Capítulo II O Romance de um Homem Rico · Capítulo 5 de 23
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Capítulo II

Começa o céu a dilucidar-se.

GOLDSMITH (o vigário de Wakefield.)

Maria da Gloria, depois que leu em tremuras uma carta que recebera do correio de Vila do Conde, correu transportada à cela da sua amiga Cecília, e lançou-se aos braços dela, chorando de alegria.

— Que é, filha? — exclamou a religiosa alvoroçada.

— É a primeira alegria que Deus me dá em onze anos de martírio. Olha, vê esta carta da Eufemia... deixa que eu leio...

E leu Maria uma carta em que a sua criada lhe contava miudamente as conversações, que tivera com o menino, até àquela hora em que o foi achar a contemplar o retrato de sua mãe.

— Oh meu Deus, meu Deus! — clamou a enlevada senhora, ajoelhando ante o oratório de Cecília — Bem haja a vossa mão que até hoje me oprimiu para que eu sentisse o imenso prazer desta noticia! Fallai, meu divino Jesus, falai ao coração de meu filho, e dizei-lhe que sua mãe, se foi culpada, já deliu com lágrimas de sangue as nodoas do coração, para receber dignamente a vossa misericórdia, e o amor de seu filho!

Esta curta e arrobada prece foi seguida do desfalecimento. De crer é que o espirito quebrantado da penitente não tivesse força para vibrar longo tempo abalado pela felicidade. Cecília tomou-a nos braços, e reanimou-a, comunicando-lhe as visões de futuros gozos que a vinham resgatar, pelo amor do filho, e talvez pelo remorso do pai.

Esta nova correu logo os dormitórios, e todas as freiras se alegraram, porque Maria da Gloria era amada de todas, e respeitada das mais escrupulosas por sua resignação e conformidade. Encheu-se de gente o seu quarto, a dar-lhe os parabéns, como se no animo das mais virtuosas senhoras preluzisse o vaticínio de começar dali a desenredar-se a trama que a desgraça urdira à inocência da reclusa, nos melhores anos de sua vida.

Passou a febril mãe algumas horas da noite escrevendo ao filho e à criada. Eram páginas sobre páginas levantadas em amor e jubilo, como um himno de ação de graças, a carta que ela escreveu a Álvaro. Todo e tanto amor, onze anos retraindo, e sem desafogo no próprio seio da religião, dilatou-se ali em termos de sorte amoráveis, que nunca a imaginação apaixonada do poeta os achou assim.

Passaram três dias nesta abrazada ânsia de outras noticias. Ao quarto, Maria da Gloria recebia nova carta de Eufemia, escrita na ocasião em que andava alugando cavalgadura para a jornada do menino a Vairão.

O ambicioso coração daquela mãe não esperava, nem sequer sonhava tanto. Sossobrou-a o transporte de alegria; e as formidaveis angustias nunca puderam tanto. Quiseram as amigas, e sobre todas a inseparável Cecília, modificar os sobresaltos da esperança em contentamento sereno. Não puderam. A veemência das pulsações denotava febre, e já as tímidas senhoras se arreceiavam mais da felicidade imprevista, que das flagelações de onze anos de saudade.

Maria caiu de cama; e, ao terceiro dia, depois da última carta, malogrou se-lhe o desejo de levantar-se. Agora já a enfermava também o receio de que as tenções do filho fossem estorvadas por algum dos mil sucessos que a fantasia escaldada lhe antepunha. A bondosa abadessa, a fim de socegal-a, prometia-lhe, chegando o menino, abrir-lhe a portaria, contra o estatuido na regra benedictina, e dar-lhe quarto ao pé do de sua mãe. Dissereis que Álvaro era o bem-vindo de todas as monjas, e para a festa da chegada se apostavam todas, com ofertas e mimos, e um ar comum de festa, como se estivesse à porta o solemnissimo dia do patriarca, cujas filhas eram.

