Capítulo XXIII
O senhor Antônio José da Silva deve ter movido a compaixão interessante das damas, e talvez o desprezo dos briosos maridos, que, no logar dele, tinham pelo menos degolado suas mulheres, e lavado a sua nodoa em sangue.
Eu lhes digo: faziam uma solene asneira, e arrependiam-se, depois, como o senhor Antônio (que não era menos brioso que v. exc. as e s. as ) se arrependeu de ter superficialmente condenado sua mulher.
D. Maria Elisa convenceu o cândido marido de que efetivamente tinha um primo, filho de uma irmã de sua mãe, que morrera pobre, e o deixara abandonado. Que esse infeliz primo se tinha dirigido à sua compaixão, pedindo-lhe alguns sobejos da sua fortuna para alimentar a penosa existência. Que ela, como esposa e dona de casa, responsável pelos cabedais de seu marido, se negára, muito tempo, a dar-lhe os suplicados recursos; mas, por fim, tais foram as instancias, que a seu pesar, não pôde deixar de ceder aos impulsos do coração, que lhe mandavam socorrer o infeliz com as migalhas da sua mesa.
O senhor Antônio chorava de piedosa ternura, quando sua mulher, cada vez mais eloquente e filantropa, continuou:
— Com o receio de que a vinda de meu primo a esta casa suscitasse suspeitas malévolas, disse-lhe que me esperasse algumas vezes na Ponte-da-Pedra, e eu, indo sozinha a passeio, lhe daria o que pudesse esconder aos olhos de meu marido, sem que ele desse pela falta, que de certo era um crime...
— Pois não fizeste bem, Mariquinhas! É o que eu te digo, e perdoa... Se me contas o caso, era eu o primeiro a dizer-te que podias dispôr à tua vontade do que há nesta casa, porque o que é teu é meu, e o que é meu é teu.
— Pois sim; mas eu não tenho ainda um cabal conhecimento do seu caráter. Receei que me levasse a mal esta caridade com um meu infeliz parente, e não ousei manifestar-lhe um desejo, a que o meu bom marido anuiria mais por delicadeza, que por vontade do coração. Agora, que tudo se declarou, não quero que o senhor Silva se mortifique por me ter ofendido com as suas imprudentes calumnias. Faça de conta que não houve entre nós a mais ligeira desinteligência. Estamos quites: o senhor fez-me uma injustiça, reputando-me desleal; e eu fiz-lhe outra, julgando-o sôfrego da sua fortuna, e incapaz de estender a mão bemfeitora a meu desgraçado primo!...
— Ora, pois, não nos lembremos mais disso... Eu agora o que quero é saber onde mora esse teu primo, porque sou eu o mesmo que propriamente lhe quero ir levar os recursos necessários para a sua subsistência... Onde mora ele?
— Onde mora ele?... (Maria Elisa não esperava esta! O improviso não era o seu forte, e viu-se na mais embaraçosa atrapalhação). Eu, se quer que lhe diga a verdade, não sei bem onde ele mora... mas deixe passar alguns dias, e talvez que ele aqui mande algum recado...
— Pois então logo que ele apareça, farás favor de lhe dizer que eu quero falar com ele... Mas tu não conheces ninguém (tornou o suspeitoso marido depois de refletir um momento) que saiba onde ele mora?
— Não, senhor.
— Não?... Eu não sei o que me parece isto, a falar-te a verdade!... Aqui anda dente de coelho!... Pois ninguém, ninguém?
— Talvez me lembre de uma mulher que aqui veio trazer-me uma carta dele, e me disse onde ele morava... Deixe-me recordar, e depois lhe direi...
— Pois olha lá se te lembras... Eu sempre quero ver os focinhos ao teu primo... Acho que a coisa assim não vai bem...
— Que é o que não vai bem?!
— Eu cá me entendo...
— Isso que quer dizer? Explique-se, senhor Silva... Nada de mais palavras... Não está ainda satisfeito com a explicação?...
— Podia estar mais, se queres que te diga cá o que tenho no meu interior...
— Pois não sei que lhe faça. Creia, se quiser, e, se não quiser não creia. Vai-me fazendo subir a mostarda ao nariz!... Eu não lhe dou direito a duvidar da minha palavra. Se cuida que lida com sua irmã, engana-se. Tenho uma face para o amor, e outra para o ódio. Sei amar, e sei aborrecer... Entende-me, senhor?
— Mas a que vem todo esse farelório? Que te disse eu para tanta arrenegação?
— Parece que dúvida da explicação que lhe dei do meu comportamento?! Esse direito só o dou à minha consciência!
— Tem a menina muita razão; mas, eu, sim, acho que... parecia-me que não sou mau homem, nem mau marido, se tenho cá minhas comichões de conhecer seu primo!...
— Se tem comichões, coce-se... é o que eu tenho a dizer-lhe... E de resto, se quer esperar que meu primo apareça, espere; e se não, procure-o até encontrá-lo.
D. Maria Elisa retirou-se enfronhada, e foi feliz nesta lembrança, porque o senhor Antônio precisava de semelhante reação para entrar nos justos limites de um marido exemplar, como todos os maridos que não tem pública-forma.
Que é pública-forma de um marido? Eu sei cá... Lembrou-me isto; se me lembra, em logar de pública-forma, dizer uma sandice mais compacta, creiam que não era homem de a deixar no tinteiro, porque, se há inviolabilidade neste mundo, é para todas as sandices que se escrevem. deste pecado tenho eu a dar sérias contas a Deus; mas quem de certo não deu nenhumas, quando deste mundo se partiu, foi aquela alma gentil do senhor Antônio, que nunca publicou asneira nenhuma, honra lhe seja feita! Se vivesse hoje tinha pelo menos escrito para os jornais uma carta, renunciando a sua candidatura, ou qualquer outra trapalhice da barbara linguagem do sistema representativo.
em aqueles felizes tempos, as asneiras desciam à sepultura com o individuo; e dessa grande sementeira creio eu que nasceram as muitas que hoje amadurecem no jornalismo, e entre as quais peço ao publico imparcial que classifique a minha da «pública-forma do marido» pelo que me declaro já sumamente penhorado, como todos aqueles que se retiram de um baile às cinco horas da manhã.
Por não esgotar as frioleiras de que disponho, saberão, estimaveis leitoras (se me dão a honra de me dirigir a v. ex. as, como quem quer divertil-as da seriedade austera das suas cogitações) que D. Maria Elisa entrou no seu quarto, e escreveu uma longa carta ao senhor Fernandes, contando-lhe miudamente os infaustos sucessos.
Na manhã do seguinte dia, a ansiosa esposa recebeu a seguinte resposta:
«Não te aflijas. Hoje de tarde aí vai teu primo. Fala pouco, e deixa-o falar a ele. »