Introdução O Romance de um Homem Rico · Capítulo 3 de 23
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Introdução

_As tribulações dos santos são enigma: uma coisa parecem, e outra são e significam: parecem misérias da fortuna, e são concelhos da Providência Divina, e sinais da felicidade eterna. _

P. M. BERNARDES. (Silva de vários dictames espirituais.)

Na primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolonia, um bilhete da via-férrea, para a ponte da Assêca. Saudades do campo, ânsias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima disto, o meu dorido amor a quantos sítios guardavam para a minha memoria do coração vestígios da infância, que tão depressa passara com as flores de outra mais formosa primavera... A que vem isto?!... É a saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdoe-me.

Entrei numa das mais flácidas carruagens do combói.

Vejam a egoísta e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma padecia tanto, se dispensou a ignóbil matéria dos regalos das almofadas! A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que recamaras de asiática opulência se lamentava ele! Que requintes de luxo para o corpo, e anhelos de gloria para a felicidade do espirito lhe não infloravam ao poeta de Elvira a dupla existência, quando ele escrevia:

_Héritiers des douleurs, victimes de la vie, Non, non, em espérez pas que rage assouvie Endorme lé Malheur, Jusqu'à cê que la Mort, ouvrant son aile immense Engloutisse à jamais dans l'éternel silence L'éternelle douleur! _

E Petrarcha, tanto ano a chorar sonetos, aposentado no palácio de um doge, rodeado de servos, e de amigos, e de admiradores, em aquela feiticeira Veneza, tudo a expensas da república!

E todos os outros mestres de bardos melancólicos?

Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimantes!

Eu ia a cismar em isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de carruagem, o qual estava pendurando o chapéu no arame, e vestia a veneranda calva com seu barrete de troçal preto.

Cortejei-o, na hipótese de que ele me tivesse já cortejado, e eu não correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, coisas disparatadas, que o leitor pode ver mirificamente descriptas em S. Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se confessa; no segundo, quando viaja à roda do seu quarto. O santo bispo chama ao corpo «bruto» e o conde francês chama-lhe «besta» — ao corpo entenda-se, e não ao bispo. Para mim tenho que o corpo é ambas as coisas, e muitas outras.

Se entro a desvariar, o leitor passa ao capítulo segundo, e isso é que eu não queria, porque os meus romances começam todos pelo principio, e este primeiro capítulo deve ler-se.

Cortejei o padre. Parece-me que ainda não disse que era padre o meu companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal naquele apostólico semblante, se o não dissesse a volta e a sotaina, e o sapato de fivela de aço reluzente.

Correspondeu ao meu gesto com muita afabilidade, tirou-me da mão o chapéu para pendural-o, e ofereceu-me rapé, depois de bater quatro vezes com os nós dos dedos na tampa da sonora caixa de tartaruga, marchetada de madre-pérola.

— Pode fumar à sua vontade, se fuma — disse-me ele.

Agradeci o agradável consentimento, e ofereci-lhe a minha charuteira, que ele não aceitou.

Recahi no meu letargo. Agora era diversa a tese: meditava nesta palavra MORAL, e nesta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem que Bruto, no último instante de vida, dissera que a virtude era apenas uma palavra. Por isso é que eu ia conversando com o sanguento fantasma do heroico inimigo dos tiranos.

— A moral! — dizia eu só comigo, depois que a imagem de Bruto se vaporou — a moral é que não é meramente uma palavra. Aqui vai quem poderia dizer-me o que é a moral. Este homem tem um rosto lucido e inteligente: como que estou vendo por ele uma boa alma.

Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava ele com os dedos inclavinhados e as mãos postas sobre o peito. Dava ares de profundo recolhimento, senão tristeza. Gostei de o ver assim em aquela postura, a mais artística e significativa de paz, e conformidade vencedora dos maus e dos males da vida.

Comparei-me com ele. As minhas dores surdas, disfarçadas num sorriso convencional, e timorato do escárnio dos insultadores! O contentamento interior daquele homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza, contrasenso se quiserem, mas expressão leal de alma pura e sem temor! Aos olhos de um observador inexperiente, qual de nós dois seria o feliz?

Saiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me:

— Serei indiscreto, perguntando-lhe onde tenciona ir?

— A Santarém.

— É um passeio aprazível! O «Vale» é um paraíso, povoado de saudades, que chamam sempre o espirito de quem lá teve uma hora de felicidade. Uma hora, digo, porque a felicidade deste mundo, e só deste mundo, não dura mais que uma hora.

— Há quantos anos eu lá não fui!... — continuou o padre no tom magoado de entranhada saudade — E já agora é tarde... é o anoitecer da vida...

— Parece-me tão fácil de satisfazer esse desejo! — interrompi eu.

— É fácil, diz bem; mas é que há saudades, que desabafam nas lágrimas; e outras, que se embebem de elas. A saudade do objeto, existente a distancia, converte-a em delicias a aproximação; porém, quando a saudade de um sitio é a dor repercutida de vidas que lá viveram, e não podem reviver com a nossa, essa não tem alívio.

— Creio que tem — disse eu — é ver e amar essas vidas em Deus, chamal-as em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na linguagem das lágrimas...

— E da oração... — disse o padre, e prosseguiu, depois de breve silencio — Prouvera a Deus que todos os que sofrem de afeições perdidas tivessem o desafogo de buscal-as no céu...

E calou-se de súbito, cerrando as pálpebras, e encruzando as mãos longas e ossudas sobre o peito.

Estavamos no «Poço do Bispo. » Pesava-me a ideia da separação, cuidando que o padre sairia ali. É que já o estimava, cativo de sua linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me eles parecem inteligentes e desgraçados.

— Fica no «Poço do Bispo? » — perguntei.

— Não senhor; vou para os «Olivais. »

— A passeio, ou é de lá?

— Vivo lá: tenho ali arrendada uma vivenda, umas ruínas pitorescas, em que me sinto bem. Estou ali como encasado em aquelas paredes abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando cahiremos nós contigo?

Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou:

— Se o senhor vier aos «Olivais» alguma vez, e quiser hospedar-se na humilde casa, que lhe ofereço, e sentar-se à mesa em que há sempre o riso e vaca de frei Bartolomeu dos Mártires, pergunte pela quinta do Canavial, e procure o padre Álvaro Teixeira. Raras horas no ano estou fora do meu quarto, ou dos arredores da casa. Encontra-me sempre, salvo se algum vizinho lhe disser que o pobre presbítero passou a morar em outra residência onde as pessoas que me visitarem terão a caridade de pedir a Deus o descanso da minha alma.

Disse isto o padre sem o menor trejeito beatifico. em aquelas palavras doridas sorria a consolação da esperança, e a jovialidade do justo que se não teme das contas finais de sua alma com Deus, e da memoria, que de si deixou, com a justiça humana.

