Capítulo XXIV
O senhor Antônio estava seriamente amuado. Atormentava-o a dúvida, e as suspeitas terríveis principiavam a obra maldita do arrependimento. Comparando a sua pacifica vida de solteiro com as consequências da vida matrimonial, arrependia-se o brioso mercador de panos, e considerava-se o bode expiatorio do seu orgulho insultante com o próximo do chinó, em circunstâncias análogas.
Era isto que afligia o coração do marido de Maria Elisa, enquanto ela, amuada também, se fechara no seu quarto, imaginando a cômica solução que o senhor Fernandes daria ao problemático parentesco da Ponte-da-Pedra. Assim se entretinham aquelas duas criaturas, quando foi dito ao senhor Antônio que estava ali um sujeito, que queria falar-lhe, sendo possível.
— Que diga quem é.
O criado voltou, dizendo que era um primo da senhora D. Maria Elisa.
— Deveras?! — disse o senhor Antônio, com sobresalto, expandindo as bochechas em ar de contentamento.
— Sim, senhor, diz que é primo da senhora.
— E quer falar comigo?
— É o que ele disse.
— E não falou ainda com a senhora?
— Nada; nem por ela perguntou.
— Pois que suba para a sala.
Em seguida, foi introduzido na presença do senhor Antônio um sujeito de trinta anos, pouco mais ou menos, com uma cara trivial, um trajo usado, e maneiras delicadas.
— Tenho a honra de cumprimental-o, senhor Silva.
— E eu a mesma. Com que então o senhor é primo de minha mulher?
— Sim, senhor: filho de uma irmã de sua mãe.
— Estimo muito conhecel-o.
— Eu devo, sem mais delongas, dizer a v. s. ª o fim que me traz a sua casa.
— Ora diga lá sem cerimônia, os homens são uns para os outros, e eu estou pronto a mostrar-lhe que não sou daqueles que... emfim... diga lá o que quer...
— Quero ser eu o próprio acusador da mão bemfeitora, que tem derramado sobre mim alguns benefícios. É preciso que v. s. ª saiba que eu sou pobre, e não tenho podido até hoje agenciar pelo trabalho a minha independência. No comércio não me aceitam, porque me acham adiantado em idade. Emprego não me dão nenhum, porque não tenho protecções. Para militar não sirvo, porque sou muito doente do peito, e além disso muito curto de vista. Para frade também não sirvo, porque não tenho patrimonio, e de mais a mais não sei latim para poder entrar nas ordens mendicantes. Sou, pois, vadio por necessidade; não tenho de quem me valha, a não ser desta minha prima, que, pelo facto de casar-se com v. s. ª, é a única pessoa do meu parentesco, a quem se pode pedir uma esmola! Nas minhas tristissimas circunstâncias, dirigi-me a ela, e achei-a fria, dura de coração, e insensível às minhas súplicas. Instei, segunda e terceira vez, obrigado pela indigência, e consegui que ela me mandasse esperal-a, algumas vezes, na Ponte-da-Pedra, onde me daria o pouco que pudesse economisar do que seu marido lhe dava para alfinetes. Disse-lhe eu que não duvidava falar pessoalmente a v. s. ª, e ela tirou-me disso, dizendo que não queria ser pesada a seu marido com os seus parentes pobres. Ontem foi um dos dias em que ela me deu uma pequena esmola, e me prometeu algum dia empenhar-se com v. s. ª para que se me desse um logar na alfandega, ou em qualquer repartição da justiça, em que eu pudesse ganhar com honra um bocado de pão. Quando fallavamos em isto, ouvimos uma voz, minha prima empalideceu, dizendo-me que fugisse, porque ouvira falar seu marido. Eu atrapalhei-me com os sustos de minha prima, e nem tempo tive de refletir nas consequências da minha fuga. Fugi pelo quintal, e vim de volta para a estrebaria escutar o que se passava. Quando v. s. ª saiu com ela, reparei que vinham amuados, e entendi que eu fora a causa dessa desgraçada desinteligência entre dois esposos que tanto se amam, segundo ela me tem dito...