Que folgazãs, e não sei se, ao mesmo tempo, santas, eram aquelas criaturas do mosteiro de Vairão, onde, nesse tempo, florejava em dons do espirito e primores de coração a secular que depois esposou um dos maiores talentos de Portugal, o inimitável poeta Antônio Feliciano de Castilho! Com que amor e enlevo se liam então ali as riquezas balbuciantes do bardo de «Ecco e Narciso» e os maviosos regorgeios daquela «Primavera» em que ainda hoje o espirito inverniço do leitor se pode sentir verdejar aos balsamos das flores, que lá estão em perpétuo viçor e aroma na grinalda do então, e hoje, e sempre juvenil poeta!

E vinda a hora da ação, e frouxo há de ser o traslado, não à conta de o termos escassamente debuxado na ideia, mas é que o desenho de Maria da Gloria, ao dizerem-lhe que entrara o filho no pátio do mosteiro, não o faz a linguagem, e só o pincel de artista de sentir delicado o tiraria a limpo.

Chegou Álvaro ao pátio do mosteiro.

Foi Cecília a da nova, e depois ela vinham todas, alviçareiras, a esbofar de cançadas.

Maria sentou-se de impeto no leito, e abraçava, vertiginosamente, quantas entravam ao pé da cama, onde todas vieram. Até a prelada, menos gotosa que nos outros dias, regamboleava a perna, revel à própria sineta de matinas! A mãe de Álvaro pedia os vestidos, e todas à porfia lhes davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando destoadamente uma inglezia de que as próprias noviças estavam como pasmadas. Já Maria saltava do leito meio-vestida, quando entrou a dona abadessa, e a obrigou brandamente a recolher-se à cama, que assim o mandara o medico, e não se fazia mistér ir buscar nos braços quem ali vinha ter por seu pé.

A este tempo, correu a chusma das noviças à porta da cela, como ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos dormitórios. Vinha Álvaro com a madre porteira, com a madre escrivã, e com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os facultativos às celas das suas doentes.

O filho de Maria da Gloria quando viu um grupo de treze noviças, com os seus véos brancos e as toucas graciosas, onde enquadravam rostos mais encarnados que seráficos, não formou ideia de todo horrorosa do carcere de sua mãe. O interior de um mosteiro era-lhe novidade; e posto quer naquele tempo, a frequência das grades monásticas era uso e moda das boas famílias, Álvaro nunca vira freiras, e julgava de elas pelas que via macilentas e magras nos retábulos das igrejas.

As noviças, como já não coubessem no quarto de Maria da Gloria, agruparam-se no corredor a um lado da porta, abrindo passagem ao hospede e às três senhoras. No limiar da cela estava a prelada, que tomou a mão do menino, e o guiou ao pé do leito. Maria, quase a resvalar da cama, recebeu o filho nos braços, e apertou-o contra o seio em silencio de sôfregos beijos, e, a rápidos intervalos, o afastava de si e contemplava com olhar frenético, e trejeitos convulsivos como os da loucura.

— É o meu filho! — exclamou ela circumvagando os olhos mais soberbos que maviosos pelas religiosas que choravam — É o meu filho! é a minha riqueza! tenho vivido em tormentos de onze anos para este instante... Deixem-me desabafar, que a felicidade sufoca-me...

E bracejava, atirando a repelões as tranças soltas para as costas.

Álvaro contemplava a mãe com ar de assombro. Tinha visto um retrato, como ele, em aqueles anos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que ali via, era magra, lívida, e com as rugas da velhice precoce nos rebordos macerados dos olhos. Raros vestígios das feições antigas conservava a infeliz aos trinta e quatro anos, idade em que o toque mórbido e desmaiado da beleza é muitas vezes mais de captivar que o viço dos vinte anos.

— Não me esperavas assim ver tão velha, meu filho? — disse ela, correndo as mãos no rosto de Álvaro.

— Faz muita diferença do seu retrato, que lá tem o papá — disse o menino a custo, de apertado que estava nos braços da mãe.