— Espero ir encontrá-lo com muita vida, senhor padre Álvaro Teixeira, e não será muito tarde. A sua povoação está às portas de Lisboa; mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem comunicativo e estimável, para quem o coração me está fugindo com a palavra «amigo. »

— Agradeço-lh'a, e afago-a; respondeu, e estendendo-me a sua mão — Que o sentimento generoso sai espontâneo do coração, sem consultar o raciocínio; ao passo que frequentemente as melhores qualidades do homem, que tratamos longo tempo, não vencem a descaridosa antipatia de um primeiro encontro.

— Como se chama?

Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o três vezes pausadamente, sílaba por sílaba, e depois exclamou de repente:

— Não me engano. É o mesmo. Eu conheço o seu nome há onze anos. Entre os meus livros estão vinte páginas da sua infância literária. Nem, talvez, já se lembre de elas! Pois não deve esquecel-as... Eu lhe cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO.

— É a verdade; são minhas. Classificou magistralmente a coisa: vinte páginas da minha infância literária, felizmente esquecidas...

— Mas não as esqueça em si o homem de coração, que deve prevalecer ao homem de estudo. Foi temeridade assentar-se à beira do caminho, por onde passava triumfantemente o primeiro sábio de Portugal; mas, feliz culpa, ditoso atrevimento o do rapaz, que não tinha exhauridas ainda todas as lágrimas da compuncção. Atrevimento reprehensivel fora o da porção do clero, que desenrolara do púlpito abaixo o sudário da sua ignorância, disputando à ciência o que era da ciência, e arriscando a causa da verdade às vaias de ingenerosos adversados, os quais, não podendo hombrear com o historiador doutissimo no sólio da ciência, e castigar de lá os ignorantes, entenderam que bem mereciam do mestre apanhando-lhe a lama do chão das suas botas, e atirando-a à cara dos padres. No folheto do meu amigo não havia polemica nem ciência; mas sobejavam conselhos aos parciais do clero, que porfiavam em levar vantagem de injúria aos inimigos. Não se corra de ter, um dia, escrito que o padre é ignorante porque o não ensinam, e que as verdades santíssimas de Jesus não podem ser menospresadas pelas argucias da razão filosófica, nem pela rude e escura hermenêutica dos mal aviados defensores da exclusiva razão do catolicismo...

nesta esteira foi navegando o padre, a todo o pano da sua muita crítica e erudição. Pedem os leitores que os poupe às conferencias do levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh'as, mesmo porque me era preciso saber tanto como ele, para o não desprimorar da eloquência com que me aligeirou em instantes a hora decorrida até os «Olivais. »

Parou o combói, e o padre suspendeu o discurso numa conjuncção.

— E portanto... — disse ele — Adeus, meu amigo, não há tempo para mais.

— E portanto — disse eu — não o dispenso de concluir o seu discurso. Eu é que digo por hoje adeus ao Vale de Santarém, e fico nas pitorescas ruínas dos «Olivais. »

— Fica! — exclamou ele com alegria — Pois bem haja!

Saltei, dei a mão ao padre, e apresentei o meu bilhete ao condutor.

Merece crônica um episodio de instantes que se deu entre mim e o condutor nesta estação. O meu bilhete designava a «Ponte da Asseca» e o condutor formalisado dizia-me que eu não podia deixar de ir à «Ponte da Asseca. » num breve discurso tentei debalde provar ao funcionário que a companhia não era prejudicada com o receber mais oitocentos e tantos reis acima da minha passagem para os «Olivais. » O homem, que era belga, não entendia o meu vasconço de Poitou. O padre encostado ao cunhal da estação, arquejava de riso; o belga relanceava os olhos envinagrados, avinhados é mais exato, dele para mim e de mim para ele, julgando-nos ambos cúmplices na logração. A final soou, segunda vez, a campainha, e o hábil empregado lá foi fazendo de mim um mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, colocando o inteligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum português estupido. E, se não provasse isto, provaria a embriaguez do homem, e ainda assim a boa escolha.

— Ora vamos lá — disse o padre Álvaro Teixeira, encostando-se ao meu braço — Temos dez a doze minutos de caminho. Vamos pisando este chão que é como sagrado para mim. Repare nestas flores das ribas e valados, que eu vejo há trinta anos, sempre com o mesmo viço e a mesma cor em cada primavera. Há na natureza um aspecto de indiferença que exacerba a dor dos infelizes, se é que todas estas boninas não renascem para chorar comigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando alguns traços do passado se me varrem da memoria do coração, e, depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a flor do rosmaninho, revivem as lembranças todas, umas pungentes, outras doces de saudade; mas nenhuma de esperança... Esperança! Não se ri desta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se apressasse a corrida após de uma esperança, aquém da sepultura?...

— Por que não? A esperança de encontrar mais um amigo, e depurar alguma alma empestada pelas más paixões, não é tão digna de si, e dos seus anos!? E além de que o senhor padre Álvaro não é velho.

— Veja se me lisongêa, meu amigo. Olhe se faz com as suas palavras a maravilha da fábula: rompa em aquela pedra a fonte da juventude do corpo e a da alma. Remoce o achacoso velho que já conta... diga lá, quantos anos me faz?

— Cinquenta e seis, ou sessenta, quando muito.

— Não, senhor: tenho quarenta e seis.

Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis anos aquele homem, que me ia pesando no braço, e se abordoava à grossa bengala que lhe oscilava na mão! A luz dos olhos serena, mas quase apagada. Os vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miúda rêde ao redor das orbitas. As faces arregoadas, lividas, e flácidas. As cordoveias do pescoço repuxadas pelos tendões descarnados. O dorso recurvo, e as extremidades tremulas e morosas nas articulações dos joelhos. Quarenta e seis anos! Que fogo voraz se retrahe no coração deste homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra! Foi a mão de Deus, que me guiou a ti, filho da dor, para me humilhar diante da tua paciência!? Fala, fala, ensina-me a compor dos meus gemidos o hossana da Vitória, sobre as agonias, que me vergam, quando eu mais me afadigo a despontar-lhe os espinhos com a rebelião insofrida. Diz-me através de qual fibra ilesa e invulnerável te vem do espirito aos lábios esse teu sorriso! Dá que eu prove o fel de cada lagrima, que enxugaste com o punho da batina nas tuas faces aradas! Não caiãs árvore bendita, sem que eu colha frutos de benção dessas magestosas frondes, que se abaixam até ao raso da minha miséria. Se adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte páginas do coração juvenil, deixa-o sentar-se à tua beira, a meio caminho da vida; aponta-lhe daqui o trilho menos escarpado da sepultura; ensina-o a converter cada espinho em flor; cinge-lhe os rins com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh'a com o travor das lágrimas penitentes; dá-lhe a força de homem, e reserva para Deus a tua essência de anjo.

Este era o seu refugio, o seu descanso.

Fr. LUIZ DE SOUZA. (V. do Arc.)