— Ela disse-lhe isso?
— Sim, senhor. Quando os vi enfronhados estive por um triz a sair da estrebaria, e dizer quem era, porque v. s. ª não seria tão bárbaro, que maltractasse sua mulher, porque tem um primo que necessita das suas migalhas. O receio fez-me recuar no meu plano, e vim para casa meditar na minha triste sorte. Resolvi ter animo, e venho eu próprio acusar-me de ter sido o perseguidor de minha prima. O que ela me tem dado é tão pouco, senhor Silva, que eu talvez, vendendo este velho casaco e estas calças, possa embolsal-o. Quero ficar em mangas de camisa, mas não quero que minha prima sofra por minha causa.
— Com que então o senhor meteu-se-lhe lá na cabeça que eu cá sou homem capaz de tractar mal minha mulher, porque lhe deu alguma coisa? Ora adeus!... mudemos de conversa! O senhor como se chama?
— Pedro José Sarmento de Athaide.
— Já que falou em Sarmento de Athaide, faz favor de me dizer de onde é que herdaram esses apelidos?
— Eu lhe digo... Meu quarto visavô João de Lencastre e Sarmento casou com minha quarta visavó D. Urraca de Athaide, da casa de Valladares no Alto-Minho. Tiveram quatro filhos. O morgado casou em Pena-Ventosa com a herdeira da muito antiga família dos Pesicatos...
— Dos...?
— Pesicatos e Bemóes.
— Nunca ouvi falar dessa linhagem.
— Não admira, porque ficou toda essa família sepultada em Lisboa, nas ruínas do terremoto de 1755. Foi uma grande desgraça para a posteridade do outro ramo deste tronco ilustre. O filho segundo de meu quarto visavô fez um mau casamento com uma mulher da plebe, e os dois seus irmãos foram frades; um morreu dom abade em Tibães, e outro foi bispo de Constantinopla, e chamava-se fr. Zagallo Sarmento e Athaide.
— Nunca ouvi falar desse senhor bispo de... Castanhóplas!...
— Pois, senhor, eu posso mostrar-lhe que ele era irmão legitimo do meu terceiro visavô, com documentos que param na Torre do Tombo.
— Não é preciso; eu vejo que v. s. ª fala verdade... Mas como é que o pai de minha mulher era negociante, e não era dos de primeira ordem?
— Isso explica-se pelos casamentos desiguais. O vinculo passou para os parentes que temos em Macau, e já meu avô foi negociante, e teve de riscar de seu nome os apelidos de nossos avós, porque não podia sustental-os. Ora aqui está a triste história dos meus ascendentes, que mal diriam eles que seu neto Pedro José de Sarmento e Athaide precisaria de estender a mão à caridade de estranhos!...
— Pois, senhor Pedro, não há mal que sempre dure. O senhor fez muito mal em não vir ter comigo logo que soube que era seu parente por infinidade. Havia de topar um homem como se quer para o seu amigo. Não fez bem... mas emfim tudo se remedeia... eu vou chamar sua prima, e ela dirá o que se há de fazer...
— Perdão... eu acho que não será bom que ela saiba que eu vim aqui, porque me não levará a bem a liberdade que eu tomei de me dirigir a v. s. ª, abrindo-lhe francamente o meu coração...
— Qual?... Ora o senhor então não sabe como ela é!... Verá que há de estimar que se declarassem deste modo cá certas suspeitas...
— Suspeitas!... quais?...
— Eu cá me entendo...
— Mas eu é que não entendo... A minha honra está comprometida nessas suspeitas... Sou pobre, mas tenho pundonor; exijo que v. s. ª, em nome da honra, me declare quais foram as suspeitas...
— Eu lhe digo, senhor Pedro... Eu não sabia que minha mulher tinha primos, e, quando me disseram na estalagem que ela estava com um primo, meteu-se-me cá uma asneira na cabeça...
— Qual asneira?
— Pensei que o tal primo era algum rufião...