— Quando eu tirei aquele retrato, meu filho, era feliz, e tinha dezesseis anos. Não sabes que me foste arrancado, há onze anos, dos meus braços, Álvaro? Onze anos a pedir a Deus este dia, meu querido filho!... Onze anos!... E Deus sabe se tornarei a ver-te!

Maria da Gloria debulhou-se em lágrimas, e rompeu em gritos. Todas as freiras a um tempo lhe disseram palavras consolativas e de esperança. Álvaro, vendo que sua mãe ia cair exhaurida de forças para o espaldar do leito, tomou-a para si, e submeteu o ombro ao rosto pendido e gotejante de suor.

A prelada mandou sair as religiosas, que pejavam o quarto mal arejado. Abriu-se a pequena janela, e Maria tornou a si, sentindo a mão do filho afastar-lhe da face os cabelos já passados da copiosa transpiração.

A discreta abadessa também saiu, cerrando a porta.

— Sinto-me vigorosa... — disse Maria — Olha, meu filho, entra em aquela cela, e espera-me lá.

Álvaro passou à especie de ante-câmara que sua mãe tinha, com serventia interior, por graça especial da prelada, e porque lhe sobejavam recursos para as mal denominadas regalias do convento.

Viu Álvaro neste recinto, pequeno, mas bem assombrado e até bonito com asseio de adornos, uma livraria, que tomava um dos quatro lados, e alguns retratos, que eram os de seus avós maternos, e outros paineis de devoção. Sentou-se à banca onde sua mãe escrevia, e relanceou os olhos por sobre os papeis espalhados nela. Entre estes estava aberta a última carta, que Eufemia escrevera a sua ama. O pequeno não adivinhou a delicadeza de furtar os olhos ao estimulo da curiosidade. Leu a carta, e entendeu a promptidão com que lhe foram abertas as portas do mosteiro, onde a sua ama lhe havia dito que não era permitido o acesso, salvo às grades, e um momento na portaria, se sua mãe solicitasse o prazer de abraçá-lo. Maravilhou-se do segredo que Eufemia velára dele, ocultando-lhe as suas relações epistolares com a mãe. Sentiu-se mais obrigado a estimar a virtuosa mulher, que para escrever à encarcerada, de todo o mundo se escondia, temendo ser repelida da casa, onde estava o filho da mártir, e ela, a alma única de quem podia a mãe fiar as suas queixas, e receber palavras que lhe temperassem as desesperadas saudades.

Maria da Gloria, vestida em desalinho, entrou no quarto, onde Álvaro estava.

Sentou-se numa cadeira de espaldar, e achegou de si o filho, que parecia tomado de melancólico espasmo.

— Estás tão triste, Álvaro?... É a vista de tua velha mãe que te entristece?

— Não, minha senhora; é o pesar que eu tenho de a não ver em nossa casa. Porque está aqui há tantos anos, minha mãe?

Maria empalideceu, e balbuciou por entre beijos, em que parece que desabafava a veemente opressão da inocente pergunta:

— Tu não me entenderias, se te eu dissesse a causa desta minha desgraça, filho do meu coração. Es muito menino ainda para comprehenderes a calúnia de que sou vítima.

— Mas — atalhou Álvaro com intervalos de suspensão, que denunciavam mais a inocência de sua ignorância das calamidades da vida — o pai não pode ser tão mau que tenha aqui presa sem alguma culpa a minha mãe... Diz a Eufemia que ele fora muito seu amigo, e o meu mestre de inglês também me disse que eu nascera na época da felicidade.

— Cala-te, cala-te, meu filho — exclamou Maria, afogada em soluços.

— Não chore assim, minha mãe — acudiu o menino, a chorar com ela — Escreva ao papá, peça-lhe que a tire daqui; talvez que ele tenha pena de si agora. A mãe já não lhe escreve como há quatro anos?

— Quem te disse que eu lhe escrevia, filho?

— Eu li as cartas, às escondidas do pai, e trago-as comigo, porque não tornei a encontrar aberta a gaveta de onde as tirei. São todas de 1820. A mãe não escreveu mais algumas?