A tristeza das ruínas é uma tristeza particular, da qual nem todas as almas se magoam. Já observei vezes sem conto isto mesmo no semblante das pessoas que foram comigo a visitar um palácio derrocado, ou as alpendradas de um convento, ou algum lanço empenado de muro de Castelo.

No convento de franciscanos, cerca de Vianna, relíquias santas em cujas abobadas credes ouvir ainda o ciciar dar oração dos frades comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso de onde se avistavam descampadas e fertilíssimas várzeas. A fronte do meu amigo pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente silencio, a estrofe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do sitio, que eram poesias feitas para um gênio que as bem soubesse ler. Entre-abriu o poeta os beiços, como flor matutina o cálice ao primeiro beijo do sol, e disse:

«Se fosse meu tudo isto que vejo daqui, ia viajar num vapor meu, comprava um palácio em Milão, outro em Paris, outro em Londres, e havia desbancar quantos luxos orientais o Biron inventou para o seu Sardanapalo! »

Não respondi, de triste que fiquei, e de triste que já estava.

Outra vez, fui com outro amigo ao Castelo de Palmella. Desci às masmorras em que não seria custoso com uma enxada trazer à flor da terra as ossadas dos que ali morreram há cem anos emparedados à ordem do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento deste laivo sangrento da história, e fui em cata de glorias aos séculos primeiros daquele baluarte da nossa independência de Castella e da mourisma. Enleavam-me estas meditações, quando o meu amigo, cabisbaixo num angulo de um bastião, resmoneou:

«Fizemos uma crassa tolice em não trazermos de Setúbal um pedaço de carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era ótimo vinho, e havia de saber-nos aqui que nem o néctar dos deuses.

Ora, este poeta era amantíssimo de ruínas, quando as poetava no seu gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e fulminação contra os governos bárbaros, que deixavam ao camartelo iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza.

Outro caso:

Nos arrabaldes de Lisboa, há um espaçoso jardim abandonado, junto de uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes enfezadinhas de rarissimas flores, que teimam em reflorir na sua estação, como se a esperança lhes não morresse ainda de voltarem aos cuidados da mão delicada, que as semeara e amimára ali, com o coração em flor também. Quem se lembra ainda da formosa jardineira que descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus cabelos? A formosa passou, e a rosa de toucar floreja ainda ao pé do mirto, à sombra da anemola e da romanzeira, abafada pelas moitas das papoulas, que são o efêmero adorno das sepulturas. Que triste eu cismava em isto, quando o meu amigo, autor de idílios que faziam amar a botânica e adorar as flores, rompeu nesta canção:

— Este jardim, aqui às portas de Lisboa, se o dono o pusesse a couve lombarda e feijão carrapato podia render vinte e tantas libras anuaís.

Disse, e perguntou-me se iriamos jantar ao Matta, ou à Taverna inglesa.

Por estas e outras, pus eu que a tristeza das ruínas é uma particular tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.

Eu de mim, liberalmente dotado de dores minhas e intimas, já fujo de ir onde está a solidão lamentosa, parque nunca me ela deu o remédio que deu a muitos, mal feridos do mundo. E de ruínas é que fujo mais esporeado pela lembrança das más horas, e peçonha para muitos dias que tenho trazido de lá, em vez do balsamo, que a meu ver, só é salutar nas almas golpeadas, se a consciência não se dóe com elas.

As únicas ruínas de que tenho saudosa memoria são as da vivenda do padre Álvaro Teixeira, nos «Olivais. »

A casa tinha claros vestígios de palacete. Os cunhais estavam em pé, amparando alguns lanços de parede, recortados em escaleiras desiguais. Através de nove janelas das quatorze da fachada coava-se o azul do céu, apenas interceptado por algumas vigas e ripas empenadas e torcidas pelo calor. Nas padieiras e cornijas amareleciam fetos e outras hervagens resequidas que deixavam realçar o verde da hera. Esta marinhava do interior das paredes para os batentes e couçoeiras das janelas, sem portadas, e em algumas enredava-se em urdidura tão agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de ver-se quanto mais desalinhada é da esquadria da arte.

Entramos num largo portal, que abria para um pátio espaçoso, alcatifado de relva, nos pontos de juncção entre as lageas. As paredes circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando passagens mithologicas e campestres. No rebordo superior deste ladrilho, corriam em toda a roda argolões feluginosos, que deviam ter sido as prisões dos cavalos, nas tardes calmosas, quando os antigos senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim iminente ao pátio, gozar-se do espetáculo dos mursellos e alazões rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas.

Subimos a escadaria do patim, e entramos numa sala pouco alumiada e muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com artezãos grosseiros, e um brazão de extraordinário tamanho e lavor no centro. deste pendia uma corrente de arame e um grande lampadário, através de cujos vidros afumados, a custo uma tocha lograria coar o seu clarão. Ornato nesta sala não vi algum, a não serem dois escanos de castanho, de altíssimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das armas do tecto.

Segui o padre ao longo de um comprido corredor ladeado de quartos, à imitação de dormitório claustral. A maior parte destes quartos não tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava uma velha sentada, quando apontamos à outra extrema. Levantou-se então, e forcejou por tirar do cinto duas chaves encambadas num atilho, operação não fácil, porque o atilho se lhe enredara nas camândulas, e estas no fuso, e este no fiado.

— Não se impaciente, senhora Eufemia, — disse o padre. — Ande lá de seu vagar, que nós não temos pressa.

— Valha-me Deus! — disse a velha afreimada — este berzabum do negalho parece que tem coisa má! Não querem ver isto? Olhe onde o rosário se foi imbelinhar!

A senhora Eufemia já suava, e cada vez embrulhava mais as coisas, a tempo que o padre, tomando-lhe das mãos a tarefa, ia desdobando a miada, sorrindo e gracejando com a velha, que não pudera sair-se de aquelas dificuldades, por ter dois dedos da mão esquerda inutilisados numa grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando o padre pacientemente desenredava a cambulhada.

dali passamos à porção mais reparada e habitável do palacete, e residência do locatário. Era uma sala, e dois quartos contíguos. num destes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para hospedes. A sala tinha mobília, que fora sumptuosa no começo do século passado: eram tremós dourados, cadeiras de estofo estreitas com espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados a ouro, com fechaduras de prata rendilhadas, jarrões indianos com reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de florões a óleo, pendiam os retratos de D. João V, ao de D. Pedro III e D. Maria I num só retabulo. Outros retratos inominados, afora o do ministro da justiça no reinado de D. Miguel, João de Mattos Vasconcellos Barbosa de Magalhães, oriundo de Barcellos, e morto no desterro, adornavam, a grandes intervalos, as quatro paredes da sala, cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia.

