Capítulo VII A Filha do Arcediago · Capítulo 8 de 31
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Capítulo VII

Os planos, que o arcediago incubára no seu profundo saber do coração humano, abortaram. Saía-lhe tudo ao em vez das suas esperanças. Previra a humildade de Rosa, depois das mortificações da reclusão; e Rosa cada vez mais contente, agradecia ao pai, que a procurava todas as semanas, a lembrança de a castigar com o recolhimento.

No principio, a regente era instada para augmentar as privações da educanda; mas as privações não podiam ser dadas como suplicio a uma menina que vivia contente, e cumpria com regularidade e promptidão as poucas obrigações de pensionista.

O zelo farisaico do arcediago afrouxou, porém, com a frieza do senhor Antônio José da Silva. A catástrofe ridícula, de que fora vítima o esmurrado negociante em casa do João retrozeiro, modificou-lhe consideravelmente o coração, a respeito de Rosa Guilhermina, pomo de discórdia, e causa desastrada de semelhante conflito.

O senhor Antônio sofreu, pela primeira vez, uma decepção nas suas crenças senis. O pugilato com a senhora Ana Canastreira chamou-o à razão, e, se não é profanar a ideia, diremos que a poesia matrimonial do senhor Antônio fora dilacerada pelas unhas felinas da vizinha.

O pobre homem tinha vergonha do sucesso. Na rua das Flores não se falava em outra coisa. O seu vizinho João Pereira, o do chinó, ria-se à sucapa com o vizinho da loja imediata, enquanto sua mulher contava à vizinha, com grande hilaridade, os famosos murros, que o ciumoso Antônio jogára com a mãe de José, por causa da Rosa. O que ela não dizia, por não escandalisar, e todos o sabiam, era que um seu amante fora a forçada testemunha do apaixonado dialogo, que os leitores, sem serem os amantes da mulher do senhor João Pereira (se é que alguns o não foram), também ouviram.

O rico negociante tinha inimigos, émulos de negocio, os peiores de todos, que espreitavam o primeiro ensejo de o apoquentarem. Não podia ser melhor o motivo. Algum mais odiento levou a sua vingança ao extremo de fazer quadras ao desventurado negociante. Algumas dessas quadras, em verdade chistosas, chegaram à minha mão. Se não fosse o medo de aggravar a indigestão de versos em que imagino encruado o estomago do publico, pudera dar-lhe quatrocentos e tantos versos consagrados ao senhor Antônio José da Silva, debaixo do titulo: CUPIDO DESDENTADO. Sem embargo, porém, da cristã generosidade que tenho com o leitor, não o poupo ao flagelo de ler um fragmento desse poema, que devia ser a causa principal do abandono a que o infeliz herói votou a filha do arcediago.

O dito poema é de autor incognito, e o fragmento não vol-o dou como primor de arte; é crível, porem, que o autor tivesse filhos, e os filhos do autor, apurados em raça, serão talvez os gênios que hoje prendem a nossa admiração, e engrandecem as letras pátrias.

Ele aí vai:

Dom Cupido desdentado, Desprezado em seus desvelos, Jurou, sobre os seus chinelos, Guerra eterna ao seu rival!

Fumegando pelas ventas As tormentas do ciume, Todo ele é fogo, é lume, No solar do Retrozeiro.

Dom Cupido desdentado, Desarmado, vai sem frecha Quer abrir, a murro, a brecha Do rival no coração.

Torce os olhos, solta um urro, Préga um murro na maçã Da fanhosa castelã, Que se atira a ele à unha.

Dom Cupido desdentado, Não vingado, cai de chofre, E tal pêso a velha sofré, Que estourou! ó vista horrível!

Pobre Aônio, pobre Aônio, Que demônio te tentou!? Antes dentes ter, Antônio, Que não ter, e ser Cupido!

Dom Cupido desdentado, Quer o fado que eu te diga, Que não podes ter barriga Mais mal feita para Rosa!

Come bem, morre a comer, Que, a meu ver, é grande asneira Ter inveja do João Pereira, Teu vizinho, ao tal chinó!

..........................

Et cetera.

