Capítulo XV A Filha do Arcediago · Capítulo 16 de 31
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Capítulo XV

RESPOSTA À CARTA DO SENHOR ANTÔNIO JOSÉ DA SILVA

«Ill. mo Sr..

«Ontem recebi a sua preciosa carta. O meu coração delirou de contentamento, e a minha pena não pode fielmente interpretar os júbilos do espirito.

«_Não se resiste aos seus carinhos. É-se arrastada involuntariamente para a fascinação dos seus afetos. Deslumbra-se o entendimento, e humilda-se o amor próprio na presença de v. s. ª_

«_Sim. Eu serei sua esposa, e satisfarei assim a mais incendiaria ambição da minha alma. O matrimonio, porém, é de todos os passos o mais sério passo da vida. Se resvala o pé, o casamento é o desfiladeiro, que conduz ao tumulo. Eu mando calar a minha paixão. Faço que o cego amor emudeça para que a razão fale. Raciocinemos, pois, que assim é preciso. _

«_V. s. ª já conhece bem o meu caráter? Creio que não. Eu não sou uma mulher trivial. Tenho um grande coração para amar; mas o amor não é suficiente alimento para ele. Sou ambiciosa de brilho, de ostentação, de gloria, e não poderia fazer feliz um homem pobre, porque preciso resplandecer aos olhos de meu marido e aos dos estranhos. _

«_Este brilho, que ambiciono, não é um instrumento com que eu queira ferir a minha honra, ou a honra de meu marido. Pelo contrario, humilde para ele a quem devo tudo serei soberba da minha grandeza para todos os outros. Se me quer para esposa, se me quer para dominar o seu coração, e ser dominada no meu, é preciso que v. s. ª se comprometa, por sua palavra de honra, a não embaraçar-me no livre gozo da riqueza que me transmite, desde o instante em que um eterno vinculo nos prender. _

«_Eu sei que v. s. ª vive acostumado a uma mediania que não enquadra no meu grande espirito. Não vá esse fatal habito, no futuro, transtornar a nossa tranquilidade. Reflexione, senhor Silva, enquanto é tempo; e responda-me quando o coração concordar com as meditadas reflexões que tem a honra de fazer-lhe esta que é_

«De v. s. ª

«Muito afetuosa amante, e atenta veneradora,

«Maria Elisa Sarmento de Athaide. »

O senhor Antônio leu três vezes a carta e entendeu o essencial. Uma das maiores dificuldades que zombaram da sua inteligência foi a mais simples das coisas: a assinatura.

— Como é (dizia ele) que ela se chama Sarmento de Athaide, se seu pai era Joaquim Nunes, e sua mãe Michaela Felisberta? Isto, pelos modos, cada qual assigna-se como quer! Pois eu hei de morrer, como nasci...

Estas sensatas reflexões foram interrompidas pela senhora Angelica.

— Já recebeste resposta, Antônio?

— Agora mesmo.

— Ora lê lá isso.

O noivo leu a carta, que sua irmã ouviu com a boca aberta, franzindo a testa a cada palavrão, que seu mano não entendia melhor que ela.

— Está uma carta de uma vez! — disse a senhora Angelica, abrindo os olhos para o lado da testa, e apanhando com os seus três dentes, resto de maior quantia, o beiço inferior, em sinal de admiração — Isso é que é falar! O diacho da rapariga parece que tem coisa má! Aquilo é que é uma cabecinha! Diz que bota sonetos, e lê pelos livros grandes dos doutores! Ora vejam lá como a boa da pequena, sabe estas palavras, e diz tudo que faz mesmo pasmar!... É um regalo ouvir essa carta... Ora lê lá outra vez, meu querido Antoninho, que tens uma noiva de toda a sabedoria!

O senhor Antônio leu quinta vez a sublime carta.

— Com efeito! — tornou a senhora Angelica — eu aposto se um doutor a fazia melhor! A pequena parece que veio ensinada da barriga da mãe... Coisa assim não consta!... Nunca vi nada mais bonito! Então isso que quer dizer?

— Pois tu não entendeste?

— Assim me Deus salve que não.

— Isto quer dizer, sim... quer dizer que... é verdade, isto quer dizer, que me tem uma grande afeição da sua alma, e que está pronta a ser minha esposa...

— Coitadinha!... Isso já eu sabia... eu não to disse? Ora vê lá como as cartas falam verdade! Bem dizia a Escolástica de Miragaia que a igreja te saía brevemente... E não diz mais nada a minha cunhadinha?

— Diz que quer muito vestido, e muita... sim, diz que quer muita grandeza para meter figas nos olhos...