Abriu o padre Álvaro a vidraça do seu quarto, e eu fui à janela examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte de um grande jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante estava abandonado. Feixes de herva mirrada afogavam um cisne de pórfido, o qual se levantava sobre um pentágono de granito, no centro de uma bacia de mármore de todo seca, e esborcinada. Árvores de densa copa e muita grossura de troncos formavam, emaranhando-se, a enorme sebe do antigo jardim. Através das clareiras interpostas aos troncos entrevi um paul, relíquias do que devera ter sido um vistoso lago. Rebalçavam-se no charco alguns patos, e saltitavam e ralavam as rãs como à competência com as cigarras.

Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de amarelo, com as suas três chaminés pintadas de azul, e brazão de armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do edifício.

— Quem vive em aquela bonita casa? — perguntei eu.

— Aquela casa é de um comerciante de Lisboa — respondeu o padre — Foi dos que foram donos desta em que vivo...

Observei no semblante do padre mudança de cor, e muita tristeza no olhar para uma das janelas do palacete. Dava a cuidar, pela insistência com que fitava a janela, que devia alguém aparecer ali; mas tanto aquela, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum sinal de vida, se não o chilrear das andorinhas ao longo das cornijas da casa, podia responder à observação atentiva do meu amigo. Não era observação, era absorvimento, por motivos que o leitor saberá oportunamente.

Como de golpe, saiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho para mim, disse:

— Vamos ver se o meu amigo se conforma com a mesquinha hospedagem que lhe dou. Venha daí.

Segui-o ao quarto vizinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada a desdobrar lenções para a cama. Era esta um grande leito liso de pau preto com as quatro hastes do pavilhão. Completavam o adorno da câmara duas cadeiras e uma banquinha, e lavatório de ferro, onde já se via a fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em ébano, as quais representavam a vida de Barnabé Chiaramonte, com referencia a Napoleão, segundo a conta Beauchamp na «História dos infortúnios e captiveiro de Pio VII. » A alfaia mais rica do meu quarto era um festão de trepadeiras, com flor escarlate, que ensombrava a metade superior da vidraça. A limpeza, a frescura, o perfume, e a doce melancolia daquele recinto não podiam invejar pompas, se as há, que mereçam comparação com as do meu saudoso e lindo quarto das ruínas dos «Olivais. »

— Já sabe — disse o padre — que tem de fazer aqui penitencia da irreflexão com que se fiou da minha hospitalidade.

— Como isto é gracioso, senhor padre Álvaro! — disse eu sem simular o entusiasmo — A poesia está aqui!

— A poesia dos profetas de Jerusalém; — atalhou o levita — a poesia das lágrimas...

— E a da esperança, que é tão formosa, tão do céu, e dos desventurados neste mundo! — acrescentei eu, enlevado no meu rapto de cinco minutos — Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para saírem de novo à arena. Aqui, restauram-se os alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que — é a fé, a fé perdida dos pusilânimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco, entre a criatura manietada, desvalida, e vil, e a besta-fera em toda a pujança dos seus músculos de ouro, da sua impavidez, e soberba. Mal daquele, que foge o mundo, e se refugiarem si: é um engano; é render-se o homem às garras do dragão que encerra, e nutre com a peçonha que a desgraça lhe vara no seio. O homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a fortuna, não pode nada consigo, nem deve estar lacerando-se com as suas próprias unhas para extirpar com o sangue a raiz do mal. Fora de si é que está a salvação. Em Deus é que...

— Em Deus — interrompeu o padre. É essa a palavra, onde eu o estava esperando, meu amigo. Não se contradiga. Disse aí que «a felicidade, o bem, e a fortuna são dependências do acaso. » Quem isto sente, não acha absolutamente necessária a intervenção da vontade divina nas contingencias, meramente casuais, desta vida. Oferece-se-me cuidar que o meu amigo não meditou no desconcerto dos seus princípios com as consequências. Se a felicidade — a da consciência, entendo — é obra do acaso, o acaso é a lei de Deus na ordem do mundo. O paradoxo salta! Não serei eu quem peça a Deus o milagre de fazer-se absurdo por meu respeito, até ao ponto de pôr à minha disposição uma cadeia de acasos felizes. O bem-viver, meu amigo, é tão rigorosa consequência do bem-fazer, como a luz o é daquele astro, que ali está no céu, protestando contra a sua teoria dos acasos. O homem não acha em si os alívios da razão, quando os vícios lha degeneram. A razão depurada dos sedimentos da antiga culpa, no crisol do Evangelho, é Deus. Deus não é somente puro amor, é pura razão também. E, se não, veja que os bem-aventurados neste naufrágio da vida são aqueles que, rebatidos de uma vaga contra a outra, emergem à flor de cada escarcéo, abraçados à razão, taboa de infalível salvamento. O embriagado da sua falsa fortuna, cuidando-se, um momento, domador das tormentas, pode sorrir de desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do justo. Aquele dirá que o acaso prospero lhe bafeja a si, e o funesto ao outro? Dirá; no entanto, meu amigo, será tudo escuridade à volta deste fátuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar. O interior, a quem me socorro desconfortado, é a minha razão. Se as paixões me apagaram esta luz bendita, a quem pedirei eu a esmola de outra luz, se não a Deus?

Disse bem, meu amigo: «mal daquele que foge o mundo, e se refugia em si. » Não andaria melhormente avisado o náufrago que, escapado do mar alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os penhascos das costas. Antes prolongar a agonia na esperança de uma vela salvadora que nos pode chamar e reanimar para maior esforço. Antes esvasiar o cálix da injustiça humana, sem o repelir, esperando que o Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, ocasionando-lhes um dos imprevistos encontros, que lá estão delineados na sabedoria divina. A solidão, sem Deus, não serve para infelizes maus. Os bons, os absolvidos por sua consciência, refrigeram-se, convalescem, e saram no ermo; bom é, porém, que não venham aqui ungir os braços para sairem de novo à arena. O proveitoso, o melhor, o sobre-excelente é que os _luctadores invenciveis da fortuna não façam timbre em se degladiarem com ela, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe eu se tem horas de jantar acostumadas. _

Este remate, posto com um riso de graça, fez-me rir também. Como eu respondesse consoante mandava a cortesia, fomos para a mesa, que era próxima da cozinha, e ficava longe, em outro pequeno lanço habitável da casa, para onde passamos, sobre um passadiço de tabões, fincados nas soleiras de duas portas.

......................... No hás visto mas?... Vuelve à la pradera, hijo mio, porque hai en ela cosas mas dignas de tu atención......................... Dios estaba en médio de los campos. No lé hás visto? A él debe la pradera su beleza; las miradas de Dios animabam la claridad del sol.......................... _No hás oido mas que él murmullo de los arroios, et gorgéo de las aves, i el viento que mécia las ramas de los árboles? Vuelvebe al bosque, hijo mio, porque tus oidos percibiran cosas mucho mas grandes_...

ILDEFONSO MIRANDA (Himnos de la primera edad.)

Passaram três dias sem me eu lembrar que era delicadeza, se não dever, despedir-me do meu gasalhoso amigo: tão dulcificante me era aquele remançoso descanso do corpo e sossego de espirito.

