Capítulo XIV O Romance de um Homem Rico · Capítulo 17 de 23
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Capítulo XIV

... Que direz vous de l'indigence?

MONTAIGNE (Essais.)

Levantado o cerco de Lisboa, Miguel de Sotto-Maior foi visitar as herdades de seu sogro, e soube dos caseiros e feitores que os bens livres não valiam as hipotecas, e os vinculados não se remiriam com os rendimentos de cinquenta anos, se os credores chamassem o morgado a juízo. Miguel de Sotto-Maior disse a sua mulher: «olha que não tens nada; teu pai não tem um tecto que o cubra se os credores lho não quiserem dar por caridade. »

Leonor doeu-se do modo seco destas palavras, e respondeu:

— Meu pai não aceita esmolas de ninguém, nem tuas.

O marido achou bonita a reflexão; mas acrescentou que a verdade era aquela.

Convém saber que os haveres de Miguel de Sotto-Maior em Vila do Conde tinham sido grandemente rebatidos no espaço de dois anos de emigração. Feridos de morte já eles estavam quando o fidalgo foi aos Olivais procurar o balsamo que tão escasso lá era. Os arrendatários da terra e dos foros haviam adiantado as rendas de alguns anos, descontando em elas a perigosa hipótese de morrer o administrador do vinculo, e apossar-se o legitimo sucessor dos bens desonerados.

Isto, vertido à letra, quer dizer que Leonor podia replicar assim ao seu marido: «Olha que não tens nada. Não tens um tecto, que te cubra, se os credores to não quiserem dar por caridade. »

Sotto-Maior fez o que faziam todos os camaradas: pediu um emprego, e ajuizou-se merecedor de tudo o que pedia. Deram-lhe uma prefeitura no Além-Tejo. Breve tempo exerceu o lugar: minguavam-lhe paciência, habilidade, e recursos para sustentar-se dignamente. Tornou para Lisboa, requereu de novo, e foi recebido dos ministros com frieza, e esperado no livro da secretaria.

neste tempo conjuravam os credores na total ruína de Sebastião de Brito. O velho fidalgo abandonava os processos sem contestal-os. Os bens livres foram penhorados, e os de vinculo obrigados pela renda. Ficou um palácio em ruínas desabitado desde o terremoto, os terrenos contíguos, e uma quinta, bens hipotecados a Manoel Teixeira de Macedo, quando o bastardo, solteiro ainda, não cuidava em saldar contas com seu irmão por um enlace matrimonial dos filhos ambos.

Os homens, que parece gozarem-se em coadjuvar a má fortuna empurrando ao abismo os que para lá pedem, não queriam que Sebastião de Brito pudesse deitar-se em tabuas suas: insinuaram Maria da Gloria a senhorear-se do restante dos bens.. Esta, sem ouvir seu filho, respondeu:

— Quem castiga é Deus.

O palacete, onde nascera Leonor, passou ao domínio de um negociante, sob condição de ficarem nele como inquilinos por tempo de três anos os devedores. A mobília conteúda foi também penhorada, e Sebastião de Brito depositário dela.

nestes termos, o espirito de Miguel de Sotto-Maior passou da inquietação ao desespero. Leonor tragava as impaciencias do marido, e enfreava as suas, com medo de irrital-o. O velho morgado deixou a família, e foi para Lisboa viver das sopas de parentes.

Aqui temos face a face estes dois infelizes. Afigura-se-nos que o severo anjo do castigo os está contemplando com formidável silencio. Miguel tem um cavalo, que o leva para longe do semblante amargurado e desbotado de sua mulher. Leonor tem no jardim uns caramanchões, que a escondem a ser observada pelos olhos iracundos de seu marido. No recesso de aqueles caramanchões estão os bancos rústicos em que Álvaro se assentava. Ali à beira do lago está o escabelo de cortiça em que ela ficara sentada, quando Álvaro foi buscar a capa. Por que não creremos na muita dor e muita saudade de aquelas lágrimas, que Leonor está chorando!?

Aí estava sozinha ao entardecer, quando uma sege entrou no pátio.

Leonor admirou-se: já ninguém a visitava de carruagem. A nova criada não conhecia as relações antigas. Disse-lhe que a procurava uma mulher, que não tinha jeito de senhora.

— Isso me quis parecer... — disse Leonor entre si — mas de carruagem!... Alguma nova credora, a quem eu hei de pagar a carruagem...

— O boleeiro traz libré — disse a criada.

— Libré! — murmurou Leonor — Então enganei-me...

Era Eufemia, a ama de leite de Álvaro.

Fitou com espanto a sobrinha de sua ama, e pediu-lhe licença para a abraçar!

— Abraça-me, Eufemia! e deixa-me chorar no teu seio, que não tenho mais ninguém! — disse a soluçar Leonor.

— Está muito infeliz, minha senhora?! — perguntou Eufemia.

— Estou pobre: escusas de perguntar-me mais nada. E minha tia vive feliz?