— Rufião!... Eu não entendo essa linguagem!
— Quero dizer que pensei que andava por aí algum farropilhas a arrastar-lhe a aza!
— Então o senhor não sabe que minha prima pertence à veneranda linhagem dos Sarmentos e Athaides, e não consta que, na genealogia dos Pesicatos e Bemóes, se desse uma infidelidade porca e vilã!... V. s. ª ofendeu as cinzas de meus avós! Em nome de meu quarto visavô, João de Lencastre e Sarmento, e de fr. Zagallo, bispo de Constantinopla, exijo que me dê uma satisfação!...
— Não se arrenegue assim, senhor Pedro... Um marido pode enganar-se muitas vezes com sua mulher!
— Mas eu, neto de heróis, é que não admito enganos tais! As suspeitas são afrontas! V. s. ª afrontou-me na pessoa de minha prima! Insto pela satisfação! Na França entre cavalheiros é costume disputar-se a honra à ponta de espada. V. s. ª há de bater-se comigo!
— Eu!... essa é que é daquela casta!... Pois eu, sem mais nem menos, hei de agora jogar a tapona com o senhor, porque se me afigurou que minha mulher não era tão boa como se dizia! Ora, senhor primo, deixe-se disso... Eu não sei cá desses costumes dos franceses... Que os leve o diabo e mais quando eles cá vieram...
— Não me importam os franceses! Importa-me a honra de meus avós, insultada em minha prima D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide. Senhor Antônio! Dentro em vinte e quatro horas um de nós estará na eternidade!
— O senhor, por mais que me digam, está a mangar comigo, ou não regula bem da cabeça!
— Com a honra não se manga, senhor negociante de panos! Se a sua arma é o covado, a minha é a espada, que herdei de meu vigésimo-quarto avó D. Alarico Temudo Pesicato! É forçoso que se bata, ou então que declare à face do céu e da terra que é um covarde. Dentro de vinte e quatro horas virei procurar a resposta. Se não quiser bater-se, hei de sacrifical-o aos manes de meus ilustres avoengos, que do Olimpo excitam a minha coragem! Não tenho mais a dizer-lhe, senhor!
— Venha cá... isto não é modo de tractar o homem de sua prima!... Se quer dinheiro, diga-o, e não esteja aí a arrotar postas de pescada.
— Com que então chama o senhor a isto arrotar postas de pescada!... Muito bem! Hei de provar-lhe que as postas do seu corpo também se arrotam!... Passadas vinte e quatro horas, repito, um de nós será cadáver!
O neto dos Pesicatos saiu. O senhor Antônio, atordoado com a seriedade do negocio, entrou no quarto de sua mulher.
— Que diabo de homem é este teu primo, ó Mariquinhas?
— Meu primo!... pois ele esteve cá?!
— Saiu agora mesmo... O homem parece-me doudo!...
— Pois que fez ele?
— O que fez?... Quer que eu jogue a bordoada com ele!
— Porquê?
— Isso agora é que eu não sei!... Levou-se dos diabos por eu lhe dizer que tive cá minhas desconfianças a teu respeito... e, às duas por três, põe-se a berregar como um barqueiro, e a dizer que antes de vinte e quatro horas um de nós havia de morrer!... Que te parece isto?
— Parece-me um sonho!... Porque me não chamou?
— Porque ele não me deu tempo... Começou a desembuchar umas trapalhadas de avós, e do bispo, e dos Pesi... Pesi... como se chamavam esses homens da tua linhagem?
— Quais homens?
— Uns fidalgos que morreram no terremoto de Lisboa?
— Eu sei cá que homens eram esses!...
— Eram os... os... Pesigatos... De que te ris? O caso não é para isso... O tal teu primo, se é doudo, o melhor é amarrarem-no, e mandem-no para o hospital de S. José...
— Que figura tinha ele?
— Pois tu não sabes que figura tem teu primo?
— Sei... mas... lembro-me se não seria ele...
— Ele não se chama Pedro?
— Sim... ele... chama-se... Pedro.