A minha vida aligeirava-se a conversar, meditar, e ler, toda instructiva e de proveito, sendo que poucas horas bastam à alma para se nutrir em colmeia copiosa, como era aquela, do mel que ao depois edulçora os azedumes de largos anos.

Tinha o padre umas horas da manhã, e sobre tarde, em que evitava delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira tarde, estava eu à beira da lagoa onde se rebanhavam os patos, e, por entre as frondes do arvoredo, vi o padre à janela do seu quarto, com o rosto entre as mãos, e os cotovelos apoiados no peitoril, e os olhos imoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa. Naturalmente, e não sei se até curiosamente, relancei a vista para a casa, e vi, como sempre, as janelas hermeticamente fechadas. Estive neste reparo até ao toque das Ave Marias. Padre Álvaro levou então ambas as mãos à cabeça, tirou o solidéo, e afastou-se da janela, já com as mãos erguidas.

À hora do chá, a mais taciturna e recolhida do padre, disse-lhe eu:

— Vossa senhoria de certo não reparou ainda no meu apêgo às suas ruínas; creio que não, porque é bom, e sente o bem que me vê gozar. Não obstante eu devia já ter dado por concluída a minha visita, sem contudo julgar esgotada a hospedeira bondade do meu presado amigo. Não me culpe a mim, condemne a sua afetuosa convivência, e o mundo também que me não dá outro amigo como o Sr.. padre Álvaro...

— Onde vai dar consigo nesse arrazoado? — atalhou.

— Era o prologo da despedida e do agradecimento que eu estava fazendo.

— Pois fique no prologo; e se, de força, quiser entrar no discurso, reduza-o à simples confissão de que está aborrecido, e quer ir espairecer nos «cafés» de Lisboa.

— Seria a primeira injustiça que o meu amigo fizesse, pensando tal de mim.

— Então, deixe-se estar mais oito ou quinze dias. Se quiser ir à caça, eu arranjo-lhe os petrechos; se quiser dar passeios mais largos, também lhe arranjo cavalgadura; se tem precisão de ir a Lisboa, vá e volte; se está bem e quer estar assim, não se despeça nem me agradeça, que o mesmo é lembrar-me que sou eu o obrigado.

O venerável velho pusera-me então a mão no ombro, e eu respondi beijando-lh'a. Chorei, e sei dar a explicação destas lágrimas. Lembrou-me meu pai, cuja face eu beijei no esquife há vinte e sete anos. As últimas palavras amoráveis de um homem de cabelos brancos, meu pai mas dissera. Depois, não ouvi outras, senão as do sacerdote. Aí está a razão das lágrimas, que o santo homem viu, e me galardoou com um abraço.

No dia seguinte, sahimos pela fresca da manhã, e subimos uma ladeira de olivedos, que no topo se espalmava em hervecida chã, assombrada de grandes árvores. Em nosso alcance, saiu a Sr.. a Eufemia com o almoço, e retirou com ordem de nos trazer ali o jantar.

daquela eminencia iam os olhos a muito longe buscar a suave melancolia que levanta o espirito. Enlevavam as lezírias com as suas manadas de gado, os grupos alvejantes de casas, as granjas dispersas na esplainada, os pomares de laranja, os olivedos, e o rumorejo confuso e indistincto das aves, dos regatos, do brando ramalhar das árvores, e da toada de vozes distantes nas veigas, que se espraiavam ao sopé e em redor do nosso outeirinho. Estavam entre as árvores umas pedras musgosas convidativas de repouso. O acaso as talhára à feição de escabelo com seus encostos. O padre sentou-se na menos cômoda, e disse-me:

— Almocemos aqui. O meu mais longo passeio, há vinte anos, é até este ponto do mapá-múndi. São estas as belezas únicas, que eu mostro aos meus raros hospedes. Esse álamo, a que o senhor encosta o ombro, plantei-o eu em 8 de Junho de 1832. Tem vinte e dois anos.

Reparei em outra árvore próxima, e vi duas iniciais: L. A. , quase illegiveis pela sobreposição da casca.

— E estas letras escreveu-as também o Sr.. padre Álvaro?

— Também.

Obrigava-me a discreto silencio a brevidade da resposta, e o recolhimento visivelmente magoado do padre. Tomei do cabaz as provisões do almoço, e acomodei-as sobre a pedra que melhor se ageitava. Fiz o chá e servi o padre, dizendo chistes, que me ocorreram, tocantes aos cenobitas, moradores das brenhas, estômagos fortalecidos por frutos silvestres e raízes, os quais não sabiam sequer da existência do chá hisson nem do assucar, nem da manteiga de Cork, ignorada até do próprio Teócrito, Columella, e outros amantes da natureza e do leite. Se o leitor não acha sal nestes ditos, o padre também lho não achou. De instante a instante fez-se noite naquele aspecto, um quarto de hora antes claro e aberto ao contentamento interior.

— Que tristeza é essa?! — perguntei.

— A tristeza do homem, que não pode ser anjo — respondeu ele, trabalhando por reprimir as lágrimas.

De maneira dizia ele estas breves respostas, que eu não sabia replicar, nem consolar.

Aqueles minutos do almoço correram assim tristonhos, e terminaram, tirando o padre do fundo do cabaz dois livros: um era o breviário da sua reza, o outro era um romance... Um romance! e, de mais, um romance denominado VOLUPTÉ, Voluptuosidade! isto oferecido pelo homem de Deus, pelo vaso de eleição, pelo santo, cuja mão eu beijei ontem com fervor de um catechumeno inflamado por um raio de graça, que a oração do justo me trouxera do céu! A voluptuosidade de Sainte-Beuve, aqui, neste sitio, ao pé do livro de Job, do rei penitente, dos dictames do Espirito Santo!...

Aceitei o livro, e li, no prefacio, estas linhas:...................... «Entende o editor desta obra que as pessoas nimiamente escrupulosas, acaso espavoridas pelo equivoco titulo que ela tem, pouco perderiam, em verdade, não lendo um escrito cuja moralidade, por mais grave que ser possa, só diz respeito a corações menos puros e menos despreocupados. Ao revez, pelo que toca às pessoas, convidadas justamente pelo titulo que repele as outras, essas, não achando no livro o que desejam, não há que temer o derrancarem-se. »

Fui folheando e salteando os capítulos, e os relanços da obra que mais brevemente podiam ensinar-me o enredo da história. Compreendi-a toda em trinta minutos de leitura. É um homem que amou, e cobriu com a mortalha de levita a mulher que amara e perdera. É a analise minuciosa e pungente de uma paixão; e poderia também ser instructiva a analise, se o espetáculo das agonias de um naufrágio fosse causa a gelar de terror os futuros navegantes e deixar rugir o oceano sozinho com os seus furores.

Fechou o padre o seu livro, e eu continuei a ler.

