa, se comovessem, porque lhes viram nos semblantes os movimentos da alma; nós, porém, que os não vimos, precisávamos de receber da fantasia do escritor uma descrição, que nos sacudisse os nervos, e levantasse o espirito à altura em que o levantam os romancistas da moda. Fique-lhe, pois, de memoria esta amigável censura; e, para outra vez, belisque a imaginação, se quer que o seu nome de romancista reverdeça, orvalhado com as nossas lágrimas, ou festejado com as nossas gargalhadas. Chorar ou rir, é onde bate o ponto. Quem não conseguir uma das coisas, não nos importune. »

Respondendo, digo ao leitor sisudo que me conformo com o seu parecer, e de experiência tenho que a verosimilhança, qualidade em que tenho aperfeiçoado esta minha arte, me tem grandemente desmerecido a valia dos meus romances. Há muito tempo que não mato ninguém senão de moléstia: quando muito, para aformosentar a morte com um nome bem-quisto dos poetas, e dos leitores sentimentais, tenho denominado tisica pulmonar, ou congestão cerebral, o que em boa patologia se denomina hidropesia ou inflamação intestinal. Não se tem suicidado ninguém nos meus últimos romances, nem mulher alguma perdida tem sido rehabilitada ao amor virginal. Isto é nocivo às minhas curtas aspirações, bem o sei; mas já agora não arripio a carreira; liei-de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações, de que me sinto muito alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da verdade, embora a verdade seja descorada e dissaborida aos amigos das visualidades. Já em outros livros me tenho cançado a responder a reparos que a crítica, não impressa mas em família, me tem feito. Paciência. A França, de Bernardin de Saint-Pierre menosprezava a história singela de Paulo. Arguiam de infecundidade o autor que o não fez carpir-se em desesperado monologo ao pé do cadáver de Virgínia. Quem me dera a mim para um dos meus livros uma sombra do renome daquele romance! Quantos milhares de romances, decantados uma hora, pensa o leitor que a voragem do esquecimento enguliu, desde que a obrinha do grande naturalista recebe o tributo de lágrimas, que Napoleão lhe dava em Santa Helena?

neste gênero de escritos, o selo da perpetuidade grava-o a natureza. O templo dos livros imortais é servido de poucos sacerdotes; mas, grande gloria lhes é esse culto sem estrondo! Não vão agora cuidar que eu estou já daqui espreitando o nicho do templo da eternidade em que me hão-de encolher os vindouros — encolher, digo, porque não podemos lá caber todos! Não, senhores! eu no que penso é em converter o meu leitor à religião da verdade, e levo em vista móvel-o a ler outra vez aquela fria e frouxa cena da portaria de Vairão. E, se alguém disser que eu estou dando satisfações impertinentes, respondo que é isto respeitar os meus leitores, e propósito de adelgaçar as rudezas de alguns raros, que me trazem entre os dentes da sua crítica, porque os eu não faço chorar nem rir.

Respondi, e volto ao outeiro.

Alvorecia a manhã, quando a maior parte dos poetas se retirou com as musas roufenhas da friagem matinal. As damas lisbonenses, captivas da novidade do outeiro, nem se deitaram, e com Leonor andaram, de grade em grade, pedindo que lhes ensinassem a dar motes. Notaram as freiras que particularmente a menina, se o verso que lhe davam era para assumpto sagrado, não ficava contente, nem se entusiasmava a repetil-o ao poeta. Se, porém, no mote vislumbrava ideia amorosa, era muito de ver e admirar o desembaraço com que a azougada menina se espevitava, proferindo eom certo requebro as palavras do verso. O pai, que andava, como dissemos, entre os poetas, regosijava-se de ouvir a voz da filha, e como tal a apresentava aos trovadores embelecados da voz argentina e insinuante, que ela tinha. destes, o mais verde em anos, e mais verde em esperanças, sentiu-se namorado daquela voz, e de amor tão engenhoso que, até dos motes ao divino, profanava a ideia convertendo-os em madrigais. Leonor estava encantada de ouvir o seu poeta, e já perguntava com ansiosa curiosidade quem ele era. Disseram-lhe que era um filho segundo de uma nobre casa de Vila do Conde, tão bom poeta como mau filho, que tinha dado grandes desgostos a seus pais. Esta última parte da informação não a desviou de já, sol nado, sustentar com algumas noviças o outeiro, cujo único poeta era o de Vila do Conde. Não queria ela retirar sem ver o rosto do vate dos amorosos sonetos. Viu-o, e ouviu-o em prosa, e achou-o na simpatia igual ao poeta. Disse-lhe de entre as grades um adeus affectuoso, e foi passear na cerca, e cismar, como podem os corações fatídicos cismar aos quatorze anos.

1/1
Menu

Fazer anotação