Capítulo XVI
Não conheço palavra que vos dê uma cabal ideia da sensação suavíssima que atravessou até ao coração os tecidos adiposos do senhor Antônio, quando os seus olhos pecadores leram o bilhete de Maria Elisa. A última linha, porém, essa que declara a entrada da noiva no recolhimento, fendeu no peito do alvoroçado negociante um vesúvio de amor, misturado de orgulho, por se ver amado de uma donzela, que tão nobre amostra dava da sua virtude.
Cinco minutos depois que Elisa entrara, com grande pasmo e má vontade da regente, era procurada na portaria pelo rico negociante, muito conhecido em aquela casa, em virtude dos cargos importantes que tivera na Santa Casa da Misericórdia. A pedido do senhor Antônio, a regente acompanhou a menina à grade em que era esperada pelo mais ditoso dos mortais.
Trocados de parte a parte os cumprimentos, o festival Antônio José da Silva abriu assim a questão do momento:
— Senhora regente, não sei se essa menina já lhe disse que será brevemente minha esposa.
— Nada, ainda não... E estava calada com isso? Receba os meus parabéns, minha ruimzinha, que me fez cabelos brancos com as suas travessuras...
Elisa sorriu-se, e o noivo atalhou:
— Creancices... tudo tem o seu logar. Agora aí onde a vê é uma mulher de tino, que sabe o que lhe convém, e não dá ouvidos a tôlas... Eu cá me entendo... Pois, senhora, como lhe vinha dizendo, trata-se o nosso casamento, que há de fazer-se, querendo Deus, o mais tardar quinze dias... Esta menina veio outra vez para aqui lá por coisas que ela sabe, e fez ela muito bem... Com doudos nem para o céu... Eu cá me entendo... Acho que por poucos dias não será necessário arranjar casa cá dentro, e eu venho pedir à senhora regente o favor e obsequio de ma ter na sua companhia, que eu hei de saber-lhe agradecer de modo que...
— Pois não, senhor Silva!? Não só isso, mas tudo o mais que estiver ao meu alcance... O que eu sinto é não ter um palácio para lhe oferecer; mas a boa vontade suprirá as faltas.
— Muito agradecida, senhora regente — disse Elisa, entristecendo-se a ponto de lhe tremerem as lágrimas nos olhos.
— Que tem, minha menina, chora, quando vai ser tão feliz?
— Nada... eu não choro...
— São saudades da sua amiga Rosa?
— Não, minha senhora... eu não tenho saudades de amiga nenhuma.
— Diz muito bem... — acudiu o jucundo negociante — Saudades são securas... ora adeus! Saudades de quê? A menina, não precisa de ninguém... Eu vou ser seu marido, e seu pai, e seu amigo. Não lhe há de faltar nada, e não há de faltar quem se morda de inveja... eu cá me entendo... Então fiquemos certos no pedido que lhe fiz?
— Já disse, e repito, senhor Silva; na minha companhia só não prometo a esta menina o impossível de fazer-se nestas casas para estar bem... Ela já sabe como é o recolhimento, e não estranhará as faltas...
— De certo não estranho, minha senhora; isto hoje parece-me mais belo que nunca. Hei de gozar, na sua preciosa companhia, deliciosos momentos...
— Mais deliciosos há de ir gosal-os depois na companhia do senhor Silva, que é um homem honrado, e que sabe dar valor ao merecimento da menina.
— Isso pode ela estar certa, que se a não tratar melhor é porque não sei... Ora pois, senhora regente, eu queria falar em particular com a minha futura esposa.
— Eu retiro-me, senhor Silva. Fique na certeza de que serei como tia desta menina.
— Ora, minha cara menina — disse o negociante logo que a regente saiu — é necessário preparar os seus arranjos para o casamento. Eu não sei lá desses enfeites de noiva, senão eu seria o próprio comprador. A menina mande chamar costureiras, e ourives, e lá essa gente que vende as trapalhadas. Aqui deixo cem peças; sendo necessário mais, não tem senão escrever-me um bilhete... Também lhe quero oferecer uma prenda, que me não pareceu fora de propósito: é um pente de diamantes, que lhe há de dizer bem com o cabelo, acho eu.