— Sainte-Beuve escreveu esse livro em forma de carta a um amigo — disse o padre — Se o senhor tivesse em mim um amigo, capaz de escrever com profundeza e graça, e me pedisse conselhos, eu mais quisera ter-lhe escrito este romance que o «Manual de Epicteto» ou a «Imitação de Cristo. » Aí verá o filosofo, o sábio, o mundano, o penitente, o cristão, e o mártir, se quiser. E sobre ser tudo isto, é ainda mais, é o homem. Quão raros são os livros que bem definem o homem, a não ser o de Job: Homo natus de muliere..., repletus multis miseriis «homem, nascido da mulher, acervo de misérias sem conto. »

— Poderei fazer uma pergunta, sem preâmbulos, que ma desculpem? — atalhei eu.

— Porque não? faça.

— Entre o senhor padre Álvaro Teixeira, e este homem que veio cingir os rins num claustro das margens do Tejo, há uma dor comum, não há?

— Há uma dor igual, um mesmo calvário, — perdoe-me a profanidade — mas as veredas muito diferentes.

Após o silencio de alguns segundos, que eu não ousei quebrar com alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflamada, com a luz dos olhos estranhamente viva, disse num impeto de espirito:

— Hei de mostrar-lhe algumas datas que tenho assentadas num livro. Não é auto-biografia, nem romance simulado com supostos nomes, nem «Memorias» ambiciosas de futura vulgaridade. São cautérios aplicados à chaga insanável... Há de ler os meus papeis.

— Mereço eu tanto?! — disse, sentindo-me vaidoso da confiança, e lisonjeado na minha cubiçosa curiosidade.

— A leitura do meu livro não paga merecimentos de quem quer que seja, nem sequer é uma lição nem um bom exemplo: é a parte de um dia, menos fastidioso, que eu dou ao meu hospede. Lerá esta tarde.

Esteve-se em meditação o padre, sem desfitar os olhos do álamo e das letras, e continuou depois deste teor:

— Se a não tivesse escrito, contava-lhe a minha vida. Tinha precisão deste desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus silêncios para ma ouvir. Repito-a a cada aurora, que se aclara, não já para mim, que só espero vê-la despontar além da sepultura. É natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor. Esse mesmo desejo tenho submetido ao jugo de todos os outros. Nunca falei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a ver o homem que é, em sua mesma obscuridade, um segredo estimulante de ociosos. A parte essencial da minha vida sabem-na muitos, e eu não sei quantos romances por aí correm à conta dos meus sofrimentos. Sei que os velhos da minha criação me chamam «romântico» ou «tolo» que monta o mesmo. desses alguns não quiseram envelhecer ainda, e a cada passo os encontro em Lisboa, como os lá deixei há vinte anos, gentis, perfumados, galãs, viciosos, e salvando-se da irrisão com o pouco cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo vicio, e de crer é que me julguem por si, ao verem-me assim encanecido. Haverá algum que me leia no coração e desculpe das injustiças dos outros; esse, porém, não me perdoa o feio em vez em que eu espontaneamente voltei uma vida, que principiára mostrando uma face agradável, e esperançosa de todos os bens que se tomam em conta de melhores neste mundo. E assim é que tenho vivido e morrido só comigo, e afeiçoado aos que me lastimam e aos que me escarnecem. Uns e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que eles medraram e se acreditaram, sou e devo ser aquilo que de mim pensam: um exquisito, que se goza das suas singularidades; ou um mártir excruciado por sua infeliz e dissociável imaginação. Hipócrita é de presumir que me não taxem, porque a hipocrisia tem neste mundo a sua ganancia, e eles bem sabem que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem sombras de defesa própria, não tem, meu amigo?

— De defesa, não me parece, senhor padre Álvaro! — respondi — Quem é que o acusa? Escarnecer ou lastimar não é acusação. O que eu entendo das palavras de vossa senhoria é que perdoa aos baixos espíritos, que se querem levantar para avalial-o, e resvalam à lama.

— Não tanto — replicou sem embiocar a caridade — Sejamos generosos e até piedosos com as almas remissas e afrouxadas na trabalhosa fabrica das posições, das honrarias, dos bens da fortuna, da imortalidade e da perpetuidade dos seus nomes na riqueza e gloria herdada à sua descendência. Entre estes, que muito é ser eu olhado como inútil, como o menos previdente dos três a quem o Senhor distribuiu os talentos? O sacerdócio é havido como ofício, e o sacerdote que não cura sequer de agenciar uma murça, ou uma abbadia rendosa, é um inhabil, que retrocedeu pela estrada obscura ao tempo escuro da religião. Que há de dizer a gente iluminada, segundo o tempo, de um homem, que foi abastado, que se fez padre antes de ser pobre, e que empobreceu, e não cuidou de voltar a si com artes infalíveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer escassamente soltou uma palavra de queixume contra os ingratos?

— Deve dizer — respondi comovido — que homem, que tal fez, é um dos escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie humana.

— A especie humana não dá fé de glorias tão baratas, meu amigo. Eu tive alguns anos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois saiba que se a mim me perguntassem então o que eram glorias da especie humana, eu apontaria César, Alexandre, João de Castro, Colombo, Vasco da Gama, Camões, e os outros que escreveram para sempre os seus nomes no padrão de um mundo novo descoberto, na página de um livro, ou na lamina de uma espada. Se me lá fossem dizer que aqui nos «Olivais» vivia um padre, que nem sequer escrevera os sermões de Vieira, ou as «Orações fúnebres» de Bossuet, eu de certo responderia com um sorriso desdenhoso à admiração de quem me viesse falar em tão pecãs glorias da especie humana.

A conversação prolongou-se neste sentido até horas de jantar.

Jantamos.

Não quero que o leitor diga que ninguém sabe o que comem e quando comem os heróis dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com vulgar semceremonia, não só os heróis de más manhas, mas ainda os santos, como o padre Álvaro.

Ibit homo in domam œternitatis suœ Irá o homem para a casa da sua eternidade.

ECCLES. — 12. 5.

Na tarde daquele dia chamou-me o padre para junto de si, diante da mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e tirou um grosso volume de papel almaço, encadernado em papelão, sem alguma outra cobertura.

— Aí tem — disse entregando-me o livro — Leia, como quem lê um romance de história autêntica, escrito por pulso não vezado a escrever novelas. Aí vai o coração do seu amigo, a cinza das flores de vinte primaveras, flores que se abriam já queimadas, porque o bolbo de cada uma rebentava já doentio da venenosa rega das lágrimas.

Lembra-me que recebi das mãos do sacerdote o livro com o respeito do acolito ao receber o evangelho das mãos do celebrante. Pode ser que na minha reverencia houvesse menos cerimônia de ritual e mais religiosa devoção.

Recolhi-me ao meu quarto, e juro que me tremia a mão, quando abri o livro. Na primeira página, li este dictame de Isaías:

Ingredere in petram, et abscondere fosso humo

Quer dizer:

ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA dessa COVA.