— Feliz, não! Com aquele filho sempre triste, como há de ela ser feliz!... Pobre menina! Quem a viu e quem a vê! Era tão linda!...

— E achas-me feia, Eufemia?! — perguntou Leonor com um triste sorriso, expressão talvez da vaidade ferida, da vaidade, extremo reducto em que a mulher, que foi bela, ainda afronta a desgraça.

— Feia, não, minha querida senhora... Acho-a mais magrinha, e sem aquelas cores de roman, que pareciam dar saúde à gente... Em fim, é conformar-se com a vontade de Deus, e pedir à Virgem Maria que dê saúde a sua tia, que é uma santa. De mando dela é que eu vim aqui trazer-lhe uma encomenda, e dizer a vossa excelência que, nos fins dos meses, cá venho trazer-lhe outra assim.

Eufemia depositou sobre uma mesa um rolo de dinheiro.

— Dirás a minha boa tia — disse Leonor com as lágrimas estancadas nas pálpebras — que a pobre Leonor aceita a sua esmola, e lha agradece com este pranto que vês.

Eufemia pediu nova licença para abraçal-a, e disse-lhe por último:

— de hora a hora Deus melhora, minha menina. Lembre-se que sua tia padeceu onze anos...

— Minha tia era um anjo de inocência, e eu estou expiando culpas enormes: ela consolava-se com a mesma injustiça, eu sinto que mereço o castigo.

Eufemia deu conta da sua comissão a Maria da Gloria, e retirou-se quando Álvaro entrava.

— Olha que está muito infeliz a pobre Leonor! — disse a mãe.

— Não lho tinha eu dito?! Aceitou?

— Aceitou, e agradeceu com lágrimas.

— Deve de estar muito quebrado aquele gênio pela desgraça! — tornou Álvaro — Aceitou a esmola!... Pobre mulher!... Deve estar mudada também de rosto...

— Diz a Eufemia que muito, e até trajada com pouco asseio.

— Perguntaria por mim?

— Não sei, filho... Eu presumo que não teria força para tanto!... Fiz-te a vontade, Álvaro?

— E a sua vontade, minha mãe, não era socorrer também a infeliz?

— Era, era, meu filho...

— Pois não se esqueça de lhe mandar todos os meses o que a mãe julgar necessário à decência dela.

— Mas tu não pensaste ainda na parte que o marido há de tomar neste socorro?

— Que importa, minha mãe? O nosso fim é melhorar a situação de minha prima, e só o podemos conseguir melhorando a situação de ambos.

— Esperava essa resposta: a tua generosidade, Álvaro, é desinteressada, e nobre. Vejo que não pode nada contigo o ciume...

— Não, minha mãe — disse Álvaro num falso tom de verdade, movimento de feições que não enganaria olhos e ouvidos mais amestrados.

— Assim é que eu entendo a virtude — continuou Maria da Gloria — são estas as joias de puro ouro que trazem do céu o sinal da sua valia. Se te deixasses levar de um calculo, o mesmo seria lançares à balança das culpas estes punhados de ouro, Álvaro. Da antiga Leonor o que resta para ti é a mulher desgraçada, não é assim?

— De certo... Que mais pode restar?!...

— Mais nada... O Senhor te abençoe o coração, e to encha de alegria e de santos estímulos para a caridade, sem lucro de gloria, nem orgulho das boas ações.

Álvaro, logo que pôde estar sozinho com Eufemia, perguntou:

— Minha prima não lhe perguntou por mim?

— Não, meu senhor.

— E Eufemia proferiu o meu nome?

— Sim, senhor, disse-lhe que o menino andava sempre triste... e ela... ficou assim pensativa... e falou em outra coisa.

— Mas ficou pensativa? e viu-lhe lágrimas?

— Ora, se vi!... quando lhe dei o dinheiro, as lágrimas rebentavam-lhe dos olhos como punhos.

— Mas a Eufemia não lhe disse que eu sabia destas coisas de minha mãe?...

— Nada, não disse, porque o menino e a mãezinha assim mo ordenaram.

— Fez bem, e nunca lho diga, e escusa de dizer a minha mãe que lhe fiz estas perguntas.

— Não digo, esteja o meu filho descansado.

— Olhe, Eufemia... Leonor está muito acabada?

— Se está! nem parece ela! lembra-se de aquelas rosas que ela tinha no rosto? Nem sinal de elas! Está muito magrinha, e tem à volta dos olhos umas pisaduras que parecem de tisica...

Álvaro recolheu-se ao seu quarto, e escreveu algumas páginas de uma saudade tão triste que, se a mãe as visse, cuidaria que seu filho amava Leonor.