— Agradecida.
— Aqui não há que agradecer. Eu bem sei que a menina lá lhe parece que eu sou algum unhas... Está enganada de meio a meio. Eu sou sovina com quem me parece; mas com a que há de ser minha mulher dou muitas graças a Deus por ter muito que gastar com ela, assim Deus nos dê saúde para o gozar. Então que me diz?
— Digo que o pente é riquissimo, e que estou muito penhorada dos seus generosos sentimentos para comigo.
— Não há de quê. O que eu quero é que a menina se porte bem, e não dê que murmurar às línguas damnadas... Eu cá me entendo...
— Farei tudo que em mim caiba por merecer um bom conceito de toda a gente.
— É o que se quer. Ora diga-me, qual gosta mais, de viver na aldeia ou na cidade?
— Na cidade. Eu não gosto da aldeia; e v. s. ª gosta?
— Deixemo-nos de senhorias; o melhor é tu cá, tu lá, não lhe parece, menina?
— Eu pedia-lhe licença para por enquanto não tomar a liberdade de lhe dar tal tratamento. V. s. ª pode tratar-me como lhe aprouver.
— Pois então lá como quiser. Eu cá acho mais não sei que no coração se lhe der um tu.
— Pois satisfaça o seu coração, que eu tenho muita gloria em merecer-lhe esse novo sinal de estima.
— Pois então aí vai... Com que então tu não gostas da aldeia? Estás-te a rir? Pois olha que eu gostava da aldeia, e, desde que me disseste que não gostavas, a falar-te a verdadinha pura, tanto se me dá, como se me deu. Como te vi assim a modo de poeta, pensei que gostavas de ouvir cantar os pássaros, que é a mania dos poetas, que todos falam em rouxinóis, e não sei em que outros passarôlos que se chamam graças, ou garças, e zéfiros, e não sei que mais ninhadas e aves, que ninguém conhece, penso eu. Vós lá sabeis essas coisas... Olha como ela se ri!... Eu bem sei porque tu te ris, minha cachorrinha!... Eu já sei que tu botas sonetos...
— Eu?... que graça!... eu não sou poeta.
— Não? antes assim. Isto de ser poeta não é lá grande coisa. Pelos modos, o miôlo dos tais patavinas não regula bem... Eu sempre tive cá minha birra com homens que fazem disso. Há de haver nove anos que fui a Lisboa, e vi lá um poeta, chamado... assim a modo de... era um nome estrangeirado...
— Bocage?
— Tal e qual; era o tal Bocage; estava no Rocio, à porta de um botequineiro, e eu passava, e disse-me um meu amigo: queres ver o... o... como era?
— Bocage.
— O Bocage... agora não me há de esquecer... e vai ele olha para mim, muito sério, e bota-me um soneto que não sei que diabo dizia, que toda a gente se riu... Acho que o tal Borrage...
— Bocage.
— Valha a breca o tal nome, que tem que se lhe diga! Acho que ele era tolo, e os outros não tem mais juízo que ele... Pois muito folgo saber que a minha esposa não é poeta... Ora diz-me: tu sabes alguma coisa cá destas coisas do ar?
O senhor Antônio fez, sobre a cabeça, um gesto com as mãos, que poderia significar uma pergunta de honestidade equivoca.
— Que são coisas do ar?
— Sim... perguntava eu se sabias alguma coisa dos planetas...
— Astronomia? Tenho lido alguma coisa.
— Então hás de saber quando está para vir chuva?
— Ainda não estudei essa parte. Eu penso que a chuva vem quando os vapores condensados na atmosfera...
— É isso mesmo... Ora diz-me uma coisa que me tem dado que pensar. Lá em cima na lua diz que anda gente como por cá?
— Penso que não há certeza desse fenômeno.
— desse?...
— Fenômeno...
— Se te não custa diz-me o que é isso? é algum planeta?
— Nada, não é... Fenômeno é uma maneira de existir na ordem natural das coisas, manifestada de modo que as leis dos sistemas conhecidos não atingem a lei que rege esses atos...