E mais abaixo o verso do psalmo 117:

Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini.

Pode assim trasladar-se em vulgar:

NÃO MORREREI; TEREI VIDA PARA NARRAR AS OBRAS DO SENHOR.

A forma da narrativa é em divisões de anos, meses e dias. Alguns capítulos estão incompletos, e destes vi uns poucos suspensos em conjuncções, ou numa virgula. O dizer é singelo, familiar, mas correcto e sempre puro na linguagem. Rara é a página com emenda ou entrelinha. De ver é que falava o coração, e que as suas primeiras palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento.

Na primeira tarde poucas páginas li: tão detidamente as ponderava e relia. Entrei por noite alta com a leitura, e apaguei a luz, já quando a do sol me dispensava da outra.

Conhecia já Álvaro Teixeira de Macedo desde os dezesseis até aos seus vinte e sete anos. Isto me bastava para eu não poder sujeitar à modéstia do levita os raptos da minha admiração, que melhor se entendera por idolatria.

O escrito dispensava os comentários do autor. Não pedi elucidação, nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como história escrita de hora a hora, entre lagrima e lagrima, com o coração na humanidade, e a consciência em Deus.

Ao oitavo dia, fechei o manuscrito, e fui restituil-o ao padre. Não cheguei a dobrar o joelho, quando me ele tomava das mãos o livro; mas o coração pesava-me como para cair e humilhar-se aos pés daquele justo. Conheceu-o ele, e abriu-me os braços, e apertou-me ao seio, balbuciando comovido do meu embaraço:

— Tem o meu segredo: não abracei ainda outro seio que o tivesse. Diga-me agora: que aproveitou?

— Aprendi a conhecer a majestade do último ser da criação. Assim, sei agora, o que não pudera ainda perceber na sagrada escritura: «que Deus fizera o homem à sua imagem e semelhança. »

— E viu que o barro do homem se recoze ao fogo da desgraça...

— E dessa depuração ao fogo lento, vi eu também que saía o anjo...

— Pouco aprendeu... — replicou o padre — Eu queria mais que tudo isso... Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado. Não lhe posso dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei, se mo pede, e mesmo se mo não pede, mais encarecido conselho. Paciência, é a arma, é o triunfo, é a porção divina do homem, é a bem-aventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam, e encontram os de Deus. Padecer é a quebra, a falha irremediável e comum; resignar-se é a perfeição. A virtude, que todos alcançam, se a querem, é dar largo e por igual a amigos e inimigos, uns o seu ouro, outros as suas luzes, outros o seu braço, e o seu descanso. A virtude dos raros, a máxima virtude, a mais edificativa, é sofrer sem amaldiçoar, no asco da pobreza, no desamparo do descredito, na ignomínia de não ter um amigo. Isto ninguém o vê, ninguém o admira, ninguém o vulga aos respeitos públicos. E que vai em isso? Basta-me Deus. Não posso duvidar que ele me está vendo. Sinto-o no repouso da minha consciência. O coração está passado de dores, o espirito conturba-se de angustias, a noite não acaba no termo de vinte anos. Assim é; mas que importa. Basta que a consciência me diga: «não devias padecer, porque és bom. » Quando o homem que sofré se diz isto a si, é Deus que lho diz. Esta é a altissima rocha que vê em baixo as tormentas a fremir-lhe na base. Este é o berço providencial do menino, lançado às ondas, e mandado buscar por Deus, para contar ao mundo os seus primeiros dias. Esta é a arca do justo, a caverna dos leões inofensivos, o post tênebras spero lucem de Job. [1]

Vá o meu amigo escutando com boa sombra estes «Exercícios espirituais» com que eu principio a ensaiar a sua paciência. Isto lhe há de acontecer mais vezes, porque é vêzo padresco entrar de vontade pelas homilias, quando o auditório lhe não dá campo para prégar, e até para passear desassombradamente.

Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ela uma carta chegada de Lisboa. Padre Álvaro enfiou ao lêl-a; mas a palidez habitual voltou, passados instantes. A perseverante desgraça já lhe havia dado pulso de ferro para sofrear os ímpetos do sangue.

— Vou hoje de tarde a Lisboa — me disse ele, plácido e triste — Se quer ficar, e esperar, meu amigo, cá fica a boa Eufemia para cuidar de si. Se quiser vir também, e lá ficar, fique; e, se prefere tornar para as ruínas, mais contente voltarei.

Fui com o padre para Lisboa. Sem ele, a solidão dos «Olivais» ser-me-ia dolorosa.

Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava ele a ponto de sair para o convento de religiosas de Santa Marta. Opportunamente saberá o leitor o que ele ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa Marta.

Vinte dias, ou mais seria, acompanhei padre Álvaro Teixeira até ao pátio do convento, e dali a sua casa. neste breve termo, o semblante do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza cadavéricas. As últimas idas ao mosteiro fêl-as de sege, e aí mesmo tinha sincopes que o extenuavam a ponto de uma vez o levarmos em braços da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de venerável aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que esta, senhora estava soluçando e limpando as lágrimas, quando entramos na grade.

Saí logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas ainda ouvi estas palavras da religiosa: «Acabaram-se os seus trabalhos. »

Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me disse que o senhor padre Álvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu braço para se ele encostar. Maravilhei-me da reanimação em que o achei; mas conheci logo que era excitação de febre. Nada lhe ouvi durante o transito. Levava, como da primeira vez que o vi, as mãos encruzadas sobre o seio, e as pálpebras descidas como se quisesse esconder de mim as lágrimas, que eu bem via estancadas nas rugas, à semelhança das que regelam na face de um cadáver.

E eu, que não podia enganar-me no motivo daquela aflição, tão absorvido ia, e tamanha parte quinhoava nela, que não tive uma palavra só de lenitivo, que lhe dissesse!

Parou a sege.

Saltei para amparar o padre na descida.

— Tenha a bondade, me disse ele, sem mover-se, de subir ao terceiro andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciência de vir aqui falar-me.

Subi, e desceu comigo o dono da casa, ao qual o padre disse o seguinte:

— Meu amigo, não tenho mais que fazer em Lisboa. Vou para os «Olivais» agora mesmo, se o boleeiro quiser fazer a jornada de noite. Escuso dizer-lhe que está com Deus a pobre senhora. Agora é erguermos as mãos em ação de graças aqueles que a conhecemos. Eu cá me vou avisinhando das minhas ruínas como o reptil, ferido de morte, da conhecida caverna, onde se quer sozinho com as suas agonias. Dê-me a sua mão de amigo, e adeus.

Voltou-se para mim, e disse-me:

— Quando eu lhe escrever, a pedir a sua companhia, vá ter comigo, se o poder fazer sem custo.

— Pois não me quer consigo agora?! — atalhei.

— Não, por ora não. Estes primeiros dias não podem ser repartidos nem consolados por ninguém.