— Não, porque teu pai nunca me respondeu a elas.

— Escreva-lhe agora, sim? Escreva-lhe quando eu já estiver em Lisboa...

— Que farias tu, meu querido filho, que importaria escrever eu a teu pai?

— Eu pedia-lhe que tivesse compaixão da minha mãe...

O dialogo durou assim até à hora em que Maria da Gloria e seu filho foram chamados a jantar em casa da abadessa.

Todas as religiosas e noviças foram comensais no banquete dado pela prelada ao filho da senhora, querida de todas. Álvaro ficou sentado entre sua mãe e a abadessa. Defronte estava uma religiosa de anos dilatados, a qual, desde muitos meses, só na sua cela e no coro se encontrava. Não tinha sido convidada, em respeito â sua austera soledade e continuada oração mental em que praticava com Deus. Foi ela mesmo que se ofereceu para o jantar, dizendo que não podia faltar àquela honra feita a um anjo de dor e de paciência. Isto, dito por soror Joana das Cinco Chagas do Senhor, impressionara fundamente o animo de algumas senhoras para quem a inocência de Maria da Gloria era uma piedosa hipótese. Durante o jantar, a santa, que nesta conta era tida e assim denominada a decrepita monja, falou algumas vezes com Álvaro, já perguntando-lhe se desejava ficar com sua mãe, já queixando-se de que a sua vinda fosse o prognostico de ela ser brevemente furtada às suas amigas do convento.

A este dito, respondeu Maria da Gloria que a vinda do seu filho era uma felicidade, que ela devia às orações de soror Joana, e de outras virtuosas senhoras, suas dignas companheiras na terra e no céu; acrescentava, porém, que não esperava ser restituida a seu filho e à sua dignidade de esposa.

Viram todas erguer a religiosa o braço descarnado, e abrir a mão como quem impõe silencio às palavras de dúvida, e contradictorias com as do espirito divino que lhe falava. Deu-se um religioso silencio, tal que nem as respirações se ouviam.

Estas foram as palavras de soror Joana das Cinco Chagas do Senhor:

«A mãe será restituida ao filho, e a esposa ao coração de seu marido, e aos respeitos do mundo».

Por que é que os cabelos estremeceram, e o calefrio vibrou os nervos de quantas pessoas ouviram o tom profético da virtuosa anciã? De feito, havia instinto do céu em aquelas palavras, o som de elas tinha a um tempo a força elétrica de que o ouvido se estremece, e a uncção suavíssima que banha a alma de luz da fé.

Maria da Gloria mandou o filho beijar o habito da religiosa. Álvaro foi, tão passado de devoção e como alheado na santa poesia do lance, que lhe tomou de joelhos a mão.

Soror Joana deu-lhe a beijar a mão tremula, fez um jeito de levantal-o da postura humilde, e, assentando os dedos afilados sobre as faces descoradas do menino, disse com um ar de graça maviosa como se nos lábios lhe abrisse Deus um sorriso de sua misericórdia:

— O anjo do resgate veio emfim; e não veio tarde, porque chegou à hora em que Deus o mandou chegar.

Os ânimos ficaram tão absorvidos nesta afetuosa cena, que só volveram os risos e os gracejos depois que, findo o jantar, a santa se retirou encostada a duas religiosas, que haviam sido suas discípulas de noviciado, e contavam para mais de setenta anos.

Duas horas depois do jantar, foi Maria da Gloria com seu filho visitar soror Joana. Encontraram-a em oração, e iam retroceder, quando ela fez sinal de ficarem.

— Que pena tenho eu — disse a freira com muito alegre semblante — de não ter nesta minha pobre cela um mimo que dê a este menino, para se lembrar da velha que viu no mosteiro de Vairão!

As suas palavras gravam-se para sempre no coração, minha senhora — disse Maria da Gloria, beijando-lhe o escapulário.

— Ora, deixe estar — tornou a religiosa — hei de ver se o não deixo ir sem uma lembrança minha... Quando vai embora o menino?... não deve demorar-se muito...