Aqui vai trasladado um fragmento:

«Que sentes, que recordas tu hoje, ó desventurada, quando a minha imagem te contempla? Perguntarás a ti mesma o que fizeste de tua beleza, e o que serás amanhã aos olhos desse homem que te encravou na fronte os espinhos da coroa, que eu, a vítima das tuas próprias dores, te arrancaria, se pudesse!? Ó Leonor, que suplicio tu mesma escolheste! Por que não foges daí onde estão as flores da nossa infância! Com que alma podes tu olhar aquele lago, aqueles bosques, e aquelas árvores da colina!? Foi o teu demônio que te acorrentou à sepultura onde enterraste o meu pobre coração!?

«Eu não sou mais feliz que tu, Leonor! O tédio da existência é a maior das tribulações. Tu desejas, talvez, a antiga felicidade, e gozas os tormentos da saudade; mas eu desejo morrer, e, a cada rebate do passado, é um novo trago de peçonha, que bebo das tuas mãos. »

Quer-me parecer que há aí expressões indicativas de um sentimento que não é desprezo, nem sequer desamor. Sem medo de errar, afirmo que só a amizade, paixão muito mais entranhada que o amor, poderia exprimir-se assim. A mim me tem acoimado de paradoxal neste meu sentir sobre a amizade: que monta isso? quero-me até ao fim com o paradoxo; e terei sempre em coisa de pouco o amor, que não enraizou na fibra mais nobre do coração: esta, a meu ver, é a que se diz «amizade» e nada se me dá que a língua humana por aí traga a palavra envilecida nos enxovalhos de falsos afetos, com que a civilidade e a conveniência infamam aquele divino dom da alma humana.

Por me não distrahir em dilações impertinentes, irei aos Olivais.

Miguel de Sotto-Maior, recolhendo noite alta do seu passeio, achou Leonor a pé.

— Esperei-te — disse ela — para te contar que minha tia me remeteu este dinheiro, e a promessa de me dar uma mesada. A nossa posição melhora, e o teu espirito, se me não engano, está livre das aflições da desfortuna domestica.

— Sendo assim, de certo!... — disse Sotto-Maior com alegria — Bem sabes que felicidade e pobreza não se compadecem. Quem teve muito e aspirou a mais, por grande que tenha o coração, esmorece ante o aspecto da miséria. Eu espero a independência, quando entrarem no ministério outros homens; e não me pejo de aceitar de tua tia este dinheiro como empréstimo.

— Agora, outra coisa — prosseguiu Leonor — Que fazes tu fora de casa até estas horas, Miguel?

— Que faço!? divago sem destino, fatigo o corpo e alma: são exigências do sofrimento, minha Leonor.

— Pois bem — replicou ela entre irônica e meiga — agora que o sofrimento deve ser menos exigente, vive mais comigo.

— Viverei, filha, e compensar-te-hei dos dissabores que te dei involuntarios.

Houve grande reforma no viver da morgada dos Olivais: cresceram os criados; cuidou-se no asseio da casa; emparelhou-se outro cavalo, com o que existia, para uso da carruagem; sacudiam-se as librés do pó de quatro anos; a mesa era servida por criado de gravata branca; algumas parentas de Lisboa reconheceram de novo os pergaminhos de Leonor; o próprio Sebastião de Brito voltou à casa de seus avós, com os cabelos cada vez mais variegados de cor do barro e azeviche. Trezentos mil reis mensais, entregues no principio de cada mês, davam que farte para satisfazer as necessidades do luxo.

Maria da Gloria disse uma vez ao filho:

— Tua prima não aprendeu nada no infortúnio.

— Por que, minha mãe?

— Não a vês toda embebida em pompas, e visitas, e jantares?

— E será ela feliz?

— Parece que é.

— Pois é esse o fim para que minha mãe lhe dá dos seus sobejos. Desgraçada era ela antes dos seus socorros.

— Mas eu achava acertado que Leonor não gastasse em frivolidades o que recebe de esmola.

— Não digamos esmola, minha mãe: a palavra é humilhante... Leonor é sua sobrinha; e meu pai daria tudo para não ver em miséria aquela família. Deixai-os ser felizes, que, por mais que o sejam, não nos roubam o nosso quinhão de felicidade que é o melhor.

— Que alma a tua, Álvaro! — exclamou Maria da Gloria, abraçando o filho — E de que te serve a ti a tua riqueza!? Tens vinte e três anos, e vives como aos dezoito! Por que não compras um trem novo? Por que não vais aos salões, onde um coração perfeito como o teu faria a maravilha da sociedade? Queres tu viajar que eu vou contigo, filho?

— Não, minha mãe — respondeu Álvaro — Tenho tudo, que mais quero, neste estreito recinto: aqui, minha mãe; ali, os meus livros. As viagens instruem; mas a minha ambição de saber está limitada no que posso aprender lendo e pensando; também distrahem; mas, se há magoas na minha vida, são elas de tal natureza, que o remedial-as seria igual a renovar o coração. Esta obra há de fazê-la o tempo. Não se é feliz em parte alguma, quando se não pode ser entre as relíquias da infância, e os braços de uma mãe como a minha. Continuemos assim a vida, e cuidemos em a dar com menos amarguras aos que sofrem mais que nós.

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