Beijei-lhe a mão, que transpirava um suor rescaldado.

— Queira perguntar ao boleeiro se me leva aos «Olivais» — ajuntou ele. Levei-lhe a resposta afirmativa, e a sege partiu, a passo rápido.

Fiquei conversando com o amigo do padre.

— Não o tornaremos a ver — disse-me ele consternado — Padre Álvaro não vive muitos dias; o senhor verá. Eu de antes, quando o via desconfortado e com sinais de pouca vida, dizia-lhe: — «lembre-se daquela infeliz, que não tem mais ninguém no mundo. » Parece que isto lhe dava alma nova! Agora, não há nada que o prenda à vida, senão o sofrimento...

— Mas eu cuido — interrompi — que o padre Álvaro há de achar sempre na sua vida ocasiões de ser útil a muitos outros desgraçados, embora se ofereçam com títulos menos valiosos à sua beneficência. Enquanto houver um homem que lhe peça conselhos, esmolas, ou intercessão com Deus, o padre, qual ele é, não pode julgar terminada a sua missão neste mundo.

— Essas conjecturas são conceituosas, e de bom juízo — redarguiu o sujeito — mas os negócios do coração alheio correm de modo muito diferente das nossas razões, pensadas, a espirito sossegado, embora nos doam os infortúnios do nosso amigo.

E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso amigo.

O portador não nos trouxe resposta à carta. A Sr.. a Eufemia hesitara em levar-lh'a à câmara, onde se ele fechara; fora por fim; mas voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando pudesse.

Decorrera uma semana em esperanças, até que um dia o amigo do padre me procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe que o seu amo estava em perigo de vida. dali partimos no mesmo ponto para Santa Apolonia, e de lá para os «Olivais».

Estava o sacerdote sentado numa poltrona, junto à janela que olhava para o palacete fronteiro do negociante de Lisboa. Deu-nos as mãos, que cada um de nós aproximou dos lábios. Respondeu a esta reverencia com um sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:

— O martírio, que se alcança com as paixões da terra, tem também a sua santificação. Os meus amigos igualam-me nos seus respeitos a um S. Francisco de Sales ou Vicente de Paula...

— Esse sorriso abre-se em luz de esperança para os seus amigos, senhor padre Álvaro — disse-lhe eu.

— E eu me congratulo na esperança dos meus bons amigos. Também vejo a luz, que ilumina e abraza... Ardere et lúcere... [2] Padeci muito, e esperei muito destas horas finais. Misérias e opressões de uma longa vida aqui se acabam: Miser factus sim ego, et curvatus sum usque ad finem[3]. Curvado o corpo, sim, que o desconcerto total desta frágil machina é a repelões de dor; mas a alma folga, e sorri no extremo dia: Ridebit in die novissimo[4].

Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo veemente. O meu companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juízo, deviam refrigerar o afogo febril do enfermo. Eu não tinha alguma fé nas consolações dele, e menos ainda nas minhas. Assisti silencioso à perdoável verbosidade de um, e ao recolhimento ofegante do outro.

Falou-se em ir buscar médicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no amigo, que propozera a consulta.

— Médicos!... — murmurou ele — O caixão... Mortalha cá está esta...

Dizia, tomando em ambas as mãos convulsas as abas da batina. Ao fim da tarde, pedimos que se recolhesse à cama, e ele respondeu, fitando os olhos no céu:

— daqui vejo melhor a pátria; mas a hora não chegou ainda. Já era muito esperar... O Senhor é piedoso com os que não desesperam, e com os pacientes. Espero... e, posto que padeci muito, não direi como o néscio: «minha alma descança, que possues muitos bens»[5]. Eu espero tudo da misericórdia Divina.

Prosseguiu falando a intervalos, e até alta noite não consentiu que fechassemos a janela.

Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente. Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei esperanças, contra o parecer do meu companheiro de vigília.

Ao repontar da aurora, o padre olhou em nós ambos, e disse em tom compadecido:

— Caro tributo paga a amizade!... Vão deitar-se, meus amigos. Estou melhor. Digam à minha criada que vá chamar o parocho.

Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, de onde saí, quando entrou o prior.

Durante o dia conheci que as minhas esperanças eram desmentidas por desfalecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto a cada acidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto o pungiam aqueles gritos. Pedi à criada que reprimisse o choro, e ela respondeu-me:

— O senhor talvez não saiba que eu criei aos meus peitos esse santo que está a morrer!... — E lançou-se de joelhos a orar em voz alta. Curvei-me diante desta dor, e adivinhei as angustias daquela mulher através dos últimos vinte anos.

Ao fim da tarde, foi ungido o moribundo. Quizemos então quase de força passal-o à cama: não o conseguimos.

— A morte é suave em toda a parte. Aqui adormecerei. Dulcis est somnus soperanti[6] — disse ele.

E, fitando no azul do céu os olhos embaciados, continuou:

— O céu da minha mocidade! Assim era em aquelas noites de tanto e tão puro amor! A serenidade da natureza, e as agonias da criatura! Só o homem se dóe do homem, e Deus de todos. As creações sublimes do universo olham todas para o seu Criador, e não sabem como morre o reptil, nem quando despega da árvore a folha seca.

Vinham ditas com cançasso e violência estas palavras. Pedimos-lhe que não falasse, e ele apoiou a barba no seio, e cruzou as mãos, murmurando vozes imperceptiveis.

As onze horas da noite, estremeceu o agonizante na cadeira, e estirou os braços convulsivos. Pensei que era o extremo estertor. Volveu, porém, à sua quietação, e viu-me de joelhos, com as mãos apoiadas nos seus joelhos. Pôs-me no rosto a mão, e disse: — Beati qui lugent[7].

Soaram as doze horas num relógio de parede. O padre parecia contal-as, por um movimento nervoso dos lábios. Tinha caído a última pancada, e ele disse:

— Media autem nocte clamor factus est: ecce sponsus venit[8].

Ergueu as mãos em oração, inclinou a cabeça para o espaldar da cadeira, e suspirou. Cuidei que ele ia adormecer, quando vi calarem-lhe lentamente as mãos por sobre os braços da cadeira.

Era aquele glacial dormir, que espera novo dia anunciado pelo anjo do último juízo.

Ajoelhei de novo, e disse:

— Santo! pede a Deus por mim, e por todos os infelizes.

[Nota 1: Espero a luz, depois das trevas. Cap. VII, v. 12.]

[Nota 2: S. João — 5. 35.]

[Nota 3: Psal. 37 — 7.]

[Nota 4: L. dos Prov. Cap. 31. 25.]

[Nota 5: S. Lucas — 12. 19.]

[Nota 6: É suave o dormir a quem trabalhou.]

[Nota 7: Felizes os que choram.]

[Nota 8: Ouviu-se à meia noite este grande clamor: é chegado o esposo. S. Matheus. 25. 6.]

FIM DA INTRODUCÇÃO.

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