— Ah! agora entendi... Olha que tu sabes mais do que um frade loio que aí há muito sábio, e que teve o descôco de dizer que a terra anda à roda!... Que te parece a cavalgadura?
— Eu acho que ele disse scientificamcnte a verdade.
— Essa é boa! Pois se a terra andasse à roda, também nós andavamos sempre com os focinhos pelo chão... Deixa-te disso...
— É ilusão sua. Há uma razão que nos sustenta na posição direita em que estamos.
— Bem sei que são as costas das nossas cadeiras; mas, se a terra andasse ao redor, cahiam as cadeiras conosco.
— Não é essa a razão... É que todos os corpos pendem para o centro da terra... é o que se chama lei da atração.
— Ah! agora entendi... todos os corpos saem do centro da terra...
— Sahem, não: pendem.
— Sim, pendem para a lei da attricção... Não te rias, que toda a gente aprende quando não teve lá esses princípios o latim, e da gramática... Cada qual tem o seu tráfego. Eu cá na minha oficina do comércio sei como os que sabem. Lá de retoricas não sei nada, a verdade deve dizer-se; mas, se Deus quiser, tu hás de dizer-me como é isto cá de cima. Eu às vezes ponho-me a olhar para esta machina, e fico estarrecido horas e horas a ver o que nós somos, e como o Criador fez tudo isto para nós.
— Para nós? Eu não sei de que nos servem as estrelas...
— Não sabes? A falar a verdade, eu também não; mas ouvi dizer que as estrelas de alguma coisa servem.
— Também creio que sirvam; mas para nós não lhe vejo a utilidade.
— Então os livros não resam disso?
— Não achei ainda uma explicação precisa.
— Pois, minha Mariquitas, estão-se fazendo horas de ir ao jantar. Deixamos isto para outro dia, que não há de faltar ocasião de falarmos a respeito da sabedoria. Vê lá se queres alguma coisa...
— Não preciso de nada.
— Amanhã é a primeira corrida de banhos... De amanhã a quinze dias effectua-se o negocio; e ficámos arrumados daqui. Adeus, menina, até amanhã.
O senhor Antônio saiu, com o espirito remoçado, e a cabeça aturdida de ideias novas sobre astronomia. Contente, como nunca, o milagre de vinte anos de menos não daria às suas pernas trôpegas a agilidade com que o viram passar nas Fontainhas.
Mal ele tinha saído, quando Rosa Guilhermina entrou no pátio, e pediu à porteira que lhe chamasse Maria Elisa.
A resposta foi que a senhora D. Maria Elisa não recebia a visita da senhora D. Rosa, porque não queria envergonhal-a com as suas relações.
A filha do arcediago instou, suplicou, fez empenhar a regente para que a órfã lhe falasse. A regente, porém, que não queria importunar a noiva de Antônio José da Silva, antigo mesário da casa, negou-se às instancias da lagrimosa menina.
Dera-se um forte motivo para a recusa teimosa de Elisa. Quando ao despedir-se do negociante, subia para a casa da regente, entregaram-lhe no caminho um baú e uma chave. Elisa entendeu que eram os seus vestidos, que a atribulada amiga lhe mandava. Abriu o baú para tirar um chaile, e viu tudo espedaçado. A indignação coincidiu com a vinda de Rosa, e Rosa, arrependida, correra ao Recolhimento para estorvar a entrega do baú.
Era impossível a reconciliação. À última impertinencia de Rosa Guilhermina, a orgulhosa respondeu que podia já dar-lhe algum dinheiro por conta do que lhe devia, e remeteu-lhe a sacã com as cem peças que lhe deixara o negociante.
A filha de Ana arrojou-as ao chão, e saiu furiosa, prometendo vingar-se da nova vilania.
Maria Elisa ficou satisfeitíssima daquele rasgo, e sentiu, pela primeira vez na sua vida, que, sem dinheiro, ninguém pode ter rasgos, nem mesmo pode contar com que romancistas futuros se entretenham da sua pessoa.
Oh meu caro Antônio José! tu de astronomia não sabias muito; mas tinhas daquela coisa que faz descer os astrônomos cá para baixo!