O chinó de João Pereira fora sempre o pensamento negro da vítima do poeta! Este sarcasmo ferira atrozmente o infeliz! A reação devia ser dolorosa, mas, passada a crise, o senhor Antônio sentia-se bom, porque ao pino do meio-dia, horas de jantar, a sua paixão dominante era o melhor dos apetites. Não tinha havido poesia, que tão útil fosse ao gênero humano, até então, porque só depois vieram as poesias higiênicas, às quais a humanidade está muito agradecida, principalmente a humanidade atacada de vigílias. Afora estas, foi aquela a poesia que melhor fruto colheu. O senhor Antônio, desde esse dia, comeu como sempre, e dormiu como nunca. Ao mesmo tempo que era açoutado em efígie no quarto de Maria Elisa, o razoável negociante apertava os vínculos, meio lassos, que o prendiam à Teresa, com barraca de fructa na Ribeira, e entendia de si para si que a mulher que lhe convinha era aquela.

E, tão de maus humores o encontrava o arcediago, que nem ousava falar-lhe em Rosa, nem, o que mais era, o convidou para o vinho verde de Campanhã nos domingos de tarde.

Data daí, portanto, a tolerância do padre com os divertimentos da filha. Visitava-a com melhores maneiras. Festejava Maria Elisa, que lhe chamava padrinho, presenteava-a com vestidos semelhantes aos de sua filha, e redobrava de contentamento, sabendo que o filho do retrozeiro era uma coisa sem importância no volúvel coração da pequena.

Tudo corria maravilhosamente para todos, quando Rosa Guilhermina, dia de entrudo, atirava cântaros de água, e recebia-os agradavelmente pela cabeça. O resultado, porém, foi uma constipação despresada, uma tosse continuada, febre, e, na primavera seguinte, foi julgada no principio de uma ftisica.

O arcediago resolveu levar sua filha a ares para uma sua quinta de Ramalde, e alcançou licença a Maria Elisa para acompanhar a sua amiga. Saíram, e desde esse dia, a regente, a sacristã, e todas as velhas, especialmente as Limas, agradeciam, todas as manhãs, à Providência o favor de lhes afastar de casa semelhante flagelo.

Rosa melhorou apenas se viu em boa harmonia com seu pai, livre do pavoroso negociante, senhora da sua vontade, rindo e brincando com a sua amiga, amimada pelas duas criadas que o arcediago lhe dera, e decorando cada vez melhor o romance predileto de Maria Elisa.

No inverno próximo, as meninas vieram para a cidade, e encontraram uma casa bem mobilada, apetrechada de tudo que mais lisongeava duas amigas inseparaveis. Esta casa, situada à entrada da viela do Cirne, com frente para a rua do Laranjal, ainda hoje conserva um ar campestre, que, há quarenta anos, era muito mais agradável, porque a não assombravam então os edifícios do largo da Trindade.

O quintal desta casa comunicava com o do defunto Rodrigues Passos, professor de latim, e o leitor, se tem prestado alguma atenção ao que se lhe diz, deve lembrar-se que José Bento, no extremoso colóquio com a sua vizinha, anunciou a sua ida para o colégio de Passos.

Rosa nem de tal se lembrava já, quando encontrou os olhos piscos do esquecido amante espetados nos seus. Elisa, que reparou na surpresa da sua amiga, perguntou:

— Aquele mono conhece-te?

— Conhece... Aquele é o filho do retrozeiro... Agora me lembro que ele disse que vinha para a Cancella-Velha!...

— Vamos nós namoral-o?

— Deus me livre!... Tomara eu que ele me não dissesse nada... Olha o tolo!...

— O que nós queremos é rir-nos... Pergunta-lhe se está melhor das dores de barriga.

— Eu não... Deixa o pobre rapaz... Vamos embora.

O estudante, cada vez mais pasmado do silencio de Rosa, é natural que meditasse na razão daquele inesperado encontro, quando Maria Elisa, com a maior naturalidade, lhe perguntou:

— Como está da sua barriga, senhor José?

O rapaz fez-se muito vermelho, e não respondeu palavra.

— Cala-te, Maria! — murmurou Rosa, puxando-a pelo vestido.