— Eu desejava estar mais tempo — disse Álvaro — mas não tenho remédio senão ir amanhã, que não vá o papá dar fé da minha falta.

— Amanhã! — exclamou Maria — pois já me deixas amanhã!?

— E deve ir amanhã — respondeu soror Joana com impressiva firmeza, como se desse ordens.

— Quando tornarei a ver-te, ó filho da minha alma? — tornou debulhada em pranto a mãe de Álvaro.

— Mulher de pouca fé... — murmurou a santa, com brando sorriso, e um meneio triste de cabeça — O menino — ajuntou voltando-se para ele, e tomando-lhe as mãos entre as suas — sai de madrugada, sim?

— Sim, minha senhora, se a minha mãe deixar.

— Sua mãe deixa. Pois às quatro horas, antes do toque a matinas, venha dizer-me adeus. Vá agora, menino, vá com a mãezinha para as outras senhoras, que hão-de estar saudosas dela.

E saíram ambos com sobrenatural alegria de esperanças no coração. Vieram-lhes ao encontro nos dormitórios, na claustra, na cerca, as freiras, as noviças, e as criadas a felicitarem-se com ela do termo dos seus males, jurando todas no vaticínio da santa. Maria já não duvidava. Recebia os parabéns como se a promessa lhe descesse diretamente do céu. Já o apartar-se de seu filho não lhe doía tanto. Fez-se um mundo novo naquele espirito. As aves da floresta entoavam por ela louvores a Deus. As flores dos taboleiros recendiam os perfumes das flores da sua mocidade. O azul do céu já não tinha o aspecto triste e de ferro com que se mostra a olhos marejados de lágrimas. Riam-lhe as aves, e o céu, e as flores. A natureza inteira a dar-lhe as boas vindas do seu filho! E ele, sempre ao pé dela, com as faces anuviadas de tão doce melancolia, que fazia lembrar o grave e sereno rosto do cherubim, que no retabulo do templo, traz à Virgem de Nazareth o anúncio da sua maternidade!

Fugiam as horas do dia. As do silencio, na breve noite que se seguiu, passou-as desveladas a ditosa mãe ao pé do filho que adormecera de fatigado. De hora a hora despertava-o com a pressão dos beijos, e acalentava-o depois, como douda de felicidade com lembrar-se do amor com que o velara no seu primeiro ano.

Soaram três horas. O criado estava já no pátio com a cavalgadura arreada. Maria, forçada pelas instancias, tentava, mas não podia acordar o filho.

— Acordal-o para o ver ir de mim!... — dizia ela, chorosa.

Resolveu-a um recado de soror Joana; mandava dizer que estava esperando o menino, e que fosse, porque eram horas de coro. As palavras da santa deram-lhe alma para o trance.

Foi Álvaro ao cubículo da religiosa, e sua mãe com ele.

— Entrem, meus filhos — disse soror Joana — Venha aqui o menino: não há tempo para demoras. Aqui tem a lembrança que leva desta sua velha amiga. Logo que chegue a Lisboa, antes de entrar na sua casa, vá entregar esta carta. A pessoa é bem conhecida. Quem quer lhe dirá onde mora esta pessoa. Agora vá com a Virgem Santissima. Quando voltar, me dará novas da pessoa a quem escrevo. Enquanto a vós, minha penitente — continuou acariciando Maria — notae bem o que vos digo. Prohibo-vos de ver o subscripto da carta que vosso filho leva. Entendeis, Maria?

— Oh minha senhora! — disse a conturbada mãe, beijando-lhe a mão. — Sou incapaz de desobedecer-lhe.

— Bem o sei: conheço o vosso coração melhor que vós mesma. Ide com Deus, meus filhos.

Do último abraço que Maria deu em seu filho passou sem sentidos para os braços de Cecília.

Álvaro escassamente chorava. Sentia em si o coração forte do homem. Quando, porém, relançou os olhos para a portaria, que se fechava, não viu senão o alvacento véu das suas lágrimas.

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