Capítulo XV
Lata porta... quœ ducit ad perditionem. A larga porta que dá passagem para a perdição.
S. MATT. — 7. 13.
A légua e meia distante dos Olivais, morava, em antiquissimo, solar, o morgado de Porto-Alvo, casado com sua sobrinha, filha segunda de uma nobre casa de Alemquer.
Era mui gentil de sua pessoa a dama, e gozava de preclara fama de virtudes, até ao momento em que Miguel de Sotto-Maior frequentou a família, muito aparentada com sua mulher.
Se a isenção da morgada do Porto-Alvo degenerou, empeçonhada pelas seducções do poeta de Vila do Conde, não serei eu quem o afirme; porém, não terei de que dar contas a Deus, se disser que a sua fama corria desluzida e mareada à conta dele. Aqueles passeios nocturnos, nos arrabaldes de Porto-Alvo, não eram certamente o que Sotto-Maior dizia serem a sua mulher: exigências do sofrimento; exigências de intenção ruim é que eles eram.
Leonor, avisada das suspeitas publicas, não teve mão do seu ciume ou da sua vaidade, que ambas as coisas correm com o mesmo nome. Invectivou a deslealdade de seu marido, e o impudor de sua prima de Porto-Alvo. Sotto-Maior recebeu com desagrado os ciumes de sua esposa, e despresou-lh'os a ponto de amiudar os passeios a horas mortas. Aguilhoada pela raiva congenial da sua índole, Leonor escreveu uma carta anonima ao morgado, prevenindo-o da desonra, que lhe rodeava o palácio de noite, e teria astucia de o visitar na câmara nupcial.
O velho fidalgo espantou-se da infamação. Nunca sua mulher lhe incutira suspeitas, nem de si arguira leveza de espirito. Calou o aviso como prudente, e sobreroldou as avenidas da sua casa como acautelado.
Era uma das seguintes noites disseram-lhe os vigias que, a distancia de cem passos, parara um cavaleiro, e se estivera quieto contemplando as janelas do palácio; e acrescentaram que, por volta de uma hora, aparecera atrás da vidraça uma luz, que subitamente se sumira depois de alguns segundos.
Eu de mim não tiro conclusões algumas desta luz; mas o morgado tirou-as, e terríveis. Informou-se da janela em que os vigias avistaram a luz, e pôs ponto nas suas indagações. Duas noites passaram sem descobrimento. À terceira, por volta de uma hora, ouviu o velho sua mulher tossir no leito, paredes meias com o seu, e ao mesmo tempo um sinal convencionado e mui subtil debaixo da sua janela. Ergueu-se de golpe, passou ao quarto de sua mulher, e viu-a na cama; atravessou um corredor, e passou, pé ante pé, à sala, cuja era a janela de onde fora dado o sinal. Quando entrava na sala, viu uma criada com um castiçal, junta à vidraça. Não fez o mais leve rumor, retrocedeu, e entrou no quarto da criada, quando ela entrava. Em presença de um punhal, estrangulou-se na garganta da moça um pávido grito.
— Morres, se gritas! — disse o morgado com a postura e frase de Tarquínio, que não quadra bem aqui, já porque a moça era solteira, já porque, sendo casada, não tinha jeito algum para Lucrécia — Morres — continuou ele com voz soturna — se me não dizes o que significa o sinal que tens ido dar à janela com a luz!
A criada respondeu, e o morgado retirou-se ao seu quarto, tranquilo como se houvesse descoberto que sua esposa era uma das virtudes teologais em pessoa, e pessoa que fingia dormir profundamente.
Decorreram três noites depois desta.
Foram dias e noites de suplicio para Leonor. A consciência gritava-lhe. Aquela carta anonima podia ser causa à morte de seu marido. Mas o orgulho, e o coração, talvez, diziam-lhe também que ela não merecia uma infidelidade, e os desprezos que estava sofrendo, por não poder enfrear o seu ciume.
Na terceira noite, disse ela a Miguel de Sotto-Maior, com caricia:
— Não vás, meu amigo, não tornes a Porto-Alvo.
— E quem te disse que eu vou a Porto-Alvo?! — respondeu carregando o sobr'olho.
— Diz-mo o coração...
— O coração!... — redarguiu sorrindo o marido — O que é o coração!... O coração não diz nada. O coração é um vaso onde passa o sangue. O coração, que não é isto e simplesmente isto, é um tolo. Eu não vou a Porto-Alvo. Vou ao Poço do Bispo onde me esperam alguns amigos para conjurarmos na derrota do ministério, e na morte de Agostinho José Freire.
— Mentes, Miguel! — exclamou Leonor.
— Agradeço a amabilidade, e vou, porque não posso deixar de ir.
— Miguel! — tornou ela com veemência e excitada a lágrimas — não vás... Olha que o tio morgado teve aviso, e ele é mau, e tu ficas um dia morto.
— Quem o avisou?! — replicou, risonho, o marido — Serias tu? Capaz serias da calúnia!... Como sabes que ele foi avisado?!
— Sei-o... Não vás, peço-t'o com as mãos erguidas!... — e chegou a dobrar os joelhos diante dele.
— Como queres tu que eu deixe de ir a um compromisso de honra, Leonor? O meu destino é o Poço do Bispo, já to disse.
— Juras-me que não vais a Porto-Alvo?
— Juro, dizia Molière.
— Mas lembra-te que Molière caiu na cena moribundo, quando disse juro.
Achou Miguel de Sotto-Maior engraçada a observação, e despediu-se de Leonor, beijando-a na testa.
Cavalgou, guiou o cavalo na direção do Poço do Bispo, e, a grande distancia, retrocedeu por um atalho conhecido até sair à estrada de Porto-Alvo.