— Não quero calar-me. Pois eu não hei de saber como está a barriga do teu namoro? Então vmc. e não me responde? Olhe que eu sou sua amiga, e faço esta pergunta, porque a Rosinha tem vergonha, e pediu-me que lhe perguntasse se está melhor.

— É mentira! — atalhou Rosa, córando — eu não disse tal... Não digas o que não é, Mariquinhas...

— Pois então, não dirias; mas eu quero que aquele senhor me responda. Vmc. e é mudo?

— Não sou mudo — disse o estudante embezerrado.

— Então, fale à gente.

— E se eu não quiser?

— Se não quiser, não fale; mas é má criação tratar assim quem lhe pergunta se está melhor da sua barriga.

— A minha barriga, graças a Deus, está boa, e vmc. e que lhe quer?

— Não quero nada... eu já lha pedi?

— Pensei que lhe queria alguma coisa... Eu não sou boneco de palha para caçoadas.

— Vmc. e parece-me um mau rapaz! Quem é que o caçôa? Nem me parece um estudante! Valha-o Deus! eu, se fosse Rosinha, não lhe tinha amor...

— Cala-te, Maria!.., Tu pareces-me tola! Deixa o rapaz! — disse baixinho a Elisa, forçando-a a retirar-se dali.

— Deixa-me caçoar com ele... Eu não te disse que lhe havia de pôr um rabo-leva de papel? Já que não posso, deixa-me rir com este gêbo, e tu ri-te também.

José Bento, favorecido pelo dialogo, ia-se escapando surrateiramente, quando Elisa o chamou:

— Psiu!... psiu!... Olhe cá!...

— Que me quer?

— Vmc. e estuda para frade?

— Que lhe importa se estudo para frade?

— É que se vmc. e fosse frade, eu queria ser frada, e haviamos de ter uma casinha ambos e um quintalinho, e as nossas gallinhinhas, que nos haviam de pôr os seus ovinhos, que nós haviamos de cosinhar ambinhos na nossa cosinhinha, e depois a gente dizia a sua missinha... e depois a gente vinha tomar o sol no seu quintalinho... e depois...

Rosa ria-se como uma perdida, quando o filho da senhora Ana Canastreira, alongando a tromba, e franzindo o nariz, resmungou:

— Sabem que mais? vão bugiar! O meu regalo era...

— Qual era o seu regalo, ó senhor José?

— Se não fosse estar em casa do mestre... eu lhe responderia...

— Ora diga lá baixinho a sua resposta, que eu não digo nada ao mestre.

— Vá...

— Que vá, aonde? Não seja tão mausinho, senhor Josésinho do meu coração. Vmc. e há de ser um fradinho de pau de sabugo muito bonito... Já tem corôa?

— Tenho um dardo que a parta.

— Olha que mau!... Senhor José, não seja assim... Tome lá uma beijoca.

O corrido estudante tinha desaparecido, não só porque se via embaraçado em responder às zombarias da importuna rapariga, mas porque o mestre, ouvindo-o falar, vinha de manso espreitar com quem era. O zeloso professor apareceu no muro, e ainda viu as duas meninas, que se retiravam em grandes gargalhadas. Enfurecido com a audácia do lorpa, como ele generosamente o intitulava, foi ter com ele explicações acerca de tal conversa.

— Que dizias tu àquelas meninas?

— Eu, nada... Eram elas que...

— Que... o que? que te diziam elas?

— Elas diziam que...

— Acaba daí selvagem!

— Eu estava ali a estudar a selecta primeira, e elas disseram-me que...

— Estás zombando comigo?

— Perguntaram-me se eu era...

— Um burro? e tu disseste-lhe que sim.

— Não foi isso... perguntaram-me se...

— És um asno quadrado! Ouviste, lorpa? Se te vir outra vez a falar com as vizinhas, escangalho-te as mãos! Não tens habilidade para traduzir mundus à domino constitutus est, e sabes dar tréla às raparigas!? Ora deixa estar que te farei a cama!...

A crise passou, e José Bento nesse dia apenas teve, como era de costume, um bofetão e um puxão de orelhas, por causa do imperativo laudandum.

No dia imediato, as meninas não o viram; mas, no outro, Rosinha viera adiante esperar a sua amiga para colherem rosas do Japão, quando ouviu o som roufenho da voz conhecida de José Bento:

— Senhora Rosinha, assim é que vmc. e se porta comigo?

— Ah!... estava aí?!...

— Pois então! cuida que eu me esqueci de si? Ficou de me escrever, e foi como se nada!... Olhe lá como vmc. e é!

— Não pude, senhor José... e tenho a dizer-lhe que é melhor não me falar, que meu pai ralha-me. Faça de conta que nunca nos vimos. Aquilo que nós dissemos foi uma brincadeira de crianças. Trate do seu estudo, e não se embarace comigo, porque eu tenho muito medo a meu pai...

— Sempre vmc. e é... daquela casta! E eu a pensar em si todos os dias, e sempre a esperar noticias suas, há quase um ano!... Então eu já não sou o mesmo?

José Bento proseguia numa tirada eloquente contra a perfídia de Rosa, quando o vulto austero do mestre de latim surgiu de improviso ao lado do pálido estudante. Ao mesmo tempo, chegava Elisa, rindo muito da surpresa, e Rosa punha os olhos no chão, e cortava machinalmente uma rosa menos purpurina que ela.

— Chegue-se aqui! — disse o mestre ao rapaz aproximando-o do muro, que dividia os dois quintais — Ó meninas!

— Que quer? -perguntou Elisa.

— Os meus discípulos ensinam-se assim. Dê cá a mão, seu lorpa!

José Bento, córado como um mólho de malaguetas, recuou diante da palmatoria, cuja cabeça o espreitava por debaixo do capote de saragoça.

— Dê cá a mão! Você não obedece? Olhe que o mando pendurar em aquela figueira.

— Como Judas Iscariote — atalhou Elisa, fungando, e esfregando as mãos.

O infeliz dera a mão, e quatro sonoras palmatoadas lhe estouraram na epiderme. A dor moral devia ser grande! Rosa estava pálida, e Elisa, de repente, séria, disse ao professor:

— Se eu fosse ele...

— Que diz lá a senhora?

— Digo que, se fosse ele...

— Que faria?

— Dava-lhe um murro no nariz.

— Em quem?

— Em vmc. e...

— Se é senhora, não o parece... — disse o professor, encarando-a com desprezo — Eu tratarei de saber quem é seu pai, e, se seu pai lhe não der com umas disciplinas...

— Que me há de fazer? dá-me palmatoadas?

— Hei de lhe mandar dar com um chinelo...

— Fora casmurro!... Venha para cá, que lhe hei de dar um docinho...

O infiado mestre foi cevar as iras impotentes no pobre moço, que levou a ponta-pés para o quarto.

José Bento recahiu numa profunda concentração. Durante o dia não comeu, nem bebeu, nem estudou. À meia noite ergueu-se de um impeto semelhante a um ataque repentino de demência. Abriu uma gaveta, e tirou um garfo. Às apalpadelas atravessou um corredor, e, na extremidade, abriu de mansinho uma porta. Aproximou-se do leito onde resonava um homem, e cravou-lhe três vezes o garfo no pescoço. O agonizante soltou um rugido, que só o assassino ouviu, e expirou.

Pela manhã encontraram morto o velho Manoel José de Almeida, professor de latim, com um garfo tinto de sangue sobre a dobra do lençol.

— José Bento desaparecera. Foi procurado em casa do João Retrozeiro, e não o encontraram.

Horrível acontecimento!

A língua latina perdeu um dos seus melhores interpretes. O senhor Manoel José de Almeida poderia ser um temperamento colérico com os seus discípulos, mas a ciência devia-lhe muito. Escreveu largamente sobre a genuína interpretação do tam libet hirsutam tibi fulci recidere barbam, de Ovídio. Deixou ineditos três volumes sobre a conjuncção copulativa, e preciosos manuscritos sobre o adverbio quotiesqumque. Era um bom católico, e amigo dos pobres, que lhe chamavam pai. Era bom esposo, bom pai e bom irmão; e, se não era bom cidadão, é porque os cidadãos inventaram-se depois.

A terra lhe seja leve!

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