— Pois então aí está... É ele mesmo... deu-me todos os sinais certos da Ponte-da-Pedra.
— E que lhe disse?
— O homem falou bem, a respeito de não ter meios, e fez-me cá no coração uma certa aquela; mas, depois, parecia-me um maluco chapado, lá com as suas valentias. É preciso saber como isto há de ser; eu não quero historias com ele. Manda-lhe dizer que se deixe de asneiras, se quer ter que comer e vestir em minha casa, ouviste, Maricas?
— Pois sim; mas eu ignoro a sua residência. Quando ele cá tornar, chame-me, e eu verei como se remedeiam as loucuras do meu primo.
O senhor Antônio, um pouco mais sossegado, relatou, pouco mais ou menos, a sua mulher o dialogo que tivera com o descendente do bispo de Constantinopla. Maria Elisa ouvira-o, aflita com vontade de rir-se, e, ao mesmo tempo, vexada de ter um marido, que se prestava assim ao ridículo. Era bem natural esta mortificação do amor próprio.
A conversação foi interrompida pela chegada de dois senhores, que precisavam imediatamente falar com o senhor Silva.
— Temos alguma!... — murmurou o negociante, e entrou na sala onde o esperavam dois oficiais de cavalaria, de grandes bigodes, e caras de arremeter.
— Quem são v. s. as? — perguntou o assustado dono da casa, apenas os encarou.
— Somos embaixadores de Pedro José de Sarmento e Athaide! — respondeu um deles, arqueando os braços, e levantando a caneca com orgulhoso entono.
— Embaixadores!... e que me querem os senhores embaixadores?
— Advertil-o de que é desafiado pelo nosso amigo...
— Ora, deixem-se disso!... — interrompeu o senhor Antônio, fingindo que recebia a intimação com gracejo — V. s. as estão a brincar... Queiram mandar-se sentar.
— A nossa missão cumpre-se de pé... e v. s. ª há de responder-nos também de pé! Queira tirar o seu barrete, porque nós também estamos descobertos. As formais solemnidades deste ato não permitem distincções de cavalheiro para cavalheiro. Repito, senhor! Queira descobrir-se!
— Eu estou em minha casa, posso estar como quiser.
— neste momento a sua posição é outra. O homem desafiado não se considera em sua casa, enquanto a sua honra não está ilibada, porque o homem desonrado não tem casa, nem propriedade, nem direito! Descubra-se!
O senhor Antônio tirou o barrete, e emudeceu na presença de semelhante insolência.
— Muito bem... Responda agora: quer bater-se em leal duelo com o senhor Pedro José de Sarmento e Athaide Pesicato?
— Não quero lá saber dessas coisas, já lho disse a ele, e não me façam azedar o estomago, senão eu mando chamar o meirinho geral, e os senhores são catrafiados e mais ele na Relação.
— O senhor insulta-nos! Se não tivessemos piedade da sua barriga... essa língua seria cortada pelo gume desta espada!...
— Os senhores vem insultar-me a minha casa! Já no meio da rua, quando não chamo os vizinhos.
— Cale-se, monstro! quando não...
Os estúrdios desembainhavam as espadas quando Maria Elisa entrou na sala, e parou diante de seu marido, que recuava espavorido.
— Isto que quer dizer? — perguntou ela — Não respondem?... Que infâmia é esta de entrarem numa casa estranha insultando o dono dela?
Os embaixadores do imaginário primo arrefeceram nas suas cômicas fúrias, e não ousaram responder.
— Retirem-se desta casa! — disse Maria Elisa apontando-lhes a porta da saída.
— Minha senhora... — balbuciou um deles — nós somos enviados por...
— Seja por quem for. Vão dizer a quem os enviou, que Maria Elisa lhe manda dizer que o seu procedimento é muito infame, e que eu muito sinto não ser homem para poder dar a v. s. as uma resposta cabal! Retirem-se!...
Os oficiais saíram vexados, e o senhor Antônio estava espantado da coragem de sua mulher.