Parou Miguel a distancia de meia légua, e refletiu. «Se o morgado tivesse sido avisado, já eu teria a esta hora noticia da menor alteração. É verdade que o sinal em duas noites alguma coisa pode significar; mas também é certo que o mesmo caso já se deu, sem significação alguma. Quem inventou o aviso foi o ciume de minha mulher. » Depois de tão seguro remate, Sotto-Maior deu de esporas ao cavalo, e venceu o espaço em poucos minutos.
Antes dele avistar o palácio de Porto-Alvo, é de bom historiador dizer que o morgado, na madrugada do dia seguinte àquela noite do punhal, ergueu-se, tornou ao quarto da criada, fechou a porta, e guardou a chave. Voltando, fechou também a porta de sua mulher, e não respondeu ao modo de espanto com que a sobrinha lhe perguntou a causa de tal novidade. As comidas eram ministradas a uma e outra, às suas horas, por um homem estranho de má catadura, que não respondia a pergunta alguma. Esta situação durou dois dias, e durava ainda quando Miguel de Sotto-Maior fazia galopar o ginete por uma quebrada de cujo topo se avistava o sinal.
Estacára o cavalo na chã, onde o brioso animal já sabia que descançava. Miguel afagava-lhe o pescoço, e dobrava-se sobre os ilhais a examinar-lhe os violentos arquejos, quando, ao erguer a cabeça para examinar a um raio da lua o seu relógio, dois tiros simultâneos lhe vararam o peito. O cavalo atirou-se em galões impetuosos ribanceira abaixo, com o cavaleiro agarrado às crinas. A poucos passos, as mãos do cadáver abriram-se, o corpo resvalou ao chão, mas foi de rojo, largo espaço, suspenso num dos estribos.
Às três horas da madrugada, os criados da casa dos Olivais sentiram o estrepito das ferraduras nas lages do pátio, e saiu o cavalariço a amantar e recolher, como de costume, o cavalo. Como não visse o amo, cuidou que ele havia já subido, como de outras vezes, deixando o cavalo com as rédeas ao pescoço; mas, relanceando casualmente os olhos sobre o estribo esquerdo, viu o ensanguentado. Subiu as escadarias, bateu à porta, e disse para dentro que acontecera uma grande desgraça. Leonor saltou do leito, e desceu ao pátio a examinar o sangue do estribo. Fugiu, como seguida por um espectro; entrou no seu quarto com os olhos esgazeados da demência, e soltou estas pavorosas palavras:
— Fui eu que o matei!
dali em diante, o que ela dizia eram palavras sem nexo, e blasfêmias, acompanhadas de medonhos trejeitos.
Saíram os criados, uns na direção do Poço do Bispo, outros na estrada de Porto-Alvo, por alvitre de um que sabia os segredos de seu amo.
Os segundos, a três quartos de légua, ao voltar de uma charneca para um atalho pedregoso, acharam o cadáver de Miguel de Sotto-Maior. A maceração e retalhado do rosto era tal, que escassamente lho reconheceram. Camisa e colete cheiravam ainda a queimados: os tiros tão à queima-roupa tinham sido apontados, que as mesmas buchas se lhe pegaram ao sangue empastado do peito.
Volveu um dos criados a buscar a carruagem, que devia transportal-o para casa. Leonor não atinava a dar ordem alguma para o enterro de seu marido. A noticia levada a Lisboa, onde então estava Sebastião de Brito, chamou aos Olivais algumas famílias, a quem as desventuras de Leonor tinham restituido a antiga estima. Curaram da sepultura, e a justiça dos seus deveres. Foi a justiça ao local onde estava o morto, e lavrou o auto. Prosseguiu na devassa; mas era tudo escuro e indecifrável. Entre os parentes da casa, que assistiram ao funeral, estava o morgado de Porto-Alvo, de casaca preta e aspecto lagrimoso. Leonor, ao vê-lo, ergueu-se de golpe, apontou-o de perto, e exclamou:
— Foi este o assassino de meu marido.
O morgado abriu a boca e os olhos, cruzou os braços, circumvagou a vista por todos, e perguntou:
— A infeliz acho que endoudeceu?... Pobre senhora!...
Os circunstantes confirmaram a suspeita do morgado, e lastimaram-a também.
— Por que não está aqui a mulher que matou meu marido? Onde está a devassa, que lhe quero gravar na testa um ferrete com sangue?
Estas vociferações augmentavam as probabilidades da demência.
— Agora diz que foi uma mulher que o matou!... — dizia o morgado — Não há dúvida! está louca a infeliz senhora!
— Não estou louca, não, celerado! — bradou Leonor, contorcendo-se nos braços das amigas — Mataste-o tu, cobardemente, feroz vilão! Mataste-o e cuidas que a boca do morto não há de revelar a infâmia de tua...
neste ponto, os lábios de Leonor foram cerrados pelos dedos de mão, que não era de alguma das senhoras, que a estavam a custo segurando. Leonor olhou de revez para quem lhe fazia a violência, e viu Maria da Gloria.
O mesmo foi vê-la, e lançar-se-lhe aos braços, exclamando:
— Ó minha tia, eu sou muito desgraçada!... Abra-me por piedade o seu coração, e esconda-me ao espectro do meu remorso...
Maria da Gloria abraçou-a com transporte, e disse às senhoras e cavalheiros:
— Eu entendo que não devemos ter minha sobrinha exposta a estes acessos da sua doente imaginação. Consintam que eu me recolha com ela ao seu quarto, e haja aí uma alma piedosa, que nos dispense de cuidarmos do enterro desse infeliz. Vamos, Leonor.