— À Rosa? bem haja ela! Eu cá também fazia o mesmo!... Pois olha, Antônio, por ser coisa tua hei de dar-lhe o meu vestido de vareja branca com lentejoulas para o casamento, e as plumas que minha madrinha me deu, que lhe hão de ficar às mil maravilhas. O vestido não tem mais que pôr-lhe meias mangas, e subir a cintura para cima, que no mais está na moda, custou-me a quatro mil reis a vara... daquela fazenda há mais de trinta anos que cá não vem tão boa... E que mais diz a carta? não me manda visitas?

— Não... esqueceu-se...

— Pois, se lhe escreveres, diz-lhe da minha parte que muito estimo que seja minha cunhada, e que havemos de ir ambas visitar o Senhor, e rezar a novena do menino Jesus dos atribulados, e muitas devoções. Diz-lhe mais que faça por ter saúde, e que peça a nossa Senhora que lhe dê muita juízo e graça para servir a Deus... Ouviste?

— Ouvi, sim, vai pôr o jantar na mesa.

Entretanto, o senhor Antônio ficou sozinho passeando, e traduzindo para vulgar a carta de Maria Elisa. O seu espirito, posto que de uma parcimônia admirável no entendimento das coisas, custava-lhe a combinar a cega paixão de Elisa com as calculadas condições que lhe eram estipuladas em contrato de casamento. Todavia o negociante combinava a carta com o que ela pessoalmente lhe fizera sentir acerca de carruagens e assembleias, e deduzia de tudo que a rapariga queria figurar.

O senhor Antônio era rico, muito rico, mas avarento não. Nunca lhe ocorrera a ideia de gastar dinheiro em competência com alguns seus colegas que figuravam na roda dos fidalgos. Se desejasse deslumbral-os, não olharia a despesas. Mas o coração não lhe pedia essas coisas, e muito menos a carruagem, cujo balanço (dizia ele) não podia dar grande saúde aos bofes de um homem gordo. O órgão que o senhor Antônio respeitava mais na sua economia eram os bofes, de que se queixava pondo a mão no estomago. Naturalmente supunha que tinha o figado no peito. Era um erro de anatomia desculpável. Eu próprio, que já tive a honra de vos dizer que sei tudo e mais alguma coisa, não tenho absoluta certeza da colocação do figado, suposto que fui em anatomia estudante profundo, a ponto de querer provar que o duodeno (tripa de doze polegadas) tinha, pelo menos, trinta e duas braças. E ainda hoje estou em isto, diga lá o que disser Bichat, e Soares Franco. Em consequência do que, tinha muita razão o senhor Antônio em recear que o balanço da carruagem lhe prejudicasse os bofes situados no estomago. Mas a senhora D. Maria Elisa de Sarmento Athaide lera nos livros que a carruagem era higiênica, e o senhor Antônio renunciára, como vimos, o pensamento do carroção.

O jantar do senhor Antônio, neste dia, foi rápido e pequeno, porque ao coração refluira-lhe quase toda a sensibilidade do estomago. O senhor Antônio limitou-se a comer obra de arrátel e meio de cozido da perna, uma travessa de arroz com rodelas de linguiça, uma concava pelangana de carneiro ensopado com batatas, uma tigela de chorudo caldo com sôpas que se levantavam entumecidas quatro polegadas acima do nível da tigela, um quarto de ceira de figos de comadre, alguns copos de vinho à proporção, e mais nada. A senhora Angelica, assustada do fastio de seu irmão, pouco mais comeu. O amor espiritualisára a organização do nosso amigo o senhor Antônio José. Mais três dias desta quase abstinência de anachoreta, e o sensível negociante, um pouco pálido, e outro pouco meditabundo, poderia sem favor, ser tido e havido como a preexistencia destes rapazes, que nós conhecemos, e lamentamos na sua desesperação de amantes não comprehendidos na face da terra!

— Ai! quem me dera poder-vos dizer que o senhor Antônio, à hora melancólica do crepúsculo, fixava o olho lagrimoso na amplidão dos céus, espreitando o fulgor da estrelinha que o enamorava de lá!

Eu daria de graça este meu romance, se pudesse, em estilo scintillante umas vezes, e outras mórbido, afiançar-vos que o senhor Antônio José da Silva fora poisar a sua redonda pessoa na fraga de-à-beira-mar, e aí com os olhos no horizonte, e os bofes arquejantes, perguntára à gaivota gemebunda o segredo dos seus gemidos!

Não é possível, leitores. O senhor Antônio o mais que pôde fazer, no auge da paixão, foi comer assim. Não exijam mais daquele homem, porque daí ao suicídio vai só um passo.

Antônio José da Silva, meu simpático herói, tu passaste sobre a terra, e a tua geração não te compreendeu!

Tu nasceste para estes nossos dias de angustiosa provação, de sentimento fino, de doloroso trespasse de uma civilização material para o reinado do espirito.

Se vivesses hoje, serias ordeiro, e visconde; terias ido às câmaras falar na cultura da cebola-albarrã, e na estrada concelheira de Guinfões e Terras de Bouro; comerias biscoitos na assembleia portuense, e pedirias a palavra na associação comercial, para dizeres que eras um honrado negociante. E não ficaria aqui a tua missão grandiosa. Se morresse algum homem, rei do talento, e criador de uma literatura, serias tu o encarregado de dar a tua ideia para um monumento que perpetuasse a gloria dessa ilustração! [3]

Antônio José, vieste cedo de mais! Eu lembro-me de ti com saudades (e mais não tive a honra de conhecer-te) todas as vezes que vejo a tua alma cavalgando o nariz dos meus contemporâneos!

Lembro-me de ti, especialmente, quando me vejo a braços com uma paixão séria, e não sinto cá dentro ferir-me o toque inspirador com que tu, depois de jantar, respondias assim à carta de Maria Elisa Sarmento de Athaide:

«Ill. ma Sr.. ª

«Porto, 27 de abril de 1818.

«_Sem tempo para mais, recebi a sua estimada cartinha, que veio muito a propósito, porque eu já não estava bom. Vejo o que me diz, e a respeito de tudo não tenho nada a dizer contra. Eu não sou desses sovinas que são capazes de engulir, à hora da morte, o dinheiro, como certos avarentos que eu conheço. A menina não há de ter falta de coisa nenhuma; ponto é que tenha juízo, e que saiba conduzir-se. O que eu tenho seu é, e de mais ninguém. Gostei muito de a ouvir discorrer na sua carta, e falou bem a respeito do matrimonio. Eu gosto de quem me entenda, e, a respeito do mais, deixe o negocio por minha conta. Logo que esteja resolvida, botam-se os banhos, e faz-se isto depressa, que é o melhor. Sem mais, sou_

«De v. s. ª

«Vosso amante do coração,

«Antônio José da Silva. »

Maria Elisa leu sozinha, com frouxos de riso, esta carta. O estimulo do riso cedeu ao da meditação. Momentaneamente, a melancolia enuviou o semblante da pensativa menina. Parece que estava sentindo vergonha ou piedade de si. O pensamento de quebrar com uma gargalhada aquelas relações, assaltou-a duas vezes; mas o pensamento de ter carruagem e um belo futuro por detrás da campa de seu marido, assaltou-a três vezes, e venceu por um assalto, posta a sua alma a votos.

Rosa Guilhermina, desde o dia anterior, não lhe falava. Esta demazia de aspereza concorreu muito para a definitiva resolução do casamento, porque o seu orgulho dizia-lhe que os amuos de Rosa eram o efeito da dependência. De mais a mais a colérica filha da Ana do Carmo tinha-lhe dito que tal casamento não seria feito em sua casa. Que saísse ela para onde quisesse, porque, no momento em que annuisse a tal infâmia, terminavam de todo em todo as suas antigas relações. Isto foi de mais: mas a filha da Ana do Carmo tinha uma costela de sua mãe, e essa costela vencera, na questão, as vinte e três de seu pai.

O portador da carta esperava a resposta.

Maria Elisa, passada uma hora de luta, dolorosa talvez, respondeu assim:

«Não tenho nada que esperar. Pode dar como resolvido o nosso casamento. Cumprirei a minha palavra, quando v. s. ª quiser. Eu recolho-me hoje mesmo às órfãs. »

Depois, entrou no quarto de Elisa, com os olhos rasos de lágrimas, talvez as menos inteligiveis de todas as lágrimas de que tenho falado:

— Rosa, acabo de decidir definitivamente o meu casamento. Cumprindo as tuas ordens, venho despedir-me de ti.

— Estimarei que sejas feliz.

— Devo considerar acabadas as nossas relações de amizade?

— Deves.

— Menos as da gratidão, porque te sou muito devedora.

— Dou-te paga e quitação dessa divida. Não quero mesmo ser tua credora, porque me envergonho.

— E eu também... e cada vez mais. Hei de avaliar a dinheiro os teus favores, e darei à Santa Casa da Misericórdia esse dinheiro, por tua tenção.

— Basta! Eu não admito escarneos! Basta de afrontas!

— Cada vez agradeço mais à Providência a inspiração de me casar... adeus...

Rosa Guilhermina pensou alguns minutos, arrependeu-se, e correu a procurar a sua amiga para pedir-lhe perdão de um acesso de cólera, filho do amor. Já a não viu. Tinha saído com a sua criada, e deixara um bilhete com estas linhas:

«_Não levo os vestidos de meu uso, porque não são meus. Comprou-os com o seu dinheiro a senhora D. Rosa Guilhermina. Deixo-os para serem avaliados, e descontados depois no saldo das nossas contas. _»

A filha de Ana do Carmo, outra vez atacada de raiva, foi aos vestidos, e rasgou-os com mãos e dentes, praguejando.

Que tais eram as